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Maria
(por
uma reportagem na tevê
que me serviu maria à mesa).
o espirro. último. represado vômito pela
indignidade da vida.
sentada na cabine telefônica da rodoviária:
paredes de caixão em cinza-sujo; teto a descer-lhe tampa de esquife;
janela baça a acolchoar olhos secos; pés retalhados por pedras; corpo
de rugas e cicatrizes.
ruído de televisor no saguão de espera; fio de
luz a infiltrar-se no desacerto da porta. arde-lhe nas narinas aquela
morrinha de urina, fezes e mofo. seu cheiro: pó, suor, chuva
entranhada na pele, roupas empastadas de lama. o tempo fede: idade,
marido, filhos, vila, salário.
regurgita o ressaibo da dupla ingestão: mata-rato
e água sanitária. mão a apalpar o ventre em busca do esperado parir
desse nunca mais sofrer... miséria...
miserere nobis.
amém.
estava de branco, lírios nas mãos. pensamentos no
altar. seus doze anos marcavam-se no vestido justo. percebera o
crescido do peito pelos olhares dos homens. mal suportava a lenta
passagem do tempo, as ladainhas repetitivas e monótonas, o arrastar-se
da missa, a longa pregação do frei: ventura e terror atrasando o
instante em que, pela primeira vez, compartilharia da carne do senhor
jesus: uma só carne, um só pão.
quando, enfim, sós com cristo panificado,
entregou-se à esperança das eleitas: maria de nome igual à mãe de
deus. tão fácil ser boa, santa. para ser feliz faltava pouco.
bastava-lhe escorregar da igreja para os braços de um homem, afinal,
esse, o destino das mulheres. pai e mãe, atravessando nus o corredor
em busca de água, vinho daquela comunhão, inocularam na filha curiosa
o desejo do cerimonial de carnes e palavras doces.
desamparada, ela permaneceria ainda alguns anos
alimentando essa fome.
vira-o numa carroça. bradava a ladainha do
abacaxi a três por mil, a melancia a três, duas por cinco, a ráfia com
laranja por quase nada, freguesa, e percebeu nele um príncipe com o
poder de lhe saciar o corpo; sorria como quem já lhe soubesse o nome e
apenas perguntasse a que horas ela estaria na pracinha da igreja.
na primeira vez, negara. na segunda, já chegara
dominada pelo desejo. quando o beijo aconteceu, num misto de gana e
nojo da saliva, o que sentiu foi queimor no estômago que, desde então,
no renovar do contato, se apagava para logo se reacender com maior
intensidade. soube, assim, que ele era o homem da sua vida, que com
ele iria até o inferno.
o que deus uniu, que o homem não separe.
e precisaria o homem separar o que deus soldou na
miséria? maria de abraços na cruz.
a marcha nupcial num disco arranhado irrompeu com
graves e agudos e encheu o corredor com expectativas sobre o caminho
de peregrinação entre o céu e o inferno: o quanto este seria maior do
que o outro, ela saberia depois. ao fim de tudo, as esperanças de que,
sob as bênçãos desse deus que fez um mundo de pecado, vícios e
castigos, e um céu, onde o que era bom estava longe demais dos
desvalidos, as coisas se encaminhassem para melhor.
o pai é misericórdia, ouviria do padre.
amém!
o rato roia o tempo, desfazendo a distância entre
dentes e carnes ao rés do piso da cabine telefônica; roia nela o que
ela nunca teve para ser roído.
removeu, do casebre onde fora morar, pó, teias de
aranha, ninhos de pardais das telhas de amianto. removeu maricás,
deixando espinhos nas mãos; domou capim e plantou mudas para
desacinzentar o cotidiano. enfim, na parede da cozinha, a tabuleta do
lar-doce-lar.
o marido estendeu-lhe braços. ela, exaurida ante
o não-sei-o-que-fazer, suspirou o seja o que ele quiser. assim
entregou-se ao irresistível, sentindo que a carne do seu corpo sabia
da carne do corpo dele e ambos os corpos reconheciam palavras nunca
pronunciadas. depois, entre grilos lá fora e roncos do marido ao lado,
ela enlouquecia insone no sem-resposta do deus existe? e, se existe,
por que não olha para eles?
acordadas, na primeira hora da manhã pelo
rebuliço dos pais ao saírem para o trabalho, ficavam as crianças a
passarinhar de pés descalços pela vila. nada adiantava ralhos,
recomendações ou porradas. atrasada em tudo o que era relativo ao
passado, ela saía apressada na busca do futuro, desesperando-se em
preces de cuidados ao deus que sabia deles distraído.
