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Memorial de um
passageiro de bonde
Prefácio
O meu amigo João Felício Trancoso, conceituado, chefe de
seção, prometeu um dia, em troca já não sei de que serviço, que me faria
um presente à minha escolha. Resisti, como cumpria, à promessa de outra
compensação que não fosse a da sua velha e sempre nova amizade.
Mas Trancoso é obstinado e não me deixou sossegar. Exigiu
sempre que eu lhe dissesse o que preferia - se a coleção das obras de
Jorge Ohnet (a sua maior predileção em literatura), se uma cigarreira de
prata, se um guarda-chuva de seda.
Como eu teimasse em recusar, mandou-me o guarda-chuva e,
não satisfeito, pouco depois me veio ameaçar com as obras de Jorge Ohnet.
Urgia romper o cerco.
Ora, eu sabia que Trancoso, muito calado, rascunhava um
diário das suas impressões de viagem. Das viagens que há vinte anos faz,
como bom empregado público, de casa para a repartição e da repartição
para casa. Tomei-lhe um punhado de folhas, li-o, e disse-lhe: "Este é o
presente que exijo".
Tentou repontar, quis sofismar o contrato: venci-o à
força de senso jurídico e de severas admoestações.
Nenhuma lembrança do velho amigo me poderia ser mais
grata do que esses papéis em que lançou uma verdadeira porção de si
mesmo. Verdadeira, porque Felício não conhece a arte dos desdobramentos
literários da personalidade. Nota no memorial as espontâneas
modificações de sua alma ao contato das coisas e dos homens. Não edifica
a sua obra: segrega-a. Não a escreve para verificar ou provar que também
é capaz de fazer literaturas, mas "para ter a sensação de que se
expurgou de uma inevitável porção de tolices".
Assim, o seu ponto de vista de escrevedor é inteiramente
oposto ao dominante: outros constróem, com esforço, uma personalidade
exterior, feita de escritos, na qual põem toda a sua complacência e o
melhor das suas esperanças; este deita fora as suas idéias, como um
refugo, para conservar o equilíbrio, a saúde e a leveza do seu ser
interior e inviolável - o único que vale a pena de ser vivido e
cultivado, (mesmo porque não se lhe pode sair da casca).
Demais, gosta de escrever "para ter a impressão, ao
reler-se, de ser uma alma que vai vivendo, apesar de reduzida à mínima
expressão social de empregado público e viajante de bonde." E
acrescenta: "A lesma, na sua existência branca, só deve ter uma tal ou
qual sensação de vida quando olha para o rasto prateado que vai deixando
pela parede."
Contudo, os mais sonsos têm o seu sistema de idéias e
Trancoso não escapa à necessidade. O seu ponto de vista autoral, atrás
indicado, já representa uma posição filosófica diante do mundo e da
sociedade. Há mais: o nosso memorialista visivelmente gosta dos casos e
coisas mais ordinários, mais mesquinhos, mais insignificantes: esses, de
preferência, regista e comenta. É que pensa, com Chamfort, que, "nas
grandes coisas, os homens se mostram como lhes é conveniente, mas nas
pequenas se revelam tais quais são". Daí o sabor das pequenas coisas,
que são na verdade as realmente grandes, porque formam os alicerces e as
armaduras de tudo. O sabor? Antes a amargura
Entretanto, Trancoso não é um cético nem um pessimista.
Homem são na sua humana enfermidade e forte na sua complexão mediana,
conhece o valor higiênico da variedade de exercícios e a conveniência de
a gente se abandonar um pouco à ondulação natural do sentimento e das
intuições ordinárias. No fundo, talvez, crente, - crente do bom senso da
inteligência e do coração, qualidade ativa, inimiga nata do senso comum,
"consagração social e passiva de toda a sorte de preconceitos mendazes e
de pré-sentimentos daninhos".
Enfim, aqui tem o leitor as impressões de viagem de
Felício Trancoso. Temo que este prefácio o prepare mal para avaliar a
verdadeira índole dessas páginas despreocupadas. A eterna impertinência
dos prefácios! As coisas da vida surgem por si mesmas, sem prefácios nem
explicações, e no entanto conseguem perfeitamente o fim de todas as
coisas: passar. Pois façamos de contas que este prefácio já passou. Não
existe.
L'áme respire avec des paroles
UNAMUNO, L'Agonie du Christianisme
O BONDE
Quando ia tomar o meu bonde, hoje pela manhã, o meu
vizinho Dr. Viegas passou no seu Dodge e atirou-me. num gesto, a fisga
de um convite. Hesitei um pouco, e afinal optei pelo bonde. O Dr. Viegas
partiu.
Entrei no carro elétrico, conquistei um lugar no último
banco, e só depois que me vi instalado e refestelado é que me ocorreu
dirigir a mim próprio esta interpelação: "Por que será que recusei o
automóvel? Porque preferi o bonde?" A resposta não foi imediata nem
rápida; veio porém, e aqui a reduzo a conserva:
"Preferi o bonde porque não tenho pressa. E não quero ter
pressa, porque estou contente, e o contentamento em mim propende
naturalmente à lenteza das degustações silenciosas e chuchurreadas.
Trago a alma numa pacificação pessoal e cantante, num desses estados de
harmonia orgânica que crescem de dentro para fora, como uma
florescência, sem se saber porque, e por isso mesmo são mais doces. Para
fruir esta eufórica disposição, preciso de estar só. E a melhor maneira
de estar só é ainda achar-se no meio de uma quantidade grande de
estranhos. Sentimo-nos, assim, não apenas insulados, mas diversos. Duplo
círculo de segregação. Solidariedade enfestada. - E eis aí a única forma
de solidariedade perfeita que os homens até hoje inventaram: a
união de todos para deixar cada um entrincheirado em si mesmo, como uma
pedra.
Depois, o automóvel me é antipático. A rapidez posta a
serviço dos que não têm que fazer! A faculdade de deslocamento veloz em
posse dos que menos razão teriam para correr! Assim, os relógios de
bolso foram nos seus princípios um luxo de ricos, depois de apatacados;
adorno e brinquedo dos que tinham mais tempo ao seu dispor. Velha
história da maioria dos inventos: charadas e curiosidades de mecânica
para pessoas lunáticas ou desocupadas, acabam impondo-se a todo o mundo.
Não os determina a necessidade: eles é que a suscitam. Os que trabalham
deveras, os que suam e gemem na tarefa de todos os dias são os que
precisariam de ter automóvel, para poupar minutos, para espremer uma
gota de vida e de sangue em cada segundo. Mas esses não o podem adquirir
e manter; podem quando muito sonhar em possuí-lo um dia - quando já não
seja necessário.
Assim se vive perpetuamente, em busca do supérfluo; por
ele nos batemos e sacrificamos. O supérfluo é-nos tão indispensável como
para certos doentes o ar das montanhas ou os banhos de mar. Nele pomos
as nossas esperanças de saúde e rejuvenescimento. A vida é uma carreira
louca em pós de automóveis relampejantes. Poucos os agarram. E os que os
agarram, apenas aboletados mandam tocar mais depressa para alcançar um
outro que faiscou ao longe. E toda esta canseira se resolve numa
carreira desesperada empós do último carro, aquele que tem douradas e
negruras.
O automóvel é o veículo dos que fogem a si mesmos. Qual a
causa dessa febre de pressa? Vaidade material, exteriorização do centro
de gravidade psíquica. Depois, gosto puro da velocidade, pendor infantil
reencontrado na idade madura - prazer de um tropel de sensações,
dominado pela sensação central e capitosa de sermos uma vertigem que voa
através do delírio das coisas. Tudo maneiras novas de embriaguez. O
automóvel vem da mesma prateleira que o whisky, o tango e a
morfina. Tudo maneiras de uma pessoa esquivar o olho antipático e
fulgurante do seu Eu profundo, o consciente, o rememorador, o censurante,
o meditativo, que desperta e fala quando abandonamos o corpo e os
sentidos, e os braços descansam, e o animal estatela como um mecanismo
cuja corda se acabou.
O automóvel é o veículo dos que não amam, apenas
desfloram libertinamente a beleza das coisas. - A melhor atenção do
viajante, por essas estradas, se concentra na máquina. "Como se porta?
Quanto anda? Quantos quilômetros andou? Como funcionam os freios?
Bastará a provisão de gasolina? Onde encontrar gasolina aos litros? Olha
um que lá vem como um louco! Vamos a uma chispada! Cuidado com essa
volta... Diabo, lá se foi um pneu!... - Assim, conjugado ao passageiro
por todas as fibras da atenção e da vontade, o auto é como um corpo
doente que uma triste criatura tem de conduzir, absorvida nele, por
entre esbarros e escorregões. É um prolongamento imediato do Eu
material, e pois um reforço tremendo da múltipla escravidão que amarra a
endolorece o espírito. O ideal do filósofo é despojar-se de tudo quanto
nos limita e nos pesa: o ideal comum é encarapitar novas cargas e novos
prolongamentos, novas estruturas postiças à personalidade natural.
Os homens na verdade amam todo gênero de escravidão,
contanto que lhe ponham um nome aprazível. Dirigir um automóvel é
"dirigir" alguma coisa. (Veja-se a tradicional imponência dos indivíduos
atrelados a uma boléia). Chamam a isso dominar a matéria cega e a força
bruta. Dominar a matéria e a força, quem o faz é o inventor que labuta
no gabinete e no laboratório. Os outros apenas reproduzem a história do
mágico aprendiz. - Chamam a isso fazer esporte, cooperar na obra de não
sei que vago progresso. E com estas idéias se alegram. Fáceis de
contentar, os homens. É pena que os forçados das galés antigas não
tenham tido a consolação de algum pensamento nesse estilo, quando se
dobravam e desdobravam amarrados à mecânica extenuante do remo!
Sim, automobilistas há que têm tempo para ver; que
colecionam sensações; que trazem braçadas de impressões da natureza, dos
povoados, das caras e das almas entrevistas. Impressões talvez nítidas,
mas fragmentárias e superficiais, como fotografias. A objetividade chata
e unilateral do instantâneo. Nada das penetrações, das tatilidades
envolventes, das sondagens reveladoras, das adivinhações enlevadas, das
apreensões íntimas, concretas, totalizantes, de uma alma em lento
contato, em luta e em núpcias com a virgindade fugitiva do real. A
imparcialidade química, a mentirosa, a estúpida imparcialidade da
fotografia.
Enquanto que o bonde... Ah! o bonde é outra história. Nem
tão vagaroso que dê sono, nem tão veloz que dê vertigem, tem a suprema
vantagem de ser seguro e repousante. "Repousante" quer dizer que nos
deixa o descanso necessário para continuarmos em lida e em briga conosco
mesmos. Quer dizer que no bonde não intervém a força centrífuga que nos
estraçalha e nos projeta contra as coisas ambientes, na alucinação das
corridas elásticas e esfuziantes. Em vez de domar a pulso umas
engenhocas pomposas e traiçoeiras, acho mais razoável e mais agradável
degustar as aquisições já provadas e certas do gênio inventivo, das
quais nos podemos servir sem lhes dar maior atenção. E que formidáveis
aquisições, já docemente incorporadas aos nossos modos de ser! Por
exemplo, este meu Faber n.0 2, macio, leve e corrente como
uma agulha sensibilíssima adaptada a um aparelho psicográfico; este
papel em que escrevo, liso e lúcido como porcelana, claro como a
cordialidade, alvo como a inocência, receptivo como um espelho; este
humilde capote de lã que molemente me escorrega dos ombros à medida que
trabalho, brando como um carinho piedoso que discretamente se retira;
este meu relógio paciente e incansável, que há seis anos tiquetaqueia
todos os minutos da minha vida, já embaciado, já com os relevos do tempo
meio delidos, já com um ponteiro meio torto, já com o vidro meio opaco,
mas con moto dentro firme e obstinado no seu trabalho, sempre a
contar lá consigo, na sua vizinha martelada e tilintante, a medida
perpétua de todas as monotonias essenciais deste mundo tumultuoso.
O bonde permite que eu me concentre em mim mesmo. Não
vale isso grande coisa, mas sempre é um meio de eu me sentir viver
enquanto vivo. O que não é possível no automóvel à solta, onde a nossa
alma se vai espadanando pelos caminhos como a água de uma vasilha
sacolejada.
O bonde permite-me ver de perto, viver o bicho-homem na
substancial realidade dos seus gestos inadvertidos. E esse bichinho
(verme da terra, lá diz o Evangelho) é afinal só o que há de
interessante no mundo.
As próprias estrelas são uma poeira estúpida, na sua
mudez mortal e na sua mecânica fria. De onde lhes vem a magnitude e a
beleza? Da pequenez e da miséria desse bichinho que pensa e que imagina,
entre as minhocas e os sapos. A sua pequenez e a miséria o fazem
visionário de esplendores.
Deliciae meae esse cum filiis hominum.
O bonde é uma galeria inesgotável de exemplares desse
verme sempre igual e sempre vário; uma exposição permanente, renovada a
cada instante, de tipos, de esboços, de caricaturas, rica e múltipla
como a vida, sugestiva como deve ser a antecâmara do Purgatório. Se as
almas soassem, o bonde seria como um poderoso jazz-band sobre
rodas em que os uivos, os berros, os soluços, as casquinadas interiores
se despenhariam em cataratas de dissonâncias - sem perder o fio às
grandes linhas monótonas da composição.
"Ah! o bonde, sim..."
Depois de me dar esta resposta, achei que era um pouco
longa demais para explicar uma resolução tomada em dois segundos. Mas
não sei fazê-lo por outro modo. Sei apenas que é assim, ordinariamente,
com todas as nossas resoluções. Elas pressupõem longos trabalhos de
raciocínio e reflexão; na verdade, esses trabalhos vêm depois, e só
servem, quando muito, para as seguintes edições do mesmo ato.
No cabo de tudo, se eu ainda dispusesse de dinheiro
sobrante, compraria um automóvel, ou uma dessas máquinas que mais se
assemelham automóvel.
UM SONETO
Saí, hoje, de casa maquinando um soneto. Não foi culpa
minha, mas obra do acaso. Lendo um jornal, depara-se-me, perdido no
entrecho de uma notícia ordinária, em que se narrava a prisão de uma
negrinha gatuna, este retalho de frase: "Toda a ilusão da triste
Gabriela..." - Magia do número! Não foi sem razão, ó sombra venerável de
Pitágoras! que a pressentiste por tudo nas esferas como nas almas.
Repeti duas, três, dez vezes esse pedaço de frase vulgar, que é um verso
inteiro e excitante. Gabriela alvejou-se-me e transfigurou-se-me logo na
remota imagem de uma linda pessoa que de repente se vira nua de toda
ilusão, nua como lady Godiva montada num asno, em meio da praça. Comecei
a compor... não, começou a compor-se em mim um soneto:
Já não tens ilusão,
ó Gabriela!
Nega-ta o amor, essa comédia triste.
Nega-ta a vida. E em tudo quanto existe,
O espinho do real se te revela.
Subi para o bonde a escandir mentalmente esses
decassílabos, que para ser sincero comigo mesmo, não me pareceram
maravilhosos. Mas alentava-me a esperança de que pudessem ir melhorando
do meio para o fim do soneto. - O que me apepinava um bocado era que as
rimas aproveitáveis não se deixavam pegar como frangos de pés amarrados.
A memória, afeita a servir-me os torresmos do vocabulário trivial, só me
deparava coisas como fivela, moela, espinhela, chiste, alpiste,
que não se coadunavam à pura nobreza da inspiração. Encolhi-me, cerrei
as pálpebras e atirei-me à caça de boas rimas, exercício muito útil,
para refrescar as idéias e especialmente indicado como passatempo
higiênico e divertido para homens atarefados, nas horas vagas.
Ia engolfado nesse labor - Cellini do verso! - quando
senti que uns dedos me bicavam no ombro. Voltei-me, era o meu amigo
Fabiano Alves, prático de farmácia meu vizinho. Bom homem, mas confiado,
e ainda com a particularidade esquisita de se achar sempre numa
temperatura espiritual completamente diversa da minha.
- "Está calculando?" indagou.
Tive ganas de lhe perguntar que conta lhe fazia que eu
estivesse calculando ou voando muito acima do lodaçal do mundo, onde
patejam os boticários sem alma.
- "Vem tão concentrado, mexendo com os lábios."
- "Cá umas coisas."
Fabiano entrou imediatamente a explicar que era
tapadíssimo em questões de cálculo. Decididamente, não dava para essa
especialidade. De uma feita, propuseram-lhe um problema, no clube de
Periquitos, sua terra natal: "Um pássaro faz sete voltas em redor de uma
torre de cantaria em quarenta segundos; quantas torres serão precisas
para que sete pássaros façam uma volta..." Mais ou menos isso. Coisa
à-toa, simples aplicação da regra de três; podendo-se também resolver
rapidamente por análise. Pois levou mais de meia hora para dar com a
solução! Uma vergonha.
- "Ainda assim, você é um bicho, Fabiano."
- "Não; em Matemática, serei bicho, mas de má qualidade:
um burrego. De todas as ciências, a que dá com o meu feitio é esta" (e
batia com a larga e magra mão sobre a capa de um livro de espiritismo)
"é esta, a filosofia."
E Fabiano falou copiosamente sobre a doutrina espírita,
"a mais consoladora de todas", e em particular sobre a moral, "sem
discussão possível, a mais perfeita."
- "Fabiano" (lhe disse eu, apenas por dizer alguma
coisa), "você conhece a moral de Sócrates?
Ele sorriu:
- "Esse, justamente, freqüenta o meu círculo. Um espírito
evoluído. Adiantado!"
E dizendo "adiantado", Fabiano esticou os beiços para um
assobio, que deixou subentendido. Mas eu, intrigado, questionei:
- "Como é isso, ó Fabiano? Então Sócrates freqüenta..."
Ele sorriu com bonomia, explicando:
- "Manifesta-se, compreende? Está desencarnado há muitos
anos, desde um desastre que houve aqui na Central. Saiu com as pernas
esmigalhadas. Nesse mesmo dia visitou uns nossos irmãos, no Pará; por
sinal que fez o pobre do aparelho gritar com dores nas pernas!"
Fabiano discorria, discorria. A certeza da verdade
dava-lhe um ar de beatitude. "Ele já parecia respirar o eterno, planava
além de todas as coisas perecedouras, que vão da molécula às estrelas.
Este prático de farmácia, que acabava de largar o almofariz para ir
comprar uma porção de calomelanos à drogaria, achava-se absolutamente
integrado nos planos perpétuos da vida e do movimento universal. E o
curioso é que se consolava com isto.
Ia sorrindo, no bonde, como sorriria um arcanjo na sua
biga de chamas, através do infinito, assistindo ao florir e ao despertar
das constelações pelos abismos sem fundo. Ou como uma criança
contemplando um queimar de rodinhas e traques.
Com isto, deixei de fazer o meu soneto. Quando pretendi
reinvocar a inspiração, ela havia batido as asas. Um acaso ma trouxera,
um outro ma levou.
Assim acontece com tantas coisas belas e boas da alma!
Nascem e morrem por aí na sombra e na bruma da vida larvada. Nascem por
acaso, por acaso morrem. E nós caminhamos sobre as flores mortas dos
nossos jardins interiores, como um cordão de porcos-do-mato sobre uma
camada de pétalas, na época da inumerável florescência dos manacás. Mas
entre a preta Gabriela e o boticário Fabiano, minha alma teve um momento
de ventura inocente, embalada no berço dos ritmos e dos timbres. E, se
não chegou a perpetrar nada, tanto melhor.
O melhor da poesia e de tudo quanto se lhe parece é a
elaboração, o estado de graça, a embriaguez esporeante, a doce liberdade
interior em que vive quem a elabora ou rumina. Talvez que o mais alto
poeta seja um simples ruminante mudo de formas, O mais, vaidade e
pretexto. Bendita a Gabriela, e bendito o Fabiano.
RUFINA
- "Entre, Rufina."
Quando eu voltava, hoje, para casa, lendo uma folha da
tarde, ouvi soar essa frase num dos bancos dianteiros. Instintivamente,
olhei: Quem a proferira fora um senhor idoso, com uma grande cara
bonacheirona e sonsa, dirigindo-se a uma rapariga que, não sei por que
motivo, parecia hesitar sobre o estribo, como uma baratinha machucada.
O bonde estava parado. Quando o homem acabava de falar, o
carro subitamente arrancou, e a moça ia perdendo o equilíbrio, soltando
um desses guinchos de boneca rapidamente apertada na barriguinha. Dei um
salto, voei, e quando caí em mim estava agarrando a jovem por um dos
braços com a energia de um guindaste, enquanto os passageiros se
levantavam à uma, como se o bonde fosse peneira de sururucar em
movimento, e eles quirera.
Larguei logo a presa, que, cabisbaixa e ruborizada, foi
para perto do senhor idoso. Como este me fizera uma cortesia,
agradecendo a intervenção, aproveitei-me da oportunidade para pedir
desculpas à menina, ainda arrufada do incidente, de a ter agarrado um
pouco à bruta, no receio de a ver sofrer uma queda. Ela riu-se, com uma
pontinha de desdém.
- "Queda? Ah! disso não havia perigo. Tomo o bonde em
movimento a cada passinho!"
Curvei a cabeça com dignidade, como quem deliberadamente
interrompe uma situação delicada; recostei-me, e recomecei a leitura da
minha gazeta. Tentei recomeçar. Mas não podia dar com o seguimento do
artigo em que viera mergulhado. As seções tinham feito um chassê-croasê
completo. Trechos vistosos, que antes me saltavam aos olhos, agora
andavam brincando de Maria-condê pelas oito páginas do diário. Cheguei a
desconfiar que alguma página se houvesse evaporado. E, na correnteza das
minhas emoções embrulhadas, a consciência apenas tinha força para me
sussurrar:
"Toma, burro! Bem feito. Por que é que te meteste? Por
que é que não a deixaste periclitar à vontade?"
Já então, o gesto da moça, que fora quase
imperceptivelmente abespinhado - também, com aquele susto - me
reaparecia, em imagem, todo a arder em pura má criação. Cheguei a sentir
por ela uma espécie de ódio. (Digo espécie de ódio, porque teria
remorso, caso julgasse o meu coração à ligeira, capaz de tão grosseiro
sentimento. O amor da justiça é inato nas almas; todos temos infinitos
escrúpulos em sentenciar contra nós mesmos.)
Como quer que seja, no aceso da raiva, afastei um pouco o
meu paravento, isto é, o meu jornal, e dardejei contra a rapariga uma
torva olhadela de esguelha. Ela estava agora voltada para mim, de um
modo repassado e calmante, olhando-me com esse ar de complacência
desinteressada com que se contempla um animal de jardim zoológico. Dei
imediatamente à minha olhadura envenenada o ar mais neutro e casual que
foi possível. Sorri. Ela sorriu. Aquilo foi como se um céu borrascoso de
repente clareasse, todo florido de nuvenzinhas recém-nascidas, castas
como roupa lavada ao sol. Sorri, mais docemente. Ela baixou as pálpebras
pestanudas e deu meia volta ao rosto moreno e rosado sobre cuja
superfície; dura e lisa como a de uma figura de biscuít, o fumo
de um cigarro vizinho punha a indecisão aérea de um tenuíssimo nevoeiro.
E ainda sorria; e pude perceber que por entre a franja dos cílios a sua
íris umidamente faiscava, enviesada para o meu lado, embutida numa
sedosa penumbra. E os cílios palpitavam.
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ainsi
qu'un noir feuillage où filtre un long rayon d'étoile.
Nisto, o velho bezerrão fez sinal ao condutor e, na sua
voz plácida: "Vamos, Rufina; mas não caia!" A moça riu-se de boa
vontade, como um lindo modelo para anúncio de dentifrício; fez-me um
cumprimento de cabeça, largo e cordial, e saltou, acompanhada pelo
velhote.
Vieram-me ímpetos de saltar igualmente, mas uns temores
me agarraram ao banco, pelos fundilhos, como cola. Não me acharia ela
ridículo. Não daria o meu ato na vista dos passageiros? Refleti que este
receio era estúpido. Eu tinha o sagrado direito de saltar onde quisesse.
Demais, como é que se podia decentemente receber um sorriso de mulher
bonita, sem a seguir, ainda que a custo de algum risco?
Ia eu refletindo, quando olhei para trás: Rufina tinha
desaparecido. Bolas! Encolhi-me, num acabrunhado desprezo de mim mesmo,
e deixei o bonde rodar. Quando dei acordo de mim, era o único passageiro
restante e estava no fim da linha. Só, só na solidão do carro vazio. Só
e triste como a fruta murcha que ficou no fundo do cesto. A voz do
condutor português rolava, irônica, conclusiva, retumbando-me na alma
como a voz do pai de Hamlet nos subterrâneos de Elsenor:
Pooonto finale!!!
O PESCADOR E O SILÊNCIO
"Com que então, Barbosa, você é pescador?"
Esta simples frase, dita numa voz branca, de um jeito
quase distraído, me ia hoje rendendo uma quebra de amizade.
Frederico Paulo Barbosa Ramires é o homem mais calmo,
sisudo e direito que jamais conheci. O senso comum encarnou-se nele como
a seiva se infunde e se solidifica numa cabiúna. Dir-se-ia que a própria
arquitetura de Barbosa fora armada com aquele material primário: os
ossos robustos, as carnes duras, o corpanzil maciço, a fisionomia densa
de hoplita membrudo. Familiarizamo-nos há muito. E nunca descobri no meu
amigo uma trinca, um recanto desleixado, uma dependência indecisa e
frouxa.
Vendo-o, hoje, no bonde, de caniço em punho, tive uma
pequena surpresa, olhei para ele fiz-lhe aquela pergunta inócua. Parece
que lhe toquei num ponto dolorido. Não se desconcertou, nem se irritou
propriamente, mas respondeu-me com um nadinha de impertinência:
- "É verdade; pescador. Todos têm a sua mania, a minha é
esta. Não faz mal a ninguém - senão aos peixes. É higiênica, tem a sua
dose de poesia..."
- "Bem, Barbosa, pesque, pesque, isso não precisa de
justificação."
- "Mas, se eu quiser justificar?"
Fez então o elogio da pesca de vara. Uma pessoa fica à
beira da água com a cana em punho, lança o anzol, e espera. Não há nisso
nenhum desbarato de energias físicas nem morais. Por outro lado, não há
tampouco a mínima astúcia nem a mínima violência. Fica à espera. Não
corre atrás do peixe, não vai agarrá-lo. Nem o enxerga sequer. É como
quem tira a sorte. O rio traz o peixe, o peixe vê a isca, engole-a,
engasga-se. Então, o pescador sente na ponta da vara um estremecimento
característico, dá-lhe um meneio, e puxa.
- "Como vê" (prosseguiu) "a intervenção do pescador é em
tudo semelhante à do acaso, ou dos acidentes cegos que semeiam o curso
dos rios e de todas as coisas. Ele espera, entendeu? ali, parado. Não vê
o peixe, não sabe se o peixe virá, nem de que espécie há de ser caso
venha; não sabe nada. Espera. É de uma imparcialidade absoluta."
- "Em todo caso atalhei, sabe que o rio é piscoso. E a
imparcialidade, aí, quer dizer simplesmente que qualquer um serve."
- "Sim. Mas o peixe, se não pegasse no anzol, seria
imortal? Não teria de morrer logo adiante?"
- "Dizem que eles têm o sestro de viver muito; até
duzentos anos, conforme.,'
- "E você acredita isso? Quem é que contou os
aniversários do peixe? E depois, olhe aqui, e depois que vem a ser um
século ou dois diante da imensidade do tempo."
- "Alto lá, nós não vivemos a imensidade do tempo,
Barbosa. Com esse artifício metafísico, se tem justificado muita pose
de espíritos inumanos e muita monstruosidade material. Nós vivemos
um minuto! Esse minuto é que deve ser a nossa medida. Tudo que o excede
é imensurável. E, sendo imensurável, é sagrado."
- "Ahn..."
- "Mas, falando sério, você não precisa ter esse trabalho
de justificar o seu gosto. Nada de repreensível na pesca, nem mesmo na
caça. É lei do mundo que as espécies umas às outras se exterminem, por
necessidade, por esporte, por prazer, por passar o tempo, é lei do homem
que combata as outras espécies todas e a própria. Que lhe havemos de
fazer? Observo-lhe, simplesmente, que a sua filosofia piscatória poderia
justificar também uma larga parte da moral corrente nas relações
humanas. Lança-se o anzol, fica-se à espera. Conheci um mercador que,
fisgando e aleijando o freguês, não se desculpava por outra forma:
Veio porque quis! Não obrigo ninguém a
comprar."
- "Mas está muito direito" (replicou Barbosa). "Ele tinha
razão. Eu, dono de um negócio, daria o preço que bem entendesse às
minhas coisas."
- "Você não o faria, Barbosa."
- "Faria, sim, e você também."
- "Pois, se eu o fizesse, seria um espertalhão como
qualquer outro."
Barbosa amuou, resmungou, e creio que só a sua sensatez e
bonomia de animal forte, o impediu de levar adiante a contenda.
Separamo-nos sem nos encarar. Fiquei penalizado com esse primeiro fio
partido na teia de seda que vínhamos tecendo há tantos anos. Por um fio
roto vai-se às vezes o tecido inteiro.
Todo o mal está em se falar demais.
O que vale deveras, deveras, nos indivíduos, não são as
idéias, que mudam, que ondulam, que o menor sopro de interesse ou paixão
modifica, é o fundo indefinível de bondade que neles exista. E esse
fundo mesmo, e preciso que não se pretenda apurar com fúrias de análise!
Não é senão um pouco menos mudável e incerto, neste perpétuo devenir
em que tudo o que vive se resume num equilíbrio momentâneo e
precário de elementos errantes e fluidos.
Devemos crer nesse fundo, sem o examinar com insistente
rigor. A nossa boa vontade o faz crescer. Acreditar que ele existe é
corroborar-lhe a existência. A nossa fé transfunde-se no íntimo dos
outros como uma levedura vivaz. E assim cada um de nós é um pouco
criador; criador das mais doces coisas do mundo.
Os homens de bem são geralmente melhores do que a sua
própria lógica faria supor. Há indivíduos excelentes que falam como
cínicos ou malvados.
A palavra não foi dada a todos os homens para encobrir os
seus pensamentos: foi dada à maior parte para encobrir a falta de
pensamento. Felizes os que ainda têm pensamentos que encobrir! A maioria
pensa à medida que fala. A necessidade de falar é que a obriga a pensar
um pouco. E há pior: a necessidade de falar a obriga por vezes a dizer
coisas que nunca teria pensado.
Era preciso falar muito menos. O silêncio seria a nossa
melhor cura. E seria freqüentemente a melhor das satisfações que
pudéssemos dar de nós, em nossa irremediável enfermidade.
No silêncio germinam as forças heróicas. No silêncio
condensam-se as forças invencíveis. O silêncio é a túnica invisível e
pesada das almas inquebrantáveis, sumidas na profundidade triste da sua
clarividência e da sua piedade.
Silence and Secrecy!
- palavra de Carlyle
que devia ser a divisa das almas religiosas, isto é, das almas humanas.
Os amigos deviam estar juntos apenas para se sentirem
viver um ao outro, mantendo entre si esses largos silêncios falantes que
são o que há de mais expressivo na linguagem do amor. A linguagem do
amor é uma brosladura vã de palavras sobre um fundo uniforme de
sentimento. Para que sobrecarregar a brosladura? Para que arriscar
desenhos supérfluos que podem comprometer irremediavelmente o tecido? A
linguagem apropriada seria musical, a meia voz, lenta como um cantus
planus envolvido pela melancolia suave que banha as felicidades
efêmeras.
O mundo com todas as suas complicações miseráveis e a
nossa personalidade mundana e aparente, com todas as suas pretensões, e
imbecilidades, mistificações e parlapatices, deveriam desaparecer, como
fumo varrido por um vento puro e purificador, diante do milagre de duas
almas que de verdade se querem, - milagre! coisa incompreensível e
estupefaciente, nesta raça de macacos famélicos e obscenos. E seria como
se cada uma dissesse para a outra, sem dizer nada: "Eis-me aqui. Tal
como sou, eis-me aqui: um pouco de lodo com duas asas. Amemo-nos, pelas
nossas asas. Mas em silêncio, chut! em si-lên-ci-o... Basta o sopro de
uma palavra vã para que essas asas se rompam como teias de aranha!
Etre méconnu memê par ceux qu'on aime, é est la coupe
d'amertume et la croíx de la vie...
escreveu Amiel com o
seu sangue.
Dentro do silêncio, a compreensão mútua, despindo os
incômodos véus da palavra exterior e dos conceitos ordinários, e mesmo
da palavra interior, poderia assumir a forma serena de uma iluminação.
De uma claridade difusa e divina. Para além da lógica tardígrada das
magras aparências, das reflexões esterilizantes. - Poderia. Mas!...
O HOMEM QUE FUMA
Vou deixar o hábito de ler no bonde, hábito estúpido. Ver
o homem viver é mais interessante do que ler as histórias do que ele faz
e pensa, (ou pensa que pensa.) É certo que no bonde, geralmente, salvo
numerosas exceções, vai quieto e sorumbático. Mas onde quer que esteja,
e como quer que esteja respira humanidade. E os seus gestos e momos mais
fugitivos são debuxos descosidos do grande jogo de cena que faz a
dramaticidade da história.
