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Aceno sob a garoa
A verdade, Eliel, é que a relação entre vocês já se encontrava bastante
desgastada quando você decidiu que teria uma amante. Assim, friamente.
Sem grandes considerações, por que você nunca foi muito dado a isto. Não
esperou que simplesmente pudesse acontecer de surgir outra mulher na sua
vida como conseqüência de você se mostrar mais aberto, cada vez mais
distante do lar. Não via sequer motivo para manter em sigilo a futura
relação paralela que se mostrava disposto a começar. Uma vez analisando
profundamente a situação das coisas - e não era preciso ir muito fundo
nesta questão para que conclusões óbvias viessem à tona - veria que
pouco te importava se tua mulher inclusive viesse a saber que você tinha
uma amante. Até pelo contrário: por simples prazer doentio que a idéia
lhe sugeria, começava a fazer questão de que ela soubesse. E de que
soubesse os detalhes: quando se encontravam, onde se encontravam, quem
era a escolhida e que tipo de presentes lhe dava. Isto entre outros
pormenores que você deveria se encarregar de arranjar a partir de então.
O termo arranjar pode não soar muito natural hoje, repetido com a devida
distância que o tempo construiu. Mas na realidade, foi o que você acabou
fazendo no momento em que tomou tal decisão, pois nunca tivera idéia de,
na prática, saber como seria manter uma relação dupla, nem como se
bancava tal empreitada, quais os subterfúgios utilizados em situações
como esta. Desta maneira, não foi do modo mais natural que as coisas
começaram a acontecer para que você concretizasse seus intentos.
Se for necessário que se estabeleçam justificativas que ao menos possam
fazer-te dormir mais tranqüilo, que embasem suas atitudes (porque
tentarmos amenizá-las moralmente, convenhamos, é tentativa por demais
forçada), podemos usar o lugar comum de dizer que Eliana já não era a
mesma fazia bastante tempo. E, ainda que você nunca pudesse ser também
enquadrado como um modelo de bom marido, sou obrigado a concordar que o
desleixo para com as coisas básicas que cabem a uma mulher era bem
visível mesmo a quem não fizesse parte do círculo de seus amigos mais
íntimos. Eliana não parecia fazer mais aquele mínimo esforço que as
mulheres já em certa idade, e dotadas da vaidade natural que atinge a
todas, costumam fazer para continuar a emanar a sensualidade ainda
atraente de belos espécimes na idade da maturidade . Sou forçado a dizer
que suas vestimentas, todos os seus gestos, o estilo de vida que
gradualmente acostumou-se a ter como seu, caminhavam para aquele
estereótipo de mulheres independentes e sem nenhuma mínima preocupação
estética. Desta maneira, imagino que, para você – e aqui não quero
penetrar mais do que o necessário em suas intimidades, embora venha
inevitavelmente a parecer por demais ousado – os momentos em que se
encontravam para fazer o amor não fazia parte das experiências de
maiores transcendências eróticas que você teve em toda a sua vida. A não
ser – e aqui, já te aviso de antemão, sou ousado como não poderia evitar
– se te agrada o comportamento que julgo ser o que mulheres como Eliana
costumam desempenhar da cama junto ao marido de tantos anos. Se te
aprazem as atitudes da mulher passível, que se recolhe por sob o teu
corpo e se mantém submissa e praticamente imóvel toda a parte do tempo,
com nada mais exaltado que gemidos descompassados e inevitáveis ao êxta
se em que a levas, aí então, Eliana é teu tipo de mulher e somente com
ela já deveria te contentar. No entanto, se nos encontramos em tais
relatos, é por que ela já não mais te servia e, até pelo prazer de
humilhá-la é que não te abalava que ela viesse a ter conhecimento da
vida de devassidão a que você se entregou.
Quem viesse a ser ouvinte anônimo de nossas conversas, concluiria que
não passamos de dois fúteis e perversos devassos, dois escrotos da
meia-idade, no relato excitado de suas peripécias sexuais, despidos de
qualquer comprometimento que aos casados é exigido. Engano ledo que não
nos interessa esclarecer. Como teu cúmplice, sou também um comparsa no
entendimento do que uma vida de modorra e forçosa intimidade é capaz de
provocar.
