
Ilustração: Francisco Lameirão |
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A história
À luz circular do candeeiro, escrevo o memorial deste dia inacabado. Não
teria consentido em tal resolução se os incríveis eventos de que darei
conta permanecessem dentro das fronteiras do sonho ou do delírio.
Acontece que, ao longo do dia, conservei-me tão vigilante como agora, e
delirar nunca fez parte das minhas ocupações mundanas. Lá fora, a chuva
põe-se a existir com uma violência que me reconforta. A tarde, no
entanto, foi de sol - a tarde da minha aventura. É certo que a vertigem
da escrita nunca me enfeitiçou. Hoje, porém, a inclinação é
irresistível. Regressemos ao início da tarde.
Vou a caminho da casa de um homem que escreve histórias. Ele prometeu
tornar-me narrador omnisciente de uma das suas efabulações. É provável
que não tenha cumprido ainda a promessa na sua totalidade, mas
afiançou-me que daria início à história antes de eu o visitar. Por
conseguinte, estou convicto de que ele já abriu o labirinto da
narrativa, através do qual me investiu da missão de exterminar o oculto
minotauro. Além disso, autorizou-me a entrar em sua casa pela porta
principal, dispensando-me da formalidade de tocar à campainha. A porta
estaria encostada. Que a empurrasse sem escrúpulos e subisse os degraus
que nascem no vestíbulo.
Acabo de chegar. Afasto a porta entreaberta, subo a escada de madeira,
acaricio os dedos na lisura do corrimão. Alcanço um corredor que dá para
meia dúzia de compartimentos. À minha frente fica o gabinete de trabalho
do homem que escreve histórias. Entro sem pudor; estranho a sua
ausência; corro com os olhos as lombadas dos livros e as molduras das
naturezas-mortas, desço a mão pelo queixo; pergunto-me o que estou aqui
a fazer. Inicio um chamamento batendo as palmas duas vezes. Desvio o
cortinado e espreito o saguão. Ninguém. No ar paira um odor a cascas de
frutos. Pousada sobre a secretária, uma folha de papel com uma frase em
maiúsculas. À sua leitura, desencadeia-se em mim um frémito de espanto.
Ela assegura que a minha história repousa dentro de um baú na casa de
banho.
Apresso-me, pela direita, até ao extremo do corredor. Enfio-me na casa
de banho e destapo o baú. No interior jaz um papel pautado, com um
enunciado categórico e uma observação discreta. Ao ler-lhe as palavras,
reparo metáfora. Anuncia-se ali que a minha história é um rio a
desaguar, provisoriamente, numa gaveta. Recuso decifrar os sentidos da
afirmação, porque a nota seguinte esclarece o poético disparate, ao
convidar-me a entrar na primeira alcova à direita e a abrir a segunda
gaveta da cómoda.
Não me repugnam estes desafios tranquilos. Mas onde se encontra o homem
que escreve histórias? O puxador da porta do quarto imprime na minha
pele uma sensação granulada. Num quadro da parede, uma jovem olha sobre
o ombro direito na direcção do vento, com as pálpebras dispostas
languidamente. O espaldar de uma cadeira veste duas camisas. Um raio de
sol morre na alcatifa. Puxo a gaveta e retiro um rolo de papel higiénico.
A primeira secção condensa o meu próximo percurso. As palavras, lançadas
sobre uma textura de minúsculas depressões quadrangulares e uniformes,
explicam que a minha história calça, no sótão, um sapato do pé esquerdo.
A que despropósitos me leva o enigma!
Ao sótão chega-se por aquela escada, ao fundo do corredor. Arrasto-me
como um bebedolas. Subo os degraus, empurro a porta, incomodada nos
gonzos, ilumino o espaço. Em simultâneo, um telemóvel toca dentro de um
sapato, desferindo um som convencional. Atendo. Uma voz cantante
pergunta-me se é da agência funerária. Recuo, siderado. Era o que
faltava! A voz pede-me desculpa pelo engano. Não sei se é a voz do homem
que escreve histórias. Encostada à parede, uma caixa de cartão exibe
três palavras a vermelho sobre um fundo branco: desculpa pelo engano.
Ponho a nu o conteúdo da caixa. Nada de especial. O vazio e pouco mais.
Uma chave inclina-se contra um dos cantos inferiores, etiquetada com um
único destino: a cozinha. Esta divisão situa-se ao fundo dos degraus,
atrás daquela porta envidraçada. Desço. Introduzo a chave. Ela não roda,
recusa-se a abrir o lugar da minha história. Ah!, diz aqui, num
autocolante colado ao vidro, que a minha história existe, de certo modo,
num outro autocolante: carrego-o no dorso. Dispo o casaco. Quem colaria
este cartaz em miniatura? A compreensão dos caracteres, alinhados ao
contrário, exige que me socorra de um espelho. Dirijo-me para a casa de
banho a passos rápidos. No espelho, implacavelmente rachado, leio uma
espécie de silogismo, cuja conclusão é que a minha história espera por
mim sobre a secretária do homem que a escreveu.
De volta ao gabinete, não noto alterações na ordenação das coisas. No ar
paira ainda o mesmo odor a cascas de frutos. Se há indícios da presença
do meu anfitrião, sou incapaz de os assinalar. Sobre a secretária
estende-se uma folha aparentemente igual à que encontrei há pouco.
Aproximo a vista e descubro um papel cheio de dezenas de palavras. Ocupa
o mesmo lugar do anterior; mas revelar-me-á outros lugares, outros
caminhos. Antes de iniciar a leitura, fecho a porta do gabinete. Respiro
em profundidade, sento-me no cadeirão estofado. Volto a folha. A
história, escrita a computador, prossegue no verso. Expectante de
volúpia, mergulho no texto.
Agora, a noite é mais densa. Após uma trégua, a chuva desata-se de novo
com a violência de há pouco. Não sei se, desta vez, tal violência me
aconchega. Ela mistura-se ao irreparável desconforto que, à tarde,
crescia em mim à medida que avançava na leitura da minha história.
Sentia, então, a ordem do tempo a diluir-se numa eternidade
desconcertante. O passado, o presente e o futuro misturavam-se ao acaso
numa prodigiosa indiferenciação. A lógica cedia ao peso de inefáveis
paradoxos. A par das ideias que recolhia do texto, outras, obstinadas,
rodopiavam-me no cérebro, e eu abarcava, pela primeira vez, o
significado dos meus dias. Nada do que até ali vivera representava
qualquer novidade no centro da ordem universal. Tudo deveria cumprir-se
do modo como foi cumprido, mesmo que resultasse da arbitrariedade de um
homem a escrever histórias ou dos decretos de um deus a conservar as
coisas e o seu fluir inesgotável. Ao terminar a leitura da minha
história, percebi que o texto que acabara de ler era exactamente igual
ao texto que acabo de escrever.
JOSÉ FERREIRA BORGES é escritor, professor de filosofia e integra
o conselho de redacção
da Revista Periférica
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