a mãe, dócil e estúpida como galinha no pátio,
ensinara-a a ser boa esposa: um lar, repetia como um estribilho
caipira, é feito de um homem honrado, uma mulher humilde e dedicada, e
filhos para a glória do senhor. ela perguntava e o que faço dos meus
sonhos, mãe?
vai, anda... a pilha de roupa suja te espera... e
vem chuva...
e nas linhas mal-riscadas no rosto da mãe, a
filha lia os desencontros: felicidade não passara por ali.
engraçado, dá-se conta, não recorda da mãe
sorrindo. lembra-se, sim, dos selos roxos pelas surras carimbados.
piso de
mijo e frio, cheiro de mijo e merda, carícia da laje dura e úmida,
gozo da vida em dores de parto e veneno, esperança de nada existir
para sempre, medo de errar de novo e ser condenada à vida eterna.
sobre ela, os olhos estúpidos do marcelinho, o
riso satisfeito do marido, a boca raivosa da paulinha, a voz
prometedora do filho que se fora, o rosto que se transformava, um por
um, no rosto dos filhos mortos.
dentro dela, o ronco do estômago
desencavando a morte e na cabeça o oco sentimento da bolsa vazia,
panelas ocas. o que encontrava nas prateleiras da memória alimentava
essa digestão ácida.
pela manhã sempre a primeira em pé, como se não
tivesse dormido: viúva de marido vivo. ele, casado com o jogo, com a
bebida, com as mulheres; ela, galinha dispondo de um ovo para tanto
pinto. um ovo que se partia, que se multiplicava, que germinava?
grávida outra vez!
e bateu, bateu, e adicionou açúcar, bateu, bateu
e acrescentou farinha de mandioca até que o único ovo adquirisse
viscosidade e volume e diminuísse a fome na tigela. uma xícara de café
para cada um: ralo, ralo pra modo de render o pó, e cada qual garfava
puxando o desespero da fome para fora de si.
ela fingia sorrir, enquanto desapressava o tempo
para não perder o ônibus que encobria o loteamento com seu lençol de
pó quatro vezes ao dia. se perdesse um, perderia o trabalho da jornada
e o descanso remunerado e um pedaço de carne no domingo ao meio-dia e
o encontro com o motorista da patroa. abrir pernas é fome que sempre
teve.
foi acordada pelo discurso do boa-pinta:
boa-noite, senhores passageiros, tenho mãe viúva e cega, dois filhos
que choram de fome e uma mulher que me enche o saco por causa do
desemprego, por isso, humildemente lhes peço uma abençoada e
espontânea colaboração – e ele levantou os braços, a camisa floreada
fora da calça deixou à mostra o revólver, e esclareceu, contundente:
de todos, ninguém de fora!
o motorista ria, o cobrador foi
recolhendo os trocados, algumas pessoas abriram bolsas: por favor,
moço, não leva meus documentos.
só isso, senhora? que vergonha! recuso-me a
aceitar tão pouco. procura mais, procura. senão meu coração sensível
haverá de se ofender.
moço, tenho cinco filhos, um deles é deficiente,
e isso é tudo o que recebi da semana. pelo amor da sua santa mãezinha,
não faz isso comigo.
santa? a minha mãe era uma cadela e meu pai um
escroque. chega de lero-lero, dona, vai jogando os trocos no meu
chapéu. senta, dona, senta! e o cara foi tirando a arma da cintura:
olha, dona, não apronta, vai! facilita as coisas que será bem melhor
para todos. deus há de lhe dar em dobro por sua boa vontade e
sensatez.
ela ergueu-se e avançou a tapas, barrigadas,
gritos, mordidas, cuspidas, palavrões e pisando no sapato branco do
sujeito, com olhos do tamanho de ovos.
tiro para o alto, gritaria: filho de uma puta! o
rapaz se vê, entre risos, empurrado porta a fora, maria em cima,
descendo junto, batendo sempre, caindo dos degraus do ônibus, de cara
no barro, sob os pés dele.
o motorista, rindo, fecha a porta; os passageiros
aplaudem; o ônibus arranca, aos soluços, e acelera como se fugisse de
balas perdidas.
maria chega em casa trazendo bifes arroxeados no
rosto, nariz quebrado e bolsa vazia. raiva-pedra entalada na garganta;
ódio-fogo a queimar-lhe o resto da vontade de viver; promessa de só ir
trabalhar com faca de ponta;
o choro tudo alivia e a tudo conforma. um
miserável dia depois do outro.
louvado seja.
