
Ilustração: Weston Riffle |
 |
Metamorfopsia
Não queríamos que Zeca Brandão tivesse vencido as eleições. Ou melhor,
meu chefe não queria, era prejudicial aos negócios do próximo ano e,
quem sabe, até da próxima década. Poderíamos falir, e isso implicava em
eu não querer também. "Aquele matuto idiota! Como conseguiu?", gritava o
Nabruski, fumando um cigarro atrás do outro, revelando, em sua crise de
nervos e nos detalhes que agora o cercavam - e de que, só então, eu me
apercebia - os sintomas de uma crise sem precedentes, que implicou no
corte de muitos funcionários e de todas as caixas de charutos que antes
se exibiam sobre sua mesa. "Não teremos acordo, ele vai executar o grupo
sem dó, não vai respeitar a história." Era uma ótica, eu poderia dizer,
pois a história é cíclica, grupos ascendem e caem, dominam e se rendem,
mesmo a eternidade dos romanos sucumbiu, então agora era natural, estava
na vez deles experimentarem o gostinho do poder. Devíamos aceitar as
circunstâncias, tentar refazer o mal feito e não repetir os erros
clássicos, como pensar que a plebe não conta, aquela massa desprezível e
analfabeta contra a qual a gente jogava, diariamente, um balaio de
mentiras tapa-furo e que só importava, mesmo, quando considerada como
possíveis consumidores. Não, não era assim, e ali estava a prova: aquela
gente tinha dor na barriga de fome ficando ainda mais aguda quando viam,
impotentes, suas crianças chorando faltas ou se perdendo como marginais
a morrer cedo. Não sou adepto de filosofia nenhuma, tenho preguiça de
ler livros difíceis, confesso, mas, se há algo que sei que Marx previa é
que o capitalismo precisaria se socializar, senão morreria engasgado.
Sempre fomos capitalistas ao extremo. Todo órgão de imprensa o é, numa
relação óbvia. Quem nos sustenta são os patrocinadores, os grupos que
dominam o mercado, não os reles trocados que precisaríamos contar na
venda de cada exemplar do jornal. Então, que matéria contrária aos que
garantiam o nosso ganha-pão teríamos coragem de veicular? Ao contrário,
acabamos ingressando numa ciranda subserviente e perigosa, distorcendo
realidades, maquiando falcatruas e idolatrando apenas gente "nossa". E
infelizmente é assim, o empresário é um, mais seu grupo de gerentes e
investidores restritos, eles têm um interesse. Já os operários, que
movimentam as máquinas, são muitos, vêm com outros quereres, e agora um
deles estava lá, posando de paletó e gravata com símbolos no peito que
tinham o mesmo impacto de imagens do demônio para o meu chefe. No fundo,
admito, sempre me incomodei com as políticas do Nabruski, porém jamais
teria externado qualquer desconforto ou descontentamento, mesmo ciente
de que uma mudança radical de atitude da empresa poderia, ainda, evitar
um naufrágio que já era iminente lá, num tempo nem tão remoto, quando
houve aquela decisão infeliz de encampar pequenas rádios e jornais da
redondeza, criando uma rede com televisão e retransmissoras, graças a
concessões favorecidas por um senador constantemente premiado por nós
mesmos, como homem do ano e político modelo - o que lhe garantia votos,
sem dúvida, e algumas vantagens orçamentárias no Congresso, para nós. O
grupo, com isso, seguia investindo em equipamentos importados numa
aposta de perpetuação do poder, embasada no argumento débil de que, de
mãos com a mídia, nenhum status quo seria derrubado e, a partir daí,
impostos não preocupavam, ações eram facilmente derrubadas, os
mecanismos de lucros se multiplicavam envolvendo, principalmente, o
poder público, valendo-se da desinformação geral que era bombardeada
pela nossa versão definitiva de tudo o que acontecia no país e no mundo.
Sim, eu poderia ter avisado, pois era flagrante, foi criado um monstro e
já não havia controle sobre tudo, uma rede antropofágica estimulada
entre os próprios funcionários, as mentiras desmascaradas pelo que hoje
é incontrolável: as fontes paralelas de informação, proliferando como
vermes, onde se pode saber a verdadeira verdade que se propaga como
incêndio em mato seco. Mas não sou bobo, conheço a lei dos tubarões, sou
peixe pequeno que, se abre a boca, morre, engasgado. O Pedro, Pedroca
Fusca-Velho, entretanto, aquele sim, era um idiota, como diziam: fez
campanha aberta para o Brandão, colocou matérias no ar sem passar pelo
revisor, armou ciladas ao vivo no rádio, denúncias inesperadas pegando
nossos amigos de calças curtas e, principalmente, irritando o Nabruski,
que vomitava fogo, pois patrocínios corriam e ameaçavam nunca mais
voltar por culpa daquelas bombas. Acabou demitido, o Pedro. Denunciou
manipulação de pesquisas, depois, mas em jornais sem leitores que não
ingressaram no grupo, portanto não tinham penetração visual suficiente.
