
Ilustração: Édouard Manet |
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A falsa velha
(in Contos Indianos)
tradução: Dorothée de Bruchard
No reino de Mathura igual à cauda de um
pavão, onde o solo, em vez de flores, entreabre olhos de esmeralda e
diamante, viviam, sob este olhar, duas princezinhas, a mãe morta desde
cedo. Um rajá, seu pai, de barba grisalha, que tratou de esposar em
segundas bodas uma jovem mulher muito bela e muito má. Detestando as
enteadas, maltratando-as. O velho apaixonado e dominado foi deixando;
cada dia trazia o seu tormento. Com a paciência esgotada, as meninas
resolveram fugir; as duas cabeças rebeldes de quatorze e quinze anos
amadureceram, sob os caracóis, um plano de fuga. Burlando a vigilância,
transpuseram as portas do palácio, as da cidade e, numa noite de luar,
as duas filhas do rei, dentro da floresta, andavam ao acaso enquanto o
astro de raio sutil gelava a sua ingenuidade. Desconhecendo o correr
aventuras como malabaristas, o pavor as domina, começam a se arrepender.
De súbito, um suntuoso palácio oferece seu
umbral, elas o penetram, irrefletidamente: a habitação de um rachka
malfazejo e de sua mulher que nada lhe ficava a dever. Os donos
ausentes; a casa, vazia. As fugitivas morrendo de fome avistam arroz
fervido numa travessa de prata, e comem-no com avidez. A refeição
terminava, quando fez-se um grande alarido, do ogro e sua mulher
retornando. As irmãs escapuliram para o telhado em forma de terraço; de
onde, por uma abertura disposta na parede, elas viam, ouviam tudo lá
dentro. O aspecto do rachka, pouco confortante: seus olhos flamejavam,
uma barba arrepiada até os joelhos, a boca enorme pasmando sobre dentes
afiados.
"Pelos mil olhos de Indra, rugiu ele ao
entrar, alguém passou por aqui, Senhora, há um cheiro de carne fresca.
- Disparate, insinuou a ogra: quem ousaria
arriscar-se no sombrio desta floresta? e somos temidos num raio de
trinta léguas.
- Repito, Senhora, que sinto um cheiro que
por si só já me enche de apetite.
- Seus lábios trazem o cheiro do sangue:
não acaba o senhor de jantar mercadores encontrados na selva?
- Como queira. Estou morrendo de sede e vou
ao poço tirar água; depois farei minha ronda, muito esperto quem me
escapar.
Quem diria estarem as princesas tranqüilas,
durante aquela conversa!
A caçula, de um sangue frio maravilhoso
para sua idade, assim que o amável casal rumou para o poço, foi vindo de
mansinho. O ogro, já pesado por uma digestão laboriosa, tratava de
descer o balde, e sua companheira, inclinada para a frente, de dirigir
as oscilações da corda. Um gesto ligeiro como o raio, da corajosa
menina, agarra o calcanhar de cada um dos esposos, precipita-os:
atravessam o feroz orifício, debatem-se na água, clamam com fúria. Tudo
se cala, o ogro e sua mulher cessaram de viver: não juntemos oração
fúnebre. A casa extravasava ouro e prata, só o que sobrara da pobre
gente pelo dono devorada até os ossos. As crianças possuíam estas
riquezas. Na esplêndida residência, um só inconveniente: estar, no mato,
perdida. Duas jovens como Flor-de-Lótus e Gota-de-Orvalho ficavam
bastante expostas num lugar assim. Uma, em casa, se ocupava dos afazeres
domésticos, a outra saía a pastorear. Flor-de-Lótus, esta, ainda que
mais moça, dava, antes de sair, à mais velha mil recomendações.
Sobretudo não esquecer de trancar a fechadura, e "Se alguém bater, só
lhe abra com o rosto polvilhado de carvão, a fim de que não intua sua
beleza."
Felizmente ninguém se aventurava no lugar
maldito. As mimosas pouco a pouco familiarizadas com sua nova situação,
reconfortavam-se, juntas. Pelo ardor da caça levado, o filho do rei de
Hastinapura , certa tarde, passa em frente ao palácio do falecido
rachka. Um príncipe da cidade dos elefantes, vivos ou esculpidos em
pórfiro, dos quais possui a força e a estabilidade, só dificilmente se
assusta. Sua comitiva mantida à distância, caminha tranqüilo para os
lados da morada, cujo silêncio o intriga. A porta, com as batidas de sua
azagaia, permanece fechada e o real caçador, que não é paciente,
resmunga e ameaça. Gota-de-Orvalho abriu com mão tímida, estendeu ao
adolescente a palangana de água fresca que se oferece aos viajantes.