A burocracia em que os mínimos e corriqueiros atos podem se transformar.
As noites de sexo podem ser comparadas ao cotidiano do burocrata, um
forçado burocrata a bater ponto algumas noites do mês no meio das pernas
de sua esposa. Afinal, confessa-me, Eliel, quantas vezes você não
compareceu ao sexo, cumprindo todos os pontos necessários, todas as
preliminares tão exigidas nas tão lidas e relidas revistas femininas de
Eliana? E o que ela te ofereceu? Colocou de lado a revista, para te
abraçar, enquanto você se colocou pesadamente por cima dela, garanto.
Afinal, como eu, bem creio que você pode contar nos dedos as vezes em
que, por um milagre que não lhe cabe agora saber qual foi, vocês
abandonaram a posição de missionário e Eliana tomou o controle da coisa,
montando sobre você, diversificando aquele já tedioso sexo de obrigação.
E variando seus procedimentos. Que se resumem ao quê? Lamber-lhe o
ouvido? Beijar-lhe o pescoço? Encontrar sua boca, chafurdar algumas
vezes, movimentando o corpanzil sobre Eliana? E o depois? Eu te digo
sinceramente que já pensei na possibilidade de ser capaz de eliminar o
ato somente para não ter que conviver com a distância do depois. Aquele
silêncio no quarto no breu, as respirações ofegantes, as palavras me
faltando... Tudo tão constrangedor! Dirigir-se ao banheiro, tomar banho
- tudo, é claro, com o devido tempo e tato, para, segundo aquelas
revistas femininas, sua mulher não se sentir magoada por achar que você
toma banho para se livrar do seu cheiro.
O amor, então, outrora exaltado, se converte na arrastada vivência
preguiçosa, no encontro das escovas molhadas na pia do banheiro. As
tentativas que se concentram para tentar envolver de ilusória mágica
tais momentos, somente acabam resultando em patéticos e constrangedores
paliativos para a insegurança que é a busca de uma nova vida, longe um
do outro. Melhor seria se tivéssemos um alarme natural que soasse
incessantemente no exato momento em que todas as tentativas se
transformam em vãs encenações e somente cessasse no devido e sensato
afastamento dos corpos. Desta maneira, a vida útil de uma relação teria
fim antes que estratagemas os mais diversos e vulgares possíveis fossem
utilizados. Nada de cabelo molhado e camisola nova, na inútil tentativa
de resgate de um momento que já sabemos de antemão apagado. Fim de
falsas torções e gemidos ensandecidos, em instantes em que sabemos que o
sexo já chegou ao seu limite de novidades e não se resume em nada além
do habitual comparecimento que aos animais é exigido.
Se nossos sonhos se apagaram antes do tempo que julgávamos correto, se
as perspectivas de uma vida de loucuras devassas e sexo desenfreado
encontram obstáculo no vislumbrar do buço por demais crescido de nossas
esposas; se todas nossas insistências se tornam vãs frente ao natural
desinteresse que toma conta de nossas mulheres em tornarem-se hábeis
doutoras do sexo, não me parece restar outra opção senão a busca do que
nos agonia, a procura do que nos faz vibrar, a captura real dos nossos
pulsantes anseios juvenis.
E esses anseios, Eliel, cedo ou tarde vão se traduzir no atual estágio a
que chegamos. A que você chegou. O estágio de você chegar a arquitetar
um plano de fuga para o lamacento cotidiano em que se afundou. É certo
que muitos poderiam vir a questionar suas atitudes, saber por que pura e
simplesmente não recorreu ao divórcio, não saiu de casa, não deu adeus à
Eliana. O que poucos conseguem conceber, Eliel, é a gana que você tinha
de realmente corromper-se, afogar-se indelevelmente na sordidez. Quem
ousaria pensar que o que passou a te encantar, na decisão devassa em que
decidiu se afundar, eram os detalhes, as pequenas coisas? O encanto que
via na sordidez. A sordidez das pequenas coisas. Sujar-se, corromper-se,
vulgarizar-se passou a ser o objetivo que movia seus dias. Na medida em
que não quero entrar em maiores juízos de valor, você sempre soube que
nunca censurei seus intentos. Apenas os apreciei na distância que a
contemplação artística me possibilitava.
