Prova de Amor

Repetidas vezes gritei seu nome à porta de sua casa. Repetidas vezes meu grito ecoou rua afora.

Em vão.

No início, silêncio. Silêncio também depois. Meu e seu.

O que me restou foi apenas aquela noite vasta e de escuridão imensurável. Bordejei por ela sem meter-me em procuras. Fui no vai da valsa. Parei aqui, ali. Bebi até a morte.

Conheci Dulcina. Amei Dulcina. Deixei Dulcina. Esqueci-me de Dulcina.

Encontrei o Chino. Joguei com Chino. Apostei até a alma. Perdi a alma. Abandonei o Chino.

Voltei à sua janela. Primeiro, murmurei como se fosse mais um segredo que depositasse em seu ouvido. Depois, insolente, gracejei, para que o mundo ouvisse, coisas suas; muitas mentiras. Que do seu corpo arranquei prazeres assim e assado. Que sua gula cheira a tara. Que você sempre.

Foi quando então apontou na rua o homem de terno. Veio empunhando o guarda-chuva e fazendo gestos de desaprovação. Pensei: finjo de morto. Mas qual o quê. O homem parou diante de mim, olhou nos meus olhos, olhou os meus lábios, olhou minha camisa, olhou minhas pernas. Riu. E sussurrou: "paspalho".

Logo eu, que apenas clamava por você.

Logo eu, que apenas não via a hora de a noite acabar e, quem sabe, poder vê-la descendo à rua e dirigindo-se ao ponto de ônibus.

Logo eu.

O homem não se contentou com o meu desinteresse. Falou alto com seus botões: "e ainda por cima surdo". Acrescentou: "fala alto desse jeito é porque é surdo mesmo, e covarde".

Olhei para a sua janela com a mais vã das esperanças. Não deu outra. Eu estava só com o homem de terno e guarda-chuva que me provocava com a mais deslavada altivez e só ficaria.

Não fiquei. Não ficamos. Da outra ponta da rua surgiu o homem do brinco na orelha. Andava com ares de aflição, ou de afetação. Parou a uma certa distância e olhava para mim e para o homem de terno e guarda-chuva sem nenhuma surpresa. Maquinava.

O homem de terno e guarda-chuva se interpôs, ou assim me pareceu, entre mim e o homem do brinco na orelha. Com vistas a quê, me perguntei.

O homem do brinco na orelha atirou então um pedregulho em nossa direção. Não jogou para acertar ninguém. Era mais um aviso do tipo: estou vivo, sacou? Não precisava disto. Nem precisava logo em seguida jogar outro pedregulho na mesma direção.

Pensei em gritar de novo seu nome. Gritar meu pedido de perdão e, ainda em gritos, pedir para que você abrisse a porta e me salvasse. Mas o que eu era naquela hora? Um homem. Um homem só. Um homem sob miras. Ameaçado.

No terceiro pedregulho que bateu rente aos nossos pés, o homem de terno e guarda-chuva deu um longo suspiro como quem diz chega. Agachou-se e pegou um a um os pedregulhos. Colocou-os em uma das mãos e mostrou-os ao homem de brinco na orelha. Depois, guardou os pedregulhos no bolso do paletó. E, novamente, voltou a me olhar com sua curiosidade inominada.

Claro que eu me sentia acuado. E, por isso, imóvel. Pensar era o que me restava. Pensava em você quando deveria estar bolando um jeito de me livrar deles.

Daí a pouco me acostumei com aqueles dois. Não me enchi de coragem, mas vi que eles estavam dispostos a me intimidar apenas. Eu não tinha orgulho?

O homem de terno e guarda-chuva apoiou a ponta do guarda-chuva juntinho do meu pé. Apoiou é modo de dizer. Ele fincou o guarda-chuva que por pouco não furou o meu pé.

O homem do brinco na orelha riu. O homem de terno e guarda-chuva também riu, mas logo depois conteve o riso e virou-se para o outro.

O homem de brinco na orelha armou os braços em posição de boxeador. E fez vem para o que estava perto de mim. Era tudo o que eu precisava. Brigando um contra o outro, eu ficaria em paz. Eu e você.

Mil vezes eu poderia, então, gritar seu nome. Implorar perdão. E xingá-la se não me fossem dadas respostas.

O homem de terno e guarda-chuva enfiou o guarda-chuva em meu braço sem cerimônia, como se eu fosse um cabide na sala da casa dele. Com as mãos livres, partiu para o tudo ou nada.

O homem de brinco na orelha deu um safanão no pé do ouvido do outro. Pude ver que o homem de terno e guarda-chuva ficara um pouco tonto, mas, buscando não sei que forças, respondeu ao tapão com um soco assim na altura da sobrancelha esquerda do homem de brinco na orelha.

