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A cidade proibida
Do derradeiro pântano
emerge a cidade.
Luiz Ruffato
E a cidade? a cidade? a cidade?
confusa geografia a me cuspir...
Whisner Fraga
O homem em estranho ritual invade o breve espaço de minha visão como um
bólido. E eu não sei se ele conhece Mozart ou leu Machado de Assis. Mas
noto que há uma sombra que o acompanha. Há em seus passos um grande
mistério, semelhante à tristeza que percebi na vida daquela menina de
Ituiutaba que eu conheci numa madrugada no Beirute.
Brasília chegou cedo em sua vida. Eu soube. Disse-me um sujeito que
bebia ao meu lado. Ainda em tenra idade, veio da Paraíba com os pais que
chegaram ao Planalto Central naquela tarde seca de um setembro distante.
A cidade ainda buscava-se em meio aos redemoinhos de poeira, os "lacerdinhas",
que dominavam o horizonte da Capital em obras.
Aquele homem está ali, em-si-mesmo, nem tão superior nem humilhado, mas
entregue às suas licenciosas indagações. Parece homiziado, atravessando
a cidade de uma asa à outra, a cidade que se abre de Norte a Sul (como
um pássaro em solene e interminável vôo) e que os seus ajudaram a
construir. E sob a luz do sol que lança afoita e livre sobre os
edifícios monótonos da Esplanada dos Ministérios seu indisfarçável
lençol de claridade que quase cega, eu o vejo mergulhando, pressuroso, a
sua enorme e desengonçada ossatura sobre o desnudo canteiro central,
como quem carrega um crocodilo nas costas.
Izolino respira com dificuldade o ar seco dessa época do ano e vai
regurgitando sua fugidia esperança. Atravessa as superquadras do Plano
Piloto num balé desconcertante, em muda órbita, qual Aracne em impulsos
projetados na solidão de sua teia.
Quando sentiu o tédio pela primeira vez no meio da cidade que o viu
(de)crescer?
Na escuridão dos primeiros tempos - sem parentes, sem vizinhos, sem
esquinas e sem lazer - ninguém o notara e agora petrificado em sua
monolítica condição, risca uma diagonal pelo gramado em frente ao
Congresso Nacional e torna remota e improvável sua estada no mundo.
Está desesperado? Perdeu a bolsa e os sonhos? Veio ver o pôr-do-sol
atrás do Lago Sul? Sem demora, o homem viaja sem rumo, cortando a cidade
que ele viu emergir tímida e expandir-se desordenada em meio aos
redemoinhos de poeira vermelha. Diante do espelho d'água das torres
gêmeas da Câmara e do Senado, uma parada, qual narciso às avessas, para
dialogar com a água malcheirosa, sobre as quais circula o que sobrou da
enésima geração de gansos presenteados na inauguração pela rainha da
Inglaterra. Até os monumentos da Praça dos Três Poderes pesavam-lhe como
um túmulo em que guardava seus dias, cidade impessoal, depositando-lhe
cansaços, instigando-lhe padrões que repetiu aleatório e sorumbático
nesses anos todos.
Continuou a caminhar e era imprescindível essa corrida. Contra quem?
Contra o quê? A que (des)lugares desejava chegar, se pensava em alguma
coisa a não ser em sua inconclusa situação de habitante de lugar algum?
Do outro lado, o mundo: os motoristas de táxi enrolando conversas, as
pombas cagando sobre a estátua da Justiça (antológico e inerte bloco
esculpido, com seus olhos vendados para não enxergar o óbvio), um jardim
de pedras e ausências compondo o quadrilátero em que o Legislativo, o
Judiciário e o Executivo delineiam seus círculos de vício e ócio.
O sonho tinha suas fronteiras e ele não ousou transpô-las. A cidade o
agredia e de suas vísceras psicopáticas de medo e lendas, ele via o
passado, o presente e o futuro sendo engolidos pela noite interior,
liquefeitos pela bile irresistível.