Irreconhecível com seu rosto mascarado de pó preto e com trapos às
pressas amassados por sobre a roupa, parecia a mais vulgar das servas; o
esperto príncipe não deixou-se levar: farejou um mistério e, sem beber a
água oferecida, bruscamente atira-a no semblante da princesa. A tez
reaparece e sua coloração primeira. Se o procedimento era brusco, o
Senhor se desculpa com a eloqüência possível a um belo rapaz subitamente
atingido pelo amor. Seu coração, sua mão, e seus tesouros, tudo,
ofereceu à bela; que se calava intimidada e pensando no retorno da irmã.
Nem um instante sequer ele admitiu a idéia de que se pudesse recusar ser
a nora de um rei. Este rubor e estas lágrimas, atribui-os a um púdico
embaraço e sem mais, envolve a mimosa em seus braços robustos. Uma
liteira aguardava na floresta: para Hastinapura! - O quê! nem sequer
tempo para traçar umas linhas de despedida: um verdadeiro seqüestro. A
Gota-de-Orvalho vem uma idéia brilhante, com vistas a deixar um fio à
pobre retornante que vai encontrar tudo deserto. Desfia o seu colar,
rasga uma echarpe de musseline e, em cada retalho envolve uma pérola, o
precioso peso reterá o tecido na relva. A viagem de vários dias: ao
longo da qual vai semeando as pérolas, atirando a última antes de entrar
no palácio do seu futuro sogro. O portal de madeira e madrepérola
fechado, ela pensa, no pátio, no abandono em que se encontra
Flor-de-Lótus; e soluça por dentro em uníssono com os chafarizes.
O sol, raios atenuados, inclinava para o
ocidente, lá adiante, quando a pastora reuniu seu rebanho; preocupada
que, contrariando um querido hábito, ninguém tivesse vindo ao seu
encontro: logo entra, chama, vas-culha em vão, e se cansa; despertado,
só o eco, na casa solitária. A verdade transparece: roubaram-lhe a
companheira. Melhor do que lamentar-se, segura irá dormir e deixa para o
dia seguinte suas buscas. De pé, antes da aurora, uma primeira pérola
avistada no gramado na extremidade do jardim, percebe a intenção da
irmã. Segue em frente por uma estrada estendida ao sol e na poeira. Leva
às vezes mais de hora até encontrar uma pérola. Os lavradores
concedem-lhe por caridade uns punhados de arroz e dormir no estábulo; em
sua precipitação descuidou de trazer o mínimo dinheiro: não é viagem de
lazer. A beleza da errante princesa a destina a perigos, como ser levada
por alguém terrível, senhor ou bandido, amante de manjares delicados.
Uma vez, pernoitava no barranco, quando assustou-a um cadáver de velha
ali jazendo, decerto morta de fome: esqueleto coberto de pele. Dominar
sua repugnância custa-lhe mais do que cuidadosamente retirar a máscara
ressecada e lavá-la no açude próximo: aplica-a aos próprios traços com a
precisão com que se enluva uma mão e, cortando uma haste de bambu, nela
apoiada, costas curvadas, cabeça balançante, fez sua entrada, pela
manhã, nas ruas de Hastinapura. Doravante segura contra qualquer
tentativa amorosa. "Velha feiosa!" exclamavam, desviando o olhar, os
passantes. Flor-de-Lótus ria sob as rugas e tranqüilamente apanhava a
última pérola junto ao palácio, compreendera que sua irmã não estava
longe. Tentou até introduzir-se na morada real; os guardas brutalmente a
enxotaram. "Tão suja canalha podia ter algo a tratar com os grandes da
corte?" "De outra feita (para si mesma) o acaso me será mais propício".
Flor-de-Lótus arrendou-se, era preciso,
enquanto isto, sobreviver, a um agricultor dos arredores da cidade.
Trabalho pesado lhe cabendo, nada enjeitava, trabalhadeira como uma
camponesa. As mulheres compadeciam-se e ajudavam-na, em razão de sua
feiúra, benevolentemente. Durante semanas, a menina manteve sua máscara
e seu segredo, heroísmo inverossímil; a vaidade, porém, tem de recobrar
seus direitos: assim, de manhã, cedo escapulia do monte de capim, sua
cama, no alpendre do sítio, para lavar-se no cristal do açude. Tirar
depressa a pele emprestada, mergulhar a volúpia do rosto na água pura.
Sua longa cabeleira lhe escorrendo assim nos flancos, penteá-la e,
reatada, nela prender um lótus vermelho; pois tem um gosto imemorial por
esta flor de sua infância, de nome igual ao seu. Livremente se deleita
com o retorno da sua imagem, renova-a em sua memória e se abastece de si
mesma, em segredo, por um dia. A pele velha, lavada, numa haste de
caniço pendurada, escorreu, roçada de brisa. O dia brilha, é preciso
voltar a ser feia, curvar-se, reintegrar o sítio e penar como besta de
carga.