Entre sair dali e sentar e assistir, sentei e assisti. Ambos eram bons de briga. Ambos eram ágeis. Ambos eram destemidos.

Sem que eu tivesse consciência, voltei a falar com você. Falava como se estivéssemos frente a frente. Os dois ali na briga poderiam me ouvir, você, não.

Eu falava - ou eu falava para você ou eu falava por falar ou eu falava para me convencer - que não faria aquilo outra vez. Eu estava, como estava, arrependido. E, olha, era a primeira vez, eu merecia uma nova chance, você não acha? Pense em você em meu lugar. Talvez você fizesse o mesmo. Somos todos humanos e é para isso que servem os humanos: para errar. Me perdoa, vai? Abre essa porta ou joga os cabelos como Rapunzel. Faça alguma coisa para que eu entre aí e explique tudo, tudo.

O homem de terno e guarda-chuva tirou o guarda-chuva do meu braço. Eles, os dois, estavam a um palmo de mim e prestavam toda a atenção nas minhas palavras, nos meus gestos. O homem de brinco na orelha chorava. E não parecia ser pelas dores dos golpes. O olho estava roxo e isso era tudo.

O homem de terno e guarda-chuva bateu em minhas costas e disse: "então é isso?"

Eu disse a ele: "você não sabe de nada".

Saímos caminhando os três. Éramos velhos amigos àquela hora.

Na esquina tem aquele sujeito que vende cervejas vinte e quatro horas por dia. Basta bater que ele atende. Batemos. Ele nos deixou com uma dúzia delas, uma caixa de isopor e uma pedra de gelo já moído.

O homem de brinco na orelha contou que já passara pelo mesmo. Era difícil. Eu deveria tentar mudar de ares, ficar naquela de zelador das causas perdidas não me levaria a lugar nenhum. Pelo contrário: quanto mais eu desse provas de arrependimento mais eu seria desprezado, humilhado e coisa e tal. O homem de terno e guarda-chuva acenava com a cabeça concordando com o outro.

A noite estava no capricho. A lua, estampada em um céu limpo de dar inveja. As constelações de estrelas conhecidas piscavam ali na nossa cara. A cerveja estava no ponto certo. Os novos amigos faziam a parte deles, tentavam me tirar do buraco. Mas faltava você.

Quis explicar um pouco mais a situação para os dois. O diabo é que eles nem me ouviam.

O homem de brinco na orelha adormeceu encostado na parede. O homem de terno e guarda-chuva continuava a abrir as cervejas. Dava um gole no bico e me passava. Se para alguns a bebida engana, cala a dor, para mim, não: quanto mais eu ia me aproximando da embriaguez mais eu me sentia...

Sentei-me na calçada bem embaixo da janela do seu quarto. Eu não diria nada, nada. Mas eu precisava estar ali. Só mesmo ali havia a possibilidade de vê-la. Vesti então o mais sóbrio silêncio e coloquei-me em vigília.

O homem de terno e guarda-chuva não tardou a dar as caras. Sentou-se ao meu lado e mostrou-me um corte profundo que marcava o seu rosto. Assustei-me com aquilo. Adivinhei que os dois voltaram aos tapas na minha ausência. Perguntei pelo outro. O sujeito estava lá na esquina cravado pelo guarda-chuva.

Veja o que a noite queria de mim. A noite queria que os dramas dos outros, as misérias dos outros soassem mais alto do que os meus. A noite queria que eu despachasse os defuntos e encaminhasse os feridos para os hospitais. A noite me queria longe de você. Com que propósito?

Dulcina apareceu na esquina e me fez um aceno. Pedi que ela me esperasse. Mostrei-lhe o corpo do homem de brinco na orelha. Dulcina teve pena, chorou, chorou pra valer. Com a mesma presteza com que fora às lágrimas, delas saiu. Riu com deboche e disse sentir-se vingada. Vingou-se de um merda de homem que a maltratara.

O homem de terno e guarda-chuva pediu a Dulcina que o levasse a um hospital. Acusou-me de assassinar o outro e de tentar o mesmo com ele. Nem protestei.

Continuava só. Só, como no momento em que cheguei à sua rua, à porta de sua casa, e, acreditando piamente que em fração de segundos tudo se ajeitava, lancei o meu primeiro grito. Só, como depois de uma dúzia de gritos dados e da fuga para a farsa de Dulcina e Chino. Só como nos outros mil gritos que dei, até que os dois homens chegaram.

Se, então, nada mais restava, decidi pegar as chaves da sua casa que eu tinha no bolso. Abrir a porta. Subir as escadas e entrar no seu quarto. Quem sabe, então.

ALEXANDRE BRANDÃO lançou, em 1996, o livro Contos de homem e, em 2000, a antologia, ainda inédita, Qual é, solidão? ganhou o prêmio Oficina do Autor, dado pela Funarte.