Ilustração: Max Beckmann

Mulheres

Acende a lâmpada sobre o espelho do banheiro. A luz ilumina todos os poros do rosto ainda sem maquiagem. Preciso cuidar da pele, pensa. Pelancuda e despencada estou fodida. Pega a pinça, vai arrancando um a um os pêlos que apontam. Já nem dói mais. Como ele mesmo, aliás. Não dói? Pára um segundo, o gesto cortado ao meio, a pinça no ar. Dói, tem de admitir.
Às vezes a dor volta inteira, aquela sensação de peso apertando-lhe a cabeça.

— Merda — resmunga.

Acelera os movimentos. Espalha a base, depois a sombra, o rímel, o batom. Tira a peruca da cabeça de pau, escova-a mais do que necessário. Ajusta-a e afasta-se do espelho, olhando-se de todos os ângulos. Liga o rádio, acende um cigarro, tentando decidir que roupa usar.

— Jingolbel, jingolbelllll — acompanha com o falsete bem acentuado.

Suspira. Vai até a janela, olha os prédios iluminados. Pode ver nas salas em frente grupos conversando, a mesa posta da ceia, pinheiros. Fragmentos de música. Merda. Movimento hoje só com os gringos. Empresários a negócios, presos num quarto de hotel. Esses vêm. Pagam bem. O saco vai ser ouvir a ladainha.
Natal-longe-de-casa-os-filhos-uma-data-como-essa-e-a-puta-que-pariu. Decide pôr a mini de cetim negro. A fenda na altura da coxa, ousada. Valoriza. Arruma-se. Pega a bolsinha de strass. Antes de sair lança um último olhar ao espelho. Bela. Belíssima. Como deve ser.


Como previa, nenhum movimento. O ponto está deserto, as outras nem vieram. Encosta-se no poste, levantando bem o joelho. Acende outro cigarro. Quase meia-noite. Um bêbado põe a cara na janela, lá em cima:

— Cadê Papai Noeeeelllll?

Passos. Vira-se, na expectativa. É só a Ritinha.

— Tá uma merda — ela vem dizendo.

— É — responde. — Natal, meu bem.

— Tou aqui mas a cabeça tá em casa — continua a Ritinha. — Lá em Minas, sabe? Tenho um filho lá, mora com a minha mãe.

Lá vem fossa, pensa. Saco.
— Meu filho — Ritinha repete. E começa a chorar.

É demais, pensa.
— Olha, Ritinha. Vou andar, tá?

Sai para o meio da rua e vai descendo, exagera no rebolado. Um carro diminui a marcha no semáforo; vai aproximar-se, percebe que é uma mulher. Droga. Melhor rodear o Hilton. Procurar os gringos. Passos. É a Ritinha de novo.

— Jesus, mulher! Você não dá folga não? — Mas tem algo morno na voz, desmentindo a dura.

Ritinha nem liga. Caminha junto.

— Você não tem família? — pergunta.

— Não, nasci da terra, dei em árvore — responde mal-humorado.

Ritinha ri. Fica bonitinha quando ri, essa puta.

— Não é triste estar sozinho no Natal?

A Ritinha não se manca!

— Desgruda um pouco, tá? — diz irritado. — Teu ponto não é lá na Consolação?

— Já desisti. Não tem movimento hoje. Vou tomar um conhaque e ir embora. — Continua andando ao lado. Miudinha, mal lhe chega ao ombro.

— Ninguém até agora? — pergunta para quebrar o silêncio que já vai pesando.

— Ninguém.

— Daqui a pouco melhora — tenta consolar. — Lá pelas duas, três. Chegam bêbados. Querem esquecer e vêm.

— É... O ano passado ganhei a maior grana de um doutor. Vestiu-se de Papai Noel e tive de aturar minha filhinha daqui minha filhinha dali, eu no colo dele que nem bebê. Tive de dar fingindo que era criança. Me deixou a roupa, depois mandei pra Minas, meu irmão vai usar agora pra fazer o Natal dos meninos. Queria só ver a cara do meu filho... Comprei um robô pra ele, lá no Mappin. Anda, fala, acende umas luzinhas.

— Quantos anos tem seu filho?

— Sete. Fez sete agora em dezembro.

— Não tem mais bar aberto nesta merda — resmunga. A Ritinha se cala. Continuam andando.

— Diana — ela pergunta de repente. — Como é seu nome de verdade?

— Francisco. — O mau humor começa a voltar.

— Quando você era pequeno tua mãe te chamava como? De Chico?

