Cema, Sé, Moema

: A Vida Imita A Arte! exatamente assim, fora a exclamação, as maiúsculas e os dois pontos, que não era lá de grandes rasgos, nem tocado, este velho amigo que levava pra casa, uma toca perdida nos fundilhos da Martins Fontes, e aquilo que sempre pensei fosse clichê de jornalista, olhei-o, os óculos grandes e baratos, quadrados, televisando uns olhinhos verdes e amarelos, a barba cerrada, a clareira da calva, a cara pegando fogo, sim, um perfeito primitivo da nova era, sobrevivendo sabe deus, acho que escrevendo pra algum saite de bairro, e o que parecia simples clichê, senhores, eu vi. De relance pelo menos, que quando vi estava só, eu e um buquê de flores ao lado.

- Toca em frente!

Tinha puxado pra dentro do carro uma menina que oferecia flores, oferecida, sim, mas...

- Escuta, você não vai...

- Pra frente! pulando pro banco de trás.

Cheirava a detergente a pequena florista, biodegradável, os cabelos escorridos, o corpo enfezado, tinha quantos, uns treze, talvez catorze anos, senão doze. A carinha de índia.

- Martim, vosso criado. Este aqui, me batia no ombro, é o meu motorista, Rodolfo.

Chamava Cema, detestava, de Iracema, uma vó do mato, os lábios melados do chiclete.

- Eu te batizo então, persignava-a a fundo, Lábios de Mel, a mão escorrendo retrovisor abaixo.

Tinha vindo do Ceará com a família, e ria, desvairada, desbocada, das cosquinhas, os dentes avariados, ou tossia, sei lá, o que sei é que irritava. Se queria aquilo que o pai - Pai mesmo! ofendida com a dúvida.

Gustavo deu um trago, pausado, pensativo, parecia, e depois passou-lhe a garrafinha de uísque, cauim, Lábios de Mel, cauim de bacana, bom pra tosse, que Cema cuspiu com gosto, eta peste, em sua cara afogueada, inflamando-lhe mais ainda os desejos.

- Caramuru, Abaporu... Caradecu, completei mental e maquinalmente.

Vagava em círculos, Sé, República, Patriarca, Sé. Alta madrugada, até os sem-teto já se recolhiam. Quase os invejava. Quebrei pela Tabatinguera, circundei o Parque D. Pedro, fui parar na Rio Branco, voltava pela Ipiranga resignado, ao som de gritinhos.

- Não pára! Não pára!

Pisei fundo. São Luís, Viaduto 9 de Julho, Maria Paula, escapei de repente pela 23 de Maio, numa corrida alucinada com não sei quantos debilóides, prometendo a mim mesmo, quando dou de cara com o obelisco.

- Vai, porra!

Maldisse os velhinhos de 32, a idade, a bebida, a cidade, o país, a constituição, e avancei à direita, pela Pedro Álvares Cabral, passava-lhe debaixo da estátua, os braços estendidos, abençoava o conúbio? contornava o Monumento às Bandeiras, caía na República do Líbano, aliviado, sem saber por quê.

- Vai, vai!

Coxinhas, quibe, beirute, birutava de fome. Também há quanto não fantasmava. Se ao menos vendesse mentex a vaquinha, fitando o maço murcho, ou fosse eu a vaca, capaz de comer flores. Mas não, era uma besta mesmo, um asno, uma mula! virando bruscamente à direita.

- Ai...

Canário, Inhambu, Moema dormia, Tuim, Juriti, Jacutinga, sonambulei, Macuco, Macuco, não sei por quanto tempo. Logo amanhecia. Reparei no silêncio, imenso, daqueles túmulos de alto-padrão, entrecortado apenas pelo ronco dos amantes. De vermes o ruído, mal pensei e batia na boca, acho que bocejava. Amanhã, hoje, daqui a pouco era outro dia, outra noite, graças a deus. Tudo passa sobre a terra.

Talvez devera pegar a Cotovia, por uma questão de justiça poética, mas estava já exausto de tanta Imitação. Larguei a toda pela Rouxinol, arrostando buracos, radares, faróis e arrotos.


* * *

AIRTON PASCHOA, 46 anos, é escritor, autor de Contos Tortos e Dárlin, pela Nankin, e escreve esporadicamente crítica literária e/ou cinematográfica para revistas como Novos Estudos Cebrap, Revista USP, Cinemais e rodapé (crítica de literatura brasileira contemporânea)