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Aquelas mãos
Minhas mãos tocaram as
árvores
como quem acaricia alguém que dorme
e repeti antigos caminhos
como se recobrasse um verso esquecido
(Do poema A Volta, de Jorge Luis Borges)
- Ainda temos o boizinho de ouro do teu pai. Será que devemos
penhorá-lo, como fizeste com teu carro?
- Não gostaria, mãe. Mas não é hora para nos deixarmos dominar pelas
emoções. Precisamos de todo dinheiro que pudermos reunir. Do contrário,
os agiotas nos tomarão a casa. E, depois, é preciso que a senhora se
lembre: o pai não ligava para o significado desse troféu que lhe deram
na aposentadoria. Dava valor, isto sim, ao "ouro 18" da estatueta. Era o
que vivia a repetir da cadeira de balanço, em frente do canal. Ademais,
além de salvar a casa, poderei quitar a faculdade até a formatura.
- Está bem. Podes penhorar o boizinho...
- Obrigado mãe. Boa noite.
- Boa noite, meu filho.
***
Querida mãe...
Quem diria? Lá se vão dois anos que vim para o doutorado em Porto
Alegre. Por falar nisso, tem tomado os remédios que receitei para a
memória?
Sabe, mãe, sempre penso na noite em que decidimos penhorar o boizinho.
Perder o calhambeque para o banco foi até bom. Estava vendo a hora
daquela lata velha quebrar na subida do pontilhão. O caso é que sempre
me recriminei por não ter conseguido recuperar do penhor o troféu do
pai. A senhora não disse, mas sinto que nunca me perdoou. Só estou
tocando nisso, pois tenho andado deprimido. Parece que voltei às tardes
de domingo da adolescência, à beira do canal...
O mal-estar começou há três domingos. Chateado da vida como estava, por
mim nem saía de casa. Contudo, Natália, a moça de quem te falei na carta
anterior, convidou-me para almoçar na mansão de sua família. Seus pais
queriam me conhecer e não tive como recusar. Talvez porque ventasse e o
dia fosse claro, talvez porque tenham sido gentis, animei-me. Cheguei
até a sentir certa euforia quando me conduziram à varanda do casarão.
À mesa, porém, me atrapalhei com a quantidade de talheres. Dois irmãos
de Natália riram. Aquilo ficou-me entalado. Tanto que ficou difícil
engolir a comida.
Então, numa hora, hipnotizei-me pelos talheres de ouro reluzindo nos
raios filtrados pelo parreiral. Vi pedaços do meu rosto, um olho,
refletidos nos garfos e nas facas. Encarei aqueles felizes, o revoar das
cortinas de seu castelo. Finalmente, dei-me conta: eu não me encaixava
naquele cenário. Não passava de um intruso entre aqueles endinheirados
que jamais conheceram o travo da derrota, o valor do sacrifício. Devo
ter ficado em transe, pois Natália me tocou no braço e perguntou se
estava bem.
Depois da refeição, dei desculpa e voltei para casa. Encerrei-me e
continuei o que fizera um pouco além da conta no almoço: beber. Bebi até
que o sol começou a se pôr. Daí, como sempre faço, abri o janelão da
sala para contemplar a cidade. Observei o trânsito, os prédios, os
passantes. Fixei-me por longo tempo no fluxo do Rio Guaíba. Então, voei
no tempo e no espaço.
De repente meu olhos não viam mais as águas escuras do rio. Viam agora o
canal dos fundos da nossa casa. Revi o boizinho reluzindo nas mãos do
pai, como os talhares da mansão de Natália. Recordei quando, da minha
cama de armar, eu espiava a senhora e o pai tomando café antes que o
galo cantasse. Eu ficava com os olhos semicerrados, por isso vocês
achavam que dormia. Então, o pai se aproximava de mim no escuro.
Ajeitava-me o cobertor, afagava-me a face e murmurava:
- Ainda serás um grande homem...
Depois saia na bicicleta, rumo à lida no matadouro. Por falar nisso,
mãe, conto-lhe agora algo que nunca tive coragem. Eu devia ter uns nove
anos de idade e não sabia o qual era o trabalho do pai. Numa tarde,
louco de curiosidade, fui lá no serviço dele. Fui descalço, saboreando a
lama infiltrando-se entre os dedos. Contornei os aramados do lugar.
Rastejei, feito lagarto, pela grama. De repente, o avistei.
O pai gritava com os bois e com os homens. Então, numa hora, ele ergueu
lá no alto uma marreta e congelou, como uma estátua. Visto assim, contra
o farfalhar das figueiras, o pai parecia um conquistador. Então, com um
golpe seco, ele marretou com toda força dos músculos a cabeça grande do
boi, que tombou desnorteado, depois em urros sob o facão, por fim
resignado ao repouso da terra preta. E depois marretou outro e mais
outro e ainda outro.
O pai não era um Tor.
Era uma espécie de carrasco!
Voltei para casa em prantos, agora com raiva da lama entre os dedos. A
senhora pensou que estivesse doente. Por isso, antes de estender roupas
no varal, acomodou-me na cama de vocês. O pai chegou junto com a noite e
veio me ver. Lembro-me que os pés dele estalavam o assoalho. Então, ele
sentou na beirada da cama e, por um tempo que pareceu a eternidade,
olhou dentro de mim. Devia estar-me dizendo coisas com o pensamento.
Acariciou-me os cabelos e perguntou:
- O que tens filho?
Ainda hoje posso sentir o amor soçobrando por sua voz seca. Mas as
palavras estavam presas na minha garganta. De lá, desceram para o
estômago. Então o pai fez algo que nunca fizera: abraçou-me. Aninhou-me
contra o peito, impregnado pelo cheiro da morte. Nesse instante, botei
para fora todo meu desespero. Não pela boca, pois as palavras ficaram
soterradas em algum lugar dentro de mim. Chorei até adormecer nos seus
braços.
Por coisas assim, mãe, tenho me lamentado por não ter encontrado forças
para dizer ao pai todas as coisas que sentia por ele, como naquela
cerimônia em que seus patrões o agradeceram, com aquele troféu triste,
por causa de suas mãos certeiras e infalíveis. Mãos que um dia me
aterrorizaram, mas que, ao seu modo, me deram amor e esperança...
RUBENS AMADOR é jornalista
e escritor. Gaúcho de Pelotas, reside e trabalha, há doze anos, em
Brasília.
Este conto faz parte do livro Outono de Cães, trabalho de estréia do
autor, publicado em 2003 pela WS Editor.
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