 |
 |
Lar da Esperança
Não quero!, insistiu o velho, esfregando nervosamente as mãos. Já lhe
disse que não quero!, repetiu. O médico fitou-o sem paciência: O senhor
já sabe o que lhe acontece se não quiser. Será o meu destino,
respondeu-lhe prontamente o velho no seu tom teimoso. O médico soltou um
suspiro exasperado. O hospital não lhe permitirá ir embora sem fazer a
cirurgia, voltou o médico. O velho parecia olhá-lo com arrogância: Só eu
decido sobre a minha vida, não vou e pronto, aconteça o que acontecer.
Bem, continuou resoluto, o médico, Nesse caso chamamos cá a sua família
e alguém terá de decidir. Mas ó senhor doutor, tornou o velho, franzindo
o sobrolho, Se eu lhe estou a dizer que não quero ser operado, a que vem
a minha família agora ao assunto? Têm responsabilidades sobre si, a que
eu, como o hospital, temos de chamar à atenção. O senhor não está em
condições de decidir. Ouça, caro doutor, eu vim cá pelos meus próprios
meios, não precisei da família para isso. Se tenho uma doença que me
obrigue a ser operado, eu não quero, prefiro sofrer, já lhe disse. O
senhor não está a ver muito bem o que lhe pode acontecer, pois não,
altercou o médico com severidade, Sabe que, não sendo operado o senhor
vai acabar por ter uma morte horrível, com muito sofrimento? É isso que
quer? Está com medo do quê? De morrer na operação? Garanto-lhe que tudo
correrá bem, mas se não for operado, morrerá na mesma, e da maneira mais
horrível!
A consulta demorava mais que o normal. Outros doentes esperavam para ser
atendidos pelo mesmo médico. No consultório, médico e paciente são
interrompidos pela enfermeira: Senhor Doutor, com licença… tem mais oito
doentes para atender, e já passam das onze horas! Não se preocupe,
respondeu o médico, sem deixar de fitar o velho, vou já atender o
seguinte. Tenho aqui um internamento a fazer para este senhor,
acompanhe-o e arranje uma cama para ele na enfermaria. Dito isto, o
médico levanta-se, confundido com o ar de surpresa e ao mesmo tempo de
terror do velho. Vá, ordenou, vá com a senhora enfermeira e acomode-se,
depois chamaremos cá a sua família. Senhor doutor, não me pode operar
sem eu querer, reclamou o velho. A enfermeira agarrou-o pelo braço para
levantá-lo da cadeira, Vamos lá senhor… faça o que o senhor doutor
manda. Resignado, o velho levantou-se fitando com raiva o médico. Saíram
do consultório e o médico preparava a ficha do paciente seguinte. Mande
entrar a Dona Maria Alice, pediu à enfermeira, antes de esta fechar a
porta. Concerteza, respondeu, obediente. No corredor, onde se perfilavam
várias pessoas em cadeiras de plástico, anunciou: Dona Maria Alice. Uma
senhora levantou-se, fazendo uma careta de dor. Faz favor de entrar. Já
não era sem tempo, respondeu a senhora, faz duas horas que aqui estou.
Entrou a Dona Maria Alice no consultório, e a porta fechou-se. Havia um
burburinho de protesto entre os doentes, pela demora no atendimento. A
enfermeira dirigiu-se à colega de serviço: Toma conta aqui do
atendimento, que eu vou tratar do internamento deste senhor.
Seguiram enfermeira e o velho pelos corredores brancos e frios do
hospital. O velho resmungava palavras ininteligíveis. A enfermeira não
fez caso e não se esforçou por compreender as palavras do velho. Chegado
a um átrio, com mais cadeiras de plástico perfiladas, mas vazias,
ordenou ao doente: Sente-se aqui e espere um momento. Entrou para a
porta da enfermaria, com os documentos do velho. Este, contrariado, mas
resignado, sentou-se sem protestar. As suas feições, até agora,
retratando uma alma sisuda e zangada, deram lugar a uma expressão de
profunda angústia, agora que se encontrava sozinho. Alguns minutos
depois, a enfermeira regressou. Vamos lá, a sua cama é a número 22, no
último quarto. Dois patinhos, resmungou o velho, pato sou eu, que vim
aqui parar… O que disse, perguntou a enfermeira. Olhe, disse o homem com
um ar de desabafo, Eu não quero ser operado, compreende? Prefiro morrer.
Ora deixe-se de coisas, o seu caso é complicado, se não é operado, vai
sofrer até morrer, é isso que quer? Vocês, bem se vê, andaram todos na
mesma escola, respondeu o velho, Isso já me disse o senhor doutor, mas
eu não quero; se tenho de sofrer que se cumpra o meu destino. A
enfermeira, habituada que estava a este tipo de situações, não quis
desenvolver a discussão. Perguntou: Então e não veio com nenhum
familiar? Esposa ou filhos… O velho olhou desolado para a enfermeira.
