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A pedra e o nada
O bailado humano.
A casa onde viveram tornou-se uma ilha silenciosa. Posta aos olhos da
rua parecia desabitada, devido ao seu ar de ruínas, ao abandono
retratado pela aridez das floreiras e do mato que invadira o jardim.
Alma e Zai tornaram-se, precocemente, dois velhos peregrinos,
descarregando nessa palavra o que ela encerra de mais estrangeiro.
Viveram perdidos, em áridos desafios de se mutilarem, uma vez que
visavam tão somente destruir o laço que os unia. Nessa empreitada,
utilizaram o próprio destino, brincando de arremessos com um dardo
preciso e um alvo incerto. De tanto dourar o desencanto, Alma abriu mão
dos mínimos afazeres para cair no vazio. Fora uma mulher de posses,
embora jamais precisasse dar um passo sequer para colar uma mísera prata
na árvore da sua fortuna; esta, sempre, uma obra posta a cargo do
marido, ainda que o desinteresse perfilasse em um lar sombrio
predominado por gestos secos e secas maneiras de se retribuir um gesto.
Trabalhador incansável,
Zai esculpia, modelava, redesenhava, inventava e reinventava, ao colar
os pequenos cacos de suas relações, com o desvelo de quem buscava
antecipar-se às reconstruções. Dele se poderia dizer, fora um artista,
um artesão na arte de recortar, cerzir, cozer e soldar os
desentendimentos, desde que a desposara, aos 16 anos, em pleno "kyrie"
dos dramas litúrgicos de uma jovem sem ambição na vida. Quando optou por
viver o contraditório, Alma não contava com o sabor amargo dos dias
futuros. Vivendo em angústia, encontrou nas suas loucas palavras o
prazer que precisava para enfrentar com heroísmo a sua própria
destruição: "Fomos uma ninhada perdida em pleno nascedouro; um futuro
que viveu contando com o seu passado... Estávamos mortos no auge de
nossas vidas!... As nossas melhores lembranças, se houve, estão
perdidas!" Dizia a si mesma, como alguém que atribui aos pontos
vulneráveis de suas escolhas, todos os erros do passado.
A carruagem fúnebre mal
descera o batente, Alma se punha imóvel acompanhando o cortejo com o
olhar mortiço, até quando a massa escura chegou ao final da rua. "Foi
melhor assim. Jamais me prestei ao papel de mulher de um avaro até no
ato de procriar!" Recordações do que lhe dizia, sem pejo, quando queria
abatê-lo, por não haver concebido. Guardava, protegidas pelo rancor, as
palavras que dele ouvia, quando, desesperado, redargüia aos seus
insultos, utilizando a Bíblia para não fugir ao clima cerimonioso: "Se o
homem planta uma figueira; passados alguns anos, não encontrando uma
maneira de frutificá-la, ele deve cortá-la para que não ocupe
inutilmente a vinha!". Disfarçava as lágrimas, esmagando-as contra a
face mórbida da palidez. Nem a inexorabilidade da morte foi capaz de
aplacar uma relação marcada por pequenas distorções e por veladas
ironias, ainda que respaldadas na força do Evangelho.
A idéia da morte é a
única verdade que o tempo não desmente. Diante da singularidade desse
exercício, nos vemos sempre pegos desprevenidos. A morte é a festa para
a qual jamais nos programamos, porque não queremos fazer apologia de
algo que representa a nossa secreta desordem. "O mundo de hoje nada nos
traz, além de guerras, fome, injustiça e solidão!" Alma passou a sentir
que os seus sonhos lhes fugiram das mãos, ao perceber que os anéis lhes
roubaram os dedos. "Se a falsa luz, quando se faz luz, me nega a
razão... No que eu posso crer?" Expunha as suas evidências, com a
naturalidade de alguém que dispunha de um interlocutor:
E se eu mentir?... Quem
há de negar? Ordenando o viés nostálgico, cerrou portas ao mundo
extrínseco; voltando-se inteiramente ao seu isolamento, percebeu que
diante do seu olhar sem brilho, uma onda de tristeza tomava uma dimensão
avassaladora. As luzes da cidade, ao alcance dos seus olhos, crepitavam
como sal ao fogo. A cada visita ao peitoril de sua janela, uma nova
onda, sempre crescente, puxava-a para um abismo e apagava parte daquelas
luzes. Nos primeiros momentos, antes de se chegar a um completo
escurecimento, Alma percebeu que aquelas luzes esmaeciam, perdiam o
brilho e tudo à sua volta girava em slow-motion: as imagens retornavam,
expondo-se disformes, como uma câmara que ao se colocar em movimento
gerasse figuras em espirais.