Merda! Mas a Ritinha, quando encarna.

— Não enche, tá Ritinha?

Ritinha nem ouve.

— Meu filho chama Roberto. Por causa do Roberto Carlos, sabe. Quando fiquei grávida, sonhei que era do Roberto Carlos. Lá em Bom Repouso o pessoal pensa que o pai dele morreu, que sou viúva. Minha mãe pensa que eu trabalho em casa de família. — Ri. — Se descobrisse, acho que me matava.

Pronto. A Ritinha conseguiu. Conseguiu me estragar a noite. Mulher é foda! Aí franze a testa. O frio na barriga. E não consigo me livrar dessa putinha! Ela sempre gruda desse jeito. Lembra a vez que o rapa levou a Ritinha. Achou que ia ser até bom. Mas acabou indo pagar a fiança. Burra. Burra que é.

— Lá tem um bar aberto — aponta a Ritinha.

Foram.

— Dois conhaques — pede.

Um bêbado roncando no canto do balcão. Mais ninguém. A Ritinha fica com o olhar parado, bebendo aos poucos, fazendo pose. Entra uma mulher. Cara de quem chorou ou dormiu demais. Ritinha comenta:

— Essa daí tá na maior fossa, coitada. Deve ser sozinha.

— Um hollywood — pede a mulher, pondo uma nota no balcão. Enquanto espera o troco olha para as duas. Mas o olhar é de vidro. Transpassa.

Parece cilada, pensa. Não vou conseguir escapar. A Ritinha já destampou de novo:

— Passar o Natal longe da família é foda, né? Saí hoje mais pra andar, mesmo. Não ia agüentar aquelas quatro paredes. A Solange queria que eu fosse com ela num baile da Moóca, mas detesto sair com a Solange. Ela é tão pé-frio, sempre dá encrenca.

A mulher do hollywood recolhe o troco, sai. Não é de michê, se vê.

— Outro conhaque — pede. Começa a sentir uma desesperada vontade de beber. Ou de dar uma porrada na Ritinha.

— Vamos pra minha casa? — pergunta Ritinha de repente.

— Pra sua casa pra quê? — assusta-se.

— Vamos, vá! Não vai dar movimento nenhum, mesmo. Pelo menos a gente não cansa de tanto rodar calçada. Vamos, Diana! Tem conhaque, a gente bebe, conversa... Lá pelas três a gente sai de novo.

Devia era dar uma porrada nessa cara de sonsa, mas em vez disso topa. A Ritinha paga o táxi.

Quando se vê na sala, a Ritinha tirando o sapato e abrindo a janela, não acredita. Caralho! Que vim fazer aqui? Ritinha já vai colocando o CD do Roberto.

— Ouvi o dia inteiro. Cada vez que ouço, choro, porque lembro o Robertinho lá em Bom Repouso...

— Por que não foi passar o Natal lá? — interrompe, enchendo o copo. Conhaque vagabundo, pensa, vai dar a maior ressaca. Ritinha de novo com aquele olhar longe, meio estrábico, que até que não fica feio.

— Não sei. Acho que é medo. Enfrentar a mãe, as perguntas... Inventar, inventar, contar mundos e fundos da minha 'patroa' aqui de São Paulo... Acho que não tava a fim de encheção. — Ela se estica na almofada. A saia sobe, descobrindo uma coxa morena, lisinha. Calcinha vermelha.

— Não te entendo, mulher. Fica aí toda nhemnhemnhem porque o filho, o filho, a droga do filho, e não vai vê-lo? Há quanto tempo não vai?

— Dois anos — responde a Ritinha, baixando a cabeça. E começa a chorar de novo.

Levanta, indeciso. Agora já é efeito do conhaque. Só pode. Mas o frio na barriga é outra coisa. O menino. Desde os cinco anos que não vê a mãe. Conhece bem essa história. E a mãe é essa Ritinha. Essa daí. É o conhaque. Claro que é.

— Pára, saco!

Ritinha soluça mais alto, o corpo começa a tremer.

Bota o copo na mesinha, senta ao lado dela.

— Tá bem, Ritinha, pára. — A voz sai mais mansa. Quis um gesto de tocar-lhe a cabeça, mas impediu-se a tempo. — Não adianta esquentar, piora. Vamos pra rua, é melhor. Vai mulher, anda! Vai retocar essa cara, tá um lixo.

— Você é tão boa — diz a Ritinha, erguendo os olhos. — Como uma irmã pra mim. — E sorri.

