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O Coelho
"É possível que ela tenha mudado
tão de repente? Pois não foi ainda ontem que de volta de um passeio ao
bosque, lhe enxugou o suor da testa, e que se lhe prendia em doce e
estranho amplexo?"
Machado de Assis
Nem mal saiu o domingo e Inês já acordou Arturo com reclamações. “E eu
que estava a sonhar tão bem”, pensou. Ele sentou-se na cama e calçou os
chinelos. Virou-se para ela e disse:
– É domingo, o que aconteceu agora?
– O coelho! O maldito coelho morreu!
– Como assim o coelho morreu? Ainda ontem ele estava bem vivo.
Arturo não foi ao banheiro, não lavou a cara, nem escovou os dentes –
seguiu a mulher. Saiu pela porta de trás, atravessou o pátio da casa,
chegou aos fundos do jardim e, ao lado de uma moita, parou:
– Aí está – disse ela, apontando o cadáver.
Ele abaixou-se e pegou o coelho. Virou o corpo com delicadeza,
examinou-o e antes que chegasse a alguma conclusão, sua mulher lhe
perguntou:
– E aí, morreu de quê?
– Não sei, mas não foi outro animal que fez isso.
– Eu sabia – exclamou ela. Foi a comida do gato!
– Será? Mas só um veterinário para descobrir.
– Veterinário nada – replicou Inês – foi a comida do gato. Desde que
esse coelho inventou de comer a comida do gato ele andava estranho.
– Até pode ter sido a comida, mas não tem como saber. Talvez seja outra
coisa…
– Eu não preciso. Eu sei que foi a comida do gato. Agora anda e some com
o coelho antes que a crianças acordem.
– Mas hoje é domingo, o que eu vou fazer com ele – perguntou Arturo.
– Oras, enterra lá na beira do rio – disse Inês.
– Eu não vou enterrar o coelho ali – replicou Arturo.
– Então joga em qualquer canto – disse ela, e deu as costas.
Arturo voltou para dentro de casa, pegou um caixa de papelão e colocou o
coelho dentro.
Arturo, já de carro, foi em direção ao posto da Secretaria do Meio
Ambiente. “Onde já se viu, jogar fora o coelho como lixo”. Ele sabia que
o lugar estava fechado, mas sempre fica um segurança no fim-de-semana.
Arturo estacionou e pegou a caixa. Foi até a cabina e bateu três vezes
no vidro. O guarda saiu com cara de sono.
– Bom dia – disse Arturo.
– Bom dia – respondeu o segurança.
– Desculpa a hora, mas é que eu preciso de uma informação.
– Pois fale, disse o guarda.
– O coelho da minha filha morreu, sabe aonde eu posso deixá-lo?
– Humm – respondeu o segurança – o senhor pode chamar o serviço de
animais da prefeitura. Eles que recolhem os animais mortos.
– Sim, mas hoje é domingo – disse Arturo – com certeza eles só virão
amanhã. Não quero que ela veja o bicho morto.
– Então – falou o guarda – joga em qualquer lata de lixo.
– Não… não quero fazer isso. Não tem algum lugar apropriado para
deixá-lo?
– Olha – disse – hoje é difícil. Quem sabe no hipódromo. Sei que nos
fundos eles guardam os cavalos que morrem. Depois a prefeitura vai lá e
recolhe.
– Isso – exclamou Arturo. É bem melhor do que jogar o coelho por aí.
Muito obrigado.
– Não tem de quê – respondeu o vigia. Olha, mas o hipódromo é meio
longe.
– Sem problema – respondeu Arturo – estou de carro.
Apesar da distância, Arturo logo chegou ao hipódromo. “São as vantagens
dessas manhãs.” Estacionou novamente o carro. O portão principal estava
fechado. Gritou algumas vezes, ninguém respondeu. Olhou em volta e viu
uma placa indicando a entrada de serviço. Seguiu a seta e depois de uns
cem metros deu com o outro acesso. Voltou a gritar. Dessa vez, um homem
respondeu.
– Sim?
– Bom dia – disse Arturo – posso falar com o responsável?
– Tem ninguém aqui não, senhor, Só eu – respondeu o homem.
– E você é – perguntou Arturo.
– Eu trato dos cavalos, senhor.
– Pois então você pode me ajudar. É que o coelho da minha filha morreu.
Disseram-me que aqui vocês têm um lugar aonde colocam os cavalos mortos,
não?
– Temos sim, senhor – respondeu o homem.
– Então, será que você poderia colocar o coelho junto com eles –
perguntou Arturo, apontando a caixa.
– Acho difícil senhor – respondeu o tratador.
– Ué? Por quê?
– Bem, como é que eu iria explicar um coelho morto junto com os cavalos?
Arturo arqueou as sobrancelhas.
– É que cavalo é cavalo, coelho é coelho – continuou o homem – ali é só
pra cavalos, senhor.
Arturo soltou um suspiro.
– E você, por acaso, sabe me dizer onde posso deixar meu coelho –
perguntou.
– Olha, o senhor pode tacar ele no terreno baldio aí do lado. A
prefeitura limpa ele todo mês.
– Bem – disse Arturo, já começando a perder a paciência – se eu fosse
jogar meu coelho em qualquer lugar, eu já o teria feito, não?
– Acho que sim, senhor – respondeu o homem.
– Tudo bem, tudo bem – disse Arturo para si, depois, voltando-se para o
tratador de cavalos, continuou – por acaso você não sabe onde posso
deixar o coelho, sem ser no lixo ou em um terreno?
– Olha, quem sabe na veterinária. É logo ali na frente, subindo a rua.
Arturo retornou até o carro, ligou e seguiu até a clínica.
Ele só chegou em casa perto do meio-dia. Já não estava mais com a caixa.
Inês disse que avisou as crianças da morte do coelho e não estava
contente com a demora do marido. Arturo não tinha preparado nada para
dizer aos seus filhos. Nem precisou. Eles só perguntaram se na
segunda-feira eles poderiam sair para comprar outro. Arturo consentiu,
apesar do olhar atravessado da mulher. Eles saíram contentes para o
jardim, discutindo se agora o coelho iria ser branco, preto ou marrom.
– Pode me dizer o que estava fazendo – disse Inês.
– Oras – respondeu Arturo – tentando achar um lugar para colocar o
coelho morto. Fui ali no meio ambiente, no hipódromo, não consegui
deixar em lugar nenhum.
– Meu deus, era só jogar na primeira esquina – respondeu ela. Afinal, o
que fez com ele?
– Levei para uma clínica veterinária.
– Mas era só o que faltava – disse a mulher.
– Bem, na verdade, mandei eles cremarem o coelho, já que enterrar era
bem mais caro. Por uma taxa extra, o veterinário poderia fazer uma
autópsia e talvez me dizer do que ele morreu. Não era certeza.
– Ai ai, mais dinheiro gasto. Vai me dizer que também mandou o médico
descobrir o que matou o bicho?
– Quer saber – disse Arturo – mandei sim.
Antes que pudesse replicar o marido, a filha mais nova chegou na sala e
puxou a calça de Arturo.
– Paiê – disse a pequena.
– Sim, querida – disse Arturo.
– Por que o coelho foi embora? A mãe disse que ele deixou de gostar da
gente.
– Não sei, minha filha. Às vezes as coisas se vão sem nos dizer o
motivo…
– Que pena – disse a menina – eu queria saber. Se a gente encontrar ele
de novo, a gente poderia perguntar pra ele porque ele não gosta mais da
gente?
– Poderia filha, mas acho que não ia adiantar.
– E por quê?
– Talvez – disse Arturo, olhando duramente para a mulher – ele não teria
a coragem de nos confessar.
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