"Todo ser humano é para mim um templo, e eu gostaria mais
de distinguir os traços originais, as leves pinceladas que aí se
encontram, do que de ver o famoso quadro da Transfiguração de
Rafael." Esta opinião de Sterne em sua Viagem Sentimental, é
justamente a minha. Honra a Sterne. - Só divirjo dele em que não gosto
apenas dos traços originais, mas de todos. Aliás, no fundo, cada homem é
sempre uma síntese original, um composto único, um exemplar sem parelha.
A nossa visão grosseira ou a nossa necessidade e sede de catalogação é
que nos obriga a converter as semelhanças em identidades e as analogias
em semelhanças, a criar espécies e gêneros para ver o indivíduo, única
realidade tangível, único depósito real de humanidade vivente e
vibrante.
Viajei ao lado de um homem que, pela casca, devia ser
negociante de secos e molhados. Era, de fato. Cheirava a suor, tinha os
dedos grossos e encardidos, trazia um casaco de casimira cinzenta
semeado de respingos, coscorões e tintas de varias cores. Contudo,
carregava relógio com uma grossa cadeia de ouro, guardava na pupila a
chispa da independência e, enfim, tinha esse ar de cavaleiro
garbosamente escarranchado em cavalgadura mansa, tão próprio dos homens
classificados e prósperos.
Mascava um toco de charuto, soltando baforadas na cara
dos vizinhos, entre os quais havia senhoras de várias idades, formatos e
cores. Não lhe ocorria sequer a idéia de que pudesse incomodar. Isso me
irritou, e figurei-me logo esse mesmo homem, em mangas de camisa, por
trás do balcão a desfazer-se em mesuras com os habítués do parati
e em gatimonhas gentis com as cozinheiras.
Portanto, um abjeto ganhador de níqueis? um tipo que se
faz calculadamente macio e untuoso quando lhe convém, altaneiro e maroto
quando não depende? Não será bem isso. Para ele, ser paciente e
obsequioso com a freguesia é uma forma de virtude. Disto se ufana.
Ensina essa virtude ao caixeirinho, ensina-a aos filhos, e está
candidamente plantado na convicção de que o Bem é uma coisa que logo se
reflete na gaveta.
No bonde, o Sr. Joaquim já não é um negociante, é um
passageiro. Aí, já não sente os limites que de ordinário lhe
circunscrevem a personalidade, pungindo-lhe a carne; dá liberdade ao
corpo; reveste, como uma roupa larga, os gestos e modos comuns do
passageiro.
A este não lhe incumbem senão três coisas: pagar a
passagem, não fumar nos três primeiros bancos, e só ocupar o lugar de
uma pessoa - o que não é difícil, a menos que tenha um volume incapaz de
redução à unidade, na aritmética dos bondes. De resto, todos iguais
perante o condutor e o motorneiro. Todos podem, ser brutos, dentro das
regras, bastante amplas, que presidem a vaga polícia dos carros. - O Sr.
Joaquim está igualmente compenetrado deste princípio, que da mesma forma
já se lhe incorporou à maquinalidade dos reflexos.
Ora, quem estiver isento de culpa, esse lhe atire a
primeira pedra! Todos, nesta vida, cada um a seu modo, não fazem senão
aquilo que faz o Sr. Joaquim. Todos, no fundo, vendeiros amabilíssimos
com a freguesia, e passageiros que fumam nos bondes da vida muito à sua
vontade.
Onde estão a originalidade do Sr. Joaquim? Eis o que não
pude descobrir, mas tenho a certeza de que lá está, dentro dele, como
uma pérola no ventre de um galo. Questão de tempo e de paciência. - Há
criaturas difíceis de decifrar. São enigmas que a Vida compõe para os
propor a Deus, o grande matador de todas as charadas.
RUFINA
Esquisita vaga de saudade! Ontem, anteontem, nada vi no
bonde: nada vi senão Rufina, a moça que salvei de um desastre iminente.
A princípio, entrei a duvidar se ficara preso ao feitiço
da sua pessoa, que tinia de vida e mocidade, se lhe guardara afeição
apenas pelo fato de a ter socorrido. - Há no fundo de nossa alma um
veiozinho de sentimento que fica agradecido aos que nos devem serviço. E
quando quem deve o serviço é uma bonita mocetona, temos evidentemente
uma complicação a mais.
Ser útil a alguém no perigo ou na penúria, é o melhor
caminho para vir a querer-lhe bem: fica-nos pertencendo um pouco, já que
nos custou alguma coisa. Andam errados os moralistas filantropos quando
pregam a necessidade de amar ao próximo como condição e preparação para
o ajudar e suportar. O primeiro passo é ajudá-lo e suportá-lo: o amor
vem depois.
Mas isto não tem nada que ver com o amor-amor,
amor-desejo, o amor-folia; e a perturbação que Rufina deixou em mim veio
muito menos do susto de que a livrei do que do filtro luminoso que a
furto se lhe escorreu de entre as pálpebras semicerradas.
..................................... un long
rayon d'étoile!
Ah! Rufína, meteoro rutilante perpassaste pelo céu
caliginoso de minha vida! Estarás a estas horas olvidada de mim. Nem por
um momento esvoaçará tua cabecinha pequenina e redonda a idéia de que
deixaste um farpão enroscado na carne de um pobre funcionário; de que
esta pobre alma, jogada de cá para lá sobre os trilhos imutáveis, está a
ver-te sempre no mesmo banco, ao lado do mesmo ancião de rosto severo e
pausada voz, como um avezita ao lado de um rinoceronte. - Perdoa-me, se
é teu pai, ou teu avô, ou padrinho; mas não podias ter companheiro que
melhor fizesse realçar a tua brevidade graciosa e arrogante de galinha
garnisé.
Não te verei mais, Rufina?
BRINQUEDOS
No bonde em que voltei da cidade, hoje à tardinha, vinham
crianças com brinquedos.
Perto de mim, um senhor idoso e barbeado fazia ver ao
filho de seis anos como funcionava um galante volantim mecânico, que o
pequeno, mais por comprazer ao tipo velho, inutilmente lidava por
acionar.
Mais adiante, uma senhorita loura, sopesava uma bola nas
pontas dos dedos compridos, fazendo-a girar velozmente, com prazer, como
sentindo nas papilas, a carícia de uma tatilidade nova, e uma sensação
ótica inédita na rotação dos gomos bancos, azuis, amarelos e escarlates.
E essa dança de cores parecia emanar, pela mão translúcida e ágil, como
um vago punhado de flores e de borboletas, de toda aquela pessoa que se
diria a própria Primavera a viajar de bonde.
Perto, uma menina embezerrada olhava esse exercício e
essa bola com um ar de proprietária complacente, estéril de uma bola.
Na cidade, quando lá perambulei à cata do bonde, havia
azáfama nas lojas de brinquedos e novidades. As crianças eram poucas,
porque geralmente os grandes não gostam de sair com crianças e porque,
nestes dias de festas, preferem fazer-lhes a clássica surpresa. - Na
verdade, os grandes é que se divertem com os presentes que fazem; e, não
satisfeitos, ainda se reservam, no seu egoísmo, o direito de saborear a
surpresa dos presenteados. É com delícias que aproveitam, entre Natal e
Reis, a concessão feita pelos costumes para mergulhar a sua
infantilidade envergonhada no mundo maravilhoso das coisas inúteis e
bonitas.
Outrora, mais ou menos até Rousseau, considerava-se a
criança como um homem pequeno. Os próprios artistas as presentavam como
adultos em escala menor. Muito custou reconhecer-se que o homem é que é
uma criança crescida. Entretanto, dir-se-ia que isso entra pelos olhos.
Para as crianças ainda não crescidas, tudo é brinquedo.
O brinquedo especializado é uma invenção que os grandes
fizeram para se divertirem com eles e com as crianças. Estas muitas
vezes, se vêem reduzidas ao papel de usufrutuárias, ou menos ainda, ao
de guardas e conservadoras dos bonitos objetos. Para elas, coitadas,
tudo é brinquedo. Uma toalha enrolada, que se revestiu de um casaco
velho, faz o papel de uma boneca perfeita, ainda melhor do que a própria
boneca perfeita. Um cabo de vassoura pode ser um cavalo sem rival, com
vantagem de não impor ao dono sua raça, nem os acidentes da sua forma ou
do seu caráter, mas com a capacidade preciosa de ser árabe ou ponney
pangaré ou ruano, fuá ou poleiro, à vontade. Uma
galinha, um ferro de engomar, um grilo ou uma caixa de fósforos são
divertimentos mais interessantes e de mais durável prestigio de que o
macaco de pau que sobe por um cordel, do que o trenzinho de ferro com
túneis e estações, do que o palhaço que gira sobre o calcanhar de pinho
e tilinta soalhas e guizos de lata. - Estas observações não são
originais, mas apesar disso são justas.
É verdade que os petizes recebem com ânsias esses
presentinhos de festas, e fazem a propósito um pouco de rumor. É o
atrativo da novidade. É a pressa de ver e experimentar. É o prazer de
dizer "meu". É a tentação de fazer inveja aos outros pequenos. É,
sobretudo, a mímica do desejo, do alvoroço, da cobiça, do egoísmo
apropriador, que os grandes lhes têm ensinado e que os pequenos vão
executando, numa adaptação mecânica do sentimento confuso e alvorecente
aos recortes do gesto distinto e expressivo.
As crianças amam acima de tudo a espontaneidade da sua
própria imaginação, que os brinquedos, quanto mais complicados e
perfeitos, mais embaraçam. Ou então preferem a complicação extrema e
sempre nova das coisas vivas. Se por natureza são assim, devia deixar-se
obrar a natureza. Mas os adultos querem o artifício, todos os gêneros de
artifício, e impõem-os às crianças, perturbando-lhes o viço da
curiosidade espontânea e da livre investigação. Por isso mesmo, a
ciência é o último luxo da humanidade, sendo o seu primeiro desejo.
A ROUPA E O GESTO
Gosto de viajar no último banco. Vai-se mais resguardado
de maçantes. Pode-se inspecionar o carro inteiro, quase sem ser visto.
Não se vêem caras.
Evita-se o risco de pagar a passagem para os amigos que
não o são, e pode-se fazer aos amigos que o são a surpresa de lha pagar,
numa traição delicada, pelas costas, - o que, como fineza, tem na sua
independência um especialíssimo sabor. - Por fim, pode-se fumar sem a
preocupação de ser incômodo a senhoras, por que muito raramente vão
senhoras no último banco e dá-se a coincidência de não haver outro
depois do último.
Aliás, deixo de fumar perto de senhoras, não por uma
particular deferência, mas apenas para não me incomodar a mim mesmo.
Saborear um cigarro é prazer tão leve e tão fino, que o simples
pensamento de que alguém no-lo possa estar amaldiçoando amarga os
gorgomilos e embacia a transparência azulejante das espirais.
Apesar de preferir ordinariamente o último, fui hoje para
o primeiro, e fiz toda a viagem voltado para o resto do carro. Não
influiu nisto o fato de eu envergar o meu novo terno cinzento e de
estrear uma comburente gravata de listras amarelas e filetes encarnados.
Não. Detesto exibições. E não distingo entre exibições,
sejam de roupas, sejam de talentos ou virtudes, sejam de vícios ou
maroteiras. Propendo até a perdoar mais facilmente a exibição de roupas,
que não é assim tão idiota como inculcam os que não a podem pagar.
Ter vaidade de uma farpela bonita é geralmente uma falta
venial e, por assim dizer, exterior, que não repercute nas regiões
nobres da alma; ao passo que a vaidade intelectual envenena e turba as
próprias fontes do pensamento, e a vaidade da boa ação destrói
exatamente essa misteriosa e fragílima levedura de heroísmo, que é o seu
único valor, - o imponderável que a análise não pode reduzir e ante o
qual o escalpelo se detém, enquanto faísca no olho implacável do
operador uma centelha de humana emoção.
É a vaidade exterior que tem preservado na mulher o seu
secreto manancial de piedade e de energias profundas. Aparentemente
frívola, ela é na realidade mais forte e melhor. Os seus tecidos aéreos,
as suas rendas e fitas, as suas exterioridades espumosas e florais de
criatura espetacular, são na realidade umas couraças, uns adarves, umas
muralhas, - são tranqueiras e circunvalações defensivas que a mulher
estende em redor de si, para ir entretendo o inimigo enquanto ela
conserva lá dentro, na intimidade da cidadela sacra, o seu tesouro e o
seu altar.
Não, a indumentária (termo suntuoso, que eu sentia
envolver-me, luxuosamente, como a coisa designada) a indumentária não me
influiu na resolução de ir para o primeiro banco. Predispôs-me bem,
quando muito deu-me um calorzinho de otimismo e de simpatia difusa.
Isto, sim. - De onde infiro que devíamos usar mais freqüentemente de
roupa nova, revezando-a talvez com as mais velhas, para acentuar o
efeito pelo contraste, mas enfim usar mais freqüentemente de roupa nova.
Se todos vivêssemos enfiados em estojos de boa fazenda e
bom corte, de certo lucraria a disciplina interna das almas e com ela a
facilidade e o concerto das relações entre os homens. - Um indivíduo
rudemente estrafegado pela vida, mas sempre cingido em ternos corretos e
confortáveis, suporta com outra filosofia e outra elegância os baldões
da fortuna. Principalmente, é claro, quando a roupa está paga.
Homens há que são relembórios por teima, por descaso, por
sistematização inconsciente das sugestões da preguiça, da somiticaria ou
da falta de gosto. Querem fazer crer que são assim por vontade e que vão
executando um programa bem meditado. Dão-se ares de desprezar
profundamente essas materialidades ineptas. E a verdade é que são às
vezes sinceros. Mas como se iludem!
O indivíduo mais sinceramente lavado de vaidades
decorativas não pode, quando menos, quando menos, deixar de sentir a
cada instante a discrepância em que se encontra nos meios que freqüenta.
Então, para manter a sua atitude interior de dissidência, não pode
evitar a necessidade de pensar nisso, de fazer reflexões que deixam
forçosamente um sedimento amargo, sobretudo quando reagem contra
atitudes e atos depreciativos com que esbarrou. Sendo assim, onde está a
liberdade interior que ele pretende prezar acima de tudo? A liberdade
perfeita e bela seria a que implicasse no mesmo desprezo profundo e
sereno as materialidades exteriores e todas as suas conseqüências
- a liberdade de Diógenes ou de Francisco de Assis. Sem isso não é
liberdade: é um simulacro, um escamoteio, um sofisma em ação, que traz
consigo mesmo a sua pena perpétua, como a sua própria sombra.
Um dos seguros efeitos da roupa nova e bem cortada é que
ela cria e mantém o hábito das posições perfiladas e dos movimentos
harmoniosos. Vale por um esporte. Excelente esporte para o corpo, visto
que o submete a uma disciplina retificadora e a uma continuada economia
de força. Excelente esporte para a alma, que se modela à feição do
corpo. - As atitudes e movimentos da alma são atitudes e movimentos
corporais: a alma põe-se de pé, acocora-se, desliza, descai, ajoelha-se,
caminha direita e alegre, ou cambaleia, ou rasteja. A alma toma todas as
posições de luta, desde a de um calmo e melódico guerreiro de Fídias até
à de um torpe moleque agachado e sinuoso, com a navalha empalmada e o pé
igualmente pronto para a rasteira ou para a fuga.
Nas aulas de educação moral e cívica devia-se ensinar,
antes de mais, a selecionar e fixar posturas e gestos. Aquele que
aprendeu uma simples maneira nova de segurar o cigarro, de puxar e
soltar a fumaça, de arremessar o coto, uma certa maneira vivaz, ritmada,
incisiva e distinta de realizar todos esses pequenos movimentos,
adquiriu alguma coisa que positivamente lhe modifica a personalidade,
por via de ressonâncias que se vão convertendo em movimentos interiores
habituais. - Inversamente, para convencer uma menina de que ela deve ser
boazinha, não há como convencê-la de que assim se torna mais bonita. Há
muito menina grande que faz toda a força do seu domínio interior com a
simples preocupação de não ter cara de espeloteada ou de evitar a
inflamação das pálpebras. Chamfort conta de uma dama que assim se
justificava de assistir com olhos secos a uma comovedora representação
teatral: "Eu choraria; mas é que tenho de cear na cidade".
Compreende-se bem a confusão que de ordinário se faz
entre o gesto significativo e a coisa significada, entre o valor da
virtude e suas aparências externas. Este pratica uma ação honrada, não
por esta ou aquela razão abstrata, mas para poder andar "de cabeça
erguida"; aquele, para poder "dar uma...", isto é, fazer um gesto
violento e desaforado aos seus detratores. Conheci um homem que, dando
uma grossa esmola a uma igreja, dizia: "Não é lá tanto pela religião,
porque enfim eu vivo a fazer por ela o que posso; mas é cá por uma
birra, - é um couce que eu prego ao Alvarenga, aquele idiota, que
deu um conto de réis e disso se pavoneia."
A metáfora é mais do que um artifício pitural, é a
gesticulação das almas.
Somos bonecos à procura de gestos. Estes preexistem e
persistem fora de nós, e nós passamos por eles como a água passa pelos
vasos e canais que a contêm e lhe dão forma, como a água passa
pelos acidentes da própria correnteza e do próprio caminho, pelas suas
rugas, pelas suas cintilações e sombras, pelas suas espumas e cachões.
Tomamo-los no lar, desde o berço, e na escola;
apanhamo-los no teatro, no cinema, nos livros, nos quadros, na
escultura, na rua, nas salas, na própria música, que espontaneamente se
resolve em desenhos cinéticos de uma aérea e fulmínea expressividade.
Os gestos de dignidade serena, de compostura discreta e
elegante estão, em parte, incorporados às roupas distintas, como um
forro invisível. O alfaiate corta pelo pano e, sem o saber, vai cortando
ao mesmo tempo por uma tela espiritual, fabricada por duas tecelãs
incansáveis, a Humanidade e a Natureza.
Dizem que o hábito não faz o monge. Imagine-se o que
seria um frade de São Francisco sem o seu hábito! O hábito só não faz o
monge quando esse está de tal maneira conformado pela vestimenta, que já
pode impunemente despi-la, sem de fato arrancá-la toda do corpo.
A toga foi talvez a mais importante das invenções
romanas. De certo contribuiu mais do que tudo para fortalecer e ritmar,
para esculturizar o caráter daquela gente estrepitosa e derramada.
Por uma razão semelhante, as estátuas clássicas (isto me
parece que foi dito por Alam) são formas imperecíveis de idealidade
ética, formas que precedem e sobrevivem ao conteúdo ideal que nelas vão
sucessivamente vazando as gerações.
A roupa é muita coisa, porque a expressão é tudo. Tudo
quanto em nós representa idéia, pensamento, espirito, são expressões que
se refletiram para dentro e puseram um pouco de luz e de ordem no caos
de que brotaram - como esses deuses barbáricos e frustes que nasceram da
pedra informe, das águas indeterminadas, dos elementos brutos e
confusos, para individuar as coisas e esboçar uma organização do mundo.
RUFINA
Hoje de manhã, ao tomar o bonde, lobriguei lá dentro um
vulto de mulher e, com a instantaneidade do raio, enxerguei a imagem de
Rufina. Trêmulo, sentei-me, e verifiquei: o vulto era uma velha gorda e
tostada. Fechei os olhos, procurei esquecer-me da velha e de Rufina -
ejusdem farínae, afinal de contas! - e comecei a resolver o seguinte
problema: qual seria a renda bruta da companhia, supondo-se que tinha em
tráfego quatrocentos bondes, cada bonde transportando em média vinte e
cinco passageiros? A questão me interessava, porque estou tratando de
redigir uma reclamação para a imprensa contra certas irregularidades do
serviço.
- Vejamos. 25 x 200 = vinte por duzentos, que são 4.000,
mais... Ru-fi-na... cinco por duzentos, que são mil... Erre, um = Ru....
Quatro mil mais mil, cinco mil; cinco mil que? Ora, o diabo da velha!
Cinco mil contos... - Desisti das contas. A matemática é inconciliável
com o coração. É inconciliável com a vida.
Como é que Newton pôde ser pai de família, ter uma
esposa, ter filhos, ter afetos, preocupações, desejos, e calcular
continuamente? Eu, quando alguma vespa me pica, faço até as máquinas de
cálculo errar uma adição. Tudo aquilo em que ponho as mãos desconcerta,
extravaga. Até o Melquíades, meu servente, que em matéria de calma e
paciência e um urso de bazar, fica esparavonado, entorta, arrebita e
disparata!
Preciso esforçar-me para me corrigir. Não tanto, porém,
que me torne apto a maquinar friamente com a cabeça no meio das
tormentas e das delícias da vida. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Eu
prefiro sonhar com Rufina a cavar uma celebridade em cálculo
diferencial.
O GATO
Sentei-me hoje ao pé de uma velhota embrulhada num xale.
Logo notei, sem ter nada investigado, que ela dissimulava qualquer coisa
por baixo da manta. - Como foi que cheguei a isso? não o sei ao certo.
Um movimento de suas mãos ocultas a arrepanharem o xale sobre o
regaço... o seu ar demasiado "inocente"... sei lá.
Eu podia ter-me ufanado da minha perspicácia. Mas não.
Nem houve propriamente perspicácia alguma; ou, se houve, foi toda
inconsciente: pouco se me dava daquela mulher, do seu xale, dos seus
gestos. Ser Sherlock por vontade, por estudo, por aplicação determinada
e metódica da inteligência, é um esporte razoável, embora não me seduza.
Mas esta espécie de "suspicácia" inata e vulgar é aborrecível como todas
as inclinações tolas e baixas.
Senti-me desgostoso de mim, e mal me consolei com a
reflexão, que fiz em seguida, de que o dom não me era particular, nada
tinha de diferencialmente pessoal, Pois que alheio a todo pensamento, a
toda vontade e a toda tendência definida. É qualidade humana, com raízes
fundas na camada mais funda da nossa humanidade. Todos temos dentro de
nós um bicho indiscreto e malévolo, em simbiose com o nosso Eu distinto
e consciente, que às vezes o ignora ou faz por ignorá-lo, ou mesmo lhe
dá largas.
Arrastado pela curiosidade, antes que acabasse de
refletir, não me custou perceber que de fato a mulher escondia qualquer
coisa, e que essa coisa era um gato. Um gato branco, boquinha rósea,
olhos muito grandes estriados por um chuvisco de luz entre vegetações de
esmeralda e ouro. Tinha um ar pouco amigável, meio enfezado, meio
suplicante. - Percebi tudo isso num ápice, porque tenho a vista
habituada a inspecionar gatos. É este o animal da minha predileção, o
único semovente que me agrada sem reservas.
Gostaria também bastante dos cavalos de raça desde o
possante Brabançon até o árabe naturalizado e aperfeiçoado nos haras
de Inglaterra, por seu instinto da atitude pictórica ou escultural,
se tais cavalos fossem do tamanho de gatos e se pudessem ter dentro de
casa, pôr ao colo e deixar correr por cima das mesas. - O defeito desse
animal é ser excessivamente grande. Isto o reduziu ao papel pouco
distinto de mero acessório do homem, e tornou-o um prosaico objeto de
utilidade ou de ostentação.
Dentre todos os caprichos da natureza, o mais estranho
está nessa fantasia inutilíssima e zombeteira com que ela repartiu a
força e a beleza pela escala das dimensões, no reino animal.
Os insetos, em regra, são feíssimos e fortíssimos; ao
mesmo tempo, pequeninos e inaproveitáveis. Os cavalos e outros viventes
grandes e belos são relativamente fracalhões. Tudo se resolveria bem se
houvesse gafanhotos do tamanho de girafas, besouros do volume de vacas
holandesas, pulgas das dimensões de bezerros; que motores formidáveis à
disposição do homem! Entretanto, escusava que os animais nobres e
formosos ocupassem tanto espaço e, sendo na verdade os bibelots
da natureza, fossem condenados ao estábulo, à estrebaria, ao amanho da
terra, à tração de veículos, ao trabalho bruto, à escravidão humilhante.
Essa a justiça da grande Mãe! E ainda se isso passasse
exclusivamente com os bichos! Mas, não. Toda beleza é escrava. Mulher, -
é o alvo e a presa da matilha esfaimada dos instintos. Vende-se nos
mercados. Aprisiona-se. Condena-se a ser uma forma vazia, ornada de
vermelhão, de pó-de-arroz e de jóias, com a noite dentro, como a cabaça
mágica do bugre. Talento, gênio, bondade, amor, - tudo capturado,
amarrado, explorado, torturado, agadanhado, sangrado, e finalmente
reduzido a cacos, a cisco, a lama, a cinza, a pó, a pó que se espalha ao
vento, entre o delírio e a confusão da macumba retumbante e frenética.
Ao cavalo, a certos respeitos, eu preferiria o elefante.
Embora convivendo, em determinadas regiões, com a espécie humana, esse,
contudo, guarda a dignidade de um escravo testarudo e resignado -
obediente, fiel, mas inamoldável, sempre intransigentemente elefante.
Não tem a elegância do nobre equus (elegância, aliás, já um pouco
desacreditada, como a do estilo ciceroniano), mas lá tem a sua, que lhe
é própria e, além de própria, intransferível, por mais que haja
indivíduos humanos a quererem tomar-lha, na classe que compreende os
grandes vendeiros, os desembargadores e os clérigos.
A elegância do elefante, revelam-na bem certos artistas.
Há bibelots de louça, marfim ou bronze, em que ela se manifesta
com a evidência da luz. Hierática, cheia, pesada, a massa liga-se às
proporções e aos contornos numa sóbria unidade de concepção e de
fantasia, e tudo é um só élan de inspiração enternecida e brincalhona. A
gravidade unida ao peso, a paciência ao volume, a doçura à
simplicidade, e um quê de majestoso, e um quê de ingênuo, e um quê de
gaiato. - Apenas falta a essas composições o indefinível encanto da
vida, esse encanto que resulta da nossa perversa inclinação para só
gostar completamente das coisas que sofrem.
O certo é que, se eu pudesse possuir um elefante em casa,
aí com umas dez ou doze polegadas de altura, e que me viesse comer à
mão, e brincasse com o meu bichano, às correrias por baixo de mesas e
cadeiras, isto me seria um verdadeiro enlevo na minha solidão povoada de
imagens inertes. - O pior é que um dia... Tudo tem o seu fim neste
mundo. Seria possível que o meu bibelot animado devolvesse antes
de mim a sua porção de fluido vital ao laboratório do universo. O meu
bichano havia de andar miando tristemente pelos cantos. A minha
cozinheira talvez enxugaria lágrimas, às escondidas, ao ver-me acariciar
o Romão, à hora das refeições, na ausência do
outro.
Gatos que miam e cozinheiras lacrimejantes estragam uma
casa. Desisto do elefantinho.
A verdade é que tenho um fraco pelos gatos, e fiquei a
pensar no que a mulher do bonde faria daquele. Iria deitá-lo fora? Iria
dá-lo a alguém que lhe destinasse o indigno emprego de caçador de ratos?
Eu estou convencido de que os gatos não querem mal ao
gênero mus. Procuram agarrar os roedores por simples prazer e
necessidade de brincar. E se preferem esses a quaisquer outros, é apenas
porque o rato, de todos os bichos proporcionados ao felino doméstico, é,
o que mais radicalmente difere deste.
O gato só pode compreender o rato como uma coisa sem
afinidade alguma com ele, mais ou menos como nós encaramos os peixes,
aos quais não concedemos nenhuma sobra de respeito, nem de simpatia, nem
de piedade. São objetos de um outro mundo, criações de um outro plano,
obras de uma outra série. A teoria que Malebranche sustentava com
referência à sua triste cadela - cujos latidos de dor eram no seu
entender simples passagem do ar pelo mecanismo da garganta - é por todo
o mundo imemorialmente e inconscientemente aplicada aos peixes. O
próprio dilúvio, condenação e aniquilamento de todos os viventes não
embarcados, deixou à margem, isto é, dentro da água, esses interessantes
autômatos.
O rato, roedor meticuloso, destruidor frio, amigo das
sombras, dos recantos ocultos, das gretas e frinchas secretas, dos
buracos dissimulados e recônditos, grande trabalhador sem horizonte,
medroso, tenaz, esperto, estúpido, o rato é o antípoda psicológico e
moral deste príncipe dos quadrúpedes, deste poeta de pelo, deste artista
de garras, deste sonhador indolente e desdenhoso, que compreendeu a
imensa utilidade de não fazer nada, amigo do sol, das noites de lua, dos
jardins floridos, dos telhados altos e desertos.
Este, quando procura a penumbra e o aconchego, é no
borralho familiar onde o fogo deixou um pouco da sua alma quente e
errante, é entre cobertas moles e cariciosas, é no regaço quieto das
pessoas pensativas, ternas ou tristes.
Acusam-no de ser desamoroso e ingrato. Julgamento
mesquinho. O mal do gato está unicamente em não ser nem servil nem
serviçal. O homem só compreende as afeições no seu tríplice aspecto de
promessa, desejo ou saudade de serviços. (Triste de quem as concebeu
algum dia como um culto e um puro gozo interior, esquecendo-se de que a
vida que vale é a que se processa e corre da periferia do corpo para
fora!)
O gato saboreia melhor do que os próprios donos a fina
flor da humanidade, aquilo que há em nós de mais seleto, e despreza
tranqüilamente o farelo. Por isso é que se apega mais à casa do que ao
habitante, como alguém, de refinado olfato, que preferisse, numa
paisagem, o ar embalsamado por um resto de perfume de flores ausentes.
O homem canta - Home, sweet home!, e vai para a
pândega, a dissipação, o tráfico, as feiras dos negócios, dos vícios e
das vaidades: o gato fica, adorando com recolhida finura o melhor
produto do homem, o melhor retrato do homem melhor, a Casa, a Casa onde
o fogo prisioneiro canta a ária encantatória das coisas perpétuas,
verazes e substanciais, a mesa em torno da qual a família reparte o pão
cotidiano em paz no meio da tormenta, as paredes de onde pendem alfaias
e recordações, as portas em cuja tela de penumbra se enquadraram vultos
amigos que nunca mais vieram empurrá-las, mas parece às vezes que vão
chegar a todo momento, que andam ali perto, ali. - A Casa! A Casa do
Homem, em tudo superior ao habitante que passa, ao hóspede mofino de uns
dias fugazes; ilha de estabilidade, de composição, de recolhimento, de
segurança e de amor, no meio da instabilidade, da precariedade, da
confusão, do desperdício, da angústia e da loucura universal.
O homem faz a sua casa e foge dela; ainda lá dentro, foge
em espírito; não chega a compreender nem a sentir que fez um mundo, um
mundo maravilhoso, para o qual todo o mundo grande, desde tempos
imemoriais, vem acumulando infinitos elementos; um pequeno mundo
sensível e supra-sensível onde a soma dos elementos imateriais é
incomparavelmente maior do que a dos outros, onde cada pedra ou tijolo,
cada móvel, cada quadro, cada retrato, cada canto encerra uma saturação
imensa de humanidade e de vida vivida e vem a ser mais rica em poder
irradiante do que a mais carregada petchblenda...
Mas eu estava em que os gatos não têm aversão aos ratos.
E não têm. O que há é que são antípodas uns dos outros. O bichano vê no
rato um simples mecanismo, bom para esporte e brinquedo.
É verdade que das brincadeiras resulta muitas vezes o
óbito da presa. Mas é natural que um gato não tenha idéias claras acerca
dos sofrimentos e da morte.
Nós, que somos gente, ou tendemos a isso, apenas sentimos
que há dor no mundo por experiência própria e individual, e nada nos
custa como acreditar que a experiência dos outros possa coincidir com a
nossa.
Por isso o rancor é dez mil vezes mais comum do que a
piedade; além de que a piedade é freqüentemente uma forma de rancor
fatigado.
Quanto à morte, pode-se muita vez duvidar que seja motivo
de mágoa para algum dos que ficam; ao passo que se tem a certeza de que
é festa para os herdeiros, pão para os gato-pingados, rócio para várias
indústrias, e espetáculo para os vizinhos do falecido.
Tive ganas de ver se a dona quereria vender-me o gatinho,
mas deteve-me a dificuldade do transporte. Se eu o levasse na mão até à
secretaria, rir-se-iam de mim pelo caminho e na repartição. Carregá-lo
no bolso, impossível. Mandá-lo levar a casa, despesa. Eu neste ponto me
pareço muito com toda a gente: sou comodista e econômico em matéria de
prazeres do coração.
Desisti da compra e consolei-me com os poetas que amam
damas imaginárias, sob o pretexto de que as de osso e carne são
imperfeitas, mas na realidade por uma questão de economia: pus-me a
pensar amorosamente num gato ideal. E desfiei de memória aquilo de
Beaudelaire:
Viens, mon bon
chat, sur mon coeur amoureux,
Retiens les griffes de ta patte.
Logo o enxerguei junto de mim, grande, perfeito,
maravilhosamente gato, lambendo a mão com a língua rósea, o olhar
tranqüilamente perdido no borborinho das ruas, e como que a repetir
aquela sentença grave de Eurípedes: "Zeus aborrece os homens atarefados
e os que se agitam demais".
O gato é uma das mais completas expressões de beleza
dadas ao mundo.
Completas? Digo mal.
Nem nós
esgotamos todo o seu potencial, nem o próprio acabou de se realizar.
Como os colibris, as rosas e os periquitos, é uma obra-prima, feita pela
Natureza no caprichoso intento de mostrar como aquela que faz montanhas
e mares é também capaz de compor coisas de paciência, de fantasia
graciosa e de gosto quintessencial.