Falou em rádios sem audiência sobre nossa estratégia manipuladora e
mercantilista, enquanto mendigava bicos para o partido que lhe prometia
pagamento só depois, ele que tinha família para sustentar e só então
aprendeu, um tanto tarde, o que eu já tinha lhe dito muitas vezes entre
uma cerveja e outra: ideologia não enche barriga. Mesmo rolando dívidas
que se sustentavam em acordos de portas fechadas, ainda éramos o poder,
e contra o poder não há quem possa. Engano nosso, confessou Nabruski.
Mesmo Aquiles teve lá seu calcanhar exposto à derrota, no nosso caso
ficaram as pernas todas de fora, e eles as quebraram sem piedade. Um dos
nossos problemas foi o maldito horário eleitoral gratuito, nossas
próprias armas eram entregues, naqueles momentos, ao inimigo, e foi aí
que ele se lavou. Como bom sindicalista, cônscio do pique da bola a seu
favor, Brandão apareceu bem, com gravações de qualidade - o que nos fez
pensar que alguém estava nos traindo, ou jogando duplo, por amizade ou
promessa do Fusca-Velho -, e se mostrando eufórico, entusiasta, evocando
chavões sentimentais, argumentando e convencendo, como é fundamental
para quem quer conduzir a boiada para o seu lado. Num dos programas veio
o Pedroca, arriscando tudo pois não tinha mais nada mesmo, dando nomes e
valores e citando empresas que faziam parte do nosso jogo, denunciando
notícias falsas com tapes verdadeiros e comparando com as montagens que
lançamos ao ar. Foi um duro golpe de imagem, o que provocou reuniões de
dias inteiros na empresa. Seu Nabruski queria uma última jogada, tinha
conseguido dinheiro para pagar uma indenização monstruosa ao nosso
ex-colega, mas que ele ficasse quieto, que desdissesse tudo o que tinha
dito e se confessasse subornado pelo Brandão. Queriam que eu fosse o
mensageiro da tal mala. Protestei, afinal era um dos diretores, era
arriscado demais, e se gravassem? Mas você é amigo de anos do Pedroca.
Acabou indo o Felisberto, que até uma semana atrás era assessor especial
do atual governo, cedido especialmente para tentar reverter o quadro
negativo para a empresa. Aleguei que era uma manobra perigosa, o Pedro
estava magoado e, além disso, sempre fora cabeça-dura, eu o conhecia
bem, ele fazia parte daqueles raros tipos idealistas que nunca
amadureciam e ainda acreditavam em utopias a la Guevara, portanto não se
venderia. Além do mais, estava para entrar no ar um caso de paternidade
duvidosa, com a mãe daquela menina - uma faxineira nem tão bem paga
assim - reivindicando DNA do Brandão, e apenas isso já era o tipo de
coisa que dava impacto popular, tinha feito até pagodeiro parar de
gravar discos. Seria o bastante. Seu Nabruski discordou, um homem
passando necessidades, com filhos para criar e mulher para atazanar era
presa fácil, duvidava que o idealismo do Pedro sobrevivesse. Pois
sobreviveu. Pedroca mandou o Felisberto à merda e que ainda enfiasse a
mala dele no se-sabe-onde, isso com a mulher ao lado pressionando para
que deixasse de ser besta e aceitasse, que o Brandão nem ia ganhar pois
as eleições ficavam sempre com as mesmas gentes, não adiantava aquela
briga sem fundamento, e estavam na pior, não era hora de orgulho.
Felisberto narrou a cena pasmo, pois o Pedro nem se mexera ao ouvir o
valor que tinha na mala, muito menos com os apelos emocionalmente duros
da esposa. Eu, particularmente, depois do resultado, quando se viu que
nenhuma de nossas estratégias dera certo, nem a do DNA, fiquei pensando
no meu antigo amigo e concluí, por experiência, que a equipe do tal Zeca
Brandão não daria cargo nenhum ao Pedro. Ninguém quer gente assim
trabalhando ao seu lado, gente que vai colocar a boca no trambone quando
a engrenagem começar a emperrar. Os idealistas servem para inflamar a
campanha, não para compor uma equipe que, de antemão, sabe que vai
tropeçar, pois todos tropeçam quando assumem um governo naquelas
condições. Não se poderia cumprir o prometido, é impossível se fazer
doce de um saco de laranjas podres. Nós sabíamos como ninguém dos níveis
de podridão daquele governo, pois dele usamos e abusamos, como verdeiras
sanguessugas. O Zeca Brandão também sabia, é claro, mas tinha a vantagem
de ser oposição e poder denunciar descompromissadamente, para vencer. Só
o Pedroca não sabia. Acreditava como um menino em discursos enfeitados.
