Ilustração: Christine Pangilinan
 

 

Vinho

Coloquei a mão na boca. Respirava. O pai tinha deitado e dormia. A certeza é uma dúvida mentirosa. Toda vez que acontecia, era assim. A mãe saía para trabalhar e lá estava eu. Do lado do pai. Colocava a mão no peito. Um tumtum baixo. Um surdo compassado que vinha lá de trás. Tum. Tum. Tum. E o pai não fazia nenhum barulho. Quando ele dava uma resfolegada, por conta do vinho que tinha bebido, eu quase tinha certeza. Chegava perto e pegava na mão. Estava quente. Mas, mesmo assim, também não tinha certeza. Naquele dia a mãe não voltou do trabalho. Eu estava pronto para abrir a porta. Esperar que ela chegasse resmungando do dia, do chefe, do trabalho, do trânsito, de qualquer coisa, mas sempre resmungando. Eu não me importava. Pelo menos eu sabia que nessas horas o pai levantava. E eu tinha certeza que ele estava vivo. Antes, não. Antes, era o vinho. E o pai deitado no sofá da sala. Dormi deitado com a cabeça em seu peito. Vez em quando acordava e escutava o tum do surdo da bateria fúnebre de samba melancólico. Não que eu pensasse nisso. Mas só de pensar que o pai podia estar morto, eu chorava. Chorava sempre. Aquele samba, mesmo que melancólico, mesmo que triste, me deixava vivo. Acordei e fui fazer um café. Quem sabe o pai não acordava? Ou a mãe chegasse, atrasada, resmungando mais ainda por conta disso. Terminei de fazer o café, fraco como o pai gostava, e me arrumei para ir para a aula. Não saí. O pai não levantava e eu já estava ficando nervoso. Peguei no pulso. Quente. Eu queria saber onde a mãe estava. Liguei pro trabalho dela. Ninguém atendeu. Pensei em chamar a polícia, mas a mãe ia resmungar ainda mais e isso podia deixar o pai nervoso. Se o pai ficasse nervoso, ele podia morrer. A última coisa que eu queria era que o pai morresse. Eu não ia suportar. Encostei a cabeça no peito. Coloquei a mão perto da boca. Vivo. Ou eu achei que estava. Não saí de casa. Liguei a televisão e comecei a assistir o noticiário da manhã. Assisti televisão o dia todo. Vez ou outra levantava do chão e saía do lado do pai para ir comer algo na cozinha. Pensei em acordar o pai pra perguntar se ele não queria comer nada. Mas eu não ia acordar o pai. Vai que ele tomasse um susto e passasse mal e morresse. E, depois, a mãe ia resmungar muito mais por eu ter acordado ele antes de ele sentir vontade de acordar. Passaram dois dias e o pai nem se mexia. Mas eu sabia, ou achava que sabia, que ele estava vivo. Até peguei um termômetro e tirei a temperatura. 37°C. Totalmente vivo. E saudável. Ligaram do colégio perguntando porque eu não estava indo as aulas. Pediram para falar com a mãe. Eu disse que ela não estava. Pediram pra falar com o pai. Falei que ele estava dormindo. Acredito que desconfiaram que era mentira, pois naquele dia ligaram mais duas ou três vezes e sempre repeti a mesma história. Sempre é mais difícil acreditar na verdade quando já temos a versão pronta. É o que o meu pai sempre falava quando minha mãe reclamava, e como reclamava, dos dias em que ele chegava em casa, tarde, depois do vinho, sempre depois do vinho, e contava a história do amigo que precisou ajudar, do outro que estava cheio de problemas e do possível emprego que ele ia arranjar, e ele nunca arranjava, com o melhor amigo da semana que, por acaso, ele encontrava no vinho. Sempre no vinho. Mas depois disso, e de muito resmungar, a mãe beijava ele e o levava pelo braço até o sofá. E ele dormia. Ou morria. Como estava agora. Uma semana depois. Eu sabia que uma hora iria ter que sair. A comida estava terminando e eu não tinha dinheiro. Não ia mexer na carteira do pai. Vai que a mãe descobrisse, não é? Pro trabalho da mãe eu ligava todos os dias. Na verdade liguei para todas as empresas em que eu pudesse imaginar que ela poderia estar trabalhando. Depois de um tempo, cansei. E, além do mais, podia aumentar muito a conta do telefone. A mãe já trabalhava muito pra pagar o vinho. Não sobrava muito pra essas regalias. Mas, com medo de voltar e encontrar o pai morto, eu desistia. O tempo foi passando e eu fui ficando fraco. O pai, não. Sempre no tum surdo baixo melancólico. Eu também já mais dormia que ficava acordado. Depois de um mês, e eu estava bem mais magro, ao contrário do pai, com aquele barrigão e as resfolegadas do vinho fazendo umas visitas, sempre forte. Foi quando abriram a porta. Eu abri os olhos, estava dormindo, e enxerguei um vulto. Meus olhos estavam fracos. O que pensei ser minha mãe, era um homem de terno seguido de outros três muito apressados. Tentaram acordar meu pai. Do resto eu não me lembro, pois também tinha morrido.

MARCELO BENVENUTTI nasceu em Porto Alegre e publicou "Vidas Cegas", pela Livros do Mal, "O Livro Laranja" e recentemente "O Ovo Escocês"