Longe está o tempo em que a desconfiança dos meganhas o importunava,
obrigando-o a esconder as leituras de Marx e Gramsci . Foi o velho padre
Mamede que deu a idéia da passagem secreta que dava acesso a um cubículo
no fundo da oficina de automóveis na Cidade Livre, onde albergava sua
literatura e seus sobressaltos. Hoje a luta era outra, contra inimigos
invisíveis carunchando sua alma.
A corrupção, a solidão do poder, a transitoriedade das pessoas, a
empáfia da classe média, o verniz dos poderosos, a indigência dos
puxa-sacos, a miséria da periferia, as invasões, a grilagem em terras
públicas: síndrome da cidade adulterada, que expulsou os que a
levantaram, estupro aos sonhos dos criadores - tudo isso o comovia e
inquietava: Brasília aos quarenta anos, de rugas já feita, cuspiu os
homens, babélica realidade, sodomizada pelas cópulas de suas cúpulas num
tempo estranho em que tentava fugir de seus miasmas, de suas CPIs
arquivadas, de seus propinodutos por onde sumiam a verba e a esperança.
Passou as mãos nos cabelos cor de prata, desceu-as pelas duas faces
travestidas de dor - ó, como a (c)idade cravou-lhe estranhas esculturas
em seu rosto -, roçou ainda os pêlos encanecidos do peito, expandiu os
pulmões, e como se quisesse absorver o impossível, foi se repetindo em
gestos desalinhados, em expressões compulsivas, como quem foge de algo
muito grave, num ritual de desespero e desatino, estrupícios se
cumprindo em sua vida.
Em casa teria deixado a família (que família? - a velha Sinhana
colecionando folhinhas do Sagrado Coração de Jesus e esperando a sorte
grande que não vem? o Jairinho roendo as unhas? o cunhado chegando
sábado para dormir o fim de semana e comer às suas custas? o vizinho
crente impingindo-lhe as pechas de ímpio?) antes de anunciar seu
desespero em praça pública, o tédio do emprego, um chega-pra-lá em tudo,
um chute no azar. Vomitava a sensaboria burocrática das ações
repetitivas, dos despachos sempre-os-mesmos, da burrice de alguns
colegas satisfeitos com sua função gratificada, sem perceber a
inutilidade social que nasce da subserviência. Não! O ricohete de um
rotundo não! ressonava dentro dele, prestes a estourar, erupção
vulcânica de anos de imposto comedimento, agora transformados em vindima
alucinatória. Estava cansado da rotina, de ser reprodutor mal-remunerado
de pareceres e expedientes redundantes na bovina e sem perspectiva
ambiência funcional. A cidade administrativa: Washington desdentada;
Londres
a terceira idade. Tudo era uma prisão, um desencanto, uma escolha do
destino, que lhe impunham amargo ritual ao longo dos anos, agora
transferido para o território do desgosto íntimo, lá onde se concentram
todas os recalques, cismas, frustrações, vinganças e autoflagelo
espiritual.
A cidade não (o) tolerava mais. Um mútuo ressentimento parecia construir
um muro de retórica antipatia, como uma força centrífuga dilatando o
sofrimento e era preciso correr, gritar, mas tudo parecia com uma
serpente a morder o próprio rabo.
Bebeu ainda um pouco mais do ar quase rarefeito daquela hora, vizinha da
noite, em que a decisão amadurecida só precisava encontrar a praça em
que o golpe de misericórdia fosse a exortação mais consciente do acerto
de contas. No horizonte, circundado por uma névoa seca (nessa época de
baixa umidade do ar em Brasília, as partículas de poeira precipitam-se,
formando um cinturão róseo-pardacento a envolver a cidade) ele
infiltrava seus olhos, com a vontade de perder-se para nunca mais no
infinito penumbroso. Feria-se com o mundo à sua volta, com a realidade
pungente e tudo o mais em derredor não lhe apetecia.
Os carros oficiais circulam imune ao seu tormento ambulante, cadáver
antecipado.