Desconfio, porém, às vezes, que não foi a Natureza, mas o
próprio Deus quem modelou esses objetos com os próprios dedos, para
humilhar o homem e divertir os anjos. E que os anjos os deixaram cair à
terra por descuido, ou para os destruir. - É talvez por isso que os
periquitos têm a cabeça achatada, e aquele arzinho de devotos irônicos,
e aquele ânimo desconfiado e áspero que faz com que se irritem e
escancarem o bico recurvo quando os queremos acariciar. De certo, é pela
mesma razão que os gatos conservam essa aura de humana nostalgia que os
distingue, essas atitudes de insatisfação gemente e errabunda, esses
enrodilhamentos imóveis e solitários, com os olhos estanhados,
esfomeadamente arregalados para o ar, como na desesperada esperança de
ver cair alguma traga migalha do paraíso perdido!
APÊNDICE DO GATO
Meu Deus, como a arte de escrever é difícil e como eu
faço bem de não escrever senão para mim mesmo! À medida que vou enchendo
estas minhas costaneiras de almaço, trezentas coisas que eu dantes não
suspeitava, se me apresentam, - pequenos e grandes problemas de
composição e de expressão, de lógica e de verdade, de método e de
maneira. Enxergando-os, palpando-os, sentindo-os bulir sobre a lauda
como insetos descobertos e espicaçados pelo bico da pena, surpreendo-me
de os ver tão numerosos e tão estranhos; e gozo um indefinível prazer: o
prazer de não ser obrigado por coisa nenhuma, a atormentar-me com eles.
Um exemplo de inadvertência galucha: falando de animais
bonitos e nobres, dei a minha preferência, precipitadamente, depois do
gato, ao cavalo e ao elefante. Entretanto, seria tão natural que tivesse
refletido em que os vertebrados, geralmente, são belos e que os há tão
encantadores como aqueles! Tanto mais quanto Remy de Gourmont, nas suas
Dissociações, já o fizera notar.
Na verdade, só há um animal feio, é o homem. O Esporte,
que se aplica em fomentar a beleza física da espécie, tem nesse ponto
fracassado, uniformemente, em toda a parte do mundo. Só apresenta
indivíduos bonitos quando os colheu da natureza. Belos, sempre muito
raros, ele não os revela em maior número do que o simples Acaso. O
aspecto ordinário das suas legiões é desencorajante. - Os esportes
particulares deformam, dando excessivo desenvolvimento a certas
aglomerações musculares. Pensou-se em remediar, doutrinando o atletismo
completo: vão-se com isso criando deformações generalizadas.
Veja-se entretanto um coelho, um veado, uma onça, um
porco-do-mato em condições normais de desenvolvimento e saúde: cada
qual, dentro dos princípios da sua construção respectiva, é uma obra
deliciosa de acerto, de rêussite, de precisão sem sobras e sem
falhas. Surge-nos sem traços de esforço nem de intenção, com a corrente
naturalidade de um descuido! - Conformação e movimento permanecem dentro
de uma lógica infrangível, de uma unidade perfeita, de uma economia
necessária, onde cada coisa tem um valor e entretanto, se engolfa e se
dissimula na totalidade. Nada que estale, bambeie, descaia, descole,
descontinue; um admirável concerto de transições e transformações
simultâneas e sucessivas. O jogo das massas e dos contornos perde-se
fluidicamente em si mesmo. Cada imagem emerge da precedente como numa
espiral de fumo, dissolve-se na seguinte como num caleidoscópio sem
recortes e sem chocalho. Tudo facilidade, afinação, fusão, correnteza,
equilíbrio, tudo aquela suprema simplicidade que é o nome familiar da
complexidade infinita na perfeição.
Bem, mas porque foi que eu cometi esse erro? Porque
estava possesso de Rufina. A imagem da moça do bonde se interpunha entre
mim e os bichos, o som da sua voz golpeava cada momento a membrana
fragílima das minhas idéias, os seus gestos rápidos rebentavam a todo
instante o meu colar de miçangas. Embalde eu protestava que ela era mais
feia do que o elefante, menos perfeita do que uma leitoa. Embalde eu
procurava esquecer, embrenhar-me no meu produto como a aranha no seu,
embriagar-me com esses pensamentos de luxo, suspender-me a essas teias,
atar as minhas arrobas ao vôo dessas borboletas extraterrenas. E, na
verdade, nem agora consigo exconjurar aquele demônio.
UM ROMANCE
Entre os passageiros com os quais freqüentemente me
encontro, pela manhã, há uma bonita mulata, não de olhar azougado, mas
calmo e um pouco triste. O condutor cumprimenta-a com respeito, e trocam
notícias de família. Veste-se com decência e modéstia. Sobe e salta sem
ruído, instala-se no seu canto e não se mexe. Tem as mãos lisas e
mórbidas, os dedos compridos e afusados; as unhas ogivais parecem
recortadas em porcelana. Usa saias pouco acima dos tornozelos. Os pés,
pequenos e arqueados, comprimidos em botins de couro, sob a massa
movediça das saias, têm uma graça hesitante de pássaros timoratos. Será
o pudor dos botins?
Essa criatura acabou por me interessar. A freqüência das
suas viagens, a constância dos seus modos, a sua beleza um tanto fanada,
o seu donaire involuntário de juriti meio desplumada e taciturna, a sua
familiaridade familiar com o condutor, enfim o contraste entre o
abafado concerto da sua pessoa e as mulheres brancas e chiques de braços
e pernas ao léu, tudo me intrigava. A custo obtive umas informações
vagas. Ontem, finalmente, encontrando-me com o prático de farmácia, o
homem do Infinito, ouvi dele a informação cabal.
"Pois não a conhece? Não conhece, deveras, a Florinda?" -
Contou-me toda a história de Florinda, a mesma história de tantas
outras, tantas outras Florindas, e finalizou: "Hoje, uma senhora. E
ainda bonita, não viu? Costura fora de casa. É companheira de um
empregado aposentado dos correios, um casca, velho, reumático,
bravo como um gato sarnento. Serve-lhe de irmã de caridade, de
cozinheira, de mãe e de filha. E até de armazém de pancadas."
É aquilo de Amiel: Pas um brin d'herbe qui n'ait une
histoire à raconter, pas un coeur qui n'ait son roman..., que é
aquilo mesmo de Emerson: "Todo indivíduo tem uma história que valeria a
pena conhecer, se ele pudesse contá-la, ou se nós lha pudéssemos
arrancar". - Cada um carrega em si um epítome do drama humanal, tecido
de trevas e de lumes. E cada um nos dá uma sensação de humanidade
imensa, como cada onda pode dar a vertigem do abismo.
LENÇO PERDIDO
Quando eu acabava de saltar do bonde, esta manhã, ouvi
atrás de mim um pchiu!, voltei-me, e um passageiro, homem do
povo, esticando o braço até no meio da rua, me apresentou um lenço que
ficara no banco. Apalpei os bolsos, não me faltava lenço nenhum. Tive
pena de que o objeto não me pertencesse, porque pareceu-me que sem isso
o meu agradecimento não encaixaria perfeitamente com a amabilidade do
homem. Por um instante, pensei em aceitar o lenço, mas prevaleceu o
austero dever, tirei o chapéu, agradeci, e fui-me. O homem ainda me
pediu desculpa e ficou a olhar em redor, a ver se aparecia o legítimo
dono.
Segui o meu caminho a fruir esta agradável impressão -
que ainda há muito sentimento sadio e cordial por este mundo! A
honestidade do ato, valha a verdade, não era grande. Os objetos
transviados são quase sempre restituídos, quando de pouco importância.
Mas a galantaria do gesto! Linda coisa, a galantaria. A honestidade,
afinal, é uma obrigação. Tem um princípio passivo. É uma astúcia do
egoísmo socializado, que evolveu para virtude, como o réptil se fez
pato. Mas a galantaria é soberana: impulso livre, ação de luxo e
primor, dom incompulsório, fantasia espontânea do coração, scherzzo
garboso e supérfluo da vontade senhora de si mesma. - O excesso da
medida justa vale a medida inteira.
Ia eu a pensar estas coisas aprazíveis, num passo
vagaroso de quem vê que carrega borboletas no ombro ou no
chapéu e não quer afugentá-las. Ao entrar num café, dei com o homem do
lenço na minha frente. Notei que tinha o nariz vermelho. Sorriu-se,
descobriu-se e, inclinando a cabeça para um lado: - "Seu doutor, não tem
aí uns nicolaus que lhe sobrem, para eu tomar um pingado?" Dei-lhe os
nicolaus.
CANUDO-DE-PITO
A manhã, hoje, era uma festa, e o meu bairro, todo em
manchas aéreas e frescas de paredes claras, telhados vermelhos, jardins
verdes, morros azulegos e violáceos a derreterem-se na distância como
caramelos, me divertia como uma paisagem refletida numa bola de cristal.
Eu não tinha senão olhos, enquanto o bonde corria. "Corre mais devagar,
bonde do diabo! que assim como vais se me atrapalha tudo. - Corre mais
depressa, bonde do inferno! que assim lentamente a desfilada das coisas
mal se liberta da rigidez e do peso."
De repente, do meio da grande nuvem escura de um velho
bosque, saltou como de um capulho, uma nuvem amarela, a fronde
arredondada de uma árvore de ouro. "Olhe, que lindo! "(disse eu ao meu
vizinho mais chegado, o Sr. João Cesário da Costa, capitalista, quarenta
e oito anos). "Veja aquele ipê!" O meu vizinho deu uma olhadela e
informou friamente: "Canudo-de-pito".
O fato de se tratar de um canudo-de-pito, e não de ipê,
madeira de lei, influía decisivamente na reação da sua sensibilidade
ante aquele quadro fugente e alucinatório. O mundo, para ele, reduziu-se
a uma coleção de conceitos, ou a um dicionário ilustrado. Costa não foi
composto para comunicar diretamente com as coisas, no absoluto
momentâneo e original da sensação, nesse largo e surpreendente aquém da
idéia e do pensamento, mais maravilhoso e menos triste do que o Além por
onde vagam os Fabianos.
A civilização cada vez mais afasta os homens do contato
imediato e regenerativo das coisas sensíveis. Só as enxergam de longe e
de viés, através dos tipos, modelos, noções, definições, poeira brumosa
de abstração, sob a qual a intimidade fluente e jovial do mundo se
desvanece, e a alma encantada da criação foge como um Ariel zombeteiro.
Diante de uma paisagem, não vêem a paisagem, mas uma coleção de objetos
e de efeitos conhecidos e explicados, formando um conjunto visual de
acordo com meia dúzia de normas laboriosas. Diante de um ser vivo,
desarticulam as partes, (como se um ser vivo, como se as coisas tivessem
na realidade partes) examinam, medem, subdividem, espedaçam, e
cada ato desses decorre de uma idéia feita, de um critério preconcebido,
de uma prefiguração normativa, de uma série de operações mentais
anteriores ou presentes. A grande descoberta instantânea tornou-se
impossível. O delicioso milagre só se revela a quem confia,
franciscanamente, na luminosa estupidez do seu instinto e dos seus
sentidos, e ingenuamente se lhes abandona, como o pássaro se deixa
librar nas suas asas.
Por isso, um imenso repositório de beleza jaz inexplorado
e ignorado no mundo e na vida. Quanta mulher feia por definição não é
por natureza uma coisa formosa! Quanto rosto irregular, escabroso,
macilento, não guarda, um poucochinho mais além desses acidentes,
dissimulado como um seixo branco no fundo de um rio, uma harmoniosa,
surpreendente disposição fundamental de linhas, de relevos e de
contornos! E a quantidade de beleza que não se vê porque o objeto em si
mesmo é desprezível ou repugnante! Um charco é uma imagem intelectual e
oratória de dissolução, de paralisia, de morte, de decadência; é um foco
pestilento, uma chaga aberta na terra, tapada de moscas, de vermes, de
batráquios: um horror "por conseqüência". Uma cobra - puh! medonha!
Entretanto, olhemos para isso tudo como uma criança, com a atenção e a
curiosidade nuas de uma criança que não conhece nada, não sabe nada, não
teme nada. O charco talvez nos apareça, cheio de azul, como um buraco da
terra sobre um abismo sem fundo, todo lavado de claridade e povoado de
numes joviais. A superfície da água, aqui lisa, ali borbulhante, além
com placas e refegos de nateiro grosso, ora arrepiada pelo vento, ora
quebrada por um bicho que se mexeu, toda betada de sombras movediças e
de reflexos morrentes, golpeantes, explosivos, filiformes, maculares,
difusos, - como se andasse ali a dissolver-se uma taxada de
luminosidades, de negruras e de cores, pode ser um retalho fresco e
maravilhoso de beleza arrancado ao monturo da realidade intelectiva.
A cobra, essa é positivamente um objeto encantador. Vê-la
enrodilhar-se é apreender a nitidez perfeita da imagem, aliada quase
paradoxalmente à cambiante contínua. Vê-la caminhar é ter a impressão de
um liquido que se solidificou conservando a propriedade de escorrer.
Vai tão sutil e estreitamente adaptada aos altos e baixos
do terreno, que se diria que a cobra não existe, é um simples movimento
ondulatório do solo, um fragmento funiforme de sismo, uma estilha
perdida e deslizante de terremoto. Esse corpo sem membros parece também
não ter ossos, e apenas se percebe que é formado de anéis ou forma anéis
à medida que se move, e que esses anéis se desmancham, mal se desenharam
em outros que vão desvanecer-se de igual maneira: um devaneio maluco
objetivado.
É um pau que se fez cipó e um cipó que parece querer
voltar aos enlaces e aos balanços com as ramas. Irritado, arroja o bote
com a fulminante rapidez e a fatalidade mecânica de um galho seco
atirado pela raiva súbita da rajada. Como se tivesse barbatanas e asas
invisíveis, bóia, nada, voa pela superfície da terra, e, quando se diria
que lhe vai fugir, mergulha por ela dentro.
Vejamo-la em repouso: é uma obra esquisita de tapeçaria,
com desenhos tão bem arabescados e cores tão bem distribuídas, que os
nossos olhos se espreguiçam como ela e, como ela o nosso prazer se
enrodilha e se esquece nas suas próprias roscas, e sonha.
Disse Boileau, sentenciosamente, como sempre:
Il n'est pas de
serpent ni de monstre odjeur,
Qui, par l'art imité, ne puísse plaire aux yeux,
- mas quais são os monstros odiosos para os meus olhos?
não têm ódios nem amores. Tudo é natureza, tudo é espetáculo, tudo é
necessário, tudo é expressão da multiplicidade sem fim na unidade
substancial do infinito mistério e da infinita beleza.
No meio desse infinito, que nos cerca, nos trespassa, nos
convida, vivemos um tanto à maneira daqueles dormentes estatelados nas
ruas, nos palácios, nos pátios, nos jardins, nos mercados, nos templos e
nos bosques do conto oriental. Príncipes, vizires, xeques, mercadores,
ganhões, - todos alheios à magia do espetáculo colorido e móbil do
mundo, eles próprios mero espetáculo para os olhos de um triste fugitivo
e da sua amorosa e assustada companheira.
RUFINA
Se eu fosse Rufina, hoje recostado no banco do bonde,
enquanto um céu muito lavado se arqueava sobre todas as coisas, e um
grande desejo de amor e ventura abrolhava nas almas, que teria feito?
Teria pensado naquele passageiro desconhecido que me arrancara aos
braços da morte; ter-me-ia lembrado com infinito carinho daquele homem
tão corajoso e tão tímido, e teria refletido que por força ele devia ter
um grande coração e uma alma adolescente.
Pensaria, outrossim, que ele provavelmente era solteirão,
pois os homens casados não são assim tão solícitos, ou pelo menos tão
tímidos com as damas. Pensaria que ele devia viver só e melancólico,
habitando uma pensão inóspita, ou uma casa de família onde ansiasse
rodeado de intimidades e ternuras que não eram para ele. E tanta coisa
mais!
Entretanto, quem sabe lá o que Rufina àquela hora
pensaria! Pensaria nalgum namorado vulgar, suavemente grosseiro e
agradavelmente chato. Ou talvez estivesse com ele, mãos nas mãos, olhos
nos olhos. Esta idéia me perturba e me desalenta. Aquela mão rósea e
mole ficaria tão bem na minha, ossuda e pilosa! Aquele braço torneado
encaixaria tão deliciosamente ao redor do meu pescoço! E eu me sentiria
tão ufano e pacificado, como um gato no borralho, ao calor do seu corpo
e do seu coração! Poderíamos estar aqui juntos, ela bordando
tranqüilamente um pano de mesa, uma almofada, ou lá o que lhe desse, e
eu, quieto, a esta secretária, bordando as notas felizes de um memorial
de venturas brandas, a interrompê-lo de quando em quando para dar um
ósculo à minha gata.
Mas aquela pestinha é lá capaz de sonhar por esta mesma
partitura!
LOUVA-A-DEUS
Tivemos hoje, à ida, um inesperado companheiro de viagem.
Não sei quando nem como se aboletou no carro; só foi notado ao levantar
o vôo do chapéu de um cavalheiro velho para ir pousar no seio de uma
senhora gorda, copiando a abelha da pequena ode de Anacreonte. A senhora
gorda enxotou-o, num gesto de susto muito gracioso, como convinha ao
sexo. O bicharoco, executando um rápido vôo plané, foi aterrar no
ombro de um rapaz elegante. Este se apresentava para lhe desfechar um
tiro com o dedo médio armado em aríete, quando ele se passou para as
costas de um homem distraído, onde se deixou e o deixaram ficar.
Uma vaga de hilaridade desencadeou-se no bonde ao toque
das asas daquele forasteiro. Todos lhe acompanhavam as evoluções com
sorrisos. E alguns manifestavam na cara uma curiosidade lorpa, como se
estivessem diante de um invento completamente novo. Porque essa
hilaridade? Problema complicado e escuro. Lembro-me de Bergson, mas não
vejo como aplicar ao caso a sua teoria. Até nova ordem, penso que o riso
proveio apenas de que o bonde não é veículo para passageiros dessa
classe; de que o lugar habitual onde imaginamos o louva-a-deus não é o
bonde, não as ruas ladeadas de prédios, calçadas de pedras, atravancadas
de carruagem e caminhões, riscadas de fios de metal e pontas de cimento,
- e de que os passageiros sentiam, ou melhor, não sentiam, mas tinham
necessidade de deixar ver uns aos outros a impressão de desconcerto ou
desconveniência que o transviado lhes produzia.
De fato, a mecânica do riso assenta no irreprimível
instinto de comunicação próprio do homem. Como o pranto, o riso é uma
forma de linguagem, em grande parte inconsciente, destinada a comunicar
o incomunicável, a exprimir o inexprimível, o que não se pode, não se
sabe, não se quer ou não se pensa exprimir por palavras ou por gestos
que lhes eqüivalham. (Se é certo que rimos e choramos a sós, também é
certo que falamos conosco mesmos - e todo pensamento é diálogo interior
- sem que por isso possa negar-se o caráter eminentemente, social da
linguagem articulada, cujas origens supõem fatalmente troca, relação
entre indivíduos, fixação coletiva de sinais sonoros). A mímica do
pranto e do riso nasceu provavelmente da necessidade de se solidarizarem
e coligarem os ânimos, na horda primeva diante do perigo, da
contrariedade ou do benefício comum que iam encontrando pela frente.
Seria um elemento de coesão sublimável. Uma circulação rápida de
psiquismo coletivo. Com o tempo, isso se teria refletido e entranhado no
indivíduo, até assumir uma sorte de vida inferior, independente. Mas a
inconsciência do seu mecanismo interindividual aí está para lhe atestar
as origens gregárias. - Somos ovelhas que se vão apenas destacando do
rebanho por ligeiras diferenças de pêlo, de dimensões ou de andadura;
mas a alma da ovelha pertence mais ao rebanho do que a ela própria.
E se tudo isto estiver errado? Não importa. Para um
simples passageiro de bonde, as idéias são como os bilhetes de loterias:
é preciso jogar em muitas, para ter probabilidade de acertar em alguma.
E ainda o melhor é não acertar. Criar fama de rico é uma das mais graves
maçadas que possam cair sobre quem não necessite de tanto numerário.
Responsabilidade social muito pesada. Admiradores. Compromissos.
Facadas, amabilidades, invejas, intrigas, amofinações... Que bom
travesseiro, a pobreza!
A mim, o que me fez sorrir diante do louva-a-deus foi o
riso dos outros, tão saudavelmente natural e estúpido. E foi também o
próprio louva-a-deus, natural e bobo como esse riso.
O louva-a-deus é talvez um simples broto que de repente
se animou, mexeu as suas folhazinhas tenras mal transformadas em asas,
saltou, olhou o mundo em torno com os dois olhitos esbugalhados que se
lhe acabavam de pôr - e esqueceu-se do papel que vinha representar. Todo
trangalhadanças e todo indeciso, na sua irrepreensível casaquinha verde,
é como um mascarado tanto que não tem coragem de ir ao baile nem sabe se
há de voltar para casa, e fica a estatelar-se macambúzio pelas esquinas.
Desconfio agora que o louva-a-deus talvez fosse um broche
que um artista primitivo, das cavernas ou das palafitas, modelasse,- no
barro verdengo de algum açude, dando-lhe, por inabilidade e por
fantasia, uma feição de monstro quimérico e grotesco. Um dia, a senhora
Natureza, num momento de nervos, confundindo-o com os seus modelos
infelizes e inacabáveis ter-lhe-ia comunicado o sopro da vida,
lançando-o fora; "Enfim! sume-te, diabo!"
Outra hipótese. Esse e, com esse, muitos bicharocos
parecem ter sido produzidos pela artífice quando ela ainda não podia
desprender a imaginação dos liames do concreto. A minhoca teria sido
tirada de uma raiz de tubérculo. A serpente, de uma haste de
foraminífera. O besouro foi talvez copiado de um caroço de mamona. O
elefante originar-se-ia de uma pedra viajada, do período glaciário, quer
por acaso se tivesse vindo suster em cima de outras pedras menores e
espaçadas. O lagarto, de um estilhaço de pau nodoso rachado pelo raio.
Os peixes não teriam vindo da sugestão de um cardume de folhas polpudas
caídas de grossas plantas aquáticas? E o morcego? O morcego foi de certo
imitado de um pequeno guarda-chuva esfrangalhado pelo vento. (Contudo,
não estou seguro da existência pré-histórica do guarda-chuva).
Só depois, muito depois, a Artista se libertou das formas
anteriores para as inventar novas e mais perfeitas - o galo, esse objeto
de luxo, o cisne, esse sonho de paz e perfeição, o gato, essa pequena
mistura de inocência e de malignidade, a mulher... Ai, a mulher!
complexa obra de fantasia terna, cruel e humorística: cisne, galinhola e
gata. Rufina, meu amor, eu adivinho que tu és isso tudo!
Tive também um acesso de ternura pelo coitado do meu
louva-a-deus, perdido entre paralelepípedos e almas, na cidade poeirenta
e dura, longe do fluido verdor fresco das moitas e dos aguaçais. E
lembrei-me do meu tempo de menino, lá muito longe (muito longe, muito
longe, num outro mundo que já nem sei se existe!), onde o louva-a-deus
se conhecia por cavalinho de Nosso Senhor e onde me divertia com
outros pequenos a caçá-lo, para o ver fazer a sua oração de mãos postas
e para lhe amarrar um cordelinho a uma das patas traseiras.
Vi os agros lavrados, grandes remendos postos ao manto
das lombas, com estrias roxas de terra e bordados verdes de planta nova.
Vi a vegetação mole e tufada dos grotões por onde a água corria e
ofegava, como rapariga surpreendida nua. Vi o empastamento
violáceo-azul-fumaça dos morros distantes. Vi o risco sangrento do
caminho velho através da solidão virgiliana dos pastios. Senti o cheiro
salubre das macegas. Ouvi ranger a velha porteira pesada e pensa, ao pé
do valo esboroado, entupido de gravatás, à sombra do pau-d'alho fechado
e baixo como uma cabana triste. Ouvi ecos errantes de vozes grossas a
chamarem pelo gado, de cantigas de lavadeiras no córrego, do jorro da
bica a referver no esqueleto negro da roda de água. E havia no meio de
tudo isso, ainda mais distante, mais real e mais irreal, mais vivo e
mais sonhado, um toque fremente e forte de buzina de caça, lá pelas
barrocas e pelos cerrados desertos, um toque ululante; ansioso,
resoluto, que estraçalhava o silêncio com ímpetos heróicos e
melancólicos, de desafio e de saudade.
Transpassou-me a alma hereditária de lavrador
desenraizado um sentimento agudo de solidão e de incomunicabilidade, e
fiquei a olhar para o louva-a-deus na ânsia com que alguém, perdido em
terra estrangeira, se poria a amar de longe um compatriota com quem
houvesse topado por acaso. (Assim as nossas ternuras vêm sempre acabar
em nós mesmos. Aí, senhor duque de la Rochefoucauld!)
Viajava a meu lado um moço atochado de conhecimentos
exatos. Disse-me, com certa indignação, que o louva-a-deus, mante
réligieuse, é um dos seres mais sinistros da criação viva: a fêmea
tem o indelicado costume de devorar o incauto esposo logo no festim de
bodas (ao contrário portanto de outras que comem os seus aos bocadinhos,
a vida inteira).
Eu já sabia disso pelos Souvenirs do Fabre; mas o
moço tinha prazer em me instruir, e eu não lhe quis aguar essa
satisfação não de todo inocente, mas tolerável. Não lha tolerei por
generosidade, mas porque não queria jogar com ele a cena dos dois
pedantes que se travam de sabenças.
Tenho pavor a essa espécie de gente, (aliás estimável,
posto que daninha) a essa espécie de gente que vive a verter sabidelas
decoradas por todas as juntas, como pipotes de melado em que não se pode
pôr o dedo sem sentir o pegajoso das escorrências. São sucursais vivas
da tipografia. São jornais parlantes, cheios de reportagens, de ciência
feita, mas sem artigos de fundo e sem rodapés literários. A ciência,
para eles, é o refugium, desde que se reconheceram anêmicos
de bom senso, de imaginação, de sensibilidade e privados dessa divina
capacidade de simpatia cósmica, que faz as almas verdad.... Mas não vale
a pena repetir Nietzsche.
SANFONA
Tivemos hoje concerto de sanfona durante a viagem da
tarde. O homem tocava bem, e tocava de tudo.
Amo de coração estes artistas humildes, que têm a paixão
da arte, com o mínimo possível de cálculo, ou sem nenhum. São, na sua
imperfeição, mais artistas do que muitos outros mais hábeis, mais
cultos, mais refinados: não procuram na arte senão o seu prazer - sem
pensar em proveitos; e exercem-na com a simplicidade e a inocência de
quem pratica os atos mais ordinários da vida. Dão generosamente e
anonimamente o que têm, o bom e o mau, o certo e o errado, sem presunção
e sem torturas, e vão seguindo o seu caminho. Quem gostar, goste à
vontade; quem não gostar, perdoe; e, se não quiser perdoar, é o mesmo.
Que boa, alegre e higiênica maneira de ser artista! Durante vinte
minutos, o homenzinho da sanfona foi o único que veio deitar um pouco de
alegria purificadora na alma fechada e amarrotada de quarenta e tantos
passageiros.
Pela minha parte, Deus lhe pague, frater
desconhecido!
EMBRIAGUEZ
Viajou hoje no bonde um homem embriagado, meio dormindo.
Quando chegamos ao ponto, no centro, todos descemos, e ele ficou. O
condutor foi interrogá-lo, ver porque não descia. Sacudiu-o. "Ó amigo,
já chegamos! Ó amigo..." O bêbedo abriu um olho, ergueu a cabeça, e
deixou-a tombar de novo sobre o peito. "Ó amigo! então não desce? Ó
amigo..." O ébrio tornou a abrir um olho, fixou-o no condutor, e
murmurou: "Toca o bonde." - "Mas olhe que tem de pagar outra passagem! Ó
cidadão! está ouvindo? Tem de pagar outra passagem!" - "Sim!" berrou o
homem. "Sim! eu pago outra passagem! Toque essa porcaria! Siga! Eu pago
quanto você quiser. Olhe, tome!" E estendeu ao condutor uma prata de dez
tostões.
Quando o condutor lhe restituía o troco, o beberrão, já
manso, fez um gesto trêmulo de repulsa amigável. "Guarde para você,
guarde lá... ouviu? Mas olhe aqui, condutor, mande tocar mais devagar
nas curvas... sim? É só o que eu lhe peço. Mais devagarinho nas curvas!"
E o ébrio recostou-se, acomodou-se, cruzou as mãos sobre os joelhos e
fechou os olhos, como se estivesse na mais fofa poltrona, debaixo de um
teto amigo.
Explicou então o condutor porque é que ele queria menos
rapidez nas curvas: é que já havia levado um meio trambolhão do bonde
abaixo, numa delas. Assistiam à cena dez ou doze curiosos, que muito se
divertiram. Nunca há maior divertimento do que ver um homem em situação
degradante, e "risível", que por via de regra é risível porque seria
própria para entristecer.
E porque o estado de bebedeira é degradante? Já sei: é
pela mesma razão por que é risível, é que diminui o homem ex abrupto,
o reduz à condição de autômato, de um autômato e amarfanhado. Mas há
tanto outro gênero de embriaguez que passa como se não fosse degradante
nem ridículo! Por que?
Os efeitos são os mesmos: um homem sem a posse completa
de si próprio, sem sequer essa espécie de dignidade animal que consiste
na harmonia espontânea dos movimentos com as "finalidades" naturais, da
estrutura; um homem que se torna inconveniente ou se torna perigoso, que
tem de ser aturado nas suas importunações, ou carregado como uma coisa,
ou conduzido como um animal, ou que extravasa, dá escândalo e faz
desordem.
Há a bebedeira de morfina, éter e similares, e das
paixões políticas, profissionais e confessionais, a da ambição doentia,
a do exibicionismo patológico; há a embriaguez moderna da atividade
exacerbada, que, como todas, enfuria, desfalca, mecaniza e deforma a
natureza do homem. E há a embriaguez da sensualidade que se desdobra
nesta epidemia universal de ostentação, de festas e de fantochismo
dançante. E há a embriaguez do automóvel, embriaguez típica.
O paciente começa por tomá-lo aos poucos, e às vezes
arrenega, às vezes duvida entre si se é bom ou se não será. Mas volta, e
prova mais uma vez, mais outra, e mais outra, aumentando as doses. Para
encurtar, não tarda que seja um viciado. Torna-se um automobilimaníaco.
Anda quase constantemente automobiliagado, com períodos lúcidos de mais
em mais breves, em que trata de seus negócios e participa da vida íntima
de sua família.
Quando está em crise, empalidece, enrija-se, tem os olhos
parados, o lábio descaído e branco. A pequena velocidade é a fase alegre
e brincalhona: ele pirueteia, ziguezagueia, faz gracinhas com a máquina,
assusta o transeunte pacífico, dirige pilhérias aos guardas. A
velocidade média é a fase da provocação e do "leve o diabo". A
velocidade máxima média é o estado delirante: a consciência acaba de
desaparecer, desaparece tudo, ou tudo se reduz a um sonho agônico, em
que a personalidade tem a abafada impressão de se libertar das prisões
materiais e voar no vento e na luz.
Embriaguez detestável como qualquer outra. Mais do que
qualquer outra produz vítimas, que não são unicamente os enfermos,
conforme todos os dias revelam as crônicas. E, como muitas outras, deixa
suas heranças à descendência.
Entretanto, não se cogita de uma lei seca para esse
flagelo.
A verdade é que o homem é um ser que se embriaga. Não
importa a maneira: o essencial é embriagar-se. Morfina, éter, coca,
ópio, vinho, grappa, whisky, gin, vodca, cerveja, automóvel,
jogo, esporte, dança, negócios, arte, política, notoriedade, glória,
ódio, tudo lhe serve, contanto que lhe permita, conforme os
temperamentos, sentir a falsa plenitude de um desaforo interior, embora
à custa do desbarate e da quebra do rico, vário e harmônico plano
natural da construção humana.
Dizia Tolstói que o homem procura no álcool e no tabaco o
entorpecimento do Eu consciente. E é verdade. Mas o álcool e o tabaco
não são os únicos mananciais dessa felicidade mutilante. Há-os em barda
por aí, todos produzindo efeitos exteriores análogos, todos
proporcionando o mesmo resultado interior, quer se trate de um cigarro
ou de um trago, quer de um veículo atirado como um buscapé ou de uma
paixão ou preconceito absorvente, que se cultiva: reduzir o campo dos
cuidados, abafar uma porção de vozes que balbuciam dentro de nós,
prevenir um mundo de preocupações e de angústias possíveis, apequenar a
nossa humanidade, pôr entre nós e o cariz oceânico da vida um véu que o
esfume e nos tranqüilize.
Não nos ríamos do bêbedo, ríamo-nos de nós. Todos temos o
nosso copo, e todos parecemos obedecer ao conselho de Omar Kayyám:
Sonha que já não és, e sê feliz.
És
que? Homem, cá para o nosso caso.
BOA PROSA
Boa prosa, o Antônio Palhares. É curioso como há
indivíduos inteligentes, perspícuos e engraçados, perdidos na multidão
que não aparecem nas crônicas impressas, nem nas volantes e sonantes da
gente que se conhece. De repente, surde-nos um da obscuridade e da
indeterminação do vasto mundo que desdenhamos e ignoramos, - e é um
bicho de compreensividade, de senso, de espírito! Palhares é assim.