à noite, invariavelmente, ela recebia a visita
dos demônios:
marcelinho estúpido é só gemido e choro. precisa
de médico. nessas horas nem táxi. malditos e desgraçados são até o
ventre aqueles que depredaram o orelhão. onde anda o filho-da-mãe do
pai? certamente num bordel.
os outros cinco dormem. fome têm,
sim. mas leite com açúcar engana estômagos. assim se vai
encompridando a vida e adiando a morte.
e se marcelinho morresse? e se todos eles
morressem?
pelo menos quem morre tem carne até para dar. e
ela salivou.
maria e a sede do inferno.
não chora por não ter tempo, mas veio ao inferno
com lágrimas abundantes. só e cheia de filhos que, em olhares secos,
silenciosos, desconformes, lhe cobram outra forma de viver.
a menina, outra maria, então, não renuncia à
liberdade de ser e de agir. que é isso, menina, põe tua cabeça no
lugar. minha mãe já dizia...
mãe, cala a boca. não serei como tu...
filha, a vida tem suas vontades. que deus te
perdoe e te proteja.
puta que pariu, mãe, tu não enxerga que ali fora
tem coisa melhor?
merda pouca é bobagem. lá vem outro filho para
dividir o nada. o diabo continua a esperar que cresçamos e
multipliquemos a fome, a divisão do nada por muito menos. em algum
lugar do nada, deus se ri.
a outra filha casou sem papel passado. sorria ao
mostrar as mãos feridas no roubar tijolos para construir o barraco.
maria alertou os dois: vocês ainda se metem numa enrascada. o genro
respondeu: pior do que tá não fica. e maria, para encurtar perigo aos
seus, foi roubar junto.
bem-aventurados os que roubam sem ser presos.
o rosto feio, magoado e sofrido crescia na noite.
talvez chorasse, chamando-a. angustiava-se na espera de ver marcelinho
dormindo. sabia que ele dormira com fome. na sacola pesada ao braço
trazia bananas, pão e leite. ao menos valera a faxina naquele
escritório e a grana extra que recebera do porteiro por abrir as
pernas. na semana anterior, fora o guarda da esquina.
o relâmpago aponta-lhe o caminho; o trovão
provoca-lhe o baque.
valei-me, senhor, que és pai dos desafortunados;
ora, merda, para alguma coisa deves servir, porra.
marcelinho, desde a meningite, não serviu pra
nada. coitado, não teve a sorte do irmão mais velho, que se foi num de
repente. nem de joana, que morreria ao atravessar uma sinaleira: fome
não passam.
o problema, agora, são os aluguéis atrasados.
que diferença faz ao pobre se deus existe ou não?
aonde vou? para a paz. morrer não pode ser pior.
no banheiro dos homens, alguém puxa a descarga no
banheiro ao lado.
amém!
o morto que estava vivo apareceu emplastado de
sangue. rasgado por faca.
bem feito, desgraçado, sempre te avisei...
cala-te, bruaca.
... que um dia ainda ficas por aí, num valo, sem
nome nem família pra te enterrar. eu não chorarei por ti...
mas não sabes como deixei a cara daquele
filho-da-puta. perdeu, não quis pagar, levou. eu perco e pago. acho
que apaguei o sujeito.
... que volta mais duro do que saiu, não? e os
filhos vão comer o quê?
a tua língua, bruxa, desgraçada.
depois, bem depois dos curativos que ela fazia
entre palavrões e gemidos deles: ele, por não ter o que dizer e
pensando com raiva no outro; ela, por ódio da vida miserável e por
pena do seu homem que não tinha jeito mesmo. deitam menosprezando a
dor que ele pudesse sentir. os gemidos, então, se multiplicaram por
dois, enquanto a noite reacendia suas vidas.
pai nosso onde estás tão sem graça que nos
escondes da fartura vê se dá um jeito na tua vontade para nos livrar
desse teu reino de miséria e põe um pão ao menos em cada dia que te
perdoaremos por essa condição animal de resistência assim como perdôo
o desgraçado que me emprenha todos os anos e diz que é a tua vontade
pois onde muitos passam fome mais um se desespera.
que seria, senhor, da tua vontade, sem a tesão
desse calhorda?
antes eu fosse amante do diabo, que, ao menos,
engana a gente com o prazer.
o que deus uniu...
ela e a miséria... ela e a desesperança...
restava com ela apenas o desgraçado filho, vítima
da meningite. agravado por outros males, ele dementava e ria um riso
bobo e chorava um choro estúpido que só os completamente idiotas
podiam rir e chorar. ela, compadecida, ria para ele com lágrimas e o
olhava com desejos de assassina.