Novamente a expressão de raiva desaparecia, dando lugar à angústia. A
minha mulher faleceu há dez anos, respondeu. A enfermeira, embora
compreendendo a dor do homem, não se mostrou emocionada. Então e nunca
tiveram filhos? Apenas um, respondeu. E onde ele está, não pode vir
consigo? Impossível, ele nem sabe que estou aqui, ele vive no Canadá,
com a mulher e dois filhos. É mais de lá do que cá. A enfermeira
mostrou-se então preocupada: O senhor vive sozinho? O velho demorou
alguns momentos a responder. Vivo num lar, e novamente a expressão de
teimosia e raiva sombreou-lhe o rosto. Não tem o contacto do seu filho
no Canadá, indagou a enfermeira. Ele é que me costuma telefonar lá para
o lar, respondeu, encolhendo os ombros. Então temos de chamar alguém do
lar. Para quê?, resmungou o velho. Alguém tem de se responsabilizar por
si… bem, vejo que não veio preparado para o internamento. Para já vai
vestir um pijama do hospital e vai ficar naquela cama, disse a
enfermeira, apontando uma de duas camas num quarto vazio, junto de uma
janela. Ligo-lhe a televisão… Vá, fique aí entretido enquanto vamos
falar para o lar. Televisão?, respondeu o velho indignado, Isso é para
tolos! Peça-lhes para trazer a minha bíblia!
A meio da tarde entrou no hospital uma mal estimada carrinha com um
letreiro que anunciava o Lar da Esperança. Além do motorista barrigudo e
de mau aspecto, vinham na carrinha duas mulheres, ambas de meia idade,
que saíram, uma delas com um saco, quando o veículo estacionou. Eram uma
assistente social, que se dirigira ao lar propositadamente a pedido do
hospital, e uma funcionária do lar. Entraram no hospital e na recepção
anunciaram que eram do Lar da Esperança e que pretendiam falar com o Dr.
Jorge Pereira acerca de um seu utente que se encontrava internado desde
a manhã. Após um breve telefonema da pessoa que as atendeu, foram
encaminhadas por um dos corredores, até ao consultório onde o Dr. Jorge
Pereira as esperava, juntamente com o velho que não cedia na sua decisão
em não ser operado.
Então, senhor Alfredo, exclamou a mulher vestida com uma bata cuja
lapela, bordada, trazia a insígnia do Lar da Esperança. Disse que ia dar
um passeio, e está internado no hospital! Já andávamos à sua procura
quando nos telefonaram daqui! E vocês alguma vez quiseram saber de mim,
para quê essa preocupação agora?, respondeu rudemente o velho senhor
Alfredo. Não diga isso, senhor Alfredo olhe que o senhor doutor até vai
pensar que é verdade. A mulher estendeu a mão ao médico e saudou-o
apresentando-se: Boa tarde, senhor doutor, meu nome é Clara Morais, sou
directora do Lar da Esperança. O médico respondeu com simpatia,
apresentando-se igualmente, mas olhando desconfiado para a bata pouco
limpa da senhora directora, depois das palavras do doente, embora nisso
desse um desconto, por ser mais uma resmungo do velho. Os senhores não
têm um médico lá no lar, perguntou ainda, antes de cumprimentar a
assistente social. Temos sim, respondeu prontamente a directora do lar,
não sei se conhece, é o doutor Rodrigues, já exerceu clínica geral neste
hospital há uns anos. O médico não respondeu, foi directamente ao
assunto: Ora bem, o senhor Alfredo… diagnosticamos-lhe um tumor nos
intestinos, em estado já adiantado; sabia disto? A directora do lar
olhou para o médico e para o velho com um ar de espanto e afirmou que
não sabia de nada, que o senhor Alfredo nunca havia comentado nada no
lar, que não sabia que estava doente. Mas então que anda lá a fazer esse
tal doutor Rodrigues, ripostou o médico, secamente. Sem deixar a
directora explicar-se, adiantou: O senhor Alfredo teima em não querer
ser operado, quisemos saber de familiares com quem pudéssemos falar,
mas, ao que parece, ele apenas tem um filho, que está no Canadá. Vocês,
no lar, não têm contacto do filho deste homem? Não, senhor doutor,
respondeu a directora embaraçada, o senhor Alfredo veio ter connosco por
sua conta e nós o acolhemos, disse-nos efectivamente que não tinha
família a residir cá em Portugal… Então como o acolheram, quem paga ao
lar a estadia do senhor Alfredo, cortou o médico. O velho, orgulhoso,
intercalou: Não preciso de ninguém para pagar as minhas contas, tenho
dinheiro suficiente! Exacto, confirmou a directora, é da conta do senhor
Alfredo que vem a mensalidade. O médico trocou um olhar cúmplice com a
assistente social que até ali não dissera nada, apenas apontava num
bloco os dados que iam saindo da reunião. Bom, quis concluir o médico, o
facto é que este senhor deve ser operado de urgência, mas como está
intransigente quanto à cirurgia… E quem o vai operar, perguntou a
directora. Eu mesmo, minha senhora, eu mesmo sou o cirurgião. Já disse
que não quero ser operado, altercou o velho resmungando, Que se cumpram
os desígnios de Nosso Senhor! Trouxe a minha bíblia, dona Clara? A
directora sorriu para o velho e respondeu, Sim senhor Alfredo, trago
tudo o que precisa neste saco. O médico aproveitou para chamar a
enfermeira de serviço e pediu que acompanhasse o senhor Alfredo até à
enfermaria onde aguardaria o que fosse decidido entre o hospital, o lar
e a segurança social. O velho, pegando no seu saco, ainda insistiu que
não queria ser operado e que se decidissem por ele haviam de se haver
com Deus.
