 |
 |
Ninho de periquitos
Publicado na Folha da Manhã,
domingo, 18 de setembro de 1949.
Neste texto foi mantida a grafia original
Abrandando a canicula pelo virar da tarde, abandonou a rede de imbira
onde se entretinha arranhando uns respontos na viola, após farta cuia de
jacuba de farinha de milho e rapadura que bebera em silencio, às largas
colheradas, e saiu ao terreiro, onde demorou a afiar numa pedra piçarra
o corte da foice.
Era pelo domingo, vesperas quase da colheita. O milharal estendia-se
alem, na baixada das velhas terras devolutas, amarelecido já pela
quebra, que realizara dias antes, e o veranico, que andava duro na
quinzena.
Enquanto amolava o ferro, no proposito de ir picar uns galhos de coivara
no fundo do plantio para o fogo da cozinha, o Janjão rondava em torno,
rebolando na terra, olho aguçado para o trabalho paterno.
— Não se esquesse, o papá, dos filhotes de periquito que ficavam lá no
fundo do grotão, entre as macegas espinhosas de "malicia", num cupim
velho do pé de maria-preta. Não esquecesse...
O roceiro andou lá pelos fundos da roça, a colher uns pepinos temporões,
foi ao paiol de palha de arroz mais uma vez avaliando com a vista se
possuia capacidade precisa para a rica colheita do ano; e, tendo
ajuntado os gravetos e uns cernes de coivara, amarrava o feixe e ia já a
recolher caminho de casa, quando se lembrou do pedido do pequeno.
— Ora, deixassem lá em paz os passarinhos.
Mas naquele dia assentava o Janjão a sua primeira dezena tristonha de
anos e, pois, não valia por tão pouco amuá-lo.
O caipira pousou a braçada de lenha, encostando-a à cerca do roçado;
passou a perna por cima e, pulando do outro lado, as alpercatas de couro
cru a pisar forte o espinharal ressequido que estralejava, entranhou-se
pelo grotão - nesses dias sem pinga dagua - galgou a barroca fronteira e
endireitou rumo da maria-preta, que abria ao mormaço crepuscular da
tarde a galharada esguia, toda tostada, desde a epoca de queima, pelas
lufadas de fogo que subiam da malhada. Ali mesmo, na bifurcação do
tronco, assentada sobre a forquilha da arvore, à altura do peito,
escancarava a boca negra para o nascente a casa abandonada dos cupins,
onde um casal de periquitos fizera ninho essa estação.
O lavrador alçou com cautela a destra calosa, rebuscando lá por dentro
os dois borrachos. Mas tirou-a num repente, surpicadela incisiva,
dolorosa, rasgara-lhe por dois pontos, vivamente, a palma da mão.
E enquanto olhava admirado, uma cabeça disforme, oblonga, encimada à
testa duma cruz, aparecia à aberta do cupinzeiro, fitando-o persistente,
com seus olhinhos redondos, onde uma chispa má luzia malignamente...
O matuto sentiu uma frialdade mortuaria percorrendo-o ao longo da
espinha...
Era uma urutu, a terrivel urutu do sertão, para a qual nem a mezinha
domestica, nem a dos campos, possuiam salvação...
— Perdido... completamente perdido...
O reptil, mostrando a lingua bifida, chispando as pupilas em colera, a
fitá-lo ameaçador, preparava-se para novo ataque ao importuno que viera
arrancá-lo da sesta. O caboclo, voltando a si do estupor, num gesto
instintivo, sacou da bainha o largo "jacaré" inseparavel e amputou-lhe a
cabeça dum golpe certeiro.
Então, sem vacilar, num movimento inda mais brusco, apoiando a mão
molesta à casca carunchosa da arvore, decepou-a noutro golpe, cerce
quase à juntura do pulso.
E enrolando o punho preendido. É que uma mutilado na camisola de
algodão, que foi rasgando entre os dentes, saiu do cerrado, calcando
duro, sobranceiro e altivo, rumo de casa, como um deus selvagem e
triunfante apontando a mata companheira, mas assassina, mas perfidamente
traiçoeira...
HUGO DE CARVALHO RAMOS —
Pouco se pode dizer sobre a vida deste escritor. Teve a infancia e a
mocidade atribuladas e um suicidio que cortou para sempre sua vida
inquieta, quando mal completara 28 anos de idade. O unico livro que
deixou, "Tropas e Boiadas" merece ser colocado no mesmo plano em que
pairam "Pelo Sertão" e "Os Caboclos", de Afonso Arinos e Valdomiro
Silveira.
|