Ora, circunstância imprevista por
Flor-de-Lótus, sua visita diária desnuda aos poucos das lindas flores o
tanque, o rei tinha-lhes apego, não demoram em descobrir o furto: foi um
caso propalado até o conselho dos ministros. Os políticos fundiam o
espírito quanto ao meio de descobrir o ladrão. O segundo filho do rajá,
valente rapaz, declarou que se encarregava sozinho de esclarecer a
aventura. Galgaria uma árvore e, pelo verde abrigado, espreitaria o
amante de cálices. Na mesma noite, o projeto foi posto em execução: o
céu resplendia de astro, um vento mal enrugava o lago, agitando, sem
soltar uma pétala, os lótus do rei.
Ao raiar do dia, apareceu a velha, pelo
príncipe, nas ruas de Hastinapura notada, como prodígio de feiúra.
"Diacho! tem graça, onde vai a vaidade aninhar-se? e precisa de flores
esta cara de macaco... vai ter que se ver comigo, senhora ladra."
Assombro! a máscara amarela e plissada acaba de cair, para revelar o
mais doce infantil rosto que algum dia alumiou: um deslumbramento
comoveu o príncipe. Quem? uma habitante da terra ou dos céus. Tão
radiante aparição sequer já passara por sua idéia.
A inocente pensava estar só e calmamente
entregava todo o corpo à curiosidade do jovem indiscreto. Saiu do banho,
está sentada num degrau baixo da escada do açude, enquanto evapora cada
gota, diamantes nela esparsos: o supremo véu flutua nos contornos,
hesita e some qual nuvem ideal, deixando-a mais do que nua. Ora ergue os
braços estirando-se como que para salientar a redondez de seu seio, ora
brinca com o ondular da água sob seus pezinhos brancos, até parece, em
sua delícia, afogar-se um casal de pombas. Então lentamente trança a
cabeleira, negra como a abelha da Índia. No tanque agora não se abre
flor alguma, com mão marota apanha uma das últimas ao seu alcance e, no
ingênuo espelho, sorri e se admira. O filho do rajá nada perde destes
graciosos folguedos: fremente, afasta, para ver melhor, um ramo de
figueira que o oculta... Ah! a ladra pode colher impunemente todos os
lótus que quiser: ele nem pensa em puni-la. De súbito, terá sido o
kokila a lançar seu canto matinal ou um grito dado por Flor-de-Lótus, o
sol resplandece; nunca a graciosa demorou-se tanto: num instante
reajusta a máscara e foge. Em pé, junto à sua árvore, o príncipe
apodera-se da flor amarfanhada que a moça jogou no chão: está
perdidamente apaixonado e portanto disposto a todas as loucuras
imagináveis. Voltando ao palácio, sobe amoroso ao terraço onde o rei
reúne o seu conselho: "Senhor, ofega sem mais preâmbulos, estou
enamorado da velha serva que reside às portas da cidade, com o
arrendatário de Vossa Majestade e, com seu consentimento, pretendo
desposá-la hoje mesmo."
Os ministros, malgrado o respeito devido
aos soberanos, não conseguem conter um gesto de surpresa. "O quê! este
rapaz, do qual todas seguem com olhar extasiado o andar, quando passa,
soberbo, pelas ruas; este príncipe que possuiria as mais belas mulheres
do mundo: decair em gostos tão depravados!" O rei, quanto a ele, fica
atordoado com tão estranho pedido: "Está perdendo o juízo, meu filho!
emite ele afinal. Desposar esta mendiga anciã, um amontoado de ossos
abjetos, quando a terra abunda em princesas maravilhosas. O senhor
ousaria, à nossa raça, de que os filhos receberam o esplendor por
herança, infligir esta vergonha?" - "Muito bem, meu pai; o senhor me
recusa, vou neste ato jogar-me nas águas do Ganga, que os deuses
perdoem-no por minha morte!"
A rainha, avisada, intercede por um filho
adorado: este capricho de espírito doente, uma mania passageira, há que
satisfazê-los ainda que durem muito. Transcorre o dia nestas lutas
domésticas; o menino mimado vence afinal. À luz das tochas, vão buscar a
pretensa velha, que não ousa recusar tal honra, não entende nada, ela;
noiva de um rei! Realmente, tanto enfeiar-se para alcançar este
resultado! pelo menos não irá tirar a máscara, o príncipe a acharia
demasiado bela para deixá-la correr por aí, proibiria a busca da irmã
que, mais que nunca, deseja encontrar.