Conversei com ele hoje pela manhã, e nem sei dizer como
me divertiu. Valeu por um livro novo que eu abrisse e folheasse, vendo
as gravuras, o índice, os títulos de alguns capítulos, alguns relances
de páginas. Quanta novidade, quanta frescura, quanto inesperado, e
também quanto sabor de sinceridade libérrima e despreocupada, nos seus
dizeres de homem sem galeria presente nem futura!
Queixei-me a Palhares dos inconvenientes da notoriedade.
Não por mim, que sou um obscuro chapado e contente, mas por um amigo
meu, que é uma espécie de terça parte minha, o qual muito tem sofrido
por via desse flagelo. O rapaz não pode mais isolar-se, meter-se
consigo, perder-se na fecunda anonímia multitudinária que lhe permitiria
o descanso, o recolhimento, a respiração livre, a remodelação dos
hábitos, a cura das feridas sempre abertas pela esfregação mundana: é um
escravo aflito e amarfanhado das relações, das amizades, dos
compromissos, das idéias que outros formaram a seu respeito, das
solicitações e dos estímulos que por isso lhe vêm de todos os lados; e
então padece, e geme, e desespera, porque desejaria romper com o seu
passado, deixar de ser o homem frívolo, o homem vento, o homem-inundação
que tem sido, para ser um homem concêntrico e dono de si.
Palhares ouviu-me, ouviu-me, e, afinal, perguntou:
- "Mas esse moço é deveras uma inteligência sagaz, ou é
uma dessas grandes inteligências bobas que há por esse mundo?"
- "Sagacíssima."
- "Pois não parece. Seria tão fácil libertar-se,
isolar-se!"
- "É o que se afigura à primeira vista."
- "Precisa dos outros, efetivamente, para viver?"
- "Não; isso, não; tem a sua independência material bem
segura."
- "Então, não compreendo. Por que não se retira?"
- "Impossível. Relacionadíssimo. Cheio de laços, que não
se dissolvem senão quando novos laços os submergem: um homem que se
procura, se aprecia, se quer, se disputa, se admira. Encantador. Como
romper? Como ter a energia de quebrar brutalmente esses laços? Como
repelir, quando se tem um coração brando, uma revoada de carinhos e
solicitudes que nos cerca e nos assalta?"
- "Não compreendo. Para um homem se isolar, não há
necessidade de movimentos bruscos, nem de fuga. Para fazer o vácuo em
redor de si, gradualmente, docemente, não há senão isto: ser bom."
- "Mas ele o é. E depois, ser bom é mais um motivo para
criar afetos e dedicações em redor de si."
- "Espere. Distingo. Ser bom, de uma bondade pedestre e
regular, de fato, é um meio de criar afetos e dedicações em redor de si.
Não é dessa bondade prática e hábil que eu falo. Eu falo da bondade
íntima, profunda, plena e sossegada, que procura o bem nas próprias
raízes do pensamento e da vontade, de forma que o pensamento e a
vontade, quando se manifestam, já se manifestam como conseqüências
exteriores, mortiças, frias, aguadas e, dir-se-ia, indiferentes de uma
grande realidade latente e central que não cura de exterioridades.
Compreendeu?"
- "Mais ou menos. Quer dizer uma bondade sentida,
consciente, feita de compreensão e de piedade, mas que não tenta
esforços por se mostrar e por atuar cá fora. Porque sabe talvez que toda
exteriorização é espetáculo e todo espetáculo perverte."
- "Mais ou menos isso!"
- "Mas por que pensa que aí estaria o meio de
libertação?"
- "Ora, essa! meu amigo! Pelo que vejo, não conhece os
homens. Os homens só nos avaliam, nos pesam, nos apreçam pelas nossas
projeções exteriores. E essas projeções, para terem valor, se hão de
articular com as necessidades, os desejos, as conveniências, as
aspirações dos que nos rodeiam. Valem pela soma de utilidade e de
cumplicidade que levam consigo.
Mas um indivíduo realmente e simplesmente bom é o mais
desvalioso dos homens. É talvez uma árvore frutífera, mas que produz
frutos quando é sazão, e fora disso não produz mais nada; ali está, no
seu lugar, quieta, sem movimento, sem iniciativa, sem préstimo, sem
solicitudes, sem graça.
Apenas dá sombra. Uma sombra igual para todos. Mas que
importa aos homens uma árvore que dá sombra! A sombra aproveita-se,
quando aderga, goza-se, saboreia-se, mas não se tem nenhuma gratidão
para a planta equânime que não no-la reservou para nós, que a dará ao
primeiro vagabundo que a procure. Assim, a árvore de boa sombra vive
realmente isolada, cercada por uma densa muralha de impenetrabilidade
própria e de alheia indiferença."
"Diga ao seu amigo que faça isso."
Palhares sorriu, pôs um confeito na língua e, a remexê-lo
na boca, perguntou:
- "Quer jantar comigo?"
- "Obrigado."
- "Sem cerimônia. Temos hoje lá em casa um peixe que me
mandaram do litoral, um esplêndido robalo. Presente de um amigo."
- "Tem amigos amáveis."
- "Mas, naturalmente. Prestei a esse um serviço de grande
importância, que só eu estava em condições de prestar."
- "Gratidão, nesse caso."
- "Qual!"
- "Esperança de novo serviço..."
- "Talvez"
- "Afeto humano!"
- "Afetos verdadeiros e sólidos! Passam depressa, nada
mais fugitivo, não há dúvida; mas verdadeiros e sólidos porque se firmam
na realidade viva das relações úteis. Não há outra. Dentro da vida, da
vida efetiva, da vida que se vive, não há outra. É isso. É assim. Mas
quer ou não quer comer o bom peixe do meu amigo?"
RUFINA
Tornei a ver a minha Rufina, afinal.
Corria eu os olhos pelos passageiros, com essa
curiosidade vaga, sem garra nem asa, que nos resta nas horas de fadiga.
Vi num banco de trás o prático de farmácia, com um livro de Allan Kardec
sobre os joelhos e a fazer gracinhas a uma criança, cuja mãe era uma
guapa mocetona. Vi o simpático Berredo, inimigo da Medicina, médico
amador. Benzi-me em espírito com a canhota, e desviei os olhos: dei com
eles num banco todo ocupado por mulheres idosas e feias, não sei se mais
idosas do que feias, e tinham os cabelos entre o grisalho e o branco
amarelado. Mas a velhice é uma coisa venerável. Contemplei aquelas caras
a ver se conseguia extrair de alguma delas a imagem reconstituída de uma
beleza decomposta. Não o consegui. Teriam talvez uma espécie de beleza
interior. Mas por que então não se revelava cá fora ao menos como o lume
vermelho e mortiço de um forno velho?
Pus-me a passear os olhos pelo tejadilho, pela rua, pelas
pontas de meus dedos. De repente, quem havia de descobrir! Lá no fundo,
sentadinha entre uma preta gorda e um bigodudo vendedor de loterias,
Rufina! a própria, a autêntica, a única, a olhar para mim, sorrindo como
antiga conhecida - a boa criatura! Toda ela era uma só imagem de lindeza
una e vibrante como uma interjeição.
Trajava de branco e tinha uma gola alta que lhe dava ao
pescoço, ao ombro e à cabecinha redonda um quê dessa graça aconchegada e
sólida, que se encontra nas frutas perfeitas e nos legumes viçosos.
Mergulhei-me na figura de Rufina.
Nisto, veio de lá o prático de farmácia, marinhando pelo
estribo. Alegou que me queria cumprimentar, e de fato realizou esse rito
com a mais intempestiva lentidão. Relanceava os olhos para Rufina, uns
olhos de emplastro, sob cujas apalpadelas a moça baixava os seus.
Depois, saltou. - Lamentei sinceramente que não tivesse caído. Senti
ganas de lhe saltar no rasto como uma onça atrás de um quati, e
meter-lhe a garra pelo gasnete, e batê-lo pelo chão e pelas paredes.
Quando o bonde chegava à primeira esquina, o condutor
subiu ao meu banco, que era o da frente, para repor em zero o relógio de
marcação das passagens. Incomodado pelo intruso, passei provisoriamente
para o banco imediato, dando costas à linda criatura. Tão depressa o
condutor se retirou, voltei para o meu primitivo posto. Mas a moça tinha
desaparecido. Saltara na esquina, que já ia longe.
Precipitei-me para a rua, corri para trás, inspecionei
tudo, barafustei; nada. Sacudiu-me então uma tal intensidade de
desespero e de cólera, que me pus a rir e a rilhar os dentes.
Foi este o dia mais negro dos meus últimos dez anos. Dei
ponto na repartição, e fui fazer um passeio de bêbedo por bairros
distantes e ignorados.
DELICADEZA
Testemunhei uma cena desagradável, que infelizmente não
teve piores conseqüências.
Ia perto de mim um cidadão muito gordo. Luxuosamente
gordo. Parecia carregar as banhas com a recolhida empáfia de um
grão-sacerdote afogado em deslumbrantes vestes talares. Refestelava-se
no banco, firmado nas enxúndrias das nádegas, como uma pesada
bóia flutuante indiferente ao balanço das ondas. Exibia o ventre, que
lembrava o hemisfério de um grande globo, como se de propósito desejasse
que toda a gente lhe pudesse admirar aquela prenda. Aquilo era o seu
precioso berloque de novo rico.
A certo ponto da viagem, surgiu do outro lado do
hemisfério um moço magro e sutil, que procurava passar pela frente do
obeso, mas hesitava ante a impassibilidade ou distração deste. Afinal,
tocando no chapéu, perguntou-lhe, alto, com verrumante delicadeza: -
"Cavalheiro, não lhe seria muito incômodo ceder-me um corredorzinho para
eu passar?" O gordo zangou-se. Encolheu como pôde o fardo abdominal e,
sacudindo a papada, os olhos arregalados: "Passe!"
O moço magro, atônito por um momento, depois inclinado a
reagir, sorriu-se afinal, e disse entre dentes, relanceando um olho
escarninho pela venerável barriga: - "Bolas! não estou disposto a brigar
com meio mundo." E o gordo a resmungar: "O calcinhas! Esta sucia..."
A princípio não compreendi por que seria que o pançudo
tanto se irritara. É que sou por natureza tardo de compreensão. Nada
mais fácil de ver que o homem sentira espicaçado justamente por aquele
excesso de delicadeza. Se o moço, passando, lhe tivesse empurrado de
leve os joelhos, dizendo um seco e rápido "com licença!", e fosse
tocando para diante, nada teria acontecido. O gordo levaria isso
à conta de uma pequenina e desculpável grosseria sem endereço especial.
Não já, assim a frase e o gesto do mancebo, que lhe bateram no toutiço
como farpazinha particularmente preparada para sua pessoa. Ninguém gosta
de se ver assim pessoalmente visado e distinguido nos seus pequenos
tortos, que são mais ou menos os de toda a gente e devem passar
sem exame e sem reparo.
Há uma causa mais geral, e é que o excesso de delicadeza
leva uma dose de ironia, e a ironia ofende e revolta mais do que a
rudeza. Não, como geralmente se julga, por penetrar mais fundo na derme
do alvejado, mas pela desigualdade de armas. O homem desprevenido e
"natural" não tem, nos seus encontros e lidas cotidianas, mais do que as
armas de ataque e defesa que a natureza lhe deu, e delas se socorre como
pode. O irônico é um mal intencionado, que carrega armas artificiais no
meio de uma população policiada e pacífica. Viola a convenção em que a
generalidade repousa. Quebra a regra consuetudinária do jogo da
convivência. Onde outros se limitariam a usar das mãos e dos cotovelos,
ele saca de um pequenino punhal e põe-se a esgrimi-lo com a destreza de
um especialista de má-fé e de maus bofes. O adversário sente-se apanhado
à traição, exaspera-se e, às vezes explode.
O sujeito extremamente delicado é, no fundo, um indivíduo
que faz o pior juízo acerca dos seus dissemelhantes, e os trata
com infinitos cuidados, como se lidasse com cavalos passarinheiros ou
cachorros agressivos. Ou isso, ou então é que gosta de lançar engodos às
almas incautas, para que se lhes abram e se lhes ofereçam em espetáculo.
Todos os seus gestos estão impregnados de ironia, de uma ironia que nada
tem com a dos homens compreensivos e sensíveis que já viveram
muito, mas uma ironia feita de vaidade, de caborteirice e de secura de
coração. Ele é o "homem de escol", "a criatura de exceção", fina,
distinta, lixada, repolida, cheia de bicos e rendas, desgraçadamente
obrigada a viver no meio de uma canalha tosca e molesta!
A antipatia instintiva que provoca é uma reação da vis
medicatie social.
O que mostra mais uma vez como os movimentos instintivos
podem eqüivaler a longas reflexões, e como a mentalidade coletiva pode
chegar, sem raciocínio, aos mesmos resultados das lentas análises do
psicólogo e do moralista., - De onde, também, o erro dos paradoxófilos,
quando partem do pressuposto de que, para bem pensar, é preciso pensar
contra os sentimentos do maior número.
O SONETO
Se eu tivesse de fazer perante o vigário uma confissão
minuciosa, raspando as voltas mais fundas do meu ser, não encontraria de
certo explicação para o fato de o soneto de Gabriela me haver tornado,
hoje, ao espírito- não à lembrança apenas, ao espírito, à alma. Só posso
dizer que, ao vir-me o condutor cobrar a passagem, nem o senti chegar,
estava absorvido na segunda quadra.
A vida é um céu
que uma só vez se estrela;
toda estrelada e rutilante a viste...
Não me satisfizeram estes versos, nem como idéia nem como
forma. Chamar céu à vida é sempre extravagância; demais, um céu que só
se estrela uma vez, não pode ser senão um céu de papel pintado. A
construção "a viste" era ambígua para o ouvido. Por fim, o período não
dava liga. Modifiquei-o:
Contudo, a vida
forte boa e bela:
sorriu-te, tanto quanto lhe sorriste.
Podia servir. O diabo era a continuação. Eu não tinha, na
verdade, a mínima idéia assentada acerca do caso psicológico de
Gabriela, nem sequer sabia que forma e que alma teria essa emanação
possível do meu cérebro. Ao contrário de Minerva ao sair da cabeça de
Júpiter, estava completamente desarmada. E nem mesmo queria
acabar de sair. As casualidades da versificação é que me diriam afinal o
que eu houvesse de pensar a respeito. Grande coisa, a versificação.
Contudo, a vida
foi-te boa e bela:
a vida te sorriu, tu lhe sorriste...
Dados estes dois versos, o campo de exploração
restringia-se. O problema fixava-se em três incógnitas: x) dois
decassílabos, em ela e iste; y) que desenvolvessem o
pensamento começado; z) tornando possíveis os tercetos com um
fecho reluzente e forte.
Hoje, ela te maltrata, e tu caíste.
Aqui, o verbo caíste (le mont est créateur)
sugeriu-me espontaneamente este quarto verso:
caíste, pobre moça, na esperança!
Não estaria mal, se eu quisesse fazer humorismo. Bastava
modificar de leve os versos antecedentes:
Outrora, a vida
aparece-te bela;
acenou-te, sorriu. Tu lhe sorriste.
E a seus braços voaste. E enfim caíste,
caíste, pobre moça! na esparrela.
O mais engraçado desse humorismo é que a idéia em si é
perfeitamente justa e muito séria. A vida, de fato, estende às almas
jovens e sequiosas umas fatais urupucas, tentadoras e terríveis, onde
elas se debatem e se magoam. Mas o "cair na esparrela" tornou-se cômico
pela vulgaridade, e a vulgaridade é o sentido moral figurado. Sentidos
profundamente imorais, estes sentidos morais, que apagam tudo quanto há
de emoção poética e de pungente verdade humana em tantas metáforas
enérgicas e felizes. - Como quer que seja, eu agora já queria bem à
moça, como as mães já amam os filhos ainda no ventre, e detestei a idéia
de impor à minha criatura um indumento grotesco. Nem que ela fosse real!
Não, o soneto havia de ser afetuoso e nobre.
Outrora, a vida
apareceu-te bela;
acenou-te, sorriu. Tu lhe sorriste.
E a seus braços voaste; e assim te viste
presa das graças lacerantes dela.
Ora, bem. Faltavam os tercetos. Estava a ensaiar-me para
pescar os tercetos no vasto mundo das possibilidades ideais, quando o
condutor me chamou ao mundo estreito das impossibilidades ordinárias:
"O senhor volta para trás?"
O bonde tinha chegado ao ponto final e ia recomeçar o
giro. Saltei dele e do sonho (assim chamam os poetas a estes
exercícios, que são os mais conscientes e espertos de quantos se possam
imaginar) e corri à repartição. - Talvez que disto fique dependendo a
inexistência de mais uma obra-prima na literatura nacional. Mas, quem
sabe? Ego dormio et cor meum vigilat.
UM BORRACHO
O bonde vinha tão silencioso, ontem à tarde, como se por
ele tivesse passado um sopro de solenidade histórica. Os passageiros,
alinhados, taciturnos, pareciam compenetrados de representar algum papel
de responsabilidade. Ou dir-se-ia que iam jogar a própria vida numa
linha de fogo, logo ali adiante.
A certo momento, entrou um bêbedo, que mal se sustinha
nas pernas, como um fardo que trepasse a custo arrastado por uma corda
invisível. Mas falava sem parar e ria-se numa grande jovialidade
enternecida e patusca. Tudo lhe ria, a barba crespa e grisalha,
repartida em duas pontas, os olhos pequenos e azuis, como dois botões de
esmalte, o chapéu amolgado e caído sobre a orelha, os longos caracóis de
cabelo bamboleantes sobre a testa como gavinhas de aboboreira, e que se
haviam despregado da pastinha rala, transversalmente colada por cima da
calva. Ria a próprio casaco de pano encorpado, cujos bolsos atafulhados
se arredondavam como bolsas, e ria ainda mais o lenço vermelho amarrado
ao pescoço, com as pontas a esvoaçar como bandeirolas.
Falando e rindo, o homem caiu sentado em cima de duas
mulheres, que recuaram espavoridas "Scusate, signore!" E tirou
largamente o chapéu com a mão que segurava o cachimbo, cujas cinzas se
espalharam por cima das cabeças vizinhas.
"Scusate, io sono
un pó allegro, Oggi ê festa!"
E disparou a cantar.
O condutor veio lá do fundo como uma flecha e, com o
sobrecenho mais autoritário que pôde compor:
"Ó aquele, aqui não se canta!"
- "Non
si può. Bene, bene. Non si può.
È giusto. Si. Stà benissimo...
Eh! condutore, mi dà un fiammífero?"
E, enquanto acamava com o polegar o fumo negro contido no
pipo, cantou, numa voz que podia bem ser a de um ex-barítono:
-
"Io voglio un fiammifero!"
O condutor voltou a ele e, com redobrada energia no cenho
e na voz:
- "Já lhe disse que não pode cantar!"
- "Eh!... io già sabia che non si può cantare.
Domandavo
a
lei un fiammifero."
- "Não tem fiammifero. Você vai é já para baixo, se não
fica quieto."
- "Pra basso, io?! Dio b...! E
che ho fatto io, conduttore... O conduttore! che ho fatto io per esser
messo giu... in mezzo alla strada?"
O homem largou o cachimbo em cima do banco, remexeu os
bolsos com as mãos bambas, remexeu, e não encontrava o dinheiro. Tirou
um lenço, uma laranja, duas metades de charuto toscano, um pedaço de
barbante, uns restos de amendoim, uma medalha, um jornal; e resmungava:
- "Come no! io tenho dinero.
Si!
Anche della carta moneta... Vucê truca cinque milla, conduttore? Ebbene,
aspetti. Si, ió tenho... eh! Un pó de pazienza, caro."
A muito custo, deu com a nota num dos bolsos do colete,
junto do relógio de prata, enorme, que previamente sacou e auscultou. Ao
retirar a cédula, fê-lo num gesto de triunfo; ergueu senhorilmente a
cabeça e, estendendo a mão com o dinheiro ao condutor irritado, esboçou
um canto jacundo e nobre como um ofertório, em voz retumbante:
"Ecco, o signor, prendetela!"
O condutor não lhe cobrou a passagem, mas fez parar o
carro e obrigou o cantor a descer, com tácita aprovação dos
demais passageiros. Quando se viu na rua, o expulso abriu os braços para
protestar, mas cambaleou e sentou-se no chão, gritando sonoramente, à
maneira de insulto e de ameaça: "Portoghese!
Vado dal presidente dello Stato!"
Mas o bonde já ia longe. E os passageiros riam-se. E
ria-se o condutor. Precisamente nesse momento, eu ficava sério, e aquele
homem alegre e inofensivo, posto do veículo abaixo como uma lata velha,
me começava a interessar. Era a vítima simpática de um lote de imbecis.
E eu no meio destes.
Um homem alegre, fosse qual fosse o combustível da sua
alegria, devera ser olhado como em certas civilizações primitivas se
olhavam os doidos, criaturas sagradas, ou como os gregos consideravam os
devotos delirantes de Dionísios, condensadores momentâneos desse
mistério de jovialidade e de exaltação que em certas épocas circula
através das coisas, e preme os úberes da terra, e desata as ofertas do
céu.
Minha alma ficara lá para trás, junto daquele homem
assoado para a rua pela austera comunidade do bonde. E minha alma lhe
dizia:
Ri, ri, ri, minha vitima, meu irmão. Brinca, tagarela,
traquina à tua vontade. Frui sem vergonha e sem cuidado este parêntese
divino de liberdade e de loucura alegre que se abre na miséria soturna
da tua vida. Ri, ri, meu irmão, minha vítima.
A tua risada não me alivia, mas vinga um pouco a minha
ânsia recolhida de libertação impossível, pobre, torturado escravo que
sou, mesquinho escravo das Regras, dos Horários, dos Regulamentos, dos
Códigos e das Necessidades criadas.
Ri, folga, berra, cabriola, papagueia, pragueje, insulta!
E canta! canta, nessa efusão de lirismo obscuro que sobe do mais fundo
da nossa alma bruta, expressão sem palavra de alegria vital,
inconsciente, expansiva, cósmica, alegria do gafanhoto que salta e
voeja, da maritaca gritadeira e gloriosa, da água que foge às guinadas
fervendo e brilhando, do fogo que dança o bailado da labareda, de tudo
que não é esta nossa desgraçada alma superficial de bicho domesticado e
diminuído.
Ri, ri, ri, com todo o teu ser, todo o teu sangue, a tua
carne, para além ou aquém do Bem e do Mal, Homem! pobre Homem, bom
Homem, meu irmão.
Ri, ri, ri, até que estoures de repente com o riso, como
a cigarra a cantar, e acabes assim na mais bela das mortes, fulminado
por uma explosão de vida!"
Agora, ao rememorar esta minha ode, com a pena entre os
dedos, já não me parece que tenha justificado bem a embriaguez, que
afinal é um vício detestável. Embriaguez por embriaguez, é preferível
uma consciência clara e um sentimento profundo e sutil das realidades.
Também isto é uma espécie de bebedeira; mas lúcida, infinitamente
matizada; e tem todo, o atrativo de um vício artificial.
"Sede duros, meus irmãos!" pregava Zaratustra, "e a
verdade é que a dureza é um ingrediente da vida e uma condição de
ordem."
Nada mais saboroso do que o diálogo de Tolstói com a
sentinela do Cremlim. Esta enxotava um mendigo de certo lugar onde não
se permitia a permanência de estranhos. Tolstói aproxima-se, vê, sofre,
e aborda o soldado, perguntando-lhe se não conhecia os versículos do
Novo Testamento em que se recomenda tratar o próximo como a um irmão.
Retruca o militar: "E o senhor não conhece o regulamento da praça? Pois
eu o conheço."
Palavra profunda! A primeira necessidade é cumprir cada
um o seu dever particular, o seu dever concreto, positivo, limitado,
pequenino.
O dever particular às vezes é duro, como pedra, como
prego, duro como pau, mas é dele que se faz a ordem, a ordem que é
edificação, que é obra, que é abrigo e desfrute, oficina e palácio,
lavoura e escola, a ordem que é civilização. Os deveres mais gerais são
também mais flutuantes: discutem-se; oscilam com a temperatura do
sentimento, com as marés da idealidade. Mas o dever imediato e cotidiano
é fixo e indiscutível: não há senão obedecer-lhe. E a obediência é a
segurança e o alimento de cada um e de todos. Coisa insignificante, um
homem que regularmente cumpre os seus deveres de cada dia: coisa
majestosa, uma nação em que todos procedem assim!
O ideal é talvez juntar ao livro de Tolstói a espada do
soldado. Em todo caso, eu daria ao soldado uma fria aprovação, e a
Tolstói um abraço.
MANUAL DE COZINHA
Arranjei hoje com um contínuo um Manual do Perito
Cozinheiro, para ler durante a viagem, à falta de outra leitura
edificante, instrutiva ou deleitável.
Trago a cabeça cheia de leituras de jornal, e já não me
diverte nada, pelo contrário, a sarabanda cotidiana das crônicas,
estudos, fantasias, comentários, bisbilhotices e descomposturas. Tenho a
impressão de já haver lido isso tudo não sei quantas vezes, desde a
minha vida anterior, nos remotos pródromos do jornalismo com Mr.
Théophraste Renandot. É incrível como as coisas atuais caducam depressa,
como as novidades são velhas, como os fatos extraordinários são
vulgares.
É verdade que a impressão de perpétua velhice só
se prova agudamente quando se vai descambando ladeira abaixo dos anos em
enta. Mas isso apenas demonstra que o espetáculo é comprido e só
se pode bem apreciar depois de lhe ter visto um bom pedaço.
O fato é que estou fazendo quaresma a respeito dessa
carne-de-vaca dos prelos. Ontem, li no bonde o Livro de são
Cipriano, conhecimento que me entreteve como um fruto proibido, e
que valeu ao dono do volume, servente da repartição, um pacote de fumo
Veado. Hoje, um dos meus colegas devia emprestar-me as Noites
da Virgem, mas afinal parece que teve receio de que eu lhe
extraviasse essa "mimosa jóia", e declarou-me que a não havia
encontrado; mentira, pois é o seu livro de cabeceira.
Arranjei-me porém com o contínuo, que fora da repartição
é cozinheiro praticante, em ocasião de festa e regabofe, e dentro da
repartição aprende a arte, decora receitas e dá consultas. Seja
registado em sua honra, que não preenche apenas assim o seu horário
oficial: também serve o café e faz o jogo do bicho.
O Manual fez-me o efeito refrescante de um bastão
de cristal japonês passado pelas têmporas em hora de dor de cabeça.
Nunca eu havia provado a tal ponto a maravilhosa utilidade das leituras
inúteis. A parte referente ao preparo do peru com farofa e de outras
aves domésticas e selváticas parecia escrita por um estômago inspirado,
tanto garbo havia na variedade dos termos técnicos, na escolha das
palavras mais precisas e sugestivas, no emprego dos adjetivos mais
emanteigados e olorosos, enfim na composição de um estilo todo
suavemente tostado e pururuca.
Li tudo, mas com absoluto desinteresse; por um puro ato
de vontade, sem que nada me obrigasse ou seduzisse, ou me prometesse o
mais remoto benefício. Singular prazer, cujo valor só depois
completamente reconheci. Nem sequer me era dado pensar no aproveitamento
de alguma receita, porque todos os pratos de que eu gosto já são
perfeitamente executados e são de sobra para uma rotação conveniente dos
menus; a tal ponto que ao saborear o frango assado no domingo, já
eu sinto um pouquinho de saudade da torta de palmito da quinta-feira, e
vice-versa, e assim por diante.
O que havia de bom nessa leitura era o emprego tenaz da
vontade num objeto indiferente, ótimo exercício; era, depois, o
esquecimento de umas amofinações, porque é impossível conciliar-se a
leitura atenta de uma série de receitas de assados e cabidelas com o
remeximento de espinhos espirituais.
Era, finalmente, a entrevisão liminar de um vasto mundo
desconhecido, o mundo da Copa e da Cozinha, da pastelaria e das Artes
afins; um mundo de ocupações e preocupações, de atividades e de
idealidades, com sua história, seu tesouro tradicional, sua literatura,
sua arte, sua ética, sua ciência; um mundo que aí fervilha tão perto do
meu e ao qual eu andava alheio como se ele fosse Marte ou Saturno!
Esta percepção da impermeabilidade dos diferentes planos
da vida me calou fundo na alma, e eu me senti ainda mais pequenino.
Se eu amanhã fizesse (mera hipótese) um poema forte, ou
construísse uma teoria de mecânica, ou propusesse uma nova e fecunda
maneira de interpretar a história, nada disso teria a mínima repercussão
no mundo da Cozinha e da Copa; nem um eco sequer do meu nome chegaria
até lá. A preparação do peru com farofa continuaria a mesma; ou, se se
modificasse, havia de ser por ação de um dos íncolas, inovador de
talento; e a alma do artista viveria em todo esse mundo largo mais viva
e mais venerada do que a Divina Comédia ou o Discours de la
Méthode ou o Novum Organum cá pelo nosso. E a sua glória não
sofreria contestações nem eclipses, proclamada cada dia, através de
tempos sem conta, por milhares de bocas verídicas e gratas!
E o nosso pobre mundo comum é todo assim, feito de
mundinhos concêntricos, que se articulam sem se confundir E nós, ai de
nós! pretendemos viver "cosmicamente!"
RUFINA
Encontrei-me hoje com o boticário, a quem não via desde a
última vez que vira Rufina.
"Quem é aquela moça", lhe perguntei, "que, há coisa de
duas semanas, viajou conosco neste bonde? Aquela morenota de olhos
grandes e úmidos? Aquela de bonitos dentes? Aquela espigadinha, de
branco, a quem você, saltando do carro, deitou uma olhadela xaroposa?"
Fabiano custava-lhe recordar-se. Vincou a testa, cravou
os olhos no tejadilho, levou a unha do indicador para entre os
incisivos, com a boca aberta.
- "Uma gorda, de cabelo ondado?"
- "Nada. Não ofenda."
- "Não me lembro... Espere. Uma alta, de nariz grande?"
- "Já lhe disse que era morena, pequena, engraçada."
Fabiano agitou-se, como que para sacolejar a caixa das
lembranças, atirou uma perna para cima da outra, curvou o busto, agarrou
o queixo, carregou o cenho. "Diabo!" De repente, riu-se, deu-me uma
tapona no joelho e exclamou:
- "Já sei! Uma cabrochinha, não é isso?"
Conservei-me calado, mandando em espírito, o idiota do
boticário a todos os mil demônios. Aliviado, voltei-me para
ele, frio:
- "Desistamos, oh amigo Fabiano José de Figueiredo
Alves."
- "Figueiredo, não; Azevedo."
- "Ou isso."
Eu estava convencido de que Fabiano não queria era
lembrar-se de Rufina. Impossível que se tivesse realmente esquecido
dessa criatura maviosa e rara. Conhecia mulheres como um recenseador:
uma gorda, uma alta, uma parda, fora muitas outras que não referiu; e
não se recordava da única que valia a pena! Grande ordinário.
Percorremos umas quatro ou cinco quadras em silêncio. Eu
nem sequer olhava para a cara de Fabiano. A certa altura, perguntou-me
se sabia o nome da moça.
- "Rufina."
- "Hein?!"
- "Rufina."
Fabiano olhou para mim e disparou a rir.
- "Já sei, meu caro, já sei!"
- "Mas porque essa risada?"
- "Ah! já sei, meu amigo, já sei. .. Olhe, ela nunca se
chamou Rufina. Qual Rufina, nem meia Rufina!... É boa! Ela é Augusta,
meu caro amigo. Augusta, entendeu? Rufina... é boa!
quiá, quiá, quiá..."
"Mas.. então, conhece-a?..."
- "Pchê! Há muito tempo. Uma rapariga magra, moreno-mate,
com o nariz levemente rebitado, o queixo saliente, não é isso? Conheço
muito. Chama-se Augusta, mora ali para as bandas do cemitério. Boa
fazenda coitada!"
Desmoronei. Só ao cabo de longos e dolorosos minutos pude
reconstruir-me um pouco, firmar-me um pouco em cima de mim mesmo, e
perguntar com voz sumida:
- "Mas, então, esse nome de Rufina?"
- "Muito simples. Bestice do coronel Ferrão, um velho
meio pancada - bem pancada, aliás - que tinha a mania de lhe dar esse
nome."
- "E por que?"
- "Por nada, burragem dele. Gostava de trocar os nomes,
fazia isso com toda a gente. Tinha um sobrinho, o Bentoca, Bento
Felizardo Ferrão, homem respeitável, atacadista ali no centro:
chamava-lhe Esmeraldino, até diante dos empregados, na loja. O Viana,
era para ele Pascoal, um dia; outro dia, era Bonifácio. A mim, quis-me
uma vez batizar por Crispiniano, mas eu, pan! barrei-o logo:
Às suas ordens, seu Januário. Danou-se - ora, imagine: danou-se, o
bestiaga! - e não falou mais comigo."
Emudeci. Fabiano continuava, mas já não o entendi daí por
diante. A versátil indiferença do boticário chocava-me como uma
sem-vergonhice irritante, de sujeito sem alma, sem o senso piedoso e
comovido da miséria humana. Mas Fabiano afinal era um bom homem: isto é,
um tipo fútil e feroz como soem ser os homens de juízo.
Oh! n'insultez jamais une femme qui tombe!
