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Ventura no Acampamento
Barulheira
Houve comoção no Acampamento Barulheira. Não poderia ter sido uma briga,
em 1850 isso não era caso para juntar todos do acampamento. Não só as
valas e as minas estavam desertas, mas até do "Armazém do Tuttle" tinham
saído jogadores que, aliás, como todos se lembram, continuaram jogando
tranqüilamente no dia em que French Pete e Kanaka Joe se mataram a tiros
na sala do bar. Todo o acampamento estava reunido em frente a uma cabana
rude, na periferia da concessão. Falava-se em voz baixa, e o nome de uma
mulher era freqüentemente repetido. Um nome muito familiar no
acampamento: "Cherokee Sal".
Quanto menos dela falarmos, tanto melhor. Era uma mulher grosseira e,
como é de imaginar, muitíssimo pecadora. Mas nessa ocasião era a única
mulher no Acampamento Barulheira e estava deitada naquela extrema
aflição justamente quando mais necessitava de amparo feminino.
Dissoluta, abandonada e incorrigível, estava, contudo, sofrendo um
martírio duro demais para se suportar, mesmo quando se vê cercada de
mulheres compreensivas, e tornado mais terrível pela solidão em que ela
agora se encontrava. A maldição do pecado original a fulminara, nesse
mesmo isolamento primitivo que devia ter tornado tão terrível o castigo
da primeira transgressão. Era talvez parte da expiação de seus pecados o
ver-se assim nesse momento, quando mais precisava do intuitivo carinho e
cuidado femininos, rodeada só pelas caras meio desprezadoras dos seus
companheiros masculinos. Contudo, alguns dos espectadores parece que
estavam comovidos com o seu sofrimento. Sandy Tipton pensou que "Sal
passava um mau pedaço" e, vendo a sua situação, chegou a esquecer de que
tinha na manga, um ás e dois valetes.
Deve-se, porém, notar que a situação era inédita. Mortes não eram
incomuns no Acampamento Barulheira, mas um nascimento era novidade.
Muita gente se despedira do campo para sempre e sem possibilidades de
voltar, mas era a primeira vez que alguém entrava lá ab initio. Daí toda
a excitação.
"Vá lá dentro, Stumpy" - disse um cidadão preeminente, conhecido por
"Kentuck", dirigindo-se a um dos ociosos, - "vá lá dentro e veja o
que pode fazer. Você tem experiência dessas coisas."
Talvez uma escolha acertada. Stumpy, em outra região, fora exemplar
chefe de duas famílias, pela circunstância de ter-se esquecido, nos seus
casamentos, de algumas formalidades legais, e a isso é que o Acampamento
Barulheira, - uma cidade refúgio -, devia a honra da sua presença. A
multidão aprovou a escolha e Stumpy teve o bom senso de curvar-se diante
da maioria. Fechou-se a porta sobre o improvisado parteiro-cirurgião e o
Acampamento Barulheira sentou-se do lado de fora, fumando cachimbo e
aguardando os acontecimentos.
A assembléia contava aproximadamente cem homens. Um ou dois eram
foragidos da justiça; alguns eram criminosos e todos estavam temerários.
Fisicamente eles não exibiam nenhum indício de suas vidas pregressas e
de seu caráter. O mais malandro de todos tinha uma cara rafaelesca, com
profusão de cabelos louros. Oakhurst, um jogador, possuía o ar
melancólico e a abstração intelectual de um Hamlet; o mais frio e
corajoso mal tinha cinco pés de altura, com uma voz meiga e uma maneira
envergonhada, tímida. O termo "rudes", aplicado a eles, era antes uma
distinção do que uma definição. Talvez se possa dizer que o acampamento
era, talvez, um tