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Disco PAC
Parou por um instante e, sem pensar, começou a correr compulsivamente.
Olhava para trás e tudo o que via eram vultos pretos, sem forma
definida, mas sabia que alguém estava lhe perseguindo. Quem sabe até
mais de uma pessoa.
A música que estava tocando tinha uma batida forte e repetitiva. Era a
mesma há mais de duas horas.
Estava ali para se divertir, mas o ambiente era tenso. Todos ao seu
redor continuavam dançando, conversando e beijando. Apenas essas
atividades eram permitidas.
Ele queria aproveitar a noite, mas agora não podia mais. Largou sua
namorada e simplesmente fugiu. O lugar estava completamente lotado,
todos bem vestidos, com perfume e cabelo penteado. Mulheres lindas que
circulavam pelo ambiente o distraíam, mas ele logo recuperava sua
consciência e não perdia tempo com os prazeres da vida.
O tempo estava se esgotando.
O lugar era fechado, um labirinto sem minotauro. Mas chifres havia
muitos...
Na velocidade que suas pernas o levavam muito pouco ele conseguia
distinguir daquele ambiente, só enxergava o rosto de alguém quando as
luzes que permaneciam girando no teto focalizavam a pessoa. Empurrava
todo mundo, derrubava bebidas e às vezes chutava uma canela qualquer.
Tinha que fugir, só isso era importante.
Quando olhava para trás, de vez em quando conseguia enxergar uma
silhueta, que ofuscada pela luz, caminhava freneticamente atrás dele.
Mas geralmente não via ninguém.
A música causava uma dor de cabeça incessante. A mesma música. Aquela
música. Pelo menos ele achava que era, mas de tempos em tempos todos
gritavam como se estivessem comemorando o início de uma nova música. Mas
era a mesma.
As pessoas eram sempre as mesmas também. Todas vestidas do mesmo modo,
cabelo cortado e penteado seguindo a mesma tendência e celular em todos
os bolsos. Sim, eram todos iguais.
Ele nem notava isso, é claro.
Aquele ambiente era dividido em salas, e no meio estava a danceteria com
o bar à esquerda. Para não perder o fôlego, conforme ele corria e
atravessava cada uma das salas, tomava uma espécie de pílula que o
mantinha mais agitado e aumentava seus reflexos.
Eram pílulas mágicas, que possuíam diversos nomes mas sempre com efeitos
parecidos. Efeitos devastadores.
Sair do labirinto era impossível, todas as portas estavam trancadas. Mas
de qualquer jeito, ele deveria arrumar uma maneira de fugir, pois não
sabia o que aconteceria se o pegassem.
Dali a alguns minutos depois da última pílula, começou a ficar cansado e
avistou o lugar onde iniciara a sua corrida sem rumo. Após olhar para
trás e não encontrar ninguém que o ameaçasse, resolveu seguir
vagarosamente até ali, mas descobriu que não era capaz de andar em outra
velocidade. Só poderia correr.
Quando chegou exatamente ao lugar de onde partira, sua cabeça começou a
ficar tonta e pareceu que o ambiente de repente ficou inteiramente
escuro. Sem nenhuma luz e nenhum ruído.
Alguns segundos depois voltaram as luzes coloridas na pista e as vozes
mais umas vez ecoavam.
Ele pensou ter perdido a consciência por alguns instantes, e logo que
conseguiu enxergar novamente começou a observar o que estava ao seu
redor. Era tudo ligeiramente diferente.
O tempo estava correndo mais uma vez.
Não conseguiu reparar em muitos detalhes do lugar, pois lembrou que
estava sendo perseguido e resolveu iniciar novamente a sua fuga
desesperada.
De fato, não havia muito no que reparar, pois o ambiente era
praticamente o mesmo. Salas escuras, música eletrônica repetitiva,
pessoas iguais executando atividades sempre iguais.
O que mudava era a disposição dos ambientes, apenas isso e nada mais.
No entanto, agora parecia que ele conseguia correr mais depressa. Sempre
a uma velocidade constante, mas essa parecia ser maior, assim como a das
pessoas que estavam atrás dele.
Abria espaço a força, muitas vezes machucando quem se encontrava no seu
caminho. Viciado em pílulas mágicas, ele não conseguia permanecer muito
tempo sem consumi-las pois nesse momento isso seria fatal.
Já estava com a consciência alterada devido à ingestão de muitas
substâncias nocivas. Raciocinar ele não conseguia mais. Sua angústia era
sempre aumentada pela música do ambiente, que parecia ser divertida para
muitos, mas para ele era massacrante.
Agora, sempre que olhava para trás percebia que alguém estava próximo e
de vez em quando conseguia enxergar o rosto da pessoa. Notou que havia
mais de um homem com aquele mesmo rosto circulando pelo ambiente, e
todos pareciam estar armados e à sua procura. Eram altos, vestidos de
pretos e portavam sub-metralhadoras que poderiam acabar com uma vida em
segundos.
Continuava a correr, mas sabia que logo seria capturado. Estavam
cercando ele por todos os lados e não haveria como escapar.
Corria ao som das batidas eletrônicas, conforme o ritmo marcado e
ostinato que tornava aquele ambiente uma paranóia infernal.
Mais uma pílula e essa seria a última. Quando cruzou a pista de dança
rumo à outra sala, foi puxado pela camisa e quase enforcado. Virou o
rosto para ver o que estava acontecendo quando um soco atingiu a sua
face e ele caiu no chão desacordado.
Perdera uma vida.
Permaneceu inconsciente por poucos segundos. Logo abriu os olhos
novamente e olhou o lugar à sua volta, reconhecendo alguns detalhes.
Voltou para a fase anterior.
Música repetitiva, drogas, salas escuras.
Parou por um instante e, sem pensar, começou a correr compulsivamente.
VINICIUS ANDRADE NEVES tem 22 anos, e nasceu em São
Paulo. É publicitário formado pela ESPM/SP, e atualmente cursa
Composição e Regência na UNESP. Mantém um site onde publica seus contos,
intitulado 1 Minuto de Silêncio (www.1minutodesilencio.cjb.net).
Finalizou recentemente sua primeira novela.
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