Lamentável. Aprendi cedo que minha política deveria ser, sempre, a mesma
de quem me pagava o salário. Já tive minhas épocas de rebeldia, na
faculdade, e talvez todo estudante de jornalismo tenha sido um dia de
esquerda sem saber ao certo o que era isso, desfilando com o Manifesto
debaixo do braço e usado cabelo comprido, camiseta com slogans cubanos,
defendendo a legalização da maconha como se isso fosse o básico de tudo,
a premissa fundamental de uma nova ordem. Depois, com o canudo na mão,
virar escravo de quem poderia nos dar um emprego, da nova filosofia que
não deve ser ofensiva aos nossos amigos patrocinadores, era uma simples
questão matemática de sobrevivência. Subi assim, vestindo a camiseta que
me era oferecida, dentro de mim um sujeito que analisava certas coisas
mas se calava, nas horas em que o cérebro e a boca só poderiam
atrapalhar. Sempre achei, por exemplo, o Nei Nabruski um grande boçal.
Mas nem ao espelho eu confessava tal pensamento. E o aplaudia em público
ou reservadamente, ainda mais quando me chamava, como membro de
confiança da diretoria, para desabafar, definir estratégias, pensar
alto, gritar. Como naquele dia em que decidiu dar apoio incondicional ao
maldito novo governo, marcando reuniões de portas fechadas com o
Brandão, mandando que buscássemos no baú nossas fotografias dos tempos
de faculdades, quando participávamos de passeatas contra a ditadura:
faríamos reportagens especiais, programas biográficos, tudo para
convencer o novo governo que, de fato, agora estávamos do lado deles
para que, em troca, fechássemos um acordo que envolveria publicidade
legal, apoio a programas sociais, negociação de nossa dívida de impostos
e muitas outras, mais a retirada de ações pessoais impetradas por
membros do novo governo. Eu sabia, o Nabruski já tinha a sua estratégia
de reconquista planejada, em cada detalhe, sabia onde explorar os erros
da trupe de Brandão a ponto de torná-lo antipático ao público e voltar
tudo ao que dantes era sem parecer que fora obra sua, mas deles mesmos.
Brandão toparia, certamente, sabia que era isso, aceitar nossas cartas
ou se deixar varrer pelo impacto da opinião popular, que manipulávamos
como ninguém. O Pedroca será o nosso medidor de águas, disse o Nabruski,
pedindo para que não deixasse de ser seu amigo nunca, esticasse até uns
trocados ao coitado de vez em quando. Pois foi assim, como eu previa,
meu amigo não ganhou cargo nenhum, ao contrário, gente ali da empresa,
que comprou camisetas de apoio ao partido vencedor só depois que o
resultado saiu, foi para o palácio do governo, exercer cargos de
confiança a pedido do Nei, mandando-nos relatórios quase que diários
sobre os erros e confusões dos novos donos do poder. Até que houve uma
solenidade pública onde o Nabruski trocou elogios e apertos de mãos com
o Zeca Brandão que era muito mais do que diziam. Ao seu lado, eu, como
fiel escudeiro, procurei entre a confusão de cabeças da platéia o
Pedroca, até que o encontrei, muito mais magro, a barba por fazer, os
filhos na volta que me pareceram a confirmação do que tinham me contado:
a mulher o abandonara. Tive um segundo de remorso, a idéia de sua
demissão fora minha, sendo que, na mesma noite, no bar, falamos mal do
Nabruski juntos, e ele, bêbado, prometeu que se o Brandão ganhasse
falaria lá com o pessoal, eu era um cara bacana, merecia até um cargo,
não era como os outros da empresa. Sim, porque eles terminariam com o
nosso grupo e eu ficaria desempregado. Ri na hora, como ri naquele
instante, involuntariamente, e acho que ele, lá embaixo, ele percebeu. A
culpa passou e vi o Fusca-Velho balançando a cabeça contrafeito,
parecendo mesmo não acreditar no que via, enquanto afagava a cabeça dos
filhos e pedia licença entre a multidão para se retirar. Não me sinto
cretino. Apenas sei sobreviver. E a história pode até ser cíclica, mas o
céu, definitivamente, não foi feito para os répteis.
OSCAR BESSI FILHO é
escritor, 33 anos, porto-alegrense, autor de “As Cartas de Cristóvão”
(romance), “Verdades Mortas (poesia), e “Corra que a Brigada Vem Aí”
(crônicas). Recebeu o Prêmio Augusto Meyer de Poesia, 1998, e Prêmio
Destaque Habitasul Revelação Literária 2000/2001/2003, em contos.
|