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O Ceará caboclo de Gustavo
Barroso
Versou Gustavo Barroso (Fortaleza, 1888 - Rio de Janeiro, 1959) os mais
variados assuntos e temas - História, Biografia, Arqueologia, Museologia,
Economia e Finanças, Folclore, Lexicografia, Literatura histórica,
didática e infantil, Política, Memórias, Viagens, Teatro - sem deixar de
lado o conto, a novela e o romance: Praias e Várzeas, Casa de
Maribondos, Mula Sem Cabeça, Alma Sertaneja, Mapirunga, A Ronda dos
Séculos, Pergaminhos, Livro dos Milagres, O Bracelete de Safiras,
Mulheres de Paris, O Livro dos Enforcados, Cinza do Tempo, Tição do
Inferno, O Santo do Brejo, Mississipe e A Senhora de Pangim.
Braga Montenegro vê nele o ponto culminante da narrativa curta no Ceará
nos primeiros anos do século XX. Entretanto vamos nos ater aqui apenas a
dois de seus livros de histórias curtas: Praias e Várzeas, de 1915, e
Alma Sertaneja, de 1923, reunidos num volume em 1979 (Livraria José
Olympio Editora, Rio de Janeiro, Coleção Dolor Barreira, patrocinada
pela Academia Cearense de Letras), com organização, atualização
ortográfica, introdução crítica, bibliografia e notas de Otacílio
Colares. Para o estudioso cearense os episódios do primeiro livro seriam
"racontos de estórias passadas de pais para filhos." E acrescenta: "Como
se pode facilmente verificar, há todo um contexto informativo a par do
conteúdo, vamos dizer, ficcionístico ou literário. E, acima disto, a
preocupação de empregar toda uma terminologia regional praiana" (...).
Na verdade, o que mais chama a atenção do leitor nestes dois livros de
Gustavo Barroso é a estruturação das narrativas nos moldes dos contos
populares ou das histórias orais. A manipulação da linguagem erudita e
popular se faz tanto no discurso direto como na descrição de ambientes e
personagens e na narração propriamente dita. A par disso vem o núcleo
básico de cada episódio, sempre envolto em tragédia. Outra
característica destes contos é a fiel retratação dos ambientes praianos,
varzianos e sertanejos do Ceará. Quanto aos narradores e personagens,
verifica-se a presença quase que constante de dois narradores: um
narrador-testemunha, que se confunde com o próprio escritor e inicia a
estória, e um protagonista-narrador, que conta o episódio principal,
quase sempre em diálogo com o primeiro ou instigado por este. Em quase
todos os contos o narrador-escritor inicia a narração e, em seguida, a
"entrega" ao narrrador-testemunha ou protagonista. Apesar disso, a
oralidade sertaneja ou praiana não descamba para a linguagem puramente
regional e popular. O escritor conduz a fala do outro narrador, sem
prejuízo do uso de vocábulos (substantivos e verbos) e expressões
regionais.
Em "Velas Brancas" o protagonista é Matias Jurema, "velho pescador do
Meireles", em Fortaleza. A referência aos objetos de uso em pescaria é
minuciosa: samburás, tarrafas, poitas, jangadas, tauaçus, quimangas. O
narrador não participa da história, é o próprio escritor. E o conflito
do velho pescador com a vida e o mar se faz em silêncio e solidão.
A descrição do ambiente praiano em "Finados" é soberba: coqueiros
frondosos, praia branca, jangadas e suas velas abertas, no povoado de
Mundaú. E a história remete a uma das crendices do povo da praia: "Quem
vai pescar dia de finados sujeita-se a não voltar e morrer de
assombração no mar" (...). Lucas, no entanto, quer afrontar a morte e
sai ao mar. No dia seguinte "os jangadeiros encontraram restos de uma
jangada e no meio deles, espetado em pontas finas de rochas lodentas, o
cadáver de Lucas."
Em "Naufrágio" "o mar tinha uma calma aparente", um iate navegava com
quatro tripulantes. E a história, "vista" do mar, vai adquirindo ares de
tragédia. Primeiro "lufadas imprevistas", depois outra rajada, a
neblina, a chuva. "E o iate virava de bordo no espumejar da vaga." Os
ventos se tornam fortes, terríveis, "a crescer numa espantosa
velocidade." Finalmente "houve uma grande pancada". Dois homens,
"cuspidos n'água, debatiam-se em desespero." O barco "foi-se afundando,
afundando." De manhã "boiavam cadáveres e fragmentos de tábuas ao sabor
das ondulações."
Em "O Pescador", como em outros contos do livro, há logo no início uma
descrição: as ondas, a praia, coqueirais, dunas, rochedos, um farol.