conformava-se: ao menos este não a trairia.
um dia, depois de abrir as pernas para o dono da
quitanda, chegou em casa trazendo carne moída, macarrão e ovos: um
banquete pro marcelinho, que ria aquele riso cruel, disforme. ela
apenas olhou, com medo de vomitar. marcelinho arrotava. ela sorria com
lágrimas. marcelinho sentiu sono. ela o agasalhou com o travesseiro
sobre o rosto. marcelo e seus espasmos ante a única porta que o podia
libertar da miséria. ela, com a chave nas mãos, apertava...
todos os mortos compareceram. ela jurou que a
vida nada valia. dos filhos vivos sabia notícia alguma.
recebeu visita de homem bonito. chegou com
bom-dia e sorrisos e ordem judicial para despejo.
ela deixou, no quintal, fogo sobre cacarecos que
não levaria com ela. ardeu em vontades de queimar a casa e devolver
cinzas. suas lágrimas, porém, apagaram incêndio que se alastrava
sinistro dentro do peito.
és lixo e ao lixo retornarás...
mansa, mansa por viciada à dor, entregou-se ao
arrasto de passos por calçadas irregulares. espetava os olhos numa
porta de bar; incendiava-se de prazer ante qualquer mão estendida.
ruas nunca trilhadas.
ao passar em porta de igrejas, cuspia. depois,
deslumbrada e triste, procurava na luz dos vitrais o crucificado:
bem-aventurados os que sofrem... se ele é bendito por sofrer só três
horas na cruz, ela receberia o quanto mais?
deus não lhe podia adiantar um vale?
chão, cheiro, mijo a escorrer entre pernas,
sombra: nada incomodava.
veneno mesmo era o pensamento que vinha como
menstruação; veneno fora sua placenta envolvendo filhos, a praga de
vesti-los de carne, soprar-lhes vida, condená-los à merda, destiná-los
a pasto de vermes.
veneno era a esperança.
passou a dormir em qualquer canto onde não fosse
incomodada. um cão sem dono adotou-a como mãe. aceitou. estava viciada
em dividir o nada. tinha um jeito de acarinhar para justificar a bolsa
vazia. o cão, diferente dos filhos, não reclamava.
no princípio, vergonha por esmolar, pelos trajes
sujos, depois puídos, depois trapos. olhos suplicantes aprenderam que
pedir nada resolvia. era quando mirava o vazio que lhe estendiam as
mãos com pacotes nos dedos.
que lhe importava se eram sobras. sobras fora o
que sempre lhe faltara.
aos cinqüenta anos era uma velha de cem anos.
recolhida pelo ônibus da prefeitura, foi levada
com sono para o albergue, entre desconhecidos de olhares hostis,
acuados. deram-lhe um prato de sopa rala, quente, uma cama, um
cobertor. ela olhou para o alto de sombra e imaginou a profundidade do
inferno: haveria deus? a cama era uma certeza e ela preferiu
acreditar: deus finalmente pusera olhos nela. poderia esperar mais...
no meio da noite, acordada foi por gemidos e mãos
frias. soube que tinha companhia no lastro. preferiu não abrir os
olhos. abriu as pernas, a boca em beijos de baba e cheiro de podre, de
cachaça. procurou a língua e descobriu a boca sem dentes; seus dedos
tatearam a visita, atravessando furos de roupas, moedas nos bolsos,
que ela recolheu em silenciosa prece. e entre as pernas dele encontrou
carne flácida, enrugada, seca. seu próprio cheiro escondeu o cheiro do
outro. teve que ajudar a penetrá-la com aquela coisa mole, pequena,
vencida.
quando sentiu o calor renascendo em seu corpo, o
homem, afogueado e quente, dela se soltou, descendo da cama,
deixando-a incompleta, ansiada. desesperada, não; acostumara-se ao
chicote.
nunca a ausência do falecido fora tão praguejada.
o fim do outono vestiu-a com dois vestidos, duas
blusas, dois pares de meias e o mesmo chinelo gasto. alguém, numa
sinaleira, estendeu-lhe um cobertor. recusou-se ao obrigado por medo
de amaldiçoá-lo com suas bênçãos.
dormia nos degraus da igreja, com o velho
crucifixo onde faltavam os braços do cristo. foi erguida por um padre
que lhe disse cheio de carinho: irmãzinha, aqui na escadaria da casa
de deus não se pode fazer isso, fica um cheiro forte, que incomoda aos
fiéis. por favor, procura outro lugar para dormir.