Da reunião não saiu outra conclusão senão a inevitável: o velho iria ser
operado aos intestinos, contra a sua vontade, uma vez que se desconhecia
o paradeiro de qualquer familiar do doente, e, alegando que este se
encontra em estado senil, seria o lar a tomar a responsabilidade de o
doente se escusar da operação. A directora do lar, que não queria de
modo algum manchar a imagem da sua instituição, concordou com a operação
e tudo ficou resolvido. O senhor Alfredo seria operado na manhã
seguinte, sendo os exames pré-operatórios feitos ainda naquele dia.
Entretanto, a assistente social, cumprindo com o seu dever, iria
elaborar um relatório e, a pedido do hospital, abriria um inquérito para
apurar a negligência do lar com um dos seus utentes e proceder à devida
fiscalização, como a norma impõe, embora a morosidade da burocracia
ponha em causa a eficácia de tais decisões.
O senhor Alfredo, sabendo que o iam operar contra a sua vontade, passou
a noite em branco, lendo desenfreadamente a sua bíblia e fazendo orações
entre a leitura. Recordou os anos da sua juventude, os anos passados ao
lado da sua companheira e esposa até à sua morte, o filho que já não o
via há tantos anos, imaginou ainda os netos que não conhecia… Dos seus
olhos secos pela idade, esboçaram-se duas pequenas lágrimas, que as
reprimiu, levando as mãos ao rosto. A par do sofrimento psicológico, as
dores incomodavam-no de tal modo que ainda andou por alguns minutos às
voltas no quarto, com os pés descalços, para que o frio do soalho lhe
suavizasse as dores no abdómen. Não soltou um gemido, embora no seu
desespero por tudo lhe apetecesse muito gritar e fugir. Pela manhã,
quando os enfermeiros entraram na enfermaria e o colocaram na maca para
ser transferido para o bloco operatório, onde ainda esperou uns três
quartos de hora pela chegada da equipa médica, balbuciava febrilmente as
suas orações, agarrado à bíblia fechada, que tiveram de lha arrancar à
força das suas mãos, embora ele em palavras não tivesse protestado. Os
médicos enfim chegaram, o anestesista tratou da sua parte e o velho
senhor Alfredo, já alheio de tudo o que o envolvia e concentrado nas
suas orações, deixou-se vencer pela droga que lhe entrava nas veias, e
pelo cansaço da agitação do dia anterior e da noite. Deixou a meio um
padre-nosso, antes de adormecer completamente.
Afinal a burocracia não foi obstáculo algum. Ao fim do dia, e após a
grande luta da assistente social em tratar do caso o mais rápido
possível, os fiscais sanitários e da segurança social entravam no Lar da
Esperança para fazer as devidas inspecções, falar com os utentes idosos,
interrogar os poucos funcionários, vasculhando toda a papelada e
vistoriando as instalações. Ao mesmo tempo, a directora do lar, recebia
um telegrama do hospital informando do óbito do senhor Alfredo, idoso
utente daquela instituição que se apurou, mais tarde, ilegal. A cirurgia
demorara mais que oito horas, e o velho que resmungava contrariado com a
operação não resistiu às sucessivas paragens cardíacas. Foi instaurado,
a pedido não se sabe exactamente porquê e por quem, um inquérito à morte
do senhor Alfredo, atingindo a reputação do médico que o operou.
Seis meses depois, o Lar da Esperança fechou. Ao doutor Rodrigues,
médico assistente do lar, foi-lhe suspenso o exercício da actividade.
Quanto ao médico cirurgião, sabe-se que trabalha agora numa clínica
particular.
JOSÉ ALEXANDRE RAMOS,
escritor português, editor da Revista Alternância.
|