Aimê ficava intrigada com aquelas figuras que assistiam em silêncio a
sua animalização. O tempo foi passando e a transmutação se operando,
obstinada. Logo, as imagens que lhe restavam jamais voltavam a ser como
antes; o fenômeno fotóptico mudava a velocidade, tão somente, jamais se
estagnava; recomeçava por um processo mais lento, porém contínuo, numa
sucessão de desvinculamentos e rupturas de suas próprias ligações
externas.
"O que posso
considerar... Que as lições são velhas?... Mas que lições?" Em plena luz
do dia surgiam diante dos seus olhos balões-de-ar de todos os tamanhos.
"O homem nada faz nos dias de hoje, senão pesar as nossas paixões..."
Alma chegava à porta, trôpega, sem reconhecer a própria rua onde morara
em toda a sua vida. Invariavelmente, confundia a porta de sua casa. Era
o exato momento em que a memória vinha roubar-lhe mais uma lembrança:
Não. Não é aqui!
Não conheço. Não sei
quem é...
Não!
Não. Não mora aqui!
As bolas desabrochavam,
impetuosamente, desarticuladas, como inocentes bolhas de sabão. Alma
contemplava, resignada, a desfaçatez daquelas estranhas figuras,
argüindo-a, ameaçando-a com a inquisição dentro de sua própria casa.
"Mal a carruagem fúnebre sumiu no final da rua, Zai colocou essas
mulheres horríveis em minha casa. Não sei quem são!... São as tais tias
de Minas... Elas são muito velhas. Todos os dias, eu me deparo com uma
mulher horrorosa vagando pela casa, macaqueando diante dos meus
espelhos..." Elevava a ponta do vestido até ao nariz para colher fluidos
melancólicos:
Eu não deixei nada
queimando. Pus algo no fogo, já que você não chegava; vim atender à
porta e esbarro com essas mulheres espocando as minhas bolas... Eu não
deixei nada a queimar, Zai! Que mania; eu já lhe disse; eu vim atender à
porta... O que eu posso fazer se a toda hora tem gente procurando alguém
que eu não conheço? Suma com essas mulheres daqui!... Suma com essas
mulheres da minha vida!... Elas não me deixam em paz. À noite, elas me
prendem no escuro e riem de mim; elas é que estão ficando loucas! Você
que está ficando louco! Louco, sim!... Mexeu na estrutura da casa, criou
um labirinto da porta da rua até a sala; um corredor esquisito, em forma
de cone, do quarto até a cozinha; não sei o que seria de mim, se a minha
bisavó não aparecesse todas as tardes para acender a lamparina e molhar
a minha língua com aquela sopa! Zai, você some por dias sem conta,
depois entra aqui com as mãos cheias de ferramentas e sai que nem
vejo!...
Outro dia, aqui por
essa janela, passou um vento devastador; deixou-me o couro e os ossos,
além das vestes! Ontem ele voltou aqui e abriu um rio aos meus pés. Cadê
você que não ouve o meu lamento! Choro e uivo, com medo da correnteza
que arrasta os meus lençóis... Onde você se esconde nessas horas? Oh,
Zai! Fui posta de lado, como sua sombra. Nunca tive domínio dos meus
atos!... Quando ganhei contornos e quis entrar na sua vida, você
arrancou-me, como não se faz nem com as asas de um inseto. O que sou
hoje, depois de ver a minha vida devastada?... Estou num precipício a
caminho do nada! Restam-me somente uma bolha ínfima e uma luz
esmaecendo! Quando vier o vento e varrer tudo de mim... Aí, sim. Rolarei
por esse abismo; e quando chegar ao poço de mim mesma, eu serei pedra!
Eu serei nada!
Conto extraído do livro: O BAILADO HUMANO, do escritor CARLOS KAHÊ.
Outros livros do escritor baiano: SANGUE NA RUA DAS FLORES, lançado em
2002, pela Editora Helvécia; O TEMPO VENCE O REI Os melhores anos de
nossas vidas; O SANTO SELVAGEM A odisséia de um condenado; UM RIO PERENE
Uma aliança entre os homens; PÁSSAROS MUDOS A saga de um anjo-caído e
FRUTOS AMARGOS Ilusão e suor nas terras do cacau.
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