o
inverno vestiu-a com um suave desespero nos olhos e forte dor nos
ossos. desculpava-se, quando a expulsavam de áreas cobertas, de
jardins particulares – excelente lugar para morrer –, de debaixo dos
carros de motor quente.
um dia, percebeu a cabina telefônica. porta
aberta. dormiria sentada, o frio menos agressivo.
alguém necessitado dos fios da telecomunicação
chamou a polícia, que chegou com gentilezas, educação, e lhe pediu que
esperasse, que já lhe vinham buscar. ela precisava comer algo, ela
precisava de uma cama aquecida. a senhora tem parentes? ela pedia
desculpas e andava. e, depois, andando em círculos sem sair do lugar,
como a vida fizera com ela, retornava para a cabina que a desvestia um
pouco do frio hálito da morte.
a morte não chegaria antes mais outro infortúnio.
não se acostumara a acreditar em sorte.
a carícia do mijo entre as pernas, o cheiro de
mijo e merda, a cama de laje dura e fria, o gozo da vida em dores de
parto e veneno, a esperança de nada existir para sempre, um medo de
errar de novo e ser condenada à vida eterna.
contra as sombras, ela via, num único e disforme
rosto, os olhos estúpidos do marcelinho, o riso satisfeito do marido,
a boca raivosa de paulinha, a voz prometedora do filho que se fora, o
rosto de cada um dos filhos mortos.
dentro dela, o ronco do estômago desencavara a
morte e, no coração, mais do que na cabeça, o definido sentimento do
nada. tudo o que reviu já não lhe dizia nada, absolutamente nada.
oco do mundo.
a imprensa soube da mulher que dormia numa cabina
telefônica. vieram com câmera, luzes (um crucifixo na mão: grava por
este ângulo, isso comoverá os espectadores), opinião (e esse governo
que se diz preocupado com o social não fez nada pela senhora?),
compaixão (um país com tanta corrupção e criaturas humanas vivendo
como animais), sentença (é a falência da sociedade liberal), e num
flashe, a multidão a passar indiferente. mostraram-na (sorria, vovó;
ou melhor, chore um pouco) sentada, impassível, enigmática. faliam os
movimentos intestinais na digestão do mata-rato e da água sanitária; e
eles, os jovens bonitos com seus apetrechos e alegrias da matéria que,
talvez, lhes renda um prêmio, encabularam, sorriram a marcelinho. não
perceberam na última tomada de cena, o derradeiro suspiro. logo se
aprestaram a partir com imagens, manchetes e pressa: precisavam editar
a matéria.
para ela, engaiolada na cabine e no sono
definitivamente frio, deixaram apenas o aviso: vai ao ar, hoje, ao
meio-dia.
WALMOR SANTOS nasceu em São João do Sul, SC, em 16.08.50. Reside
em Porto Alegre, RS. É proprietário da WS Editor, uma pequena empresa
que se dedica a lançar novos escritores e a levá-los às escolas, dentro
do projeto "Autor na sala de aula", do qual foi o criador. Concebeu e
editou a Revista Literária Blau que, presentemente, circula na Internet.
Foi Presidente da Associação Gaúcha de escritores no biênio de 1999 –
2001. Participou de diversas antologias.
Recebeu vários prêmios, com destaque para o "2º Concurso Nacional de
Contos Josué Guimarães" e "Concurso Nacional de Contos, Prêmio Paraná".
Obras: Amigo, é preciso pressa, poesia. Porto Alegre: Edição do Autor,
1974; Primeiras descobertas, poesia. Porto Alegre: Edição do Autor,1978;
O paraíso é no céu de sua boca, contos. Porto Alegre: Movimento, 1993,
12ªed.; O ventre da terra, contos. Porto Alegre: Maredi,1995, 6ªed.;
Coração passarinho, contos. Porto Alegre: Maredi, 1995, 6ªed.; O capitão
pirata e o gênio invisível, infantil, Porto Alegre: Maredi, 1995, 4ªed.;
Além do medo e do pecado, contos, Porto Alegre: Mercado Aberto/Maredi,
1996, 3ªed.; Vaga-lumes de alegria, poesia, Porto Alegre: WS
Editor,1998, 2ªed.; Basta! – a revolução do videogueime, novela, Porto
Alegre: WS Editor, 1999, 4ªed.; A noite de todas as noites, novela,
Porto Alegre: WS Editor, 1999.; Arte de enganar o medo, contos, Porto
Alegre: WS Editor, 2001, 2ªed.; maria, contos, com ensaio de Márcia
Ivana de Lima e Silva, Porto Alegre: WS Editor, 2003; Aqueles que iriam
morrer, novela, Porto Alegre: WS Editor, 2003.
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