Paisagem pintada com exuberância, para que nela os personagens se
movimentem. No terceiro parágrafo surge um personagem. Antes dele,
porém, mais um pedaço do ambiente: uma choupana pobre. Pedro Jojó se
move: "pôs o uru a tiracolo, enrodilhou a tarrafa no braço, segurou ao
cinto a quicé afiada e dispôs-se a partir para a pescaria". Outra
crendice do povo da praia: a do "pescador encantado", mau e governante
das águas e dos peixes do rio. Pedro se diz incrédulo, a despeito dos
pedidos de sua mulher. Metido nas águas da barra do Pacoti, o pescador
vê erguer-se "um vulto que saía das águas." No dia seguinte pescadores
depararam o cadáver de Pedro.
A destoar das narrativas anteriores, "Santa" é narrada na primeira
pessoa: testemunha ou o próprio escritor. Além disso, trata-se de
episódio do sertão, em tempo de "seca brava". Otacílio Colares o chama
de "narrativa de cunho regional". O narrador, sem nome explícito,
cavalga um cavalo na serra do Pereiro. A paisagem seca é descrita aqui e
ali. Uma personagem aparece na segunda página: "uma cabocla forte e
esperta". Em seguida se apresenta o marido dela, "um caboclo ossudo,
alto". Já quase no final da narrativa o segundo personagem se faz
narrador para contar a história da santa do título. Dois personagens
participam da trama: "o velho Chico de Paula" e sua mulher, a santa. E
as duas tramas se cruzam, como se personagens reais passassem a conviver
com personagens fictícios. A segunda mulher, a santa, já envelhecida, se
mostra no cenário onde se encontram o narrador inicial, a cabocla e seu
marido, o narrador do conto da santa.
Outra história de cenário sertanejo é "Espectro": "A paisagem tinha a
tristeza dos ermos" (...). Na paisagem, uma fazenda, a capela senhorial,
com seu sino de cobre, a residência feudal do padre Ferreira, "um dos
homens mais ricos e poderosos do sertão", o protagonista. O ponto de
vista onisciente conduz o leitor ao passado (ao tempo da escravidão,
quando "estralejavam os chicotes dos capatazes"), à vida do personagem,
a esbanjar riqueza, em meio à pobreza de seus servos, açoitados por
qualquer motivo, até a morte, quando o cavalo em que viajava espantou-se
e o levou ao chão. E mais uma vez a crendice: o corpo do padre
desapareceu, levado pelo diabo. Na tarde do enterro viram "um negro todo
encourado surgir na casa da fazenda". (...) "Era Satanás em pessoa"
(...).
O narrador de "A Luíza do Seleiro" é um viajante do sertão, uma
testemunha ou o próprio escritor. O ambiente é o vale do Aracoiaba, nas
proximidades das "serras do Baturité e do Acarape". O narrador descreve
a mata verde, as flores selvagens, as árvores, as águas mansas. Na
terceira página se mostra o segundo narrador, o da narrativa do título.
A personagem é descrita: "olhos rasgados e negros", "pele macia e
aveludada", "grumos vermelhos dos seus lábios". Mais adiante se revela
outro personagem, Estevão Nunes, "filho de um fazendeiro rico",
estudante na cidade do Forte (Fortaleza). Um dos contos mais longos dos
dois livros.
O protagonista de "O Patuá" é Chico de Paula, um saco de pancadas ou
"armazém de pancadas", seu apelido. O episódio transcorre na vila do
Riachão, "ribeira sertaneja". Tudo gira em torno de um patuá, um amuleto
que faz do personagem um valentão, capaz de enfrentar cangaceiros.
Um dos contos ambientado em várzea é "Absalão", nome de personagem
bíblico. "A catinga acabava ali" (...) "e para diante várzeas
estendiam-se planas". O protagonista (pode-se dizer assim) é um velho
touro chamado Orelhudo. A última refrega do animal com homem é o
desfecho: a morte do vaqueiro, em primorosa narração.
História de violência, vingança e morte é "O Filho do Gurari" (gurari é
"nome dum pau duro e espinhoso"), cuja ação decorre cem anos atrás,
segundo Otacílio Colares, isto é, por volta de 1880. Grupos familiares
em luta: de um lado, descendentes diretos de europeus, sobretudo
holandeses, os Cavalcantis; de outro, netos de portugueses com índios
Paiacus. De uma matança escapa um bebê, que é levado pelo grupo vencedor
e criado como filho do chefe. Feito rapaz, é morto a mando do pai
adotivo, por medo deste de que o jovem tome ciência da história da
chacina.
Tema parecido com este é o de "Emboscada", cuja ação se desenrola entre
Umari e Iguatu. No entanto o feitiço vira contra o feiticeiro: o
emboscado acaba se dando bem, matando os dois homens encarregados de o
matarem.