— Você até que fica bonitinha quando ri — ouve-se falando. Força o falsete. — Anda, mulher! Você está hor-ro-roo-sa com esse rímel escorrendo!

A Ritinha continua olhando, nem se mexe.

— Tá olhando o quê, ô múmia?

— Teus olhos — diz a Ritinha, sem entrar no jogo. — Teus olhos. Você olha igual o Roberto.

— O Roberto Carlos? Credo! Isola! — Levanta a mão traçando um longo vôo que vai terminar alisando o cetim negro.

— Não. O Roberto, meu filho.

Merda.

— Ele tem esse jeito de encarar, meio triste, como querendo e não podendo, sabe?

Putinha! Merda de putinha! De novo. A sensação na boca do estômago. Indecifrável.

— Ah, Ritinha! Pára com essa conversa mole! Vamos trabalhar, anda!

Ritinha nem se abala. Cruza as mãos sob a cabeça, levanta mais o joelho. Igual falar com pedra.

— Você seria um homem bonito, se quisesse — diz ela, depois de um silêncio abafado.

— Mas não quero! — berra. — Saco! Porra! Pára com isso, Ritinha!

— Você tá mal da cabeça, não tá? — Ritinha implacável. — Está aí dando uma de durona, mas está mal pra caralho, né?

— Não estou! — Está berrando. Sabe que está berrando, mas nem tenta parar. — Ritinha, chega! Pára com essa merda de uma vez! — Sente escorrer algo pela face. Rios pretos de rímel. — Odeio você, sua puta! Odeio essa fungação de meu-filho-Bom-Repouso-minha-mãe-pensa. Porra, Ritinha. Você, eu, todo esse lixo. Natal? Saco! Qual a diferença, me diz? Qual? Essa e as outras noites, não é bater perna na calçada, arrancar grana desses porcos, todos cheirozinhos, engravatadinhos, esses, esses... — Está agarrando Ritinha. Sacode a outra pelos ombros, músculos retesados.

— Diana, me deixa, me deixa — Ritinha choraminga. — O que você tem, o quê?

Pára de repente. Larga a Ritinha, que desaba na almofada.

— Você me machucou — reclama ela, esfregando o ombro.

Levanta-se e fica em silêncio, dando as costas a Ritinha, mexendo na bolsa. Pega os cosméticos, vai ao banheiro, os soluços ainda soando na sala. Ouve foguetes. Sirenes. Freada brusca na rua. Porcaria de luz.

— Por que não bota uma lâmpada fosforescente nesta droga de banheiro? — grita.

Nenhuma resposta. Interrompe a pintura, tira a peruca, pega outro cigarro. Resolve urinar. A Ritinha na porta, olhando.

— Você mija em pé?

— Não, voando, não vê?

Ritinha ri. Bonitinha, rindo.

— Por que você não põe silicone no busto, como os outros? — ela pergunta. — Ia ficar melhor que eu. Você acha que eu tenho o peito caído? — Abre a blusa, mostra os seios.

Pequenos, nota. Quase como um rapaz.

— Não — consola. — Você tem seios lindos.

Ritinha encolhe os ombros.

— Sou muito magra...

Retorna à maquilagem.

— Quer que ajude? — pergunta a Ritinha.

— Não, estou acostumada.

Mas a Ritinha já está com o blush na mão.

— Senta aqui no bidê.

Obedece. Ritinha vai passando o pincel, compenetrada, aproximando-se, aproximando-se. A blusa ainda aberta.

— Pára! — corta, segurando o pulso da outra. — Pára, me faz cócegas.

Ritinha olha bem dentro dos seus olhos. Faz um muxoxo.

— Tá bem. Larga meu pulso.

Relaxa, percebendo a força que fazia. Silêncio. Ritinha começa a abotoar a blusa, pensativa.

— Deixa — diz.

— O quê? — pergunta a Ritinha.

— Deixa assim — repete, estendendo a mão, puxando de novo aquele pulso frágil. — Vem cá — murmura, sem nenhum falsete na voz.

A luz fraca do banheiro vai sumindo. O som dos foguetes, a sirene, Ritinha, a maquilagem borrando dois seios pequenos como os de um rapaz. Amanhã mudo de ponto, pensa. Amanhã vou pro Morumbi, decide, antes de rasgar a última máscara.


LIZ MERCADANTE, também conhecida como Red Cat, paulistana, editora, tem uma revista eletrônica de artes, O Caixote [www.ocaixote.com.br], e coordena um chat sobre criação literária no Sesc-SP online