|
 |
Aurélia na Janela
A bicicleta atravessou o território da sua vista e apenas pôde ver uma
perna e a metade das costas. Restou somente o reflexo platinado nas
vitrinas da sapataria da esquina. Da janela, Aurélia continuou olhando a
rua transversal e, de repente, apareceu um menino de calças curtas que
começou a brincar com um pião. Aurélia pensou na concha do caracol que
leva círculos nas costas. Lembrou-se da roda de velocípede que estava no
quarto de despejos.
Seu olhar azul, havia dito Antônio, tem o candor suficiente para ver de
outra maneira os aconteceres, mas não sei se o assunto é outro.
Anteontem que chovia, por exemplo, ao ver as negras moedas dos
guarda-chuvas, disse que a tarde estava de luto. Falou de um tal cortejo
da bruma e da preguiça. Uma vez passou sob sua janela a corcova de um
camelo na cesta que o padeiro equilibrava na cabeça.
Faz um momento, supôs que a bicicleta de Antônio rodava no ar, porque o
céu tinha ficado mais abaixo na umidade da tarde. A mulher os chamava de
instantes elétricos que vêm à minha torre de tijolo inglês vermelho. A
luz do horizonte se refratava, dava uma tonalidade violeta ao cabelo
alto de Aurélia. Seu rosto branco comentava a dona da leiteria, como eu
a vejo daqui debaixo, é uma cara de serenidade, digna e talvez
resignada. O azul dos seus olhos só o distingo de vez em quando.
Mas os muros do bairro sabiam a outra parte: a bicicleta e Antônio
desapareceriam, em cada nova tentativa, antes que Aurélia pudesse
levantar a mão e mover o lenço com amarelos e alaranjados. A sós, diante
do espelho oval do quarto, ela dizia que seu desejo era semelhante ao
silêncio das bandeirolas caídas sob a chuva. Apesar destas rupturas de
tempo, seu coração continuava sendo uma colméia, intranqüila e perigosa.
A moeda faceira que jogou no espaço de Antônio havia desaparecido em
cima da marquise da loja de ferragens do próprio Antônio. Nesse
acontecimento distante, Aurélia achou antipáticos e tristes os pares de
sapatos que estavam pendurados na sua rua. Aquele dia fechou os postigos
da janela pelo resto de setembro.
Voltaram a ser aberto a primeiro de outubro e a bicicleta atravessou o
território da sua vista e apenas pôde ver uma perna e a metade das
costas. Houve, então, em seu pensamento uma zebra, traçada pelo vento de
outra tarde. E podia ser também um arcanjo com as asas manchadas de
limo, similar ao que sua avó Cata teceu, a monja infeliz da família, num
xale célebre. Aurélia abriu com a esperança de olhar com outros olhos os
sapatos, a tarde parda, a leiteria, a rua transversal.
Diante do calendário que ainda se aproximava, Aurélia soube, como a pêra
madura que cai e rebenta contra o chão, que sua janela abriria sempre
tarde, quando o menino de calças curtas aparecesse, soltando o cordão
com o pião no ar. Quando seria a última ocasião, perguntava-se, em
silêncio, o empregado mais velho da loja de ferragens; isso, ela nunca
soube. Enquanto isso, seu olhar azul continuou entardecendo; um dia dos
que escurecem cedo ficou nos seus olhos. E a rua foi transitada por
gatos e cachorros de fumaça, por estandartes macilentos, por crocodilos
que olharam, de soslaio, a Aurélia na janela.
Traduzido por Luciano Menezes e Alina Reis de Bistrain.
GUILLERMO SAMPERIO nasceu
no México em 1948. Foi Secretário Técnico da Comissão Comemorativa do
Centenário de Alfonso Reyes, durante 1989; Diretor de Literatura do
Instituto Nacional de Belas Artes, de abril de 1989 a janeiro de 1992;
Diretor de Difusão Cultural da Universidade das Américas, AC, de
fevereiro de 1992 a junho de 1995; Chefe de Difusão dos Livros "del
Rincón de Lectura", Unidade de Publicações Educacionais/SEP (Ministério
da Educação), durante 1996; Assessor da Direção Geral de Difusão
Cultural do Instituto Politécnico Nacional (IPN) e em 1997, Coordenador
Ad hoc, Engenharia Cultural, Escritório. Recebeu o Prêmio Casa das
Américas em 1997 e o Prêmio Instituto Cervantes de Paris dentro do
Concurso Juan Rulfo 2000 da França. Seus mais recentes livros de contos
são "Humo en sus Ojos", Editora Lectorum, México, 2000 e "La Gioconda en
Bicicleta", Océano-México, 2001.
|