O segundo livro, Alma Sertaneja, tem como subtítulo "contos trágicos e
sentimentais do sertão". Na verdade algumas narrativas do primeiro
também se adaptam a este modelo. A maioria das histórias sertanejas
segue o mesmo esquema narrativo: um narrador não identificado ou sem
nome explícito inicia a narrativa e apresenta o segundo
narrador-personagem ou testemunha. Os animais do sertão mais uma vez
estão presentes como personagens. É o caso do touro Azulão, de "Marialva
Sertanejo". O heroísmo, a valentia, a coragem do sertanejo, ao lado da
miséria, da fome, da seca, são assuntos desses contos. Em "O Come-Gente"
Gustavo Barroso atinge o clímax do realismo, com o personagem Luiz
Zambeta, "que ficou maluco de fome" e se tornou "estropófogo"
(antropófago). Em "O Drama do Guriú" a fome é dos tubarões (história
praiana), que devoram toda uma família, à exceção do chefe. "Os
infelizes debatiam-se nas águas movediças e os tubarões, virando-se de
dorso para baixo, vinham furiosamente, os papos amarelos à mostra,
atacar os prisioneiros do oceano." Em "A Alma do Turco" não há um
segundo narrador, mas diversos. Os personagens-narradores se acham numa
barranca do rio Quixeramobim. Teodósia conta o último episódio, o do
título. O protagonista é um animal, um cachorro grande, o Turco. Tanto o
narrador-escritor como a narradora-testemunha fazem questão de dar alma
ao animal ou de humanizá-lo. Acusado de furtar queijo e espantar e matar
galinhas, o cão é escorraçado de casa diversas vezes. Ao final, se deixa
morrer ou morre de tristeza, ao perceber a aproximação do dia em que
será levado por um paroara para muito longe, um seringal no rio Xingu,
no Amazonas. Em "A Moça da Sapiranga" o primeiro narrador se acha, com
outros personagens, ao pé da serra da Tucunduba, após atravessar o rio
Ceará. O segundo narrador, Maneco, conta história ocorrida em Orós, a da
moça com sapiranga nos olhos. Em "Os Noruegueses do Sabiaguaba" o
primeiro narrador se revela um pouco, ao anunciar ao leitor: "E era isso
o que a minha curiosidade de escritor ia procurar na casa vetusta do
Curió." A narrativa acontece em Sabiaguaba, "um recanto de praia e bem
bonito, por sinal, entre a barra do Rio Cocó e a do Pacoti." Em "Chifre
de Cabra" o narrador-protagonista é João Gameleira, o pajem do
narrador-escritor. O episódio se dá na cidade de Quixeramobim. Mulher
trai marido, João Gameleira, e é por ele assassinada, juntamente com o
outro. Também história de seca é "A louca", a lembrar "Come-Gente". Nela
o ponto de vista onisciente não deixa entrever um narrador-personagem ou
testemunha. O protagonista é Domingos Lopes. Acossado pela seca, vaga
pelos sertões. Depara uma casinhola no meio do sertão. Na entrada vê "o
cadáver dum cachorro magro". Dentro da casa, "os corpos apodrecidos de
três pequenas crianças". A seguir, depara a mãe, a louca do título. Na
serra de Baturité acontece o episódio de "O Poço das Piranhas", a
lembrar velhas narrativas de horror. Outra história de seca é "Os Filhos
do Capitão João Pedro", ambientada em Fortaleza. Um dos poucos contos em
que a capital cearense, ou o seu litoral, é retratada. "Mano Francisco"
se inicia com "Sertão inóspito!" É o sertão de Mombaça. O protagonista é
Francisco, irmão do narrador-testemunha, "uma coisa medonha", "um
monstro em forma humana". O tema é a loucura. O homem "ficou doido
varrido", matou um irmão com a mão-de-pilão e "está convencido que virou
leão!" O ponto de vista onisciente é retomado em "O Perdão das Trevas",
no qual mais uma vez a seca é tema. Em "O Lobisomem" o contista "engana"
o leitor, desde o título e a primeira frase: "Estórias de lobisomens!"
Na verdade, se trata de história de um falso lobisomem, o vaqueiro
Geraldo, "que tinha fama de homem honesto", porém mais interessado num
pacote de dinheiro do que em sangue humano. A história transcorre em
1899, na ribeira do Banabuiú. A última narrativa, "Como eu Matei a
Maçaroca", também se localiza no sertão, ao tempo dos cangaceiros e de
onças, as maçarocas. São diversos pequenos episódios. O narrador
onisciente dá voz ao narrador-personagem, o anspeçada Xico Linheiro, o
matador da onça.
A matéria-prima dos contos de Praias e Várzeas e Alma Sertaneja é, pois,
a natureza em toda a sua pujança e o homem como ser biológico e como ser
cultural, este integrado àquela não apenas na paisagem, mas na própria
vida (ação), o que faz de Gustavo Barroso um contista (um escritor)
pinturesco e, ao mesmo tempo, dramático (drama, conflito) da terra e da
gente cearenses.
Fortaleza, abril de 2004.
NILTO MACIEL é cearense de Baturité e residiu por 25 anos em
Brasília, devido a compromissos profissionais. Em meio à burocracia
excessiva e a intensa vida pública que rondam a rotina da Capital
Federal, encontrou tempo para conciliar os afazeres com a vocação
literária. Ao todo, publicou 14 obras, sendo um livro de poesias e 13
volumes em prosa - romances, novelas e contos -, alguns com premiação
nacional
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