Ademais, colaborando para que não viesse a romper tragicamente a relação
mantida até então, havia a tua indisposição para o incômodo. Divórcio,
separação, o dramatismo das divisões judiciais... Via todos estes
elementos como pedras que acabariam por atrasar ainda mais todo o seu
processo de libertação e tornar tudo ainda mais dolorido, para ambas as
partes. A coisa mais certa era esta: continuar sendo o bom marido que
sempre fora, cumpridor das obrigações do lar e do provento do mesmo, e
se beneficiar com seu tipo maduro, conversa agradável, para conhecer
alguma mocinha que, sabia, tornaria bem mais excitante e proveitoso
aquele casamento para ambas as partes. No entanto - praga dos infernos!
-, sei que você acabou por perder o tato, a forma, o manejo da
conquista. Como se aproximar sem parecer óbvio, e onde cercar a presa?
Do escritório não poderia ser, se bem que, andava de olho em uma
moreninha extremamente gostosa, não é, Eliel?... Mas não, melhor não
envolver mulher da mesma empresa, pois acabaria resultando em
incomodação, e isto era o que você menos queria naquele instante.
Ansiava pelas coisas praticas, palpáveis, imediatas!
Nas noites que se seguiram, você se aventurou com um amigo dos tempos do
colégio em um destes inferninhos freqüentados por uma corja pela qual eu
não daria um tostão furado, se esbaldou com barangas de diferentes tipos
e qualidades plásticas, se entusiasmou com mocinhas oportunistas que
trataram de encharcar-se em doses de uísque que você patrocinou
alegremente naquela noite de rafuagem; deixou-se levar pelo encanto de
noites de mentira, onde sexo fácil e doses maciças de álcool eram tudo o
que você conseguia para enganar a si próprio naquela busca por saciar
sua sede de sordidez, seus instintos mais vulgares.
Sei que cada vez que pensamentos um pouco mais límpidos ousavam se
esboçar em sua mente, você os expulsava com os estratagemas que restavam
ao seu alcance: abraçando-se a alguma outra coroa excitada, mais uma
reles personagem para você se esbaldar em profundas incursões sexuais de
toda ordem, se deter em beijos que não lhe diziam bem à que vinham, mas
que - ao menos naquelas noites -, lhe serviram para fazê-lo sentir-se
mais livre daquela escravidão tediosa que era seu casamento. É certo que
você sentiu-se mais homens nas investidas na noite escura, e estas foram
muitas. A cada aventura mais torpe e promíscua em que você se embrenhava
naquelas noites de devassidão, mais viril e justificado você se sentia.
A cada investida mais perigosa, nos quartos de motel mais pútridos, em
rabos de coroas mais gastos possíveis, tanto mais isto o fazia sentir-se
saciado, vingado de Eliana, coroado no reino da libertinagem e do puro e
desenfreado desejo sexual.
E você, Eliel, chegava quase ao raiar do dia em casa, o paletó fedendo a
uísque barato, e o que tinha à sua espera? Uma mulher desesperada, olhos
ardendo em pesadas olheiras, cobrando tuas faltas, gritando
esganiçadamente? Não, você encontrava Eliana, ainda plácida, a dormir
tranqüilamente. É certo que nestes momentos sentia ímpetos de esganá-la,
mas se refreava, tomava seu banho, prepara seu próprio café e se dirigia
para o escritório, de onde saia novamente para alguma nova boate que
aquele seu amigo houvesse descoberto.
Essa rotina estendeu-se demoradamente por alguns meses, sem que da parte
de Eliana houvesse qualquer tipo de reclamação ou comentário. Pelo
contrário, toda a tranqüilidade e inalteração que continuava tendo de
sua parte fazia seu sangue ferver, não é mesmo, Eliel? A impassividade!
A impassividade é a mola mestra e propulsora que arruína casamentos e
sacia a falta de ira daqueles que nascem para ser cornos. Corna filha da
puta!, você berrava ensandecido, Eliel! Eliana concordava e não se
perturbava com a cornice cada vez mais e mais evidente em sua fronte!
