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Eleonor
Eleonor demorou para se acostumar com o novo nome. Quando criança, era
Januária. Mas acostumar-se com o nome até que ia ser fácil. O difícil
seria a vida nova. Não podia mais correr ziguezagueando, braços abertos,
pelo caminho que a levava de sua casa ao córrego fresco de águas
transparentes. Andava um bom tempo, molhando os pés nus, até chegar num
solitário regaço, refúgio secreto de Januária.
Era ali que deixava a imaginação correr, os sonhos se alargarem e abria
passagem às paixões desconhecidas, aos amores estonteantes, aos
príncipes enamorados. Um deles, Roberto. Ela nem sabe como esse nome se
materializou, mas estava presente em seus devaneios. Sentia-o colado a
seu corpo molhado, ofegante. Era isto que atraía Januária todo final de
tarde, para aquele recanto secreto, inefável.
Muitas vezes flagrava-se duvidando de sua própria sanidade. Só podia ser
louca para sentir o que sentia. Ainda mais quando ouvia as advertências
que o vigário da vila fazia a sua mãe.
- Tome cuidado com essa menina, Dona Quitéria. Ela tem os instintos
exacerbados. Precisa domar cedo pra não desandar.
A roupa era outra coisa que a preocupava. Não poderia mais usar aquele
vestidinho leve, alças fininhas, saia curta, que deixava os ombros e
pernas bronzeados. Era velho, mas ela adorava tê-lo grudado ao corpo
graças à água purificadora. Isto, sim, ia ser difícil para Eleonor.
Nos momentos de meditação, só conseguia era ficar pensando em seu
esconderijo, imaginando mergulhar na água fresca com Roberto. Sentindo o
vestido tomar as formas sensuais que se refletiam na água. Cabelos
escorrendo gotas pela penugem impúbere de sua pele juvenil. Ficar se
olhando na superfície trêmula do riacho, ver com ansiedade crescer em
seu corpo a forma inebriante de mulher. Nessa hora sonhava ser tocada,
ser acariciada. Assim gastava seu tempo adolescente até ouvir alhures o
grito da realidade a quebrar todos os encantos.
Agora, uma certa tristeza pingava dos olhos. No lugar da trilha estreita
que levava a seu paraíso de prazeres solitários, um caminho de pedras
antigas, um repuxo minúsculo, esverdeado pelo musgo envelhecido.
Refreava, a duras penas, a tentação diabólica de caminhar até ele,
livrando-se de suas pesadas vestes.
Queria ser Januária outra vez, mas insistiam em Eleonor.
- Januária é um nome profano. Lembra a idolatria do falso deus Jano.
Eleonor não! Eleonor lembra o deus verdadeiro. Lembra a luz!
Quando Eleonor recebeu a primeira longa carta de sua mãe perguntando
como estava indo, respondeu numa frase seca, atravessada em letras
garrafais: "Quero ser Januária!"
A revolta de Januária chegou ao extremo numa tarde de verão, logo após
as rezas do recolhimento. O corre-corre foi grande. Deitada no centro da
clausura em pleno repuxo, Januária libertou-se definitivamente de irmã
Eleonor, expondo às atônitas madres do convento, sua nudez exuberante.
AIRO ZAMONER, contista, cronista e romancista com 14 títulos
publicados, colunista do jornal O Estado do Paraná e Hora H, editor da
Editora Protexto, oferece este conto extraído do mais recente lançamento
"Dezoito Mulheres, dramas e amores".
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