Dois ou três oficiais do palácio assistem à
cerimônia, celebrada por um venerável brâmane, sacerdote titular da
linhagem real. O príncipe está radiante; arrasta para a câmara nupcial
sua hedionda esposa e com aquela voz meiga que os homens sabem usar
oportunamente: "Minha bem-amada, suplica, enfim estamos sós; retire, eu
lhe conjuro, esta triste pele que furta à minha boca seus traços
divinos. - Estas palavras são para mim um enigma, friamente insiste a
princesa que não sabe estar seu segredo desvendado. Bem queria ser mais
digna do senhor; mas tal como me considera, tal qual realmente sou. -
Basta com esta brincadeira que desperdiça um tempo precioso. Vaidosa,
que se diverte com o meu carinho. Não sou paciente e costumam me ceder.
O quê! não obedece, é pôr demais minha paciência à prova. Jogue fora a
infâmia de um disfarce, ou mato-a neste instante. - Pois então mate-me,
senhor; sinto muito, mas não poderia mudar de pele, mesmo que para
agradá-lo."
Súplicas, ameaças, tudo fracassa diante de
uma obstinada. O esposo toma o partido de deitar-se junto à mulher;
evoca, no contato com aquela carne murcha, a lembrança do núbil frescor
que olhou pela manhã; mas por mais viva que seja uma imaginação, às
vezes ela não pode apagar a realidade.
Aquela primeira noite de núpcias
ressentiu-se disto.
Antes do amanhecer a princesa, acreditando
no sono do marido, deslizou da cama, para iniciar suas abluções no
alabastro de um recanto próximo. O rapaz, que espreitava em vez de
dormir, furtivamente seguiu sua mulher e, pegando a famosa pele que se
estendia no chão, lançou-a num brasero, onde se consomem perfumes: ela
encarquilhou-se com um ruído aos seus ouvidos encantado, e quase de
beijos: "Arde, pele mentirosa, exalou: já me aborreceste bastante!" e
voltando-se para Flor-de-Lótus, jovial brincou: "Pobrezinha, agora,
condenada a ser a mais bela e a mais amada das mulheres. Não se
envergonhe! surpreendi o segredo de sua beleza no açude lustral dos
lótus, onde jurei jamais tomar a outra por esposa."
Um beijo mais bem sentido que o da noite
concluiu o discurso do príncipe a Flor-de-Lótus que o permitiu sem
rancor. O palácio ressoou, como que ao choque sagrado de um gongo, com a
feliz notícia: a princesa devolvida à infância foi solenemente
apresentada ao olhar de toda a família. Contar a alegria das duas irmãs
ao se reconhecerem e jogarem uma nos braços da outra exigiria o
acompanhamento de um muito afinado dentre os instrumentos musicais,
encordoado com as próprias fibras de corações amorosos: com certeza,
após tantas aventuras, mereciam a felicidade, que é muda.
STÉPHANE MALLARMÉ,
poeta simbolista francês (1842-1898). Poeta capital da modernidade,
publicou um único livro de versos, Poesias, além da prosa poética
Igitur, da peça em versos Herodíades e de um volume com textos em prosa,
Divagações. Seus poemas estão entre as obras líricas mais densas da
literatura francesa, destacando-se composições como Brisa Marinha,
Brinde e A Tarde de Verão de um Faunoe, que inspirou a peça sinfônica de
Débussy. O poema Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, com sua
disposição espacial das linhas na página, em diferentes fontes e corpos
de letra, é considerada obra precursora da poesia concreta. Buscando
incorporar o acaso à construção da obra de arte, idealizou um livro
inacabado, interativo e aleatório, que se aproxima do funcionamento dos
atuais jogos eletrônicos.
DOROTHÉE DE BRUCHARD
é graduada em Letras - Português e Francês pela UFSC (Universidade
Federal de Santa Catarina) e Mestra em Literatura Comparada pela
University of Nottingham (Inglaterra) com a dissertação: Reescrevendo o
mito: Morte d'Arthur, de Alfred Lord Tennyson e Mensagem, de Fernando
Pessoa. Foi professora de Língua e Literatura francesas e tradução
literária na Aliança Francesa de Florianópolis. Publicou, em edição
bilíngüe, a tradução dos Pequenos Poemas em Prosa, de Baudelaire
(Editora da UFSC, 1988). Em 1993, fundou a Editora Paraula, com o
objetivo de trazer ao leitor brasileiro traduções cuidadosas de textos
clássicos. Pela Paraula, criou oficinas de tradução literária, sendo
convidada para ministrar um Curso na PUC de Porto Alegre. Publicou
traduções de obras de Mallarmé, Rousseau, Swift, Poe, Schwob.
Atualmente, coordena o Escritório do Livro, trabalha como free lancer em
tradução literária, editoração e criação de projetos gráficos. Dedica-se
à pesquisa em história e arte do livro.
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