Mas não é isso, oh poeta, não é isso o pior. O horrendo é
esta indiferença, esta sorridente indiferença, esta familiar e
brincalhona ferocidade, aérea, difusa, impalpável, com que se considera
um ser humano, com que se fala de uma pobre mulher - logo de uma mulher!
de uma triste mulher e do seu destino, de uma mulher bela, graciosa e
miseranda; de uma mulher que tem toda a massa de que se fazem as mães e
os anjos da terra, - e com uns olhos tão grandes, tão úmidos, tão
luminosos!
- "Mas porque é que queria saber" indagou o boticário,
depois de uma pausa.
- "À-toa, Fabiano."
- "Pois olhe, é fácil."
Encarei-o de um modo que devia ter-lhe parecido
esquisito, pois calou-se e ficou sério. E não se falou mais nisto.
JUSTIÇA
Íamos hoje para a cidade na marcha habitual, nem muito
rápida, nem propriamente vagarosa. Circunstância notável, se bem que
ordinária - o bonde não correu nem por um instante fora dos trilhos.
Entretanto, chocou de repente com um automóvel, e surgiu uma grande
discussão a respeito de se saber a quem tocava a culpa, se ao motorista,
se ao chauffeur.
Entrou em função o juiz que há dentro de cada indivíduo,
e as sentenças divergiam.
- "Foi esse negrinho estúpido," dizia um, indigitando o
chauffeur.
- "O culpado é esse louco desse portuga," asseverava
outro, referindo-se ao motorista.
- "Cadeia com eles, é o que eu vivo a dizer."
- "Qual! só a pau."
- "Por milagre não houve coisa muito pior: olhe como
ficou a máquina."
- "Foi pena que não ficasse ainda mais escangalhada, era
menos uma."
- "Mas o bonde podia bem ter parado a tempo."
- "Não podia, aqui é um declive."
- "Seu guarda, o culpado é o
chauffeur."
- "Não, seu guarda, o culpado é o motorneiro."
E cada juiz era também um partidário, ou do lado do homem
do bonde, ou do lado do homem do automóvel. Por simpatia física, por
espírito de nacionalidade ou de raça, por disposição mais favorável a
uma das classes de automedontes, por ter ou não automóvel, por ter ou
não ter um parente chauffeur ou automobilista, por mero palpite,
cada um propendeu imediatamente para uma das bandas.
Mas, valha a verdade, havia também homens imparciais, por
exceção. Um destes, abanando a cabeça, e afastando-se do burburinho, me
ponderou tranqüilamente:
- "Ora, ora! Quem foi, quem não foi... Eu o que fazia era
pegar nos dois e socá-los no xilindró: é aí, seus danados! Esta
corja..."
MODÉSTIA
Franklin Penha dera-me hoje a impressão de um grande
fátuo. Viu-me no bonde e cumprimentou-me com excessiva amabilidade, com
regozijada surpresa, como se tivesse descoberto em mim, de repente,
algum encanto inédito. E eu nem sequer tinha a barba feita. O motivo não
tardou a aparecer. O que Franklin pretendia era capturar a minha atenção
e boa vontade para uma notícia de jornal que trazia recortada, no bolso,
e lhe pesava como uma barra de ouro. A notícia era mais ou menos a
seguinte:
"O Senhor Doutor Franklin da Costa Penha, conceituado
advogado do nosso foro e futuroso cultor do nosso passado, acaba de ser
nomeado sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do
Estado de..., por indicação, unanimemente aprovada, do eminente
historiógrafo brasileiro Sr...."
- "Parabéns, bichão."
- "Oh!"
Apesar desse oh! Franklin estava realmente
satisfeito, mais talvez do que o seu venerando xará depois que
eripuit fulminen, etc. Guardou o retalho na carteira, quase a
afagá-lo com as pontas dos dedos, como se fosse um aéreo tecido de seda;
arrumou a carteira no bolso e, confidencial e grave:
- "Não; eu, de fato, para ser franco, fiquei muito
contente. Eu sou assim. Tenho ainda alguma coisa do menino de colégio,
que se ufana dos prêmios recebidos. Puerilidade. Pura, insofismável
puerilidade. Eu podia contar-lhe esta nova assim com um arzinho de quem
não ligava, negligentemente, como por uma lembrança de acaso. Podia
ter-lhe dito que o fato me agradava por este ou por aquele motivo
nobre; pelo prazer que teriam lá em casa, pela recomendação que
estas distinções representam no seio de uma burguesia bobalhona... enfim
qualquer coisa por esse gosto. Mas tudo isso não seria senão hipocrisia.
A verdade pura é que fiquei contente por mim mesmo, pela própria
distinção em si; contente deveras, cheio de contentamento como um
balãozinho de goma elástica cheio de ar. Eu sou assim. "Mas também,
amanhã ou depois, já estarei resfriado; nem me lembrarei mais de que fui
eleito sócio correspondente. Depende de eu querer alcançar uma outra
tetéia que no momento me seduza."
Franklin dizia-me estas coisas com tanta simplicidade e
com um lume tão sincero nos olhos, que tudo lhe aceitei como vera
confissão. E absolvi-o. Não, ele não é fátuo. É talvez mesmo o oposto do
fátuo, um grande modesto.
Modéstia, afinal, não é isso? A verdadeira não é aquela
que se proíbe a mínima expansão de vaidade. Os indivíduos que se proíbem
a menor demonstração de vaidade são quase sempre os mais vaidosos dos
vaidosos. Pretendem, sonham, invejam, sofrem e gozam tanto quanto os
outros, com a única diferença de que põem abafos a isso tudo e, além de
tudo, ainda querem fruir a reputação de ser extraordinariamente
modestos. Há mesmo cidadãos que devem a maior parte do seu renome à sua
modéstia ou à sua preguiça. O pouco que dão de si, dão como
passatempo, como capricho ou brinco de um momento, como efeito de
imposições alheias, como necessidade ocasional. Por si mesmos, não, não
querem nada, querem sossego! Mas o seu maior gozo é quando os
admiradores exclamam: "Ah! se este safado se resolvesse a trabalhar!"
Vaidosos dobrados, têm várias vaidades lá dentro, presas e gordas como
perus de galinheiro, e ainda por cima se deliciam, epicuristicamente,
com a vaidade de não ter nenhuma vaidade, que é a mais vá, a mais falsa,
a mais loucamente ambiciosa de todas.
O modesto verdadeiro não é o que se envergonha das suas
vaidades, é aquele que lhes dá expansão, reconhecendo-as porém com
bonomia como tais, sem lhes emprestar outros nomes, nem estar com
rodeios e mentirolas. Somente, possuir a clara consciência delas é
automaticamente reduzi-las. Dar-lhes expansão, assim, é rarefazê-las. É
torná-las exteriores, superficiais e passageiras, como um suor, como
escamazinhas eruptivas da pele, como secreções, coisas que a economia
orgânica de um corpo são, normalmente engendra e rejeita. Uma limpeza,
uma "catársis", um arejamento, um alívio.
Gozar as próprias vaidades com sincera e inocente
imprudência é o melhor meio de lhes sentir a vacuidade, de as tornar
inócuas, de acabar por desprezá-las e perdê-las. Permitir-lhes que
levantem o vôo é deixar que se vão embora.
Alegrar-se alguém abertamente com os seus pequenos
triunfos é um modo amável de se confessar bem gratificado. Saudável
fusão de bonomia, conformidade e desprendimento: modéstia, enfim; a boa,
a legítima, a pura. A única.
Todo o mal da vaidade está nos sentimentos e nos cálculos
que se lhe ajuntam, que a mascaram, a pervertem, a envenenam, a
entranham na alma, hipertrofiando-a, dando-lhe por vezes a figura
hidrópica de virtudes austeras, dessas que merecem lápides em latim. - É
assim que se formam esses veneráveis cavalheiros amargos que santamente
odeiam todas as manifestações brilhantes e aladas da vida, esses grandes
desambiciosos que se vingam em todo o mundo de não poderem confessar
ambições, esses perpétuos caluniadores que enxameiam e zumbem, como
varejeiras pesadas e tontas de sânie, em redor de cada desgraçado cujo
nome não ficou soterrado como o deles na própria impotência.
Nietzsche teve razão - o que algumas vezes lhe acontece
por maneira fulmínea - quando disse que as paixões, em seu estado puro,
são boas. Apenas haverá nisso exagero. São boas porque são naturais,
porque são o próprio homem. O que as torna más, corrompendo-as
envilecendo-as, é a hipocrisia, que as dissimula intensificando-as no
entanto; que as enfeita por fora, como serpentes, mas dá-lhes o veneno e
a insídia; que as oculta e as desvia de seus fins imediatos, claros e
geralmente saudáveis, para as pôr ao serviço de afetos nobres e
de longos, tenazes e engenhosos ressentimentos.
Menos ousado, Augusto Comte apenas reconhece à vaidade -
desejo de aprovação - direitos de cidade na sua moral sociocrática;
mas...
... Mas que Nietzsche! que Comte! que Fulano ou Beltrano!
Antes de todos eles, o Eclesiastes havia proclamado, para todo o
tempo, que tudo é vaidade neste mundo.
Dessa e de outras afirmações se tirou apressadamente a
ilação de que o cristianismo nascente votava um ódio entranhando à vida.
Mas ele não fazia senão pôr o dedo na latejante verdade, na dolorosa e
redentora verdade. Era uma libertação e um alívio que ele trazia:
tornaram-no um torvo condenador da vida. Era uma reação contra o
formalismo, a pedantaria, a artificiosidade hipócrita do judaísmo
literalizante e manhoso, uma revolta do espírito, uma insurreição de
veracidade heróica, alegre triunfal da nossa miséria".
Sim, tudo é vaidade; sim, o homem é mau; sim, somos o
verme da terra. Pois, sejamos vaidosos, sejamos maus, sejamos vermes,
francamente, de cara descoberta, de alma leve, com a lavada e impudente
sinceridade da flor e da fera, à luz do Sol e à face de Deus, na
perpétua humildade de uma confissão total e tranqüila! Não queiramos
converter velhacamente a larga realidade comum da nossa pobreza em
falsas opulências de exceção. Quem se abaixa é que será exaltado: só
quem se reconhece tal qual é, ou tal qual somos, achará em si mesmo a
verdadeira força purificadora e ascensional, que não mente nem quebra.
Confessemo-nos sinceramente a Deus, e Deus a todos os humildes perdoa e
sustém.
Como é que a tola perversidade humana pôde converter a
clara e benéfica fonte de liberdade e de alegria, que há no fundo dessa
viril visualização cristã da vida, nesta coisa sombria e horrenda, nesta
mascarada de mistificações, neste pesadelo de atrozes artifícios, neste
abominável Santo Ofício de idealismos hipócritas e peçonhentos e de
mútua espionagem, que a sociedade instituiu dentro de si mesma e carrega
no seio como um rolo esfervilhante de víboras?
Jesus claro, natural e harmonioso como a Verdade, até
fabricou vinho em Caná para a jovialidade simples dos homens...
A modéstia é uma virtude imensuramente prezada pelo
grande número. Todos a veneram. Todos a exigem dos outros. Por que? Mas,
evidentemente, por ciúme e inveja. Não há ninguém mais modesto do que as
velha chupadas, arrependidas... de não haverem pecado. - Não podendo
suprimir os méritos de quem os tem, quer-se que ao menos o possuidor não
os reconheça, ou finja não os reconhecer; quer-se diabolicamente aguar,
estragar, atormentar com dúvidas, com acanhamentos, com terrores e com
escrúpulos o prazer natural, irreprimível e capitoso que ele possa
provar. Assim, mais ou menos, falou Zaratustra.
A moral social é uma formidável conspiração de todos
contra cada um, para o triturar, perverter, o desvirilizar, o reduzir a
um ser lamentoso e tortuoso, um aleijado sofredor, grotesco e malfazejo.
O pátio dos Milagres!
O envaidecido enrosca-se e enclavinha-se em si mesmo. Em
vez de lançar ao vento as suas pequenas fatuidades e libertar-se delas,
ele as recolhe, as acumula, as afunda lá dentro, e as recoze, e as
cultiva em sigilo, como um fabricante de venenos, com toda a sorte de
cautelas, de temores, de desculpas, de artifícios, de equívocos, de
dissimulações, e aí temos uma franqueza quase inocente convertida, pelo
farisaísmo da virtude, numa podriqueira secreta!
Só o indivíduo que experimenta prazeres de vaidade, sem
se enganar sobre a natureza deles, assistindo a essas experiências do
sentimento como um lúcido espectador de si mesmo, só este é capaz de
modéstia. Se algum há que não os conheça, esse não é propriamente um
modesto, é um que nasceu com uma falha psicológica, como outros nascem
privados da vista ou com um pé atrofiado. Não tem mérito algum. Tem um
defeito de nascença.
A modéstia é a vaidade que sorri de si mesma. E nesse
sorriso vai o quantum satis de contra-veneno.
A boa modéstia é a vaidade que sorri de si mesma para não
se rir das outras, e que às vezes arde e se sublima na chama do sorriso
- como um balão de papel se destrói e desaparece na própria chama que o
eleva.
A vaidade paga regiamente as suas culpas. Quantos
artistas crucificados na sua obra, vertendo sangue e clarões!
A boa modéstia é aquela que doma as suas vaidades
e as subjuga ao domínio de uma paixão forte e bela, como os tigres que
puxavam o carro de Dionísios.
A serpente, às vezes, gasta o seu veneno em botes aos
raminhos que bolem ou às sombras que passam, e assim se torna inócua ao
picar uma rês ou um homem. A vaidade é muitas vezes como a cobra.
À vaidade parece dever-se também uma quantidade de
horrores: assassínios, roubos, atrocidades, suicídios. Na realidade, ela
desempenha apenas o papel de um purgante orgânico da comunidade social.
Em muitos casos, se a uma só causa se podem filiar coisas tão complexas,
é a modéstia que deve ser responsabilizada. Convertida em mandamento
irretorquível, comprime e abate a natureza humana e a obriga a esses
longos desvios e absurdas transferências da paixão inextirpável, a
vontade de se afirmar. O excesso de modéstia pode prolongar-se até ao
cinismo, e à delinqüência.
UMA ROSA
Ganhei uma rosa e uma experiência. Deu-me aquela, no
bonde, um homem velho, rude e chambão. Contraiu a afeição das flores já
entrado em anos, depois de desenganado de feminilidades há muitos. E eu
tinha o amor das flores na conta de um puro reflexo de sentimentos
sexuais, de uma ondulação distante do culto da mulher.
De fato o é; mas também pode ser outra coisa, como me
prova este velho puído e tristonho, que viu amanhecer em si o encanto
das rosas quando já iam muito longe as derradeiras fagulhas do outro
amor.
Quem sabe se ele põe agora neste afeto um afã meio
inconsciente de recuperar o tempo perdido para o coração? Como quer que
seja, revelou-me como a natureza, contra toda lógica e toda expectativa,
pode achar saídas novas e elegantes para as situações mais abatidas e
ruinosas. Há nela uma capacidade virgem e indefinível de com que não
costumam contar os analisadores de almas, que pensam desmontar-lhes as
peças como a mecanismos, e não fazem senão jogar com esquemas e
conceptos.
Tudo, neste homem, indicaria uma carreira fatal para o
embrutecimeno e a prostração. Idade, doenças, decepções, rupturas,
arrancamentos, saudades, rancores, desesperança. Devia acabar no
desânimo e na tristeza aparvalhada do animal que procura um recanto
esquecido para morrer. Pois, nada disso. Viu ainda florir em si, de
repente, um novo amor e uma alegria, uma doçura e uma esperança novas.
Uma nova forma de ingenuidade fresca e gentil. Uma ressaca de mocidade.
Dir-se-ia que todas as suas mágoas e misérias se haviam
convertido numa energia clara e imprevista de nascente gorgolejante Que
todo o cisco do seu passado, em montão, a consumir-se ao sol e à chuva,
fecundara a terra e dera-lhe sombra e umidade para que brotasse lá em
baixo uma semente ignorada, e que a semente se fizera broto, e o broto
crescera e atravessara os destroços apodrecidos para vir oferecer à luz
a flâmula verde de uma frondezinha viçosa.
A vida vive em nós! Ai, se nos convencêssemos bem de que
é a Vida que vive em nós... A Vida, senhora eterna de todas as
germinações.
AINDA A ROSA
A rosa que o meu amigo velho me dera anteontem ainda
estava hoje bem passável. Olhei-a, pela manhã, quando lavava o rosto, e
achei-lhe um encanto dorido de mulher bonita que, em pleno solstício de
encantos, de repente se vê marcada pelos primeiros gorgulhos do tempo.
Esborrifei-lhe um pouco de água, e disse-lhe: "Que será
de si amanhã, minha rosa?" As rosas sabem falar, e para ouvir e entender
o que elas dizem não é preciso amar alguma senhora, como, segundo o
poeta, se requer de quem deseje ouvir as estrelas. E a rosa, com soberba
indiferença, respondeu: "Que será de mim? Olha esse grosseiro
antropomorfismo, néscio animal! Então tu julgas que nós outras somos
feitas da tua massa? Para mim e minhas irmãs todas as voltas do mundo
são as mesmas. Eu, amanhã, não serei nada que tu aprecies, mas aí ficam
infinidades de rosas desabrochadas e por desabrochar. E todas elas são
eu mesma, porque eu sou todas, e não desapareço, nem sucumbo".
Muito bem, muito bem. Em todo caso, como rosa individual,
a minha durava bastante. Malherbe assinou a esta flor, como prazo fixo
de vida l'espace d'un matin, e entretanto é geralmente sabido que
ela pode durar dois ou três dias, e mais. Mas também está geralmente
convencionado que, para os efeitos poéticos, há de durar uma só manhã.
Verdades duplas, assim, há muitas, há tantas que o mundo
está cheio delas.
A borboleta, símbolo da volubilidade na poesia, é com
efeito uma excelente imagem da constância, porque só faz indefinidamente
a mesma coisa.
A abelha, essa dizem que é o tipo do ecletismo
intelectual ou sentimental que saqueia a corola de todas as flores; na
verdade, é a representação mais fiel da inflexibilidade de princípios,
pois que não visita senão as flores que lhe forneçam matéria-prima, e
delas não quer senão a pequenina dose de matéria-prima que possam dar.
O gato considerado como um animal de caráter
independente, vive de fato na estreita dependência própria dos
parasitas, não sabendo senão estar nas cozinhas e nos telhados;
gravitando em redor da paparoca preparada.
À palmeira, chamam-lhe esbelta e soberba, ou altiva, ou
senhoril. Não há o que se lhe oponha, porque, realmente, a gente pode
dar às coisas os adjetivos que quiser, não havendo contrariedade
declarada; mas é muito de notar que, assim como a palmeira é esbelta e
senhoril, também poderia ser senhoril e esbelto um espanador de
cabo comprido, ou uma vassoura do tipo antigo, trastes estes havidos
como sumamente prosaicos.
O boi, símbolo da força, é um colosso tão frágil que
passa da mocidade à decrepitude em meia dúzia de anos, e possui
muitíssimo menos energia ativa do que uma formiga ou uma pulga. E a
águia, emblema do gênio, porque tem asas e vive nas alturas, é menos
inteligente do que uma galinha e nem sofre comparação com o castor, que
passa a existência no fundo dos vales e no lamaçal dos rios.
Enfim, não se contam as verdades, duplas que todo
o mundo enxerga, ou poderia enxergar, mas deliberadamente separa e torna
reciprocamente estanques. E não só no que respeita ao mundo objetivo,
mas também no que se refere ao próprio domínio subjetivo da experiência
moral.
A economia é uma virtude, quando se põem sobre ela os
óculos simpáticos da generalização poética; a economia, em seus casos
concretos, é sempre uma indecenciazinha de que nos envergonhamos e que
satirizamos nos mais.
"O amor é a mais bela e a mais santa das coisas desta
vida": mas ninguém torne esse conceito como preceito porque se arrisca a
ser apedrejado na praça.
"A calúnia é o fel das almas ignóbeis": na realidade, a
calúnia é um vício tão generalizado e tão familiar como o do cigarro; e
quem não o cultivar está no perpétuo risco de passar por idiota ou por
"jesuíta".
Mas, afinal de contas, esses desdobramentos da verdade
são úteis, porque correspondem a duas tendências fundamentais do
espírito humano: a que visa a adaptação deste à natureza, e a que
procura a sua adaptação à sociedade.
A primeira procede por via de indagações meticulosas e
serenas; a segunda marcha por meio de conceituações imediatas e sínteses
arrojadas.
A primeira é lenta, dificultosa e fatigante; a segunda é
rápida, leve e encantadora.
A primeira fornece exercício a uma minoria de cabeças,
especializa e desmembra funções, e como que pulveriza a continuidade e a
fluência do real numa infinidade de corpúsculos gelados; a segunda
comunica impulsos a toda a sorte de mentes, aproxima-as, harmoniza-as,
estimula a imaginação e a simpatia, dando a todas a mesma concepção
aproximativa das coisas, deformante mas agradavelmente fácil, ampla e
satisfatória.
A primeira prepara o viveiro das verdades exatas e
necessárias de amanhã; a segunda alarga o domínio das verdades
agradáveis e convencionais provisórias para uns, perpétuas para a maior
parte.
Instinto de saber, instinto de poesia. Dois irmãos
inimigos, que não podem viver um sem o outro.
Posta de parte essa parlenda, o fato é que a resposta da
rosa mais me enamorou dela. Enfiei-a na botoeira, apesar de já meio
fanada. - Precisei, para tanto, de um pouco de decisão e atrevimento,
pois nunca uso flores comigo, nem mesmo frescas. Audácia de carneiro.
Atrevimento de cágado.
Instalado no bonde, semicerrados os olhos, e sentindo na
face a carícia de uma pétala pendente, instiguei a minha interessante
companheira a falar ainda, antes que algum golpe de vento ou algum
encontrão a despojasse da sua voz feita de cor e perfume. Não se fez de
rogada.
"Não sabes, amigo? Tal como aqui me vês, sou filho do
conúbio do homem e da natureza... Tanto devo o ser ao solo, ao sol, ao
ar, como ao espírito, à arte e à mão humana.
Sou um produto da terra e da civilização: duplamente flor
de cultura.
Sou ao mesmo tempo a glória de Flora e a mais perfeita
das flores artificiais. Tendo o viço hereditário das rosas selváticas e
a aura humana das rosas de papel e de tecido, armadas por magras mãos de
operárias tristes, mãos febris de moças namoradas.
O homem faz-me, cheio de suas vaidades, seus desejos,
suas ambições, seus sobejos de carinhos, seu saber, seu gosto amável,
paciente e caprichoso. Assim, uma infinidade de forças diversas vêm-se
coordenando e vêm colaborando, através dos séculos, na seleção das
minhas formas, dos meus tons e dos meus olores - florindo e reflorindo
em mim.
De mim, pois, aprende, homem tolo e ingrato! a olhar a
tua humanidade não tanto na sombria confusão dos seus galhos e ramas,
como na vária e fugitiva permanência das suas flores, ou no perpétuo
esplendor das suas graças transitórias.
Ama-a com todos os seus vícios e brutezas, com todos os
seus primores e pulcritudes.
Não há vícios, não há primores, há só o homem. O homem e
nada mais. O homem inumerável, incomportável e indefinível. O homem que
te ultrapassa no espaço e no tempo, e cujos últimos limites partem do
centro da terra e vão perder-se nas constelações.
Perdoa-lhe tudo, tudo. Perdoa-lhe simplesmente. Sem
gestos e sem frases. Perdoa-lhe mesmo na cólera e na angústia.
Reserva-lhe ao menos uma promessa de perdão no infinito, até para o que
não possas, até para o que não devas perdoar.
Se tudo, nele, coopera na produção destes milagres de
melindroso e incorruptível prestigio!
Milagres em que o fugitivo se confunde com o permanente,
e o encanto de uma hora é um sorriso dos séculos.
Passam as catedrais, esfarelam-se os granitos e os
bronzes, desagregam-se os impérios, e as nações dissolvem-se, mas eu
permaneço na minha deliciosa insignificância, Como a última confidência
de ternura e de beleza que as gerações legam umas as outras através dos
abismos do tempo.
Sou a obra mais duradoura do homem. Não há ferrugem nem
verme, nem guerras nem sinistros que me atinjam.
Vê como uma coisa assim pequenina e branda vem a ser o
único triunfo comum das energias contraditórias derramadas pela face da
terra!
Eis-me aqui, doce como um afago, leve como uma asa, breve
como um sonho, mas forte como o que permanece e perdura, imorredoura e
essencial como a lágrima e como o sorriso, esses dois resumos humanos da
infinita comédia, e da infinita alegria do universo...
Serve-me com os olhos, aspira-me, grava-me na alma. E
sabe que nunca faltarei ao pé de ti, se o quiseres.
Busca-me, achar-me-ás. Eu só desapareço de teus olhos
para que em ti se renove a ânsia pela minha presença.
Toda a perene agitação do mundo parece não ter outro fim
que produzir uma espuma de rosas. Nada tão ao alcance da tua mão.
Colhe, beija e sorri.
Nesse minuto estarás num pináculo da vida e num ponto
luminoso da eternidade.
Eu sou a Rosa, eu sou a Rosa, a beleza e a graça
fugentes, a doce filha da terra vil e do homem desgraçado..."
UM FIO DE CABELO
Aquela moça espigada que entrou no bonde com o ímpeto
ágil de um gafanhoto e ficou sentada ao meu lado, nunca imaginaria que
fosse causa possível de uma pequena tragédia.
Entrou, sentou-se, tão isenta, como diria o Camões, tão
longe de mim que sentia a irradiação das suas calorias! Viçosa, inocente
e jocunda como um cacho de flores de resedá arrancado ao galho pela
manhã, tinha a afilada silhueta de uma girl esportiva e a
despachada simplicidade de um rapaz. Tirou a espécie de boina que trazia
na cabeça, agitou o nevoeiro de fogo do cabelo, ajeitou-o com as mãos,
de leve, como se lhas queimasse, e minutos depois, repondo o gorro,
partia, num outro salto de gafanhotinho brincalhão.
Jeunesse de visage et jeunesse de coeur!
Quando cheguei a casa, tinha no ombro um fio de cabelo,
um fio de chama. Descobriu-o a criada, com um sorriso ingênuo e
perverso. Pegou nele, de intrometida, examinou-o à luz da janela, e ia
deixá-lo cair quando eu, não me podendo conter, exclamei: "Deus a faça
careca, Manuela!" Manuela olhou-me com cara de surpresa e
desapontamento, como a pedir explicação. Não lha dei, limitando-me a
assoviar uns compassos da Marcha de Cádis, para não lhe deixar a
impressão de estar zangado, e retirei-me para o meu quarto.
Na verdade, estava zangado. Aquele ato da pobre mulher
apertara a mola ao mecanismo das minhas melancolias. Pus-me a considerar
os frutos de suspicácia, de bisbilhotice e de malignidade que a moral
produz nas almas simples; e de reflexão em reflexão achei-me de repente
imerso, mal sustendo a cabeça de fora, na imensurável e irremediável
miséria da bicharia humana.
E aí está como aquela menina, inocente como o é a Lua,
dos raios que deixa cair, não esteve longe de ser causa de um
desaguisado doméstico. Ao mesmo tempo que alisava o cabelo, num
movimento de mãos e numa dança de dedos leve e aérea como um gorjeio,
poderia estar agitando a corrente de dois destinos ignorados e
preparando uma pororoca longínqua.
Ai! por muito pobre que seja a imaginação dos malfazejos,
os distúrbios que ela consegue promover são pequena coisa diante do mal
que todos fazemos uns aos outros pelo simples fato de existir.
Não há pior acidente do que ocupar um lugar no espaço. Um
simples fio de cabelo caindo de uma cabeça pode ser para alguém como o
raio destruidor partindo do punho de Arimã. Vivemos assim uma eterna e
terrível mitologia. Participamos da natureza dos deuses, ao menos para o
mal. Só para o mal. A vida é a angústia do terror difuso e permanente.
RETICÊNCIAS
Encontrei-me hoje no bonde, depois do almoço, com o
Nicolau Coelho. Como eu lhe dissesse, um dia, que lera com prazer a sua
crônica sobre finados, desse dia em diante se aproximou de mim, e não me
vê sem que me venha apertar a mão. Ainda hoje pagou a minha passagem.
Conheço Nicolau desde menino, fui amigo de seu pai,
professor gratuito de um dos seus irmãos, e nunca se julgara obrigado a
usar de cortesias comigo. Passei a ser alguém para ele no dia em que lhe
elogiei uma crônica, a ele que tantas e tão aplaudidas tem escrito, a
ele carregado de glórias.
Nicolau, vendo-me no último banco, ergueu-se do seu e
desfechou-se de lá. Sacou de cinco tiras de papel e disse, com modéstia:
- "Isto é curtinho... Gostaria que lesse, preciso da sua
opinião."
Fixei os meus olhos nos seus.
- "Precisa da minha opinião?"
- "Sim pois..."
- "Mas isso é grave, meu amigo. Então a minha opinião
vale?"
- "Muito."
- "Nesse caso, eu necessitaria ler com vagar, com toda a
atenção."
- "Mas, eu tenho de levar o original à folha. É curtinho.
Lerá num momento."
Li. Li e não achei mal. Ao contrário. Certa harmonia
agradável e constante, harmonia de forma, harmonia de fundo, feitas de
pequenas audácias de pensamento e de expressão, difíceis de orquestrar.
Notei apenas um exagero de sinais sintáticos, travessões, virgulas,
pontos-e-vírgulas, pontos finais, e sobretudo, reticências.
O abuso das reticências me é particularmente enervante (a
não ser quando entram, num sistema personalíssimo de notações,
compreensível em certos indivíduos muito irregularmente "individuais".)
Ponham quantas forem necessárias para indicar suspensão ou transição
inesperada. Mas este costume de derramar ao pé de cada período uma série
de pontinhos, para denotar que a frase é aguda, que ali há coisa, que a
passagem envolve malícia ou profundidade - não, não.
O leitor (sempre inteligente) irrita-se por não se lhe
deixar o gosto de descobrir por si mesmo as sutilezas, as intenções, os
valores velados. E depois o autor acaba por botar reticências em tudo,
porque é difícil que um autor não veja coisas a realçar em cada um dos
seus períodos. Afinal, a função dos pontinhos desaparece, e onde eles
não estão é que a gente vai ver se desentoca o melhor.
A mania das reticências não tarda em semeá-las no próprio
pensamento. Recolhem, como as bexigas. E lá se vai o amor da claridade e
da justeza, lá vem o prazer vicioso do equívoco, do ambíguo, do
flutuante.
Os antigos não usavam reticências. Faltou-lhes pois uma
boa forma de notação, hoje indispensável. Mas o fato é que a estreiteza
do sistema de suplementares da palavra tinha as suas vantagens.
Forçava-os a tudo exprimir e sugerir com os recursos únicos da frase nua
e dos seus ritmos naturais. Em vez de pôr um sinal de ironia tinham de
açacalar a ironia através da rede dos períodos. Em vez de indicar com
que óculos cinzentos ou vermelhos se havia de ler o capítulo ou a
página, davam à página ou ao capitulo a tonalidade sentimental ou mental
conveniente. Era o processo direto, que penetrava até às carnes e aos
nervos do estilo.
Podiam falecer-lhe a este as flexibilidades e esfumaturas
da sensibilidade moderna, mas ainda isso era uma vantagem, porque era
uma disciplina. O escritor havia de se resignar, por muito indeciso e
ondulante que tivesse o espírito, ao freio de um métier e havia
de viver perpetuamente em busca do límpido, do incisivo, do luminoso.
Nunca se entregava senão a construções de pensamento com uma
classificação e um fim. Toda a sua aspiração era fabricar obras
acabadas, portáteis, que representavam aquisições (como diz Emerson a
propósito já não lembra de que autor) coisas que se poderiam sopesar,
palpar, pôr no bolso e levar para casa - como um utensílio, como uma
jóia, como uma fruta.
Representei tudo isto por outras e mais breves palavras,
a Nicolau, cujo valor não deixei de tomar para estribilho. Guardou os
originais, acendeu um cigarro e perguntou, com um sorriso reticente:
- "Então, só um excesso de... pontinhos?"
"Só, Nicolau, só. Mas isso mesmo, ó Artista, ó
Imaginífico, ó Mistagogo! é talvez mania ou sutileza do meu bestunto
emperrado. Quando vejo um desses escritos retalhados em pequenos
parágrafos cada parágrafo seguido de uma secreção de pontinhos, tenho
logo a idéia de uma desfilada de cabritos.
"Mas, pensando bem, penso que um escritor moço precisa de
ter certa porção de cacoetes e singularidades, até de erros, dentro de
certo limite porque tudo isto serve exatamente de lhe dar um ar de
viçoso verdor e de divinatória inexperiência, a graça do gênio ainda
ignorante de si próprio, todo em flor e esperança.
"As pequenas carepas envolvem uma promessa festiva de
aperfeiçoamento ao passo que a lixa insistente e minuciosa, tirando
todas as titicas e asperidades da superfície, deixa ver melhor as
imperfeições essenciais da matéria e da construção.
"Esses cacoetes, essas singularidades, esses descuidos
constituem uma garantia para o escritor. Ninguém suspeita nele um
gramático, um espírito peco e miúdo, preocupado com a língua e outras
superfluídades peróbicas. Perdoam-lhe por simpatia, numa absolvição
geral, as faltas cometidas, e ainda as que venha a perpetrar. Ao passo
que os escritores corretos dão ganas a todo o mundo de lhes descobrir
trincas e manchas.
E isto sempre se consegue: a correção é uma zona ideal de
equilíbrio instável..."
Ia eu assim dissertando, alheio ao bonde e ao tempo,
quando uma brecada instantânea fez estralejar todo o arcabouço do carro.
Gritos, borborinho. O bonde havia pegado uma carroça pela rabeira e
arremessado esse veículo, com os seus dois animais, a três metros de
distância.
A carroça adernara, com uma das rodas meio fora do eixo,
e os burros, presos ao correame e aos varais abatidos, resfolegavam
largamente, com estremeções espaçados de toda a courama.
O pior é que o próprio carroceiro, cuspido para o chão,
raspara a poeira e se estatelara ao lado, a verter sangue da cabeça, as
mãos meio enclavinhadas, o peito a arquejar sob a camisa aberta.
Magotes de curiosos iam e vinham enquanto dois homens de
maior iniciativa tratavam de recolher a vítima a uma casa próxima e de
levantar os animais.
Válidos, prestantes bons homens! Surgiram de repente da
massa amorfa, como os que sabem querer e mandar. E eu era da massa
amorfa, imprestável distraída, hesitante. Ó céu, cada dia me reservas
uma humilhação!
Depois, que, vinda a polícia e o carro da assistência, o
bonde pôde continuar a viagem, os passageiros consternados ainda
pormenorizavam o ocorrido, explicavam o desastre, discutiam as culpas.
Quanto a mim, conservava-me quieto, com a visão pasmada daquele homem
caído no chão, a derramar sangue na poeira, e do triste do motorista que
parecia fulminado de estupor, na balorda prostração do animal tocado de
raio.
Nicolau catucou-me de repente no braço. Voltei-me para
ele como quem despertava.
- "Mas!... quer que lhe diga?" (recomeçou) "não estou de
acordo com o senhor."
E tinha um arzinho entre provocador e mofento.
- "Comigo?! Em que?!..."
- "Nesse negócio de reticências. A mim me parecem
indispensáveis. A questão está naquilo que se pretende dizer ou
sugerir."
E por aí foi, a traçar com o indicador o desenho dos
argumentos. Dei-lhe sempre razão até o termo do discurso e da linha.
"Sim. Claro. Sim! Pois não. Sim, sim!"
Afinal, disse um adeus veloz a esse espírito gentil e
corri a um café, onde fui tomar a minha xícara em silêncio e em
penitência, e reatar os fios inacabáveis do meu perene diálogo comigo
mesmo - com o único indivíduo que não se aborrece quando o contrario,
com o único indivíduo que me aborrece quando o não quero contrariar.
RUÍDOS E RUMORES
As almas têm umas irradiações pouco observadas - sem nada
de comum com a transmissão de pensamento, o magnetismo e análogas
complicações etéreas, ódicas e místicas.
Não há uma ciência (e ainda bem, arre!) mas há uma arte,
uma pequena arte sutil sobre a caça das irradiações da personalidade,
através dos rumores e das vozes.
Tenho uns vizinhos esquisitos, um casal velho que vive
fechado em casa e raramente se deixa ver. Trabalhando ou lendo no meu
gabinete, ouço vozes, passos, tosses, assoadelas arrastamentos de
móveis, bater de pregos, - tudo espaçado e abafado, passando através das
paredes como vagas mensagens de um mundo sigiloso.
Ponho-me, às vezes, a escutar esses rumores e, à força de
os ouvir e comparar, não só eduquei o ouvido para lhes perceber as
menores variações, como consegui fixar o valor expressivo de alguns
deles.
Cheguei à conclusão de que o homem é gordo, rude,
voluntarioso, e talvez com um defeito numa das pernas. Pisa com força e
peso, mas de um jeito claudicante; tosse de um modo rápido e sacudido;
os ruídos que produz batendo pregos ou fechando portas são sempre
céleres e inteiriços, e sua voz é robusta e serena.
Por que então não sai de casa? Provavelmente, algum
incômodo ou lesão localizada, que o impede sem lhe afetar o estado
geral.
Quanto à mulher, deve ser velhota, magra, tristonha a
paciente. Seus passos apenas chiam no soalho, sua voz mal se ouve,
assemelha-se a um arrulho monótono. De, quando em quando, escuto-lhe uns
espirros longamente gemidos. Esses espirros por si sós ainda me fornecem
uma indicação: a senhora é do interior de São Paulo, provavelmente de
lugar pequeno, e talvez da zona sorocabana.
Outro dia, tive um susto: o homem entrou a falar alto e
ríspido, a dar passadas por toda a casa.
Estaria a maltratar a pobre senhora? Apurei o ouvido. O
vizinho andava, parava de quando em quando, falava falava, e depois
punha-se a andar de novo, para de novo estacar e falar: o ritmo
característico de uma crise de raiva recriminante.
Mas que poderia ter-lhe feito a pobre velhota, tão calma
e resignada?
Ansioso, apurei ainda mais o ouvido, e só descansei
quando ouvi um espirro da vizinha: atchiii!... Esse espirro,
longo, pacífico, modulado pela forma exata do hábito, garantia que a
zanga não era com ela.
Hoje, finalmente, viajei de bonde com o casal, que saiu
conforme às revelações sonoras. O homem, alto, gordo e vermelho; ela,
seca e sumida. Ao tratarem de descer, ele puxou a corda da campainha num
golpe incisivo e forte. Desceram, e então vi que ele tinha um pé inchado
em chinelo.
Pus-me a traduzir, pelo resto da viagem, os sons da
campainha.
As vibrações indicam o sexo, a idade aproximada e o
temperamento de quem as faz retinir. Há campainhadas tímidas, indecisas,
distraídas, discretas, nervosas, indolentes, autoritárias, coléricas.
Umas previnem, refletidas, o motorista, a
quase uma quadra de distância, declarando, calmas e incisivas: "Pare aí
adiante; olhe que está avisado!"
Outras exprimem certa dúvida: "Deverei saltar aqui?...
Será aqui mesmo o ponto que me convém?..."
Outras enfim, após tantas, deixam transparecer a surpresa
de um apalermado que de repente se achou no ponto de parada sem ter dado
por isso: "Oh, diabo, cá estou; pára aí!"
A linguagem das campainhas pode, porém, exprimir coisas
ainda menos triviais.
Outro dia, vinha um passageiro novato no bairro, que
mandou parar em certo ponto, e não desceu: tinha-se enganado. Ressoou
surdamente a campainha, acionada pelo condutor, um português muito
plantado em si mesmo: "Bom, vamos embora."
Duas esquinas adiante, o homem dá nova ordem de parada, e
ainda não desce: tinha-se enganado outra vez. Então, a correia da
campainha fuzilou nos ganchos como uma chicotada, e o metal retiniu com
tal expressão, que se entendeu perfeitamente: "Roda!. .. Raios o parta!"
Há um conto de Gautier O Ninho de Rouxinol, onde
figuram umas jovens estranhas, que unicamente comunicam com o mundo por
meio dos sons. Todo o universo, para elas, se traduz em música, e só em
música elas traduzem o que sentem e pensam.
Realmente, não há nada que não se possa resolver em
música, e é lícito conceber-se um mundo em que fosse essa a linguagem
universal das coisas e das almas. Sem irmos, porém, às alturas da
imaginação, é fácil reconhecer que tudo trivialmente, em redor de nós,
se manifesta por sonoridades, ruídos e silêncios.
Sabe disso toda a gente que dispõe da integridade do seu
aparelho auditivo. O que pouca gente sabe é como se podem obter
impressões novas, surpreendentes e divertidas das coisas e das almas que
nos rodeiam, - apenas aplicando o ouvido à sondagem e interpretação dos
sons.
Nós vivemos pelos olhos. A estes confiamos quase
exclusivamente a missão de observadores e testemunhas. O sentido
auditivo reduzimo-lo quase a um simples papel de serviçal obediente às
determinações da vontade. Vemos tudo, mas só ouvimos o que queremos. É
incrível a capacidade de que dispomos para eliminar as impressões do
ouvido, no meio do rumor infernal das ruas, do bruaá de um café
regurgitante de palradores.
Ainda hei de escrever um artigo sério para um jornal
sério, um artigo científico, cheio de termos técnicos como um queijo
cheio de saltões, a propugnar a educação e a aplicação mais racionais
das faculdades auditivas. Quantos afluxos de sensações sistematicamente
rejeitados, e que poderiam ser tão úteis á inteligência, e úteis à
própria defesa do indivíduo!
E depois, se a moda pegasse, se começássemos todos a
fazer um uso mais consciente, mais constante e mais largo desse aparelho
receptor, seria impossível que um grande número de cidadãos não se
insurgissem afinal, indignados, exigentes, furiosos, contra a
pandemônica, vertiginosa e martirizante barulheira da cidade, contra
este caos sonoro que nos engole e nos aniquila.
PALAVRAS CRUZADAS
Veio à minha frente, ontem à tarde, um passageiro
engolfado num sobretudo enorme e num largo jogo de palavras cruzadas.
Espiei um pouco por cima, o homem percebeu o meu movimento, voltou-se,
reconheci-o: era o meu ex-vizinho Eulálio Peixoto, professor de
Matemática e de conformidade.
- "Pois até você, Peixoto!"
- "É para você ver, Felício. Mas quem pode resistir! Todo
o mundo vive às voltas com isto. Ainda hoje vi uma senhora, com um livro
aberto, no bonde, dentro do livro ia um retalho de papel - era o jogo.
Tenho um conhecido que traz o seu dentro do chapéu. Outros o carregam na
carteira e em qualquer momento de descanso, no bonde, no café, na
esquina, lá se põem a decifrar. Curioso! A que é que você atribui esta
mania?"
- "Gosto de quebrar a cabeça".
- "Está enganado. Isso é o que menos influi no caso.
Quantidade desprezível. A vida toda, toda, desde as grandes até às
ínfimas coisas, é um tecido de quebra-cabeças."
"Dirá você que são problemas repulsivos - uns tenebrosos,
como a própria vida em si, outros atenazantes, como o do pão que se há
de comer no mês que vem. Perfeitamente! Mas, nesse caso, haveria uma
infinidade de passatempos deste mesmo gênero à nossa disposição - os
problemas de aritmética e álgebra, o xadrez, o soneto, as ações humanas,
o acróstico... veja você, o acróstico tão aparentado com isto, e tão
mais interessante!
"Não, o prazer do entretenimento é o que menos influi
nesta epidemia. Ele existe, sem dúvida, no fundo de todos estes
exercícios, mas neutro, indiferente à oscilação e variedade das
aplicações."
- "Mas, então, Peixoto, onde é que está o busílis?"
- "Eis aí o grande problema das palavras cruzadas! Esse é
que eu gostaria de ver discutido. Para mim, provisoriamente, o segredo
só tem uma explicação, uma só: contágio mental.
- "Mas como explicará você o contágio, por sua vez?"
- "É outra questão. O contágio existe, é evidente,
manifesta-se por mil formas. Sempre existiu. A moda nunca foi outra
coisa que um nome diverso desse fenômeno.
O joguinho apareceu um dia, lá na América do Norte, como
um desses mil divertimentos com que os jornais engabelam o público. Ou
porque tivesse uma feição mais atraente, ou porque o jornal que o
inventou fosse de grande circulação, ou porque se anunciassem prêmios
convidativos, a coisa teve êxito, despertou os êmulos e os imitadores, -
e eis a epidemia armada, a alargar-se por toda uma região, por todo um
país, transpondo os mares, saltando em portos distantes, explodindo em
todos grandes centros, voando a todos os recantos do mundo."
"É a própria, a propriíssima curva de todas as epidemias
- explicou Peixoto continuando. - Há um primeiro foco, lento, hesitante,
dúbio. Repetem-se os casos, nas vizinhanças. E, à medida que se repetem,
a intensidade sobe. Há um momento de máxima intensidade e máxima
expansão. A epidemia alastra-se.
"Depois, vão-se extinguindo aos poucos os mil focos
espalhados, bambeia a fúria do mal, os casos voltam a ser mais brandos,
mais incertos, e tudo acaba como um incêndio rápido que lambesse e
queimasse todas as folhas e gravetos secos disseminados por um mato
verde, morrendo afinal aos pedaços, por falta de alimento e de vento."
Peixoto fez-me ver em seguida como o contágio mental vai
alargando, em todas as suas formas, o seu campo de expansão.
Em outros tempos que não vão tão longe, cada país era um
campo restrito de ressonâncias, e dentro de cada um desses campos havia
outros, igualmente quase fechados - as classes, as categorias sociais.
Um sapateiro da Idade Média estava muito mais longe de um magistrado, na
mesma cidade, do que hoje um fazendeiro de Mato Grosso se acha de um
professor de Heidelberg.
As modas, outrora, levavam muito mais tempo a ir de Paris
à província, do que, hoje, de Nova York ao Extremo Oriente. Demais,
propagavam-se em linha horizontal - dentro de certas classes; hoje
propagam-se tanto no sentido horizontal como no vertical - entre as
gentes colocadas em posição semelhante e entre as que ocupam qualquer
outra posição na escada ascendente ou descendente.
O contágio, hoje, envolve tudo. Tudo pode transformar-se
repentinamente em mania coletiva. Outrora, havia epidemias de
misticismo, de guerra ou de suicídio limitadas a certas regiões. Hoje,
toda a vida universal tende a ser uma sucessão de epidemias. Há
epidemias universais de dança, epidemias esportivas, epidemias de jogo,
epidemias políticas, epidemias artísticas, literárias, epidemias
econômicas, epidemias filantrópicas.
Se algum dia houve a ilusão do que os homens fossem
capazes de se deixar guiar pela razão, hoje o mundo inteiro é um só
vasto campo de experiência a provar todos os dias, que os homens agem
sistematicamente à revelia da razão - o que não quer dizer que uma vez
por outra, não possam encontrar-se com ela, por acaso. Quanto mais se
civilizam, mais imitam e copiam. Quanto mais prezam a individualidade
mais a perdem. Quanto mais amam o novo e o original, mais feitos "em
série" parecem.
Os motivos de ação vão-se tornando, cada vez mais,
efeitos de sugestão coletiva.
Os Estados Unidos, que se diriam a terra por excelência
do individualismo violento, são na verdade a terra por excelência da
socialização absorvente. O que dá a aparência da liberdade é a franqueza
exterior dos movimentos. Pura aparência. Não há nada que pareça tão
"livre" como as peças ativas de um tear moderno, a trabalharem
silenciosamente, como por si, como uma espécie de alacridade serena e de
inabalável consciência do dever.
Na realidade, o homem por lá não tem a mínima
liberdade, no sentido clássico, estóico, de liberdade interior,
fundamental, soberana; inviolável - aquela que Emerson por lá mesmo
exaltava. É sempre homem de um partido, de uma igreja de um clube, de
uma corrente, - um dos caracteres de que se compõem as palavras de um
pensamento coletivo, para ele proveitoso mas indecifrável.
Formidáveis, naquela terra, o volume e a rapidez dos
movimentos de opinião ou sensibilidade, isto é, de contágio mental.
São turbilhões que passam levantando fiumanas de almas como
folhas secas. Estes movimentos tanto podem dar-se a propósito de
bebidas, como de um match de box; de uma eleição, como de
uma nova dança de negros; de um escândalo teatral como de uma doutrina
religiosa
Enfim, o indivíduo vai sendo empastado na comunidade e
arrastado nas convulsões obscuras das forças elementares que a percorrem
e remexem.
Este o pendor contemporâneo da civilização. Este o seu
perigo mais tétrico. Ela tende cada vez mais a absorver as
personalidades, como um organismo em jejum forçado tende a alimentar-se
às suas próprias expensas, esgotando os seus elementos vitais,
esgotando-se...
Chegado a este ponto, Eulálio interrompeu-se por que me
achou distraído. Na verdade, a minha aparente distração estava apenas em
que eu lhe bebia as palavras, e as memorizava.
Mas ele tinha a sua razão de me estranhar o silêncio e a
imobilidade; porque a boa educação manda que, nas conversas, se dêem
todas as atenções à pessoa que fala, e nenhuma ao que ela fala.
PASSEIO DOMINICAL
Hoje, domingo, quando cheguei ao meu posto de espera, por
volta de meio-dia, lá estava, em fila, uma família pobre.
Era visível que tinham destinado o dia para passeio e que
esse passeio era para eles um acontecimento. Respiravam timidamente a
frescura das impressões novas.
O chefe, homem de meia-idade, ia frouxamente embrulhado
num terno de brim pardo reluzente do ferro de engomar e onde mal se
dissimulava uma carta topográfica de remendos e serziduras. O chapéu
mole, puído e bambo tinha sido cuidadosamente armado sobre os cabelos
crescidos, repuxados a pente para trás das orelhas, onde formavam
caracóis. A camisa era limpa, e um sorriso satisfeito, que se diria
igualmente lavado com sabão de cinza, ao jorro da torneira sobre a tina,
se lhe abria na cara tostada, como uma toalha a corar ao sol.
Pois filhos buliçosos, entre os seis e os dez anos,
enfarpelados à marinheira, com grandes colarinhos deitados, por cuja
abertura se estripavam altos laçarotes de fita escocesa. Tinham chapéus
de palha amarela com cintas atuis, nos quais se liam nomes de navios de
guerra: "Aquidabá", "Timbira", em letras douradas. Traziam bengalinhas,
demasiado compridas e pareciam mais atrapalhar-se do que divertir-se com
esse luxo desacostumado.
A mãe, maciça no seu largo vestido de lãzinha cor
chocolate, os cabelos repartidos em duas asas negras e lisas, apanhados
numa rodilha farta sobre a nuca morena. Estava alegre como os outros,
mas de uma alegria meio assustada, - talvez acanhamento do vestido novo,
dos sapatos novos, do penteado que lhe repuxava a pele da testa.
Quando o bonde chegou, os pequenos treparam
desajeitadamente, agarrando-se ao carro com as mãos ambas e foram
colocar-se nas extremidades fronteiras dos dois primeiros bancos, a
garantir os postos de observação.
A mãe entrou com eles, arrastando um pela blusa,
empurrando outro pelo traseiro e sentou-se ao pé dos dois, ralhando em
voz baixa, como se estivessem num lugar de respeito.
O pai mais senhor de si, aboletou-se a pouca distância,
inspecionando tudo com um semblante meio severo meio condescendente.
Depois, todos entraram a rir e palrar. Todos se viravam
para um e outro lado, a olhar os prédios, as perspectivas das ruas, as
massas retangulares dos edifícios alteados ao longe, os automóveis que
passavam. Divertiu-os muito um caminhão cheio de futebolistas seminus e
gritadores. Também acharam bastante graça num velho de barbas bíblicas,
que trazia na mão uma espécie de árvore, de folhagem toda florida de
papaventos vermelhos, amarelos e azuis. E os papaventos giravam e
zumbiam como um enxame assanhado.
O estridor das rodas do bonde nas curvas mal engraxadas
foi ponto de partida de uma rivalidade entre os dois pequenos, cada qual
mais empenhado em imitá-lo com a boca. A mãe ria-se, tapando os dentes
com a mão, relanceando os olhos desconfiados pela circunvizinhança.
Quando o condutor marcava as passagens, os peque-nos
queriam saber como era aquilo, porque era, e o pai dava-lhes explicações
fantasiosas que eram ocasião de teimas e risos.
Enfim, como aquela família se divertia!
Ao chegarmos à cidade, saltaram para ir ver as vitrinas
e, de certo, para ir a algum botequim tomar café-com-leite e comer
cavacas e pães-de-ló - um festim delicioso.
Respiravam tranqüilidade e alegria. A alma boiava-lhes
numa descuidosa satisfação de filhos amados da felicidade e do candor.
Passear de bonde, andar pela cidade, ver a gente, ver as
vitrinas, tomar café-com-leite num botequim grande, cheio de espelhos,
em chávenas de louça brilhante, - que recreio, que consolo, que
temeridade jovial e dissipadora!
Nunca tenho inveja a ninguém, e aos felizes da felicidade
exterior, ainda menos que a ninguém. Mas diante dessa família, tive uma
espécie de inveja.
Pobre alma escalavrada e enfastiada, para quem tudo
quanto divertia aquela gente era vago e distante como tudo quanto é
muito próximo e muito visto, senti em certo momento uma impressão
angustiosa - a impressão que teria alguém, de repente, apalpando-se, de
que metade si mesmo já era coisa morta.
RUFINA
Encontrei no bonde um homem parecido com o Coronel
Ferrão, o ex-protetor de Rufina-Augusta. Esta surgiu imediatamente ao
seu lado, acomodando os vestidos, sorrindo e lançando sobre mim aquele
seu olhar magnético através daqueles cílios de treva, com uma
................................................. dolcezza
che intender non la può chi non la prova.
Claro que era uma aparição imaginária. Mas não me impedia
que ficasse olhando para o lugar onde colocara a moça e lhe dirigisse a
esta um longo e confuso improviso.
"Quem és tu? De onde vens? Que fazes? Como vives?... - Na
verdade, nada disso me interessa muito. Afinal de contas, nada tenho
contigo."
"O que me interessou desde logo em ti foi apenas a tua
figura. Apareceu-me de repente, no meio da vulgaridade fosca das coisas,
como uma obra-de-arte perdida num subterrâneo na qual batesse de repente
o jorro de uma lanterna furta-fogo."
"Era-me tão indiferente saber quem fosse a pessoa que
havia dentro dessa figura, ou mesmo se havia uma pessoa, como seria
indiferente, diante da graça de uma vela branca no mar azul, saber de
onde vinha, para onde ia, se levava a bordo uma princesa errante ou um
ogre sinistro.
Contudo, não me esqueci mais de ti.
Tu me entraste na alma como um farrapo que a ventania
atira por uma porta descuidosamente aberta.
A porta de minha alma profunda estava aberta naquela
hora. E eu fiz como a mulher pobre que, tendo achado em sua casa um
farrapo de escumilha brilhante, trazido pelo vento, não tivesse ânimo de
o varrer com o cisco, o levantasse e o prendesse à parede, entre
um caco de espelho e um cromo descorado.
És talvez um episódio horoscópico da minha vida, posto de
reserva pelo Destino para ser lançado, certo dia na desfilada
heteróclita dos casos da minha biografiazinha. privada.
Como que havia em mim um lugar vago à tua espera. Vieste,
caíste no lugar justo, e aí estás, fixa e luminosa como uma pedra fina
que, por maravilha do acaso, saltando, perdida, viesse cair justamente
no engaste vazio de um velho anel.
Devias fatalmente aparecer-me em determinada hora, como
aparece a forma exata e exteriorizada de um pensamento flutuante,
longamente entrevisto, longamente resolvido no espírito.
Eras um motivo que faltava ao magro concerto da minha
vida consciente e que aí havia de surgir, deliciosa serpe melódica a
ondular e faiscar num relvado de ritmos obtusos.
A música interior tem hoje uma dolência menos remota, um
gemido menos vago, uma ânsia interrogativa mais profunda, uma angústia
menos aérea e mais humana.
Por que me apareceste? Por que me agradaste? Por que não
te pude falar? Por que me foges sem o querer, e por que te evito,
procurando-te?
E por que vim a conhecer da tua vida, ó coisa graciosa e
fugente, apenas o aspecto sombrio e grosseiro? Por que não me
reapareces, para me confiar a tua história risonha e dolorosa, a celeste
e bestial realidade do teu destino, a lama e a chama da tua alma, ó
gentil, ó brilhante, ó miserável borboleta do brejo?
Mas a tua vida não me interessa, na verdade. Que é que eu
tenho contigo, que é que tens tu comigo?
Vimo-nos duas vezes. Será uma razão para que te deva
agora ver sempre? Tanta coisa bela e passageira como tu, bela passageira
de bonde, tem encantado os meus olhos por uma vez necessariamente única
- uma nuvem, um pássaro, uma hora de sol, um certo sorriso da felicidade
que se perdeu por ser achado!"
Tudo isto era dito com os meus botões. Mas, de repente, o
homem que se parecia com o coronel me encarou formalizado:
- "O senhor está estranhando alguma coisa na minha
pessoa?"
Olhei para o homem que se parecia com o coronel e
respondi, sem saber ao certo o que dizia:
- "Desculpe-me, senhor, tenha a bondade de me desculpar.
Eu não o conheço, nem conheço ninguém que se lhe assemelhe, mas estava
vendo se o senhor não seria uma outra pessoa."
O homem deu-se por satisfeito com a explicação.
CAMELÔ
Viajei ontem ao lado de um camelô, ou seja aquilo que
outrora se chamava um bufarinheiro ou charlatão. Hoje, esta última
palavra designa categorias mais ilustres de artistas da patranha; era
preciso um vocábulo novo, que evitasse confusões; a lei de repartição de
Bréal.
Pus-me a observar os gestos e as expressões do meu
companheiro de viagem, como outros examinam, fascinados, os homens
eminentes em certos ramos clássicos de atividade ou de inatividade
superior.
Modesto e simples não parecia sequer sonhar que pudesse
merecer a curiosidade e admiração de um seu semelhante (aliás muito
diverso, no meu caso). Por vezes, até se esquecia de si, e ficava para
ali murcho, com esse ar aparvalhado e desarmado que só costumam ter, em
público, bem familiarizadas com a idéia da sua nenhuma importância.
Ia muito sumido no seu canto, fumando maquinalmente um
cigarro meio apagado. Talvez premido por dentro, como por um parafuso,
por alguma preocupação de família, ou de dinheiro, ou de saúde.
A certo momento, saltou, enfiou as mãos nos bolsos das
calças - uma aragem áspera começara a dar tremuras de sezões às árvores
da rua - baixou a cabeça e entrou apressadamente por uma viela, deserta
e feia como um pátio de cortiço em dia de chuva.
O camelô, misto de artista, de orador, de pelotiqueiro e
de meneur. A multidão, sempre bestial, despreza-o. E ele é que
realmente sabe desprezar a multidão, porque a domina, a maneja, a
desfruta, e para tanto tem de a enfrentar, cada dia, como um domador de
olho vivo e de decisões fulmíneas.
Este exercício requer mais inteligência, mais sangue-frio
e mais intrepidez do que aqueles que são consumidos por toda a roda de
basbaques que se divertem com esse retalhista do heroísmo.
O camelô não é negociante; é um homem que negocia por
acidente. A venda de coisas é mero pretexto, no fundo, ou mero ponto de
apoio exterior, de que a sua complexa personalidade necessita para
funcionar. Difere do comerciante normal em aspectos essenciais, e a
vantagem estética é toda sua: faz do comércio um simples ganha-pão, e
não um sistema de vida; é senhor absoluto da sua atividade e não escravo
de uma atividade coletiva que o supere e o inclua como uma peça; não
tira do comércio nenhuma importância pessoal, mas, ao contrário, ele é
que condescende em dar ao comércio umas sobras da sua rica provisão de
coragem, de inventiva, de facúndia, de dons capciosos e sedutores, e em
sacrificar-lhe um pouco do seu nobre instinto de independência e de
travessura.
O camelô tem consigo uma dose de força intrínseca ou um
grão de bravura que falece aos da imensa turba do encostamento mútuo.
Estes procuram e arranjam a sua casa no plano das
atividades normais e respeitáveis, e gozam, com um mínimo de
originalidade e energia própria, ou mesmo sem nenhuma energia nem sombra
de originalidade, os benefícios mais ou menos previstos e mais ou menos
automáticos da organização. Aquele, porém, na sua pequeneza e na sua
modéstia, cada dia sai de casa para o mundo como pela primeira vez. Sai
completamente só, quase inerme sem a armadura dos mais, sem os
guarda-costas dos mais, sem boas e fortes armas de combate, - só, quase
nu, com uma funda na mão, como o pastorzinho Davi quando partiu em busca
do membrudo Golias.
Sai escoteiro e ignorado, sem rumor de ferros, sem
estropear de cavalos, sem alalis de trompa, sem atitudes nem gestos, à
caça de vagas migalhas de um tesouro possível, escondido sob a guarda de
um bicho-manjaléu com milhares de cabeças.
Isto é quase a reprodução, aí na rua, entre gentes
frívolas e sensatas sob os olhos frios dos passantes colocados e
tranqüilos, das façanhas ilustres do ágil e gracioso Sigurd quando
venceu os anões e prostou o dragão Fúfnir.
Nós vivemos na plena teia dos mitos e das lendas, e não
damos por isso. Perdemos o sentido poético das situações.
UM GRANDE EGOÍSTA
O meu amigo Heráclides, de ordinário benevolente, ia
ontem azedo, no bonde. Observava exemplos de aspereza e grosseria de
maneiras, aos quais via um sinal meteórico de barbarização, uma prova da
decadência do senso de humanidade, que outrora a religião alumiava ainda
nos mais incultos.
Heráclides apontou-me, sucessivamente, um passageiro que
deixara de ceder lugar a uma senhora, apesar dos olhos compridos que ela
deitava para o seu lado; um menor que se desarticulava no banco, como
uma letra gótica, e soltava grossas baforadas de fumo na cara dos
vizinhos; um cidadão bem trajado que disse dois desaforos ferinos ao
condutor porque este se atrapalhara numa questão de troco, e um homem
gordo, escarrapachado como uma foca, as perninhas roliças largamente
jogadas para os lados, a direita a premir uma pobre moça, a esquerda, a
bater no joelho de um velho magro, que fazia horríveis esforços por
ocupar apenas a metade do espaço a que tinha direito e que lhe era
necessário.
- "Veja, Trancoso, veja: todo esse pessoal tem, no fundo
da alma, um desprezo absoluto pelo bicho homem, uma indisposição latente
e injuriosa contra o gênero humano em massa."
- "Heráclides, estas pequenas coisas não têm a
importância que você lhes quer dar."
- "Não têm importância? Então você acha que nada
significa, nada, aquilo que aflora à periferia das personalidades,
normalmente, ordinariamente, como o efeito imediato e espontâneo de uma
fermentação? Então, se essa gente que ai vai tivesse outro fundo, esse
fundo estaria a borbulhar cá fora dessa maneira? Deite dois dedos de
açúcar puro num copo, encha o copo de água; que é que vem à superfície?
gases sulfúricos? fragmentos microscópicos de potassa? traços de ácido
prússico? bavas de sal de azedas?"
Curvei a cabeça, como quem cedia por ceder, para não
discutir. Mas, no fundo, cedia completamente. Entretanto, não convém
encorajar nos outros essas inclinações à clarividência. Nada tão inútil
nem tão deletério como enxergar demais.
Heráclides calou-se, com os olhos perdidos no filme que
se desenrolava por fora do bonde. Depois de uns minutos de silêncio,
disse-me:
- " Quero-lhe fazer um convite. Você não gostaria de
entrar para o Clube dos Egoístas?" - E antes que eu pedisse explicação:
"O Clube dos Egoístas, um grupo que fundamos, eu o Gabriel, o Tomasinho,
o Tinoco, ali no fundo do bar Kauffman. Reunimo-nos todas as
noites para conversar, ou para não conversar, apenas para beber o nosso
chope. Só se exigem duas condições: cada um paga a sua despesa, e deve
ser um indivíduo sem espécie alguma de generosidade."
- "Que extravagância? Então pode entrar toda a gente."
"Está enganado, redondissimamente enganado. Pois não vê
que este mundo anda cheio de indivíduos que se sacrificam pelo próximo?
pelo bem da Pátria? prosperidade da lavoura? pela educação nacional?
Pelo futuro da indústria petrolífera ? pela religião? pela família? pela
humanidade? Não vê como pululam, como se embatem, como fervem as
manifestações de caridade, as obras pias, os organismos de previdência e
auxílio mútuo, as campanhas contra a doença, a ignorância e o vício? Não
percebe como há uma infinidade de pessoas feramente devotadas a todas as
nobres causas?
Pois, bem. Nós não nos preocupamos com essas causas: só
nos preocupamos conosco mesmos. Só. Absolutamente só. Então, sucede que
a nossa prosa, lá no bar, à noite, é deliciosa.
Cada um de nós é um poço de desencanto. Mas esse
desencanto é um encanto. Tocamos com o dedo todas as misérias da
hipocrisia e da mistificação. Intensificamos danadamente, com a nossa
vida interior, a acuidade nevrálgica da nossa visão dos homens e dos
acontecimentos.
Despojamo-nos de tudo que é vestimenta de idéias feitas,
de preconceitos recebidos, de concepções correntes, de inclinações bem
vistas. Somos homens diante de homens; homens, só homens, simplesmente,
tristemente, heroicamente homens."
- "Mas que é que tem isso com o caso de que vínhamos
tratando?"
- "Tem tudo. Tudo. Essa gente toda que você aí vê é gente
que se desumaniza. É gente que não sabe ser egoísta. São anjos. Toda ela
se move por puros ideais, por santas idéias, por altos princípios, por
desígnios heróicos: batem-se, agitam-se, odeiam-se, caluniam-se,
esgadanham-se por amor à família, por amor à pátria, por amor à ordem,
por amor ao direito, por amor à cultura, por amor às letras, por amor à
civilização e por amor ao próximo.
Por isso mesmo, nós mesmos os egoístas. Metidos
conosco: nem filantropos, nem patriotas, nem heróis da família, nem
paladinos de coisa alguma. Homens. Apenas homens. Lucidamente,
miseravelmente e deliciosamente homens - livres e naturais como os
peixes do fundo do mar.
Eu creio que a humanidade, hoje, não tinha nada melhor
para fazer do que praticar e santificar o egoísmo - Você quer entrar
para a tropa?"
- "Quem sabe! Depende."
Heráclides sorria, como a dizer: "Este ainda não está
preparado", e de novo mergulhou no silêncio, fumando profundamente um
cigarro de palha. E depois, meio assim como se falasse consigo mesmo:
- "O curioso é que este nosso egoísmo, pelo que vejo,
acaba mal."