Nos poucos momentos em que se encontravam e conseguiam travar alguma
espécie de diálogo, surpreendia-se com a naturalidade e frivolidade de
suas conversas cotidianas - o gás que estava para acabar, a luz que
queimara no poste em frente, a entrega da r evista que demorava! Tudo
aquilo o enervava à grande. Tinha impulsos quase psicóticos em relação à
Eliana. Enquanto ela preparava um cereal no balcão, pela manhã, você
fazia-lhe sinais obscenos pelas costas, desgraçando-a. Ela se virava e
você esboçava um sorriso forçoso, compadecido. Ela sorria, pudica,
extremamente pudica, e você odiava ainda mais aquela pureza que ela
emanava, aquela sexo de pernas abertas e gemidos controlados, aquele
corpo de pêlos somente clareados, nunca depilados, aquela aspereza das
noites de sexo inevitável, sexo burocrático.
A verdade, Eliel, era que, não obstante o apoio que dei às tuas
investidas e as justificativas que ambos encontramos para as mesmas,
você já começava a entrar em contas que as noites de devassidão já não
estavam mais sendo suficientes para saciar-lhe aquela sede de
suburbaneidade, aqueles ímpetos voláteis de devassidão em potes, aquelas
camadas gordurosas de sexo e vaginas fétidas. Nas boates, embriagava-se,
apenas. Seu amigo dançava os bate-coxas noite adentro, enredando-se em
gazelas de vestidos acetinados e batons vermelhosos. Você somente
deixava-se ficar, ouvindo o cacarejar de alguma putinha de fim de noite
no seu ouvido, a convidar-lhe para o quartinho dos fundos. Por vezes ia,
mas somente deixava-se masturbar pela menina, ou ser chupado em troca de
algumas notas que deixava presas no elástico d e sua calcinha, depois
caminhava, bêbado, procurando a saída daquele inferno, enquanto seu
amigo continuava se refestelando no saracoteio das quengas ao quase
raiar do dia.
Ao chegar em casa, sempre a mesma cena, o mesmo quadro perfumado, as
mesmas manhãs de comercial de margarina. A placidez dos lençóis azulados
emoldurando o corpo esbranquiçado e a languidez quase virginal de sua
Eliana, a resfolegar calmamente no sono dos justos, naquelas manhãs que
pareciam sempre de temperatura extremamente agradável para trazer-lhe o
quadro com pintura mais acentuada ainda, a ponto de enojá-lo. Você
parava um tempo em pé, à beira da cama, não sei se a contemplar ou a
amaldiçoar tal momento, a gravata pendente no pescoço de maneira
desleixada, as papas suarentas e o paletó fedendo a álcool, e assim
ficava, enquanto nada parecia alterar a mansidão do sono de Eliana. Nada
alterava a serenidade do sono de Eliana.
Todas as noites passadas foras, a esbaldar-se no cu das putas, eram
somente sua. Pertenciam somente a você e não atravessavam o limite onde
se adentrava na intocável vida de Eliana.
O que eu sei, Eliel, é que no fim você acabou se dando conta. Deu-se
conta e sentiu-se derrotado, extenuado, exaurido, cansado das buscas
inúteis. Olhou o quadro com mansidão, sentiu as lágrimas brotando nos
olhos inchados de bebedeira e detestou não ter as virtudes necessárias
para fazer parte de tão belo quadro, quando então soube, sem sombra de
dúvidas, ser o intruso naquela situação. Repentinamente, em sua memória,
se lembrou com estranheza das cenas que, quando menino, tinha como
belas. Lembrou-se dos filmes nas matinês de sua pequena cidade e de como
uma cena marcara-lhe pela simplicidade e tristeza infinitamente belas. O
rapaz no filme acenava embaixo de uma garoa fina e fria para a moça que
se deixava ficar na estação férrea, e caminhava por sobre os trilhos,
sua imagem perdendo-se na névoa úmi da daquele fim de tarde.
Então, Eliel, você caminhou até a saída do apartamento e foi-se.
E somente até aqui eu sei.
ALESSANDRO GARCIA é
escritor e publicitário, tem 25 anos, natural de Porto Alegre. Publicou
a peça “A Irmandade dos Robustos” em uma coletânea de dramaturgia
organizada por Vera Karam. Tem um livro de contos ainda inédito, “A
Sordidez das Pequenas Coisas”. Escreve atualmente no blog Suburbana.
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