As duas irmãs

A literatura escorria-me como sangue que no corpo circula deixando-me viva. Na sala violinos explodiam das pequeninas caixas. O dia fingia-se cinza com a chuva passageira e decidida. Estava sendo acolhedor e próspero a fantasia da nublada cor do céu com os passarinhos cantando enquanto os enlouquecidos violinos, agora lânguidos, ajudavam-me com minhas veias, agora murchas. Principalmente a do pescoço, a que estava mais inchada.

Pela minha cabeça pensamentos franceses rompiam-me a memória e me faziam esquecer do que um dia foi realidade. Nada tinha sido real, agora eram minha imaginação e inspiração tocada pelos doces arranhões dos violinos que pintavam um quadro da memória como um pintor o faz ao retratar o que um dia foi real. Talvez não houvesse tempo, hoje 2004 ou ontem 1920. Talvez fosse um dia nublado em qualquer espaço da terra, londres, paris, são paulo. As falas poderiam ter sido pronunciadas em inglês. E para se chegar em casa ela precisaria entrar no elevador. Muita gente fala inglês. O pensamento oculto do dia nublado sem pátria ou sem filho. No cubículo, onde caberiam seis pessoas, estavam somente três. Três mocinhas, mocinhas mesmo. Jovens bastante jovens. Inquietamente e curiosamente jovens. Oi, me chamo.... Desculpe-me..... Moro.....

Oitavo andar. Aqui moravam as três moças, eu e as duas irmãs. As esquisitas irmãs. Os violinos pareciam estar em luta, rápidos e estridentes, e o céu abria-se num dourado que me atingia o rosto repousado sobre a almofada. Inquieta, a música fez com que me levantasse. Queria água. Precisava verdadeiramente me levantar pois queria água. A cozinha não está distante, somente a alguns passos do meu quarto assim como o banheiro. Estava bem localizada, melhor do que elas, que estavam do outro lado do corredor. Elas, as irmãs, assustadoramente fracas e irritantes. Ninguém falava com elas, a não ser eu que chegara há pouco.

Também as achei estranhas, jovemente velhas. A mais velha, estudante de letras, e um pouco mais bonitinha, e a mais nova, estudante de direito e horrível. Sim, de uma feiúra de dar pena, porém tinha os olhos cintilantes de vida. A outra era como se fosse um coronel. Passei a poupar-lhes palavras. Falei somente algumas vezes, de sonhos e de nuvens. De drogas, por exemplo: de imaginarmos que fumávamos ópio sentadas de frente para uma plantação de papoula. Via-as, as papoulas, todas roxas como orquídeas. Contei-lhes sobre uma festa à fantasia em que vestida de estrela chorei rosa de amor. Ele me queria como eu queria a ele.

Dançamos até o amanhecer e nunca mais nos vimos.

Fiquei sem vê-las por um bom tempo. Confesso que gostaria de ajudá-las, mas se tratava de um caso difícil. Elas eram frias e fechadas. Deixei pra lá, fiz novas amizades e continuei a trabalhar em minhas traduções. O ano acabava e eu teria que partir. Ouvia as buzinas e tudo estava mais calmo do que no início e as jovens irmãs me comoviam e intrigavam. Por que elas eram assim, como poderia um jovem se deixar levar pela vida? Essa vida que nos é imposta.

Essa vida dessa sociedade louca e frustrada, eternamente segura no sacramento. Pedi perdão a Deus e bati na porta de minhas vizinhas, as irmãs. Das simpáticas irmãs. Elas me receberam com chá e chocolate e me entregaram uma carta. Conversamos e elas falaram de sonhos, sonhos de trabalho de mudança de vida e de amor. Cantamos juntas um mantra que inventei, brindamos e acendemos velas coloridas e imaginamos campos floridos. Na cama com a cabeça sobre a almofada abri e li a carta. Chorei rosa de amor com o sol que se esparramava em minha cama. Peguei uma bolsa e saí.

Ao passar pelo quarto das duas irmãs, ouvi vozes e risos. O quarto delas ficava próximo do elevador. O dia estava claro, de fora tudo era mais claro, de fora onde a realidade também sabe ser bela mesmo com toda a poluição e barulho. De dentro do trem tudo parecia filme e o trem cantava um hino. De fora tudo era verde, era o campo, um campo com verdadeiras flores, o campo do rural, o campo da paz e da música, dos violinos, o campo do amarelo trigo da soja e do milho. O apito do trem trouxe-me de novo para a realidade, minha parada minha estação. A ansiedade sacudia-me o espírito enquanto meu peito ardia, a velha sinfonia dos violinos tocavam como se estivessem lutando, um violino arranhou mais agudo e pareceu-me real. Parei e fiquei olhando para janela donde via uma sombra com um instrumento. Era ali que queria ficar. Queria verdadeiramente ficar ali. A sombra tornou-se gente e acenou-me.

Chorei rosa ao subir apressadamente as escadas.

PRISCILA MIRANDA DO ROSÁRIO tem 23 anos. É carioca, atriz e estudante de francês. Escreve regularmente para o site Arte & Política.