- "Por que?"
- "Porque tende, naturalmente, muito naturalmente, a
transformar-se na coisa mais séria neste mundo: em religião.
As almas descascadas ficam todas tão semelhantes! À
atitude que elas assumem diante da infinita miséria da condição humana é
tão inevitavelmente uma só, de raiz! Uma sede única de verdade e
sinceridade se apodera das gargantas. E um sentimento entranhando de
fraternidade acaba brotando por si mesmo, como o grelo das batatas.
Nós, insensivelmente, já nos vamos querendo tanto bem uns
aos outros que precisamos de fazer tremendos esforços para não resvalar
na sinistra comédia mundana da amizade e de galantaria!
Porque nós, lá, não pretendemos ser senão irmãos."
UM HOMEM PERFEITO
O Sr. João Cesário da Costa é um homem sólido,
solidamente refestelado na vida Tem rendas sofríveis, uma bela casa, uma
saúde de ferro, um genro colocado na política. Suas ambições nada têm de
temerárias nem de atormentadas: são plácidas; limitam-se, evidentemente,
a poupar trabalhos e amofinações, a garantir e a entreter a aurea
mediocritas ou o otium cum dignitate em que o Sr. Cesário
vive desde mocinho.
Conversar com o Sr. Cesário é um exercício que reconforta
e tonifica. A uma ausência absoluta de inquietações pensantes, reúne um
otimismo tranqüilo. Quando alguma opinião, alguma frase, algum ato
equivoco ou complicado cai no domínio de sua percepção, faz um gesto de
quem lhe sentisse o mau cheiro, e afasta-o de si, num pudico movimento
que não admite réplica.
É possível confabular com ele meia hora, uma hora, sem
lhe ouvir outra cousa que considerações sobre o bom e o mau tempo, sobre
a superioridade da roupa preta em relação à de cor, sobre a melhor
maneira de preparar um molho de tomates, ou sobre as inconveniências de
se viajar no estribo do bonde. Fala correntemente, com certa graça
natural, acentuando, recortando, remexendo, saboreando com volúpia os
ínfimos pormenores, como quem chupa os ossinhos de um frango assado.
O Sr. João Cesário faz-me, às vezes, o efeito de uma boa
cadeira de balanço. Quando me sinto fatigado dos meus infindáveis
solilóquios, que nada concluem, entreter um quarto de hora de
conversação com este homem é o mesmo que trocar um cavalo aragano por
uma cadeira fofa e embaladora. Não há senão o trabalho de fazer a
cadeira balançar.
Tive ontem esse prazer. O Sr. João Cesário
cumprimentou-me com a sua habitual bonomia temperada de autoridade:
- "Como vai o bom amigo?"
- "Bem, obrigado".
- "Bem mesmo?"
- "Assim, assim..."
- "Por que?"
- "Nada. Vou bem."
- "E a família?"
- "Bem."
- "Sua irmã?"
- "Agora bem."
- "Ah! Esteve doente?"
- "Coisa ligeira."
- "Constipação, de certo."
- "Justamente."
- "O tempo é disso. Tudo por aí anda cheio de gripados.
Em casa, todos mais ou menos perrengues."
- "Que maçada!"
- "Mas não há nenhum caso sério. Creio que o mais doente
ainda sou eu."
- "Não parece."
- "As aparências. Tenho uma dorzinha de cabeça que não
para, aqui, entre a fonte e a nunca, passando por cima da orelha, - vê
neste ponto. Mas o pior é que o intestino anda funcionando meio à
matroca, - de tudo, uma sensação de cansaço pelo corpo todo, essa
sensaçãozinha amolante e gostosa de um corpo que está pedindo cama - ou
rede, que é melhor... ah! ah!"
- "E o senhor sai, apesar de tudo?"
- "Ah! Não posso ficar preso - é inútil! - senão em
último extremo. Acredito mesmo que a gripe, conseguindo resistir-se-lhe
de pé, vai embora mais cedo. 8enti-lhe a visita há três dias, sábado.
Sábado à tarde. Disse à minha velha: "Por sua culpa, estou gripado." Ela
ficou passada. "Por minha culpa, Cesário?" -"Sim, por sua culpa, porque
me obrigou, ontem à noite, com aquele frio, a dar uma grande volta pelo
bairro. Coitada, arranjou-me mais que depressa um escaldapés, uma camisa
de flanela, umas meias de lá, um chá, e esteve a ponto de fazer promessa
a Nossa Senhora da Penha. Mas eu exagerava. Gosto de brincar com a
velha; nunca vi criatura mais medrosa, quando se trata de doenças em
casa. Claro que apanhei porque tinha de apanhar..."
- "Não se sabe como é que ela chega"
- "Não, às vezes se sabe. Mas, no meu caso, não foi o tal
passeio de noite. Digo que não foi porque, já antes de mim, o Alfredinho
meu filho sentira a primeira bordoada. Só nos contou isso ontem à hora
do chá. Demais, estou habituado a fazer voltas a pé, de noite, depois do
jantar, quando não chove. É verdade que aquela noite tinha caído uma
garoinha, coisinha de nada, ali pelas sete horas. Quando saímos às nove,
o céu estava limpo como um prato. E que luar! Fomos até lá ao alto do
morro, descemos pela avenida, passamos pela igreja..."
- "Sr. Cesário, leu a notícia daquele crime?"
- "Nem fale! Que coisa estúpida! Como se mata um homem
pacato, trabalhador, boa pessoa! Aqui está um caso em que eu, jurado,
não tinha contemplações. Então é assim? destrói-se um pai de família
como quem acaba com uma cobra à-toa, por umas questõezinhas de nonada?"
- "Havia uma questão de honra, alega o assassino."
- "Honra, honra! Pusesse a mulher para fora de casa."
- "Mas, ele amava a mulher."
- "Qual, nada. O seu dever era esse, e nunca matar.
Ninguém pode matar. A vida, quem a dá é Deus, e quem a pode tirar é só
Deus".
- "Mas o senhor garantirá que não foi Deus quem a tirou à
vítima por intermédio do assassino, como a podia tirar por meio do tifo
ou do automóvel?"
O sr. João Cesário não respondeu; nem pestanejou sequer.
Puxou do lenço de linho, que trazia dobrado no bolso da direita,
escarafunchou as ventas, tornou a assoar-se, dobrou e guardou o lenço.
Em seguida tirou um outro de fina cambraia, que trazia alequeado no
bolsinho de cima, e passou-o pelos lábios e pelas fossas. Por fim,
arrumou-o de novo, calcou-o, e, numa despreocupação satisfeita:
- "Pois é isso".
Pouco adiante, disse-me adeus, esperou o carro parar bem
parado, desceu, voltou-se para mim a fazer uma última cortesia, e
partiu, muito apertado no seu terno azul de risquinhas brancas,
sopesando com graça a bengala de castão de ouro.
E havia em redor dele um halo de perfeição.
Eis aí um homem feliz. Acompanhei-o com um olhar de
inveja, enquanto pude; mas acabei por me resignar. Coisas que não se
aprendem, não se adquirem. Que fazer? Limitarmo-nos a admirar.
Este indivíduo, como tantos outros aparentemente
insignificantes, é uma verdadeira maravilha da humanidade. Que
assombrosa obra de inteligência e de técnica magistral, a composição
deste mecanismo físico-psíquico, tão perfeitamente adaptado a todas as
condições médias de uma navegabilidade tranqüila!
Foi, sem dúvida, fabricado após uma série imensa de
provas e após uma colheita e apreciação rigorosa de milhares de dados
experimentais. Diga quem o quiser que é mero produto das forças
inconscientes da natureza".
DE AMICITIA
Ia eu muito macambúzio, no meu banco de trás, e nem sabia
porque.
Lembro-me de que, em casa, quando me aprontava para sair
me havia irritado por causa de uns incidentes minúsculos. Ao vestir o
colete, o relógio caíra-me do bolso, e ficara suspenso pela cadeia; e
algumas moedas que estavam no outro bolsinho despencaram para o soalho,
rolando em todas as direções, como expressamente para me fugir. Quando
eu passava a escova pelo chapéu, ela deixara pegada à copa uma lanugem
de felpas impalpáveis, de seda ou de algodão, que tive de extrair à
unha, uma por uma.
Saí quase a correr, e o casaco se me enganchou pelo bolso
à maçaneta da porta. Libertei-me, empurrei a porta com um safanão, e
ela, voltando, soltou um relincho tão triste, que me senti subitamente
envergonhado da minha estúpida impaciência.
Que covardia e que ingratidão ser bruto com as coisas! É
preciso, ao contrário, amá-las, no recanto em que vivemos, como as boas
protetoras e inalteráveis amigas. O aspecto ordenado, limpo, benévolo e
tácito dos objetos que me rodeiam, no meu quarto, parece refletir às
vezes algo que não é bem deste mundo: um ambiente de estampa, uma
atmosfera de história, um casulo de intimidades intangíveis, uma ilusão
de permanência e de espiritualidade - enfim, um sonho, uma doçura, um
perfume.
Ao tomar o bonde, porém, já eu pensava em coisas muito
diversas daqueles incidentes. De modo que não sei porque fiz metade da
viagem tão sombrio, a olhar para o mundo com uma espécie de terror
inerte. A estupidez e o mal da vida se me revelavam com a evidência de
um acidente brutal, como um sinistro imenso que se acabasse de produzir,
ali, de repente, sob meus olhos.
"Hei de consumir os anos que me restam, como tantos que
já passaram, a fazer duas e quatro vezes por dia este mesmo trajeto, a
percorrer estas mesmas ruas, estas mesmas esquinas, estes mesmos postes,
entre as mesmas caras, as eternas caras indiferentes insidiosas,
malignas, sornas, fátuas, soberbas, hostis.
Hei de ir todos os dias à repartição, ver a cara
regulamentar do chefe, ver as caras dos meus cinco ou seis auxiliares,
uma tola outra escarninha, outra fútil e finória, outra bovinamente
resignada e mortiça. E não hei de topar muitas vezes na minha frente com
alguma cara aberta e sincera, alguma cara iluminada e boa, desfranzida e
cordial, que me olhe firme e de chapa com uns olhos direitos e claros
como duas espadas, límpidos e quentes como duas chamas.
Meu Deus, como pude viver até hoje deste jeito! Meu Deus
como é que hei de viver ainda, sabei-me lá até quando, nesta triturante
estupidez e nesta abjeção ignominiosa! Matai-me, senhor, matai-me logo.
Ou então, dai-me uma sorte na loteria, que me permita sair por esse
mundo, sem cuidados, livre, errante, como o homem que perdeu a sombra,
durante os primeiros momentos de sua peregrinação."
Ia engolfado nestes pensamentos amarelos, quando subiu e
veio sentar-se a meu lado o Aurélio de Moura. Cumprimentou-me com
afabilidade mais larga do que a habitual. Acolhi-o com prônubos
alvoroços.
Auré1io perguntou-me solícito pelas minhas coisas,
passando-me o braço pelo ombro, com um sorriso de páscoa. Deixei-me
abraçar, comovidamente, e conversamos.
Este rapaz é dos que parecem apostados a pensar, no miúdo
e no grosso, de modo radicalmente diverso do meu; mas esta
circunstância, que em outras ocasiões me quizilava, então se me tornou
mais um motivo de satisfação, como um bom molho ajuntado a um prato já
de si excelente. Concedi tudo a Aurélio, pelo prazer de o ver trabalhar
em liberdade. As coisas vulgares e as coisas estrambóticas que ele
dizia, tudo me soava uma doce música.
"Fala, Aurélio! fala, fala tudo quanto quiseres.
Agrada-me pensar que é para mim só que tu falas, que o teu espírito veio
verter no meu a espuma generosa do seu mosto vivo - uma forma de
confidência sem gravidade e sem segredo, mas indiretamente complexa e
escancarada.
Fala Aurélio! Achas que os postes de fios elétricos
deviam ser pintados de escarlate? Muito bem. Achas que o Brasil precisa
urgentemente ser invadido pelo argentarismo estrangeiro, que é
necessário matar todos os leprosos e que as mulheres não devem mais
aprender a ler nem escrever? Continua, Aurélio; tens razão, porque me
divertes e porque confias na minha tolerância. Continua sempre. Pensas
que a música é a mais insignificante das artes e que a poesia deverá ser
proibida por decreto? Fala, fala....
A mim tu tens a coragem de dizer tudo, e isto significa
que tu avalias afetuosamente a minha capacidade de ouvir todos os
destampatórios honestos e de levar a sério todas as tolices sinceras.
Com efeito, nada mais interessante do que uma opinião, essa coisa
rara, essa coisa inútil e preciosa.
Mas, na verdade, o que ora mais me interessa não são as
tuas opiniões, é o fato de mas expores nessa confiança tranqüila e
ridente, sem reservas e sem receios, à sombra da frondosa Amizade, - a
bela, a santa, a benéfica Amizade, o único dom dos deuses
desmemoriados, que nunca mais se lembrariam de nós, os pobres humanos,
ou que, tendo-no-la dado, entenderam ter-nos feito a maior oferta
compatível com o nosso egoísmo e a nossa ruindade".
Entrementes, Aurélio discorria. Asseverava, por último,
que higiene pública é apenas o negócio dos médicos higienistas e dos
fabricantes de aparelhos higiênicos.
- "Sim, talvez tenhas razão".
- "Bem, eu salto aqui, seu Felício. Mais uma vez,
obrigado pela passagem".
Eu tinha-lhe pago a passagem.
"Ora, ora!"
- "Não você nem sabe que favor me fez. Saí de casa
sem um níquel. Mas, quando vi você neste bonde, lá da esquina da
alameda, disse cá comigo, estou garantido. E eis aí por que você teve de
me aturar todo esse tempo! Como sabe, esta linha não é a que mais me
convém. Mas quem não tem cão... Obrigadinho.
Ciao!".
- "Té logo, Aurélio..."
PROBLEMAS
Hoje, o bonde vinha cheio, e tive de ceder o meu lugar a
uma senhora. Esta, ao invés de me agradecer, parece que ficou
ligeiramente arrufada com a minha gentileza.
Creio que a ética do bonde manda que, ao ceder o lugar, o
passageiro não dê a isso a mais ligeira aparência de um ato de cortesia
faça-o friamente, como por uma obrigação regulamentar. Deve ser isso.
Mas será? Eis aí um dos inumeráveis problemas
psicológicos que o bonde depara. O bonde é um saco de víspora: é
só meter a mão, remexer, pegar, lá vem o problema psicológico.
Infelizmente, esses problemas vão ficando cada vez mais
obscuros, à medida que cresce o número dos psicologistas, número
infinito, hoje em dia, só comparável ao dos sociólogos. Se o futuro do
Brasil dependesse da psicologia da sociologia, estava garantido; e só
nos restava lamentar que não pudéssemos viver mais uns cinqüenta
ou cem anos, para assistir ao grande fogo de vistas dos resultados.
Estupenda coisa a ciência!
Há dias, vi o Sr. João Cesário a conversar atentamente
com um mocinho sisudo e altivo. Este falava em coisas difíceis:
mentalidade primitiva - formação alógena - metabolismo racial - camadas
de aluvião - idealismo hipocondríaco - teorias de Comte e Spencer -
obras de Le Play, Fouillet, Tarde, Novicow, Pareto, memórias de
Schwaartzemberg e Perikowski, de Astrinaieffe e Dragobsen. De repente,
despediu-se e desapareceu veloz, como uma motocicleta.
Corria, provavelmente, a endireitar algum erro perigoso
de técnica social, que estivesse para desabar sobre nós. Digno bombeiro
da Ciência!
Neste ínterim, perguntei assombrado ao Sr. Cesário:
- "Quem é este menino? Que sábio!"
- "Nem tanto. Muito estudioso, isso sim. Especializou-se
- não sabe? É apenas sociólogo".
Senti-me absolutamente acalcanhando com ver um menino
que, ainda longe dos trinta anos já havia conseguido ser um sociólogo,
apenas. Senti necessidade de esquecer aquilo.
Montesquieu disse que não havia aborrecimentos que não
lhe passassem com meia hora de leitura. Não sei se isto provará a
virtude da leitura ou antes de Montesquieu. A mim, muitos aborrecimentos
me desaparecem com a decifração de problemas ou com jogos de paciência.
Armei logo uma série de dificuldades através dos miolos, e depois
mergulhei em cogitações para as desmanchar uma por uma.
Foi o que fiz hoje. Não tendo mais em que me ocupar,
comecei a extrair e remexer os problemas que o bonde me oferecia,
abundante corno pedreira.
Por que é que os nossos conhecidos sempre nos aparecem
nos bancos de trás à hora da cobrança das passagens?
Por que é que as senhoras apeiam voltadas para o lado
traseiro do carro?
Por que é que os condutores, quando recebem as passagens,
vêm com cara de cobradores de contas atrasadas?
Por que é que não se pode tirar um lenço ou abrir uma
cigarreira sem despertar a atenção vigilante do vizinhos?
Por que é que, ao contrário, se a gente sofre e tosse com
o fumo de um cigarro alheio isso não é percebido nem pelo vizinho
fumante?
Por que é que, quando lemos, há sempre um passageiro a
querer por força descobrir o que vamos lendo?
Por que é que os homens, quando pedem licença para
passar, são mais atenciosos à entrada do que à saída?
Por que é que o lavador de pratos ou o vendedor de
bananas trata os condutores como se estes fossem os trintanários de seus
coches?
Por que é que o passageiro acha graça nas grosserias ou
desaforos do condutor, desde que não são com ele?
Por que é que, encontrando um amigo distraído e
pagando-lhe a passagem, ele imediatamente nos pergunta como vai a
família?
Por que é que só assobiam no bonde indivíduos
inteiramente desprovidos de memória musical?
Por que é que, se chove, há sempre, ao nosso lado ou
à nossa frente, um passageiro que não tolera cortinas arriadas?
Por que é que tantas senhoras gordas, não permitindo que
se lhes toque de leve com o dedo, não fazem contudo nenhuma cerimônia
para se amesendar em cima de nossa perna?
Por que é que há tanta comoção no bonde, se este pega uma
galinha, e não há nenhuma por causa do homem enfermo, aleijado e
decrépito que vai no carro?
Por que é que os moços bonitos e os célebres ficam
sentados de viés?
Por que é que temos tanta paciência para perder duas
horas numa pane difícil de automóvel, e nenhuma para sofrer dois
minutos de parada do bonde num desvio?
Por que é que as senhoras, ao pagar a passagem, custam
tanto a encontrar o dinheiro na bolsa?
Por que é que o bonde estimula em certos indivíduos a
vontade de comer amendoim torrado e tremoços?
Por que é que as pessoas mais desocupadas e mais
pachorrentas se tomam de pressa e de nervos quando o bonde vai chegando
ao ponto final?
Por que é que nos dói mais termos perdido o nosso bonde
do que o ter um amigo perdido o trem - ou mesmo uma perna?
ESCOTEIRO
Ainda revejo nitidamente aquele escoteirinho que entrou
hoje no bonde pela mão do venerando papai. Um feixinho de ossos, olhos
brancos, lábio pendente, postura curva e bamba de aluno de catecismo.
Retrato ideal do menino dócil e bem comportado.
Se o inflexível progenitor lhe falava, respondia com
respeitoso sorriso, sorriso frágil e distante, virando para a cara
fiscalizadora uns olhos de animalzinho perfeitamente domesticado.
O pai, sem dúvida, muito satisfeito com esse rebento
esperançoso, tão automático na obediência e na penúria de vida. O
pequeno chamava-lhe papai. Coitadinho! Devia chamar-lhe progenitor.
Progenitor é o nome que na verdade calha a esta espécie
de autores de vidas alheias. Impiedosamente solícitos, eles parasitam as
suas misérrimas criaturas. Polvos agarrantes, colantes e triturantes,
abusam do direito de ser senhores de almas. Estão cheios da crença surda
de que o melhor que podem fazer a seus filhos é formá-los à sua
semelhança.
Parecem orgulhosos de ter mudado o empirismo da
paternidade numa especialização técnica. Têm o ar de pais de família
diplomados.
Já não lhes bastam as luzes da Pedagogia, da moral, da
Religião, da Medicina, da Gramática e do don't. Renovas achegas
até na Sociologia. A Psicologia vai-se-lhes impondo como um evangelho
(tanto mais cômodo quanto se pode abrir em qualquer lugar e ler de
corrida ou salteado). Creio que a heráldica e o cálculo integral também
têm que ver com a matéria.
Progenitores! progenitores! homens respeitáveis,
sapientes e pendentes, sagazes e tenazes. Tenazes sobretudo. Tenazes de
ferro! Só lhes falta um pouco de bom senso e um pouco do senso de
humanidade. E apenas perdem o direito a esse nome simples, vivo,
saboroso e místico de pai.
Pai!
palavra elementar e
profunda irmã de ar, água, pão, sol, dor, alegria, esperança,
coisas fundamentais e essenciais, belas e terríveis como tudo quanto
nos supera, tudo quanto nos vivifica, nos vê passar, e continua. Palavra
de ressonâncias externas, com barulhos de lágrimas e anseios de amor, de
melancolia e de piedade.
Mas também isso tende a desaparecer sob a capa de chumbo
do cientificismo, do tecnicismo e do pedantismo esmiuçador e
complicador, pragas que vão devorando todas as boas coisas deste mundo
triste, como aquelas vacas que devoravam vacas, no sonho do faraó.
Os persas, de há dois mil anos, segundo o testemunho de
Heródoto, não queriam que seus filhos aprendessem nada mais que três
coisas: montar a cavalo, manejar o arco e dizer a verdade. Era um
programa completo de educação individual e geral, utilitária e
idealista, física e psíquica, individual e social.
Montar a cavalo - eis a primeira necessidade. Todos temos
de ser cavaleiros, de guiar uma besta e de nos servir dela. Manejar o
arco - arma franca, simples e forte, ato de habilidade, de sangue frio,
de coragem viril e leal, abertamente praticado à luz do sol, em cima do
cavalo. Dizer a verdade - condensação última e por feita de todos os
deveres, dos mais sérios, mais ásperos, mais agoniantes e esporeantes
deveres da vida comum. da atividade intelectual que quer pairar no alto
e ser fecunda, da sublimação moral que pretende chegar à retidão, à
simplicidade e ao fulgor definitivo.
Mas estas sínteses divinatórias se vão tornando
impossíveis. Tudo é sabença, é técnica, é pedantologia, é complicação.
Diante daquele pai e daquele filho, fiquei a pensar na
sorte das belas idéias e no irônico destino dos inventores.
O escotismo nasceu do exemplo dado pelos boys
sul-africanos na guerra contra os ingleses. Ágeis e robustos, trepando
às árvores como serelepes, arrastando-se por chãos e pedregais como
lagartixas, varando lagoas como filhotes de hipopótamos, espertos e
pândegos como gorilazinhos, prudentes como tartarugas, teimosos como
porcos do mato, eram ótimos exploradores e espias de campanha.
Num contato combinado com a áspera natureza e a
necessidade multiforme e imperiosa, ganhavam uma força de paciência, de
coragem e de desprendimento, uma flexibilidade e rapidez de senso
prático, uma destreza de espírito, que, em suma, constituíam uma bela
moralidade agreste e saudável, natural como a respiração ou como as
funções digestivas.
Desconheciam as intemperanças da paz e da praça, o
beberete, o estupefaciente, a literatura desalmada, a gula, o dinheiro,
o luxo, o mercantilismo, a cabotinagem, a intriga, a maledicência, o
espirito, o eretismo sentimental e sexual. Sóbrios, tácitos,
incisivos. Da civilização, só assimilavam a fina flor; da barbárie, a
masculinidade sadia, generosa e jovial.
Um general britânico viu isso, franziu impressionado o
sobrolho, curvou a cabeça, parafusou. Por que não transplantar essa
espontânea florescência da casualidade viva para os domínios da educação
social?
Voltando à Inglaterra, criou o escotismo. Era o remédio
indicado para sanear várias fontes de podridão, que iam minando a fibra
do old Tom.
O mundo todo pegou a fórmula e aplicou-a. Mas,
geralmente, a fórmula só. O eterno prestigio das receitas não podia
falhar: a receita pareceu esplêndida. Bela receita! E a receita voou
para todos os cantos do mundo, como a última descoberta para limpar
chapéus de palha, para curar defluxos ou para compor obras de arte
geniais e vendáveis.
O resultado ei-lo aí: uma quantidade de coelhinhos
guardanacionalizados; uma escola de virilidade, de independência, de
selfcontrol e de ânimo benfazejo, mudada numa triste e gélida
pedagogia, regular, burocrática, higiênica, ginástica, homenageativa,
sob programazinhos variados que são sempre a mesma coisa. E tudo
comandado a toques de apito, entremeado de discursos e - supremo horror!
- tudo meticulosamente, implacavelmente mecanizado pela sapiência
mensuradora dos técnicos.
Ah! os terríveis técnicos, os tenebrosos técnicos,
iscados até à medula por esse flagelo do século, o tecnicismo
anti-séptico, esterilizador de toda bactéria de entusiasmos e
instintividades turbulentas e regenerativas!
Essa, a marcha inevitável de todas as altas idéias quando
descem ao campo da realização, que é o da degradação. Esse, o irônico
destino que aguarda os sonhos de todos os inventores, concepções
luminosas cujo arcabouço lógico se transmite e se propaga, mas cuja alma
lírica e divinatória permanece no altiplano das possibilidades
incompreendidas.
Esta alma é incomunicável, como a alma do Vesúvio é
estranha aos hábeis artistas que cá por baixo, colhem a lava resfriada
para talhar nela as suas eternas, invariáveis figurinhas.
UM HOMEM PERFEITO
Tenho-me encontrado muito com o Sr. Cesário, ultimamente.
O Sr. Cesário, às doses espaçadas e discretas, faz bem. É
desingurgitante, refrescativo, uma coisa assim entre o sal de frutas e
sorvete de copinho. Mas, todos os dias, em todas as viagens, é demais.
Aquilo que, de quando em quando, e por momentos, nos
encanta como um livro novo, folheado a furto, com a continuação se
converte num símile dessas revistas atrasadas e revistas que se nos
oferecem na sala de espera do dentista ou na loja do barbeiro.
Mas tudo tem o seu lado aproveitável. O lado aproveitável
do Sr. Cesário é que ele me dá lições de estilo, do estilo estabilizado
e conspícuo que convém às relações públicas entre funcionários e pessoas
colocadas. Ele não é, mas devia ser diretor de uma repartição.
Fala como um bom minutador de ofícios. Tem a serena
compenetração de autoridade, o senso das hierarquias, o tato
diplomático, o respeito das fórmulas e a impersonalidade de julgamentos
que se requer num chefe acabado. Por esse aspecto burocrático, o seu
contato é útil. Boa pedra de amolar. O mau é que às vezes amola demais.
Que rico fundo de idéias honestas ele possui! Em poucos
dias, assim como quem não se aplica, durante quinze ou vinte minutos de
bonde, fiz uma boa coleta de opiniões do meu distinto amigo.
O que não lhe faltam são opiniões. O Sr. Cesário é um
homem eminentemente opinativo sem contudo ser opiniático. Já houve mesmo
um indivíduo maldoso, de cujo nome nem me quero lembrar, que uma vez mo
definiu com escarninho intento, nestes termos: "um filho dileto da
Opinião Pública."
O Sr. Cesário sentencia, por exemplo que "tudo nesta vida
é questão de ponto de vista." Afirma, acentuando o tom de convicção, a
corrigir a aparente leveza da frase paradoxal, que "o senso comum é o
que há de menos comum entre os homens". Também costuma declarar, com um
gesto fisionômico de aguda intuição, que "tudo é relativo".
Acerca de moral, só lhe ouvi por enquanto um conceito
genérico nitidamente formulado: "Inteligência sem caráter é droga".
Sobre o Além, a vida e a morte, a crença, e assuntos
correlatos, costuma ser mais explícito, provavelmente porque a sua
situação de amigo do vigário da paróquia e de irmão do Santíssimo lhe
tem permitido certa familiaridade com o mistério.
Concede que o Outro Mundo seja coisa duvidosa, mas acha
que, em todo caso não convém brincar. A esperança e o temor que se ligam
ao Além são necessários e são insubstituíveis.
O que lhe repugna é o inferno. Nesse, acredita "porque é
seu dever de católico nato e praticante acatar as injunções da Igreja".
Mas, afinal, o verdadeiro inferno parece que "e aqui mesmo" - "se bem
que não se devam aceitar certos exageros de pessimismo".
Ontem, o Sr. Cesário saiu-se com esta frase: "Deixe
falar, a religião é um freio, como dizia padre Miguel, meu padrinho."
As suas opiniões sociais e políticas são do mesmo feitio
enxuto e corrente:
Todas as formas de governo são boas, desde que haja
honestidade.
O nosso povo não estava preparado para a República.
Governar é uma questão de bom senso e de recursos.
É um grande mal a oposição sistemática.
Cada povo tem o governo que merece; mas nem sempre.
A política de hoje é eminentemente econômica.
A maior das nossas necessidades é a educação, - em
termos.
O brasileiro é muito inteligente, mas indisciplinado e
vadio.
Não há questão social no Brasil, pais novo, aberto a
todas as iniciativas.
Somos um povo em formação.
A boa administração depende da estreita harmonia dos
poderes.
A mulher deve permanecer no seu posto de rainha do lar.
A esmola deprime e nada adianta.
O empregomania e o bacharelismo são dois males nacionais.
A retórica é outro vício brasileiro.
A dissolução dos costumes caminha a passos de gigante.
O Brasil é uma terra de poetas.
A maior das nossas desgraças é a crise de caráter.
"A lavoura é a coluna mestra do nosso sistema arterial".
Ontem, acertou de falarmos a respeito de literatura, a
propósito de um romance de Macedo, que Cesário me pedira emprestado.
Declarou que não era para ele, mas para a senhora. Não gosta senão de
romances históricos e instrutivos, como os de Júlio Verne e Vítor Hugo.
Passou a expender idéias sobre outros ramos. Não perde
tempo com poesias, mesmo porque não as entende. Os dramas e tragédias já
não são para os nossos dias; ninguém mais se resolve a ir ao teatro para
ficar triste; e para tristezas bastam as da vida. O teatro deve ser
humorístico e moral.
Os Lusíadas, a seu ver, foram feitos especialmente
para exercícios de análise. A obra pode ser muito boa, mas para quem
gosta. De resto, o Sr. Cesário está convencido de que todos os
clássicos, que aliás nunca leu, são cacetes e intragáveis. Parece mesmo
pensar que eles escreveram expressamente para deixar modelos de boa
linguagem gramatical. E, um destes dias, exclamou com recacho de
homem-do-seu-tempo: "Quais clássicos, quais nada! A língua também
evolui, entendeu?"
Acha que a língua italiana é a mais suave, quando bem
pronunciada; mas que a mais útil, na atualidade, é a inglesa. Quanto à
nossa, acredita que seja a mais difícil de todas, a mais "cheia de
dúvidas e encrenquinhas". Pois se o próprio Rui Barbosa, a "Águia de
Haia", levou a vida inteira estudando português.
O que aí fica é resultado de uma colheita muito
irregular, mas já basta a caracterizar as qualidades fundamentais deste
sólido e harmonioso espírito.
Quanto às expressões, o Sr. Cesário tem todas, todas
quantas se acham consagradas pelo gosto das classes respeitáveis.
Se fosse capaz dos trabalhos seguidos, regulares e
minuciosos da Filologia, eu poderia tomar o meu amigo como um compêndio
vivo das filtrações eruditas e literárias de segunda mão na mentalidade
média da burguesia nacional, e explorá-lo metodicamente. Daria para um
belo estudo de Psicologia Idiomática, cheio de conseqüências para o
literato, para o glotologista, para o educador, e até para o alienista,
- um belo estudo que, sem dúvida, não seria lido senão pelos indivíduos
que a Providência destacasse para lhe meterem a lenha.
As expressões frias do Sr. Cesário são algo de suculento
e de opíparo. Algumas, as menos repolhudas, as meãs, ele as profere com
plena serenidade. Mas como aprecia igualmente as mais pomposas, sempre
arranja lá um jeitinho de as empregar, soltando-as com um certo ar
brincalhão ou irônico, que lhe dá por vezes o aspecto original de um
homem que acha graça nas crepitações do próprio pensamento.
Já lhe apanhei, não há muito, sem lhe mexer nas molas,
referências às "trevas da ignorância", ao "santuário do lar", ao "punhal
da calúnia", à "máscara do anonimato" e ao "dédalo das paixões". Foi um
dia em que estava impressionado com a onda de crimes, suicídios e
pouca-vergonhas que por aí vai "num crescendo assustador". Falava com
tal abundância e tal veemência, que cheguei quase a desconfiar que me
tivesse na conta de um dos responsáveis.
De uns dias para cá, tenho subitamente guiado o fio e
dado o tom à conversação, e o Sr. Cesário se desata em chuveiros de
preciosidades.
A propósito de política, lançou zargunchadas certeiras
aos "eternos descontentes", que "vivem a semear a cizânia" com seus
"cantos de sereia". Mas também, por um estríqueto "dever de
imparcialidade", não podia deixar de "verberar o impatriotismo de certos
homens colocados no galarim, que transformam em vacas de leite os postos
de sacrifício a eles confiados pelo povo, a eterna besta de carga".
Terminou resumindo-se numa sentida peroração:
"Enfim, meu caro amigo! é a tal crise de caráter.
"Mas que quer? Nem a majestade da religião escapa a esse
referver de paixões subalternas! Até no seio das irmandades se intromete
a politicagem rasteira! Até lá, indivíduos sem entranhas vão pondo a
garra, com. pés de lã, e... Homem! paremos por aqui.
"O tempora!"
De onde pude inferir que o Sr. Cesário andava às voltas
com algum desaguisado na paróquia.
A um espírito assim ricamente organizado não podia faltar
um certo aparelho de erudição leve. Consegui os seguintes indícios,
apanhados foneticamente, como convém a coisas pescadas nas águas vivas
da elocução oral:
"Laborônia vince - Cosivá ilmondo - Senon évéro... -
Lemondemarche - Arraite! - Tâimismónei - Savá sandire - Via crúcis -
Tante grácie, cabalhero! - Por mares nunca dantes navegados - Festim de
Baltazar - Ciumento como um Otelo - As trevas da Idade Média - Crueldade
neroniana - Justiça imanente - Psicologia das multidões Os meio
intelectuais - O poverélo de Assis - As lições da sociologia - A ciência
de Ádan-Esmite - O último romântico - Os tonéis da Danaide - Vá
derrétro!"
Enfim, grande caçador de frases perante o Eterno!
O BONDE E A RUA
O bonde da tarde, hoje, foi demorado por uma qualquer
manifestação popular, que lhe barrou a passagem. Os viajantes, depois de
satisfeita a primeira curiosidade, obra de segundos, começavam a dar
sinais de irritação, quando um orador entrou a trovejar. Essa obstrução
pareceu a todos insuportável, e todavia não durou mais de cinco ou seis
minutos.
Sempre é verdade que a medida real do tempo é o nosso
desejo.
Isto me faz lembrar o meu colega Sinfrônio de Mendonça,
que, outro dia, lá na repartição, ao inaugurar-se o retrato do chefe,
quis à viva força ler um discurso. E leu, prevenindo os ouvintes: "É
curtinho senhores, tenham paciência".
Esta esfarrapada desculpa com que se costumam cobrir os
oradores intempestivos baseia-se toda num passe finório com as noções de
tempo - a do tempo mecânico e objetivo e a do tempo psicológico ou
subjetivo. Quando dizem que a peça é curta, é porque lhe aplicam a
medida-relógio, como se fosse esta a que importasse aos ouvintes como se
não fosse, por exemplo, uma verdade universal que o pequenino sermão de
ouro que nos aborrece é dez ou mil vezes mais comprido do que a
interminável lenga-lenga que nos lisonjeia.
O nosso relógio interior tem também dois mostradores, um
grande e outro pequeno, mas o grande é que dá medida prática dos minutos
desagradáveis, que aí correspondem às horas, e o pequeno marca a duração
das horas amenas, que nele são minúsculas frações - quando o ponteiro
não está engasgado.
O tempo real é conforme ao ícone que dele deixaram os
gregos - um velho decrépito que naturalmente se arrasta quando caminha
por seus pés, mas que também voa como um pássaro, porque tem asas, e
quando bate as asas rejuvenesce.
RUFINA
O homem é um ser tão mesquinho, que onde quer que ele se
ajunte logo lhe sobrevem, pelo número, uma alma coletiva, embora muito
rudimentar.
A multidão que se ensardinhava em redor do orador tinha
visivelmente a sua; toda ela se agitava num só ritmo, gritava com uma só
voz e se enchia de braços erguidos como um só bicho a eriçar-se numa só
contração momentânea. O bonde também a possuía mas indiferente,
comodista e escarninha.
Uma contava o seu tempo pelo mostrador pequeno, a outra
media o dela pelo quadrante maior. Eram duas entidades inconciliáveis,
vivendo em duas esferas distintas e irredutíveis da duração.
As duas almas se olhavam sem se compreender: nem a da rua
se aplacava, nem se inflamava a do bonde. Dois mundos com trajetórias
opostas, um em ebulição, outro frio.
Um começo de automática hostilidade pairava entre um e
outro. Viesse um pequeno impulso, e os dois sistemas talvez se
engalfinhassem com cega violência, como dois içás colocados rosto a
rosto mecanicamente assumem o papel de inimigos de morte, e se agarram e
se estraçalham com um santo e inconsciente heroísmo.
Não me esquecerei tão cedo de um casal de namorados que
vinha hoje no bonde.
Gente do povo, gente humilde, dessa que não transpôs
ainda o limite em que o indivíduo ignorante e simples começa a ver e a
querer copiar atitudes, maneiras e atos de uma camada superior. Era,
portanto, de uma espontaneidade inocente e quase animal a ternura com
que os dois se enlaçavam, tecendo cada um, em redor de ambos, uma teia
isolante de carícias, - mãos dadas, olhos compridos, falas em tom velado
e plácido, e um permanente sorriso da mais pura e imbecil felicidade.
Ele, um latagão carpintejado à larga; ela, uma bezerrinha
forte e carnuda, com uma pele esticada e quente e uns cabelos ásperos e
crespos de lavadeira tostada ao sol. Simpáticos. Talvez belos, não tanto
dessa "beleza do diabo" (dizem os italianos), mero efeito da mocidade e
da saúde, como dessa espécie de beleza promissiva, que não entra
pelos olhos, que se entrevê, que é como um esboço deixado de mão quando
se encaminhava para a forma perfeita.
O meu prazer foi imaginar que o latagão era eu, que a
moça era Rufina. Estávamos entregues um ao outro.
Tinha-me apropriado dela com a naturalidade com que me
apropriaria do meu duplo, se ele surgisse a meu lado. Fechara-a no
âmbito da minha personalidade e um desdobramento, um acréscimo, uma
projeção do meu ser.
Que me importava o seu passado? A mulher que se ama não
tem passado. Nasceu na véspera. É a objetivação de um acontecimento
interior. Não é um ser: é um fato. É um episódio novo de uma história
que vem de longe. A história, com o seu ritmo, a sua lei, a sua
necessidade, a sua marcha, o seu destino, engloba, arrasta, dissolve e
tinge de sua cor tudo quanto colhe através do seu derrame fluvial.
A mulher que se ama começou com o nosso amor; como disse
o catalão Maragall da poesia.
... tot just ha
començat
i es plena de virtuts inconegudes.
De repente, o casal desceu. O rapagão foi o primeiro à
saltar, e, instintivamente, voltou-se com galante dónaire e estendeu a
mão à juvenoa.
Esta pulou rápida e leve, como se tivesse recuperado
instantaneamente uma aptidão perdida.
Nesse momento, aquele tosco rapaz, cabouqueiro ou
lavrador, nos seus sapatões entorroados, sob o seu chapéu sujo, e aquela
moça que mal e superficialmente se alindara, como uma batata apenas
cozinhada e descascada, me deram a impressão de duas criaturas saturadas
por séculos de galantaria e de cultura.
Eram duas sementes, e já me pareceram duas flores. Eram
dois bichos do chão e pareceram-me dois pássaros esguios.
O amor gera e regenera desde que surde. A função
generatriz não é um acidente da sua história, nem é a causa da sua
aparição: amar e gerar é tudo um, e produz partos mais temporãos e mais
estranhos do que os do ventre. Tudo começa ou recomeça, e todas as
fecundidades se concentram na carne e na alma dos amantes, e o próprio
mundo aparece de repente refeito, banhado das claridades e tocado da
magnificência de um gênesis.
Rufina...
Ora, ora, Rufina, uma simples passageira de bonde com
quem eu, passageiro de bonde, me encontrei duas vezes por acaso!
O SONETO
Deus de misericórdia, como eu tenho pena dos poetas, meus
irmãos! Apesar de ser eu o pobre da irmandade.
Pelo trabalho que me tem custado o soneto que empreendi
há três meses, calculo as torturas em que voluntariamente se enredam os
que ainda fabricam esses objetos de arte.
Dizem, que há indivíduos que sonetizam com facilidade,
sem prejuízo da perfeição. Não descreio disso. Mas essa espontaneidade
para fazer um soneto só se adquire depois de muito e duro labor
de aprendizagem e prática do soneto. Também os ginastas fazem com
a máxima facilidade e economia de esforço os mais complicados e
arriscados giros no trapézio, na barra e nas argolas, - e isso está
muito longe de provar que tais habilidades lhe sejam naturais como a nós
outros o uso do guarda-chuva ou o trepar no estribo dos bondes.
Quanto a mim, vou desistir de concorrer aos futuros
florilégios. Mas, em vez de fazer como o outro, que despreza essa forma
de poesia, alegando que é velha de seiscentos anos, que o mundo está
cheio de sonetos, e que os sonetistas são muito mais numerosos do que os
poetas, continuo a achar que a fabricação deste gênero de peças é um
útil e nobre exercício de engenho, além de ser o mais justificável dos
quebra-cabeças.
Quanto a serem milhões os que se produzem, hoje em dia,
em todo o mundo, e contarem-se pelos dedos os capazes de sobreviver, não
vejo nisso razão para se condenar o soneto. É igualmente certo que o
mundo produz cada dia milhões de rosas, e que essas rosas ainda vivem
apenas, como no tempo de Malherbe, - d'un matia - isto é, três ou
quatro dias; contudo, daí não se segue que a rosa se tenha tornado
indigna do nosso apreço. Ao contrário, a brevidade fatal da sua
melindrosa vida é um dos elementos do sutil encanto que elas desprendem,
como um outro perfume.
Cosa
bella e mortal...
Creio que não há nada mais difícil, ou pouco haverá, do
que armar, travar e concluir um soneto de modo que ele fique cheio e
redondo como uma bola maciça. Digo bola, porque o soneto, graficamente
quadrilateral, é mentalmente esférico. Não tem na sua transcendente
realidade, princípio nem fim: o termo aparente é que, a certa luz, se
pode considerar começo, porque ninguém se inicia na compreensão
justa da peça antes de ter chegado ao "final", antes de haver este
lançado a projeção anímica do seu conteúdo até às primeiras palavras do
primeiro verso. Assim, todas as partes idealmente se alongam num único
sentido, e repassam sobre si mesmas, girando em redor de um eixo
gerador, buscando mecanicamente a esfericidade a que tendem as massas em
revolução.
Será isso poesia pura? Parece que não é. Mas, dado que se
saiba o que venha a ser poesia pura, é evidente que essa essência, como
certas substâncias delicadas e voláteis, precisa sempre de uma liga mais
ou menos grosseira para subsistir.
De resto, a mim pouco me importa o nome da coisa, ou os
quadros em que ela entre ou deixe de entrar. Quando, aí pelos caminhos,
eu topo com uma bela teia de aranha, estendida ao sol da manhã como uma
roupa de fada, para que se lhe seque o relento da noite, a mim pouco se
me dá de saber se aquilo está bem construído, se não está, se o material
é puro ou impuro (a natureza sabe o que seja puro ou não o seja), e se a
aranha devia ou não devia fazer outra coisa.
Aceito-lhe a teia como está; e se ela palpita e cintila
ao sol, toda tecida de filetes impalpáveis colhidos ao luar, às
fosforescências noturnas, às azulejantes fluências matinais do córrego,
à casca metálica dos besouros e se ela parece bulir no mato como um
enxame de estrelinhas tontas, - paro, olho, sorrio, vou andando, e ainda
volto a vista para trás. Aquilo é bonito, e acabou-se.
No soneto, como os fizeram Petrarca ou Santa Teresa, Du
Bellay ou Shakespeare, a liga em que se aprisiona a essência de poesia é
sutil e engenhosamente intelectual. Todos os bons sonetos são
obras-primas de engenho discursivo, tocadas de um raio de poesia.
Puzzle, envernizado de sonho. Gaiolas dialéticas nas quais, pelo
menos, parecem revolutear penugens do pássaro que fugiu, - o tal pássaro
fantástico da poesia verdadeira.
Engenho, eis o que me tem faltado para levar a cabo a
minha obra-prima. Também tem faltado oportunidade. Feitas as quadras no
bonde, entendeu o meu subconsciente que no bonde eu havia de fabricar os
tercetos.
Fora daí, no meu gabinete, na repartição, no teatro, não
me acode nem fiapo de idéia; mas no bonde nem sempre consigo a calma nem
os vagares indispensáveis a esta classe de serviço.
Como este mundo anda desconsertado!
Mas ainda bem. Se os homens tivessem tempo para meditar,
decerto deixariam de fazer muitas asneiras - das pequenas; mas como as
premeditariam grandes e terríveis!
Hoje, depois de várias tentativas, entrei no bonde
decidido a conquistar o meu sossego.
Dei logo de cara com o Sr. João Cesário, esse risonho
pirata que infesta a nossa linha e assalta pobres passageiros para lhes
arrancar o único money que eles têm, o tempo. Mas o Sr. Cesário
não me viu, porque estava despojando a um outro. Fui para o banco mais
plebeiamente preenchido, entre uma preta de xale e um cabo de polícia.
Cerrei os olhos, evoquei a imagem flutuante e delgada de
Gabriela, recordei as quadras, fui avançando o pé pelo escuro da
inspiração informe.
Gabriela, como ficou assentado, era uma jovem que tinha
perdido todas as ilusões, coitada! Por necessidade de rima e falta de
espaço, não foi possível precisar de que ilusões se tratava, sendo certo
que em tudo, na vida, a ilusão desempenha um papel muito sério e ninguém
pode jamais gabar-se de as haver perdido por completo. Já se disse mesmo
que o homem vive de ilusões. Mas essa imprecisão de idéias é muito
própria da poesia; e tem a vantagem de dar largueza bastante para as
imaginações se moverem ao sabor de cada temperamento.
Gabriela perdera as suas ilusões de moça ardente e
sequiosa, porque se atirara aos chamarizes e às insídias do mundo com
excessiva sofreguidão e nenhuma cautela. Isto ficou registado na segunda
quadra.
Agora, os tercetos é que eram elas!
Conviria acentuar que, tendo perdido as suas ilusões, a
menina estava como quem tivesse perdido a túnica através de matos e
pedernais, ou em luta com bichos assanhados. Esta idéia é velha, mas
pondo-se-lhe um revestimento novo, ainda serve. As comparações poéticas
essenciais, referentes às verdadeiras situações em que se pode encontrar
uma alma nesta vida, são bem pouco numerosas, no fundo; e os poetas, por
mais que façam, hão de sempre voltear-lhes em redor.
Hoje, aí
vais....................
........... inteiramente nua
........................................
Repeti essas palavras vinte vezes, preenchendo os espaços
vagos da pauta com sílabas soltas sem significação nem consistência, só
para acentuar o ritmo e provocar a idéia. Uma espécie de massagem sobre
um tumor maduro.
Mas na verdade o tumor ainda estava um tanto verde. O que
sobretudo me impedia de chegar a um resultado, era o final.
O soneto, hoje estou disso convencido, tem uma causa
final - o fecho deve ser achado antes do mais. É o verdadeiro princípio.
Então, tudo para lá se encaminha, como no ovo se forma com segurança e
tranqüilidade o pinto prefigurado.
Enquanto eu ia fazendo estas reflexões, o bonde se
aproximava mais depressa do termo, e tive de adiar mais uma vez a
conclusão da minha tarefa poética.
Mas hei de concluí-la. Tenho diante de mim todo o resto
da minha vida. Tudo me indica que ainda poderei vir a ser o Arvers de um
soneto, não direi tão acabado, mas pelo menos tão difícil de acabar.
Sainte-Beuve disse que il existe chez les trois quarts
des hommes un poète mort jeune à qui l'homme survit. Mas isso não é
um achado: a poesia sempre foi tida como particular companheira da
juventude, nos homens e nos povos. O mais curioso é que muitos trazem
consigo poetas que nunca chegaram a nascer e que são como revenants
do futuro.
UM HOMEM PERFEITO
O Sr. João Cesário da Costa apareceu-me hoje muito loquaz
e prazenteiro. Sentou-se a meu lado, palpou as minhas disposições
auditivas, notou que eram boas, e deixou escapar a loqüela, primeiro às
gotas espaçadas, depois às gotas que já quase se ligavam num fio, por
fim jorro franco.
Principiou por falar do tempo, que estava "lindíssimo e
convidativo." Daí deslizou para considerações acerca do nosso clima e do
europeu, das nossas estações e das européias. Descambou então para o
elogio da nossa "terna primavera" e da nossa "natureza exuberante". Isto
o levou ao fatídico paralelo entre a natureza e o indígena; e Cesário
revelou gravemente que, segundo a opinião de Humboldt, no Brasil tudo é
grande, menos o homem.
Mostrei-me consternado por isso, e Cesário caiu no
domínio da educação, cujo principal objetivo, no Brasil,
devia consistir em debelar a empregomania, o bacharelismo e a
macaqueação do estrangeiro. Quando chegamos ao ponto, o meu amigo,
depois de ter passado pela política, ia bordando comentários em roda do
vestido feminino e deplorando a subversão da família.
Enquanto ele orava, eu vinha-lhe mentalmente acompanhando
a curva das associações de idéias e avaliando as vastas etapas que fazia
através da matéria pensável, metido nas botas de sete léguas da
imaginação discursivas.
É assim, justamente, que os homens práticos pensam, desde
que saem do crédulo habitual das preocupações profissionais. Tomam as
suas associações espontâneas e os seus estados vulgares de sentimento
como legítimas formas de cogitação. E têm um grande desdém pelos
poetas - sendo que poetas são todos quantos não se contentam
com essa moagem perpétua de idéias feitas e de idéias que nunca se
acabam de fazer.
Na verdade, isto é eminentemente prático. Nada mais é
preciso para viver, e viver bem, e prosperar, e fazer jus a um mausoléu
de cinco metros de altura, com cúpula guardada por um anjo de magoado
semblante e grandes asas, talhado em mármore branco pelo melhor
marmorista da cidade.
João Cesário tem um mérito, além de muitos outros: não é
uma edição, nem mesmo uma edição barata de Acácio, versão portuguesa e
pacata de Mr. Prudhomme e variedade conservadora do farmacêutico Homais.
Acácio, Prudhomme e Homais eram homens de princípios ou
de ideais, ao passo que Cesário não tem convicções arreigadas: é um bom
homem, arranjado, comodista, amigo da boa roupa, da boa mesa e da boa
prosa, com ambições modestas e com um grande tato instintivo do que lhe
pode ser útil e agradável. Incapaz das parlapatices de Prudhomme, da
compenetração respeitosa de si próprio que distinguia Acácio, e de
aziumados sectarismos à maneira de Homais.
Apenas se encontra com eles no terreno do lugar-comum.
Mas o lugar-comum não é privativo destes ou daqueles, é a terra de
ninguém onde todo o mundo, uns mais amiúde, outros mais de longe em
longe e mais a medo, faz as suas incursões e as suas colheitas.
De resto será o lugar-comum coisa tão desprezível? Não, o
lugar-comum é necessário. Faz parte das forças da natureza. É da
natureza do espírito humano a necessidade de cunhar uma espécie de moeda
divisionária das idéias, que possa andar pelas próprias mãos dos que não
tenham capitais e que presta enorme serviço a toda a gente.
Se se quer encarar o caso na sua verdadeira latitude, o
ponto de vista escolar, estilístico, literário, é de uma insuficiência
absoluta, e por sua estreiteza e vetustez bem merece figurar também na
categoria dos lugares- comuns elegantes.
O abuso desse ponto de vista crítico e aristocrático vai
espalhando nos espíritos inclinados às letras e às idéias um terror
excessivo e doentio do ominoso pecado. E com isso chega a criar
freqüentemente uma espécie de Acácios às avessas, que repelem boas
idéias por serem velhas, sem sempre forjar novas que sejam boas, e
esquecem-se da corrente e desempenada linguagem da conversação, e
embrulham em formas rebuscadas os mais fugitivos e ambíguos fiapos de
pensamento, como quem fizesse gaiolinhas de metal dourado para guardar
pernilongos.
A grande e imponente maioria dos humanos não dá nenhum
apreço às idéias por si mesmas. Estas, quando caem na circulação geral,
perdem toda a sua virtude abstrata, empastam-se na grossa praticidade e
na violenta concreteza dos valores vitais imediatos. Descem do plano
lógico para o biológico. Rousseau disse que pensar é um ato contra a
natureza, e os atos contra a natureza ela os pune empeçando-os ou
desviando-os, reassimilando-os e recolocando-os na órbita dos seus
próprios fins.
As idéias, na marcha geral e normal da vida, têm um valor
tão puramente instrumental, oportunístico e subalterno como as armas, os
utensílios, os aparelhos e todas as coisas que prolongam os nossos meios
naturais de ação. É preciso que um homem esteja pervertido pela
literatura e análogas manias, para ter a fantasia de inventar idéias,
pelo simples prazer de criar instrumentos originais. Se a faca e o
martelo já foram inventados há milhares de anos, e prestam ótimo
serviço, para que é que o Sr. Cesário havia de imaginar um traste novo e
aperfeiçoado, só para cortar uns cipós ou para bater uns pregos de
quando em quando? Não seria econômico. Enorme desproporção entre o
esforço e o resultado.
Com um pequeno arsenal de lugares-comuns, Cesário está
dispensado de gastar inutilmente largas somas de tempo e de trabalho.
Põe a sua provisão no bolso, cada dia, conforme as necessidades, e sai
para os seus negócios, para os seus prazeres de sociedade, para as suas
demandas, para a sua descansada pescaria de proveitos possíveis, nas
horas vagas. Surte-se com a suave facilidade de quem completa, em casa a
sua toilette habitual, pondo meia dúzia de charutos na carteira,
um lenço de sobressalente no bolso da calça, um canivete no bolsinho do
colete.
Dá-se bem com o sistema, e a sociedade ainda melhor.
Ganha esta um homem afável, serviçal, maneiro, de fácil e macio contato,
simples de utilizar.
Multipliquem-se estes homens exemplares por mil, e
veja-se que incalculável benefício não seria, que harmônica
estabilização de um tipo social indígena, que precioso reforço de
cidadãos bem construídos, normalizados, estandardizados, sem mistérios e
sem surpresas, sólidos, garantidos, de uso limitado mas seguro e
preciso, - como a louça inglesa, como a cutelaria de Manchester, como o
presunto holandês, como o óleo de fígado de bacalhau, como o fósforo
Jonkonpings, como as camisas do Porto!
Foi essa multiplicação de um tipo modesto mas viável e
bom que fez aquela coesão e aquela estabilidade magnífica da
sociedade britânica, - o seu núcleo resistente, a sua massa harmônica e
firme, a deslocar-se através da história com o ímpeto regular de um
imenso exército em marcha.
Suponham-se agora estes inumeráveis Cesários preocupados
todos com fabricar idéias e esmaltá-las sob formas graciosas e
cortantes. Que calamidade! Ganharíamos, talvez, algumas jóias do
espírito, mas, em troca, que multidão de intelectuais
neurastênicos, incertos, cáusticos, insociáveis, prisioneiros eternos de
si mesmos, despidos de tolerância e de benignidade, sacrificando tudo
por uma frase de espírito, inadaptáveis a todo esforço comum, inimigos
de toda disciplina obscura e de todo devotamento discreto e silencioso,
e enfim grandes criadores efetivos de mal-estar, de desinteligência e de
estéreis, inacabáveis veleidades e agitações no seio da massa e no das
moças!
MÃE
Pobre mulher, aquela boa e sincera mãe que vi ontem, tão
mansa, tão entregue ao seu pequenino!
Era bonita, mas como que o ignorava. Estava tão
despreocupada no bonde como se estivesse em sua casa. 'Trazia o filhinho
ao regaço, e brincava-lhe com uma das mãozinhas, fazendo-a saltar,
arremessando-a e abaixando-a, aos pequenos tapas, como uma bola. O
pequeno ria-se de quando em quando, e a cada risada o rosto da mãe
tomava uma expressão forte, escultural de felicidade plena e remansosa.
A certo momento, pegou a criança pelo tronco, pô-la em pé
sobre os joelhos, e começou a sacudi-la como a pregar-lhes sustos.
Fazia-lhe, ora, uma cara de surpresa cômica, arregalando os olhos; ora,
uma cara de cólera, carregando as sobrancelhas, afuzilando o olhar; ora,
uma cara de choro desconsolado, em que todos os músculos se relaxavam e
as pálpebras e os cantos da boca descaíam.
Jogral do seu pequerrucho, essa mãe se esquecia de si, se
despojava de todas as preocupações habituais, concentrava toda a sua
vida naquele ser único, pequenino e fragílimo. Era um simples brinquedo
em poder do seu bebê, - brinquedo todo cheinho de amor, como outros o
são de serragem.
Mas, por que, deuses imortais e impossíveis! por que
seria necessário que essa mãe, resumindo o mundo em seu filho,
trabalhasse tão obstinadamente por gravar nele os gestos eternos da
loucura humana? Gestos de fúria, de terror, de cupidez, de despeito, de
ciúme, - toda a mímica do inferno mundano, - formas para ele ainda
vazias, mas nas quais se irá pouco a pouco vertendo e solidificando a
substância do seu pequeno Eu rarefeito e disperso?
Ama-o como a um anjo, e luta por fazer dele apenas um
destes vasos de miséria, de impureza e de sofrimento!
Belo e medonho, o amor de mãe. Suavíssimo e terrível. A
sombra dos seus gestos, branda como a dos ramos, prolonga-se até o
horizonte da vida, onde a sombra enorme da Fatalidade passa arrastando
pelos cabelos a sombra da Ilusão.
RUFINA E O SONETO
Pobre Rufina! Tão juvenilmente graciosa e linda ainda há
dois meses... Parecia arder em mocidade e beleza como uma pedra
preciosa. Agora, dá-me a idéia de uma pérola moribunda.
É assim este mundo; um resfriado, uma pleurisia, três
semanas de cama - e eis um corpo e uma alma completamente modificados, e
uma vida clara e leve como um regato da montanha mudada num ribeirão
turvo do vale triste!
Viajei hoje com ela. Descorada e descarnada, metida num
vestido escuro e pobre, era apenas uma sombra da outra Rufína. Disse-me
coisas graves sobre a vida. Queixou-se das suas ilusões malucas, que a
conduziram até há pouco através das almas e das coisas como através de
uma festa, para, de repente, a abandonarem entre essas duas megeras - a
Solidão e a Necessidade.
Chegou a falar-me de Deus, e, entre dois acessos de
tosse, perguntou-me, com a simplicidade suprema de quem pedia uma
informação:
- "Será que ele me aceita?"
Em que embaraço me pôs: Pedir a mim, pecador encoscorado,
um raio de esperança e consolação - porque era evidentemente o que
pedia, na simplicidade triste daquela pergunta! Valeria o mesmo querer
refrescar os lábios em febre com o suco de uma pêra de campainha
elétrica.
Tive ímpetos de endereçar ao vigário da nossa paróquia.
Mas o santo homem estava já tão acostumado a lidar com almas em pena!
Era possível que não lhe desse maior atenção, que a tratasse com
desdenhosa bonomia, como fazem certos médicos, excepcionalmente, com os
clientes pobres: "Isso não é nada. Está nervoso. - Dor no cogote, Há de
ser mau jeito. - Febre, é? Uhn... - Qual! não tem importância. Apareça
um dia lá no consultório".
Não, não a mandaria ao vigário, poderia vir de lá com as
feridas banhadas em bálsamo suavíssimo, e poderia vir com elas
envenenadas de despeito e de revolta.
Eu estava para lhe dizer que sim, que Deus a receberia
nos seus braços com paterno carinho, porque nada pode ser mais agradável
ao Senhor de toda a sabedoria e de toda a misericórdia do que uma alma
despojada de mundanidades, nua, na plena e corajosa nudez da humildade,
do desengano e do arrependimento.
Quando, porém, decidia estas dúvidas de consciência e
preparava esta resposta, Rufina ergueu-se, fez soar a campainha,
despediu-se e esgueirou-se. Fiquei a vê-la do bonde, que estacionara por
um momento. Reprochava-me com raiva as minhas eternas indecisões de
animal imprestável.
Ela foi para a calçada, e pôs-se a caminhar de um jeito
meio automático, direita, impassível, num passo miúdo e rígido de boneca
mecânica, a cabeça pensa para um lado - como quem caminha com
indiferença, de alma vazia, para a última renúncia ou para a morte...
Pude saber depois que ia à costureira.
Somos todos horrendamente egoístas. Nunca tive como hoje
a sensação do que valem todas essas florescências admiráveis da vida
nobre, as belas idéias, os ideais formosos, os sentimentos altos e
delicados.
Nem bem Rufina desaparecera de minhas vistas, aquilo de
eu a ter comparado mentalmente a uma alma despojada de mundanidades,
nua, inteiramente nua, voltou a borboletear-me no espírito como um
remorso gostoso. E lembrei-me logo daquele meu soneto parado entre os
andaimes; como uma dessas igrejas que levam anos a construir e ficam
anos à espera de recursos.
Agora, concluiria a obra. Aferrei-me a ela pelo resto da
viagem.
Rufina, de passagem por mim tocando-me de leve, pusera-me
em movimento a engenhoca da poesia, como quem toca inadvertidamente num
pé de "mimosa pudica", ou como quem sacode sem o querer um relógio
engasgado, fazendo-o trabalhar.
É essa a finalidade dos outros, no sistema especial da
nossa vida de cada um: pôr em movimento algum dos relógios engasgados
que temos conosco.
O caso é que concluí o soneto. A bem dizer não o concluí
no bonde: acabei de concluir na repartição, apesar de um parecer urgente
que me atenazou o dia. Mas a inspiração é assim: quando vem, vem de
fato, e não há urgências que se lhe oponham.
Agradeci ao destino o ter-me deparado Rufina, não só
porque daí proveio a conclusão do soneto, como porque me permitiu banir
dele a tal Gabriela. Eu já andava seriamente implicado com essa negrinha
vagabunda, caçada na sarjeta do noticiário. Decididamente, não dava
nada. Logo o primeiro verso:
Já não tens ilusão, oh Gabriela!
era de uma inépcia absoluta. Que é que tinha o público
que ver com esse nome próprio. E, além do mais, um decassílabo frouxo, -
que é ainda pior do que uma frouxidão de bom senso. Pude substituí-lo
com vantagem. E o resto - foi uma sopa:
A UMA TUBERCULOSA
Já nenhuma ilusão tua alma estrela;
Nenhuma abrolha em teu caminho triste.
Tudo te é negro: e em tudo quanto existe,
só o que existe de mau se te revela.
Um dia a Vida apareceu-te à ourela
da estrada, e te sorriu. Tu lhe sorriste,
E a seus braços voaste. E assim te viste
entre as garras da bruxa horrenda e bela.
Hoje... Ah!
hoje, aí vais por tua estrada
como uma doida que vagasse nua...
Não és mais do que uma alma - alma despida;
E tão
indiferente, tão gelada,
tão tristonha e remota como a lua,
refletindo de longe o sol da Vida.
Finis truncat opus
AMADEU AMARAL (A. Ataliba
Arruda A. Leite Penteado), poeta, folclorista, filólogo e ensaísta,
nasceu em Capivari, SP, em 6 de novembro de 1875, e faleceu em São
Paulo, SP, em 24 de outubro de 1929. Eleito para a Cadeira n. 15, na
vaga de Olavo Bilac, foi recebido em 14 de novembro de 1919, pelo
acadêmico Magalhães Azeredo.
Autodidata, surpreendeu a todos por sua extraordinária erudição, num
tempo em que não havia, em São Paulo, as universidades e os cursos
especializados que vieram depois. Dedicou-se aos estudos folclóricos e,
sobretudo, à dialectologia. No Brasil, foi o primeiro a estudar
cientificamente um dialeto regional. O dialeto caipira, publicado em
1920, escrito à luz da lingüística, estuda o linguajar do caipira
paulista da área do vale do rio Paraíba, analisando suas formas e
esmiuçando-lhe sistematicamente o vocabulário. Visando à formação dos
jovens, assim como Bilac incentivara o serviço militar, Amadeu Amaral
procurou divulgar o escotismo, que produziu frutos, no Brasil, até ser
posteriormente posto de lado.
Sua poesia enquadra-se na fase pós-parnasiana, das duas primeiras
décadas do século XX. Como poeta, não estava à altura de seus dois
predecessores, Gonçalves Dias e Olavo Bilac, mas destacou-se pelo desejo
de contribuir, com suas obras, para a elevação de seus semelhantes, em
todas as suas obras, a ponto de seu sucessor, Guilherme de Almeida, ao
ser recebido na Academia, ter intitulado o seu discurso: "A poesia
educativa de Amadeu Amaral", não porque tenha colocado em verso aos
regras gramaticais ou os princípios de moral e cívica, mas porque visava
indiretamente ao aperfeiçoamento humano.
Por ocasião do VI centenário da morte de Dante, proferiu, no Teatro
Municipal de São Paulo, uma conferência, enfatizando justamente os
aspectos de Dante que exaltam a elevação do espírito humano através da
Sabedoria. Também soube ressaltar as qualidades morais de Bilac no seu
discurso de posse, mostrando-o não apenas como um boêmio freqüentador da
Confeitaria Colombo, mas como homem preocupado com os problemas da sua
pátria e escritor que evoluiu em sua poesia para um grau maior de
espiritualidade.
Obras: Urzes, poesia (1899); Névoa, poesia (1902); Espumas, poesia
(1917); Lâmpada antiga, poesia (1924), títulos que integram as Poesias,
publicadas postumamente em 1931; Letras floridas, ensaio (1920); O
dialeto caipira, filologia (1920); O elogio da mediocridade, ensaio
(1924); Tradições populares, folclore (1948); Obras completas de Amadeu
Amaral, com prefácio de Paulo Duarte (1948).
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