Já não dava conta de si, perdendo-se no emaranhado de outros automóveis
que circulavam já, à farta, por aquelas bandas, confuso, dilacerado,
ziguezagueando sem rumo, acompanhado de sua solidão hereditária. De um
veículo chapa branca que passava, ele percebeu a vinheta de O Guarani,
de Carlos Gomes abrindo a chatíssima Voz do Brasil. Dividia com o tempo
presente, com os homens presentes, com a vida presente a sua pressa:
horário em que nas repartições públicas, nos ministérios, nas autarquias
e outros órgãos o funcionalismo voltava de mais um dia de serviço (quem
sabe, a maioria não se sentia como ele: sem-lugar, assalariado,
desidioso, apequenado pelas circunstâncias, habitante de um dos mil
pombais iluminados que são os blocos residenciais iguais-zinhos
espalhados pelas superquadras) e ele nem se dava conta de que na noite
que acabava de chegar, o fluxo vertiginoso de faróis a empalidecer o
asfalto refletia menos que sua dor íntima. A noite havia se inaugurado
nele há mais de três décadas e só agora se deu conta do black-out.
O homem que fugia. A terra dos cansaços. Do canibalismo funcional.
Terreno movediço aquele, onde a satisfação durava menos que o desejo e o
que lhe movia era o incompreensível, vindo do escuro e fundo universo de
suas dúvidas. Teseu e Minotauro redivivos se digladiando. Sísifo se
repetindo. O fígado comido pelo abutre renovando a sua dura e prometeica
lida. A permanente contingência de labirinto e fossa. Condenação
kafkiana em tribunal interior. Despenhadeiro psicológico tornando forte
a frágil relação com o mundo. No fundo, a sepultura dos sonhos.
Contemplar lá atrás o mundo latejando e ele convulso sobre campos
desidratados, o feudo da solidão.
Estava farto do homem politicamente encubado em si. Esses anos todos,
teria pensado e não coube em si de tanta insatisfação nesse acordar
(tardio?). Uma leitoa solta em plena cidade proibida. Idéias madurando
na sua cabeça. A vida com algemas não tinha sentido. O tédio dos
domingos chuvosos. Da macarronada e do frango assado comprado na padaria
da 103 Sul. Do holerite magro todo dia cinco: odisséia financeira para
suportar o mês. Do câncer que não veio. Da vida carimbada pelo diabo. Da
extorsiva mediocridade. Da cooptadora alienação.
Só tive tempo de ouvir o grito surdo de um estopim metálico depois que
Izolino embrenhou-se derradeiro pelo cerrado em frente ao Palácio do
Jaburu, já engolido pelo breu da noite sem testemunhas. Meu copo já
estava vazio pela quarta vez e o sujeito que bebia ao meu lado
desapareceu.
Durante vários dias vasculhei os jornais e nada encontrei.
RONALDO CAGIANO nasceu em
Cataguases-MG, em 15.4.61 e vive em Brasília desde 1979, onde formou-se
em Direito. É funcionário da CAIXA. Colabora em diversos jornais do
Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios, crítica literária,
poesia e contos, tendo sido premiado em alguns certames literários..
Participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publica
resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH), Jornal de Brasília e
Correio Braziliense, dentre outros. Tem poemas publicados na revista
CULT e em outros suplementos. Obteve 1º lugar no concurso "Bolsa
Brasília de Produção Literária 2001" com o livro de contos "Dezembro
indigesto" , recém publicado. Publicou: Palavra Engajada (poesia, SP,
1989), Colheita Amarga & Outras Angústias (poesia, SP, 1990), Exílio
(poesia, SP, 1990), Palavracesa (poesia, Brasília, 1994), O Prazer da
Leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos juvenis, Ed. Thesausus,
Brasília1997), Prismas - Literatura e Outros Temas (crítica literária,
Ed. Thesaurus, Brasília, 1997), Canção dentro da noite (poesia, Ed.
Thesaurus, Brasília, 1999), Espelho, espelho meu (infanto-juvenil, em
parceria com Joilson Portocalvo, Ed. Thesaurus, Brasília, 2000), Poetas
mineiros em Brasília (Ed. Varanda, 2001, Brasília - organizador),
Dezembro indigesto (Contos, Sec. Cultura/DF, 2001), Antologia do conto
brasiliense (Projecto Editorial, 2004, organizador).
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