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Chocolate
Eu a conheci quando ela era uma menina, tinha 11 anos. Minha filha era
um pouco mais velha e brincavam juntas. Isso tornou tudo mais fácil. Eu
já tinha mais de 40 anos e havia esquecido como é bom brincar. No início
senti inveja das risadas que elas davam. Havia muita leveza e
ingenuidade entre as duas. Depois, a inveja foi substituída pelo desejo
de compartilhar com elas da mesma leveza e da mesma ingenuidade. Demorou
alguns dias até que elas aceitassem a minha presença. Eu era muito
grande para ficar em pé na casa de bonecas. Eu era muito grande para
brincar com suas panelinhas. Isso parecia atrapalhar o convívio. Mas eu
sempre levava chocolate. Descobri que o chocolate torna todos iguais.
Não sei se elas cresceram ou se eu me tornei menor. O fato é que levando
chocolate eu podia brincar com elas. Às vezes eu conseguia, por alguns
minutos, esquecer que eu era um pai de família, que eu tinha de
trabalhar, de pagar as contas, de dizer bom dia para minha esposa. Vendo
as meninas brincando, lembrei-me de que a vida podia ser leve. Temia,
jamais me sentir ingênuo novamente, mas eu queria, ao menos, a leveza.
Minha filha morreu atropelada quando brincávamos de esconde-esconde. Eu
a estava procurando. Ela saiu correndo para o meio da rua, e um
ônibus... Ela morreu no momento do choque, ao menos não sofreu. Eu morri
junto. Pedi férias no trabalho. Fiquei 15 dias na cama, olhando para o
teto, sem comer, sem falar com alguém. Eu queria apenas me sentir leve.
Perdi o chão. Será que isto é estar leve? Eu flutuava? Não, eu caia. Caí
durante 15 dias. Não sei quanto tempo mais eu teria caído, se ela não
tivesse aparecido. Ela veio me visitar: sandália de salto, vestido
curto, óculos escuro, tudo cor-de-rosa. Eu jamais imaginei que ela
voltasse à minha casa. Mas ela voltou e trouxe chocolate. Brincamos de
cozinhar, brincamos de boneca. Ela quis andar de bicicleta, mas eu ainda
não estava preparado para sair de casa, eu ainda não havia conseguido
sair da cama, apesar de ter deixado de olhar para o teto. Ela então me
perguntou de que os adultos brincavam. Pensei durante alguns minutos. Os
adultos esquecem que podem brincar, os adultos esquecem como se brinca.
Ela pareceu desapontada com minha resposta. Tomei-a em meus braços e lhe
disse: "Lembrei-me, você promete confiar em mim e não contar a ninguém?
Os outros adultos já esqueceram como se brinca e as crianças não podem
saber como adultos brincam. Isto é um segredo, que eu vou contar a você
por ser uma boa menina." Ela sorriu e me disse: "Eu prometo confiar em
você e guardar nosso segredo." Coloquei minha mão sob seu vestido, sem
levantá-lo, e toquei-lhe suavemente. Senti-me leve. Ela deu-me um beijo
no rosto e disse-me que era muito boa a maneira como os adultos
brincavam. No dia seguinte, ela me trouxe mais chocolate.
ANA CAROLINA DA COSTA E FONSECA
é mestre e doutoranda em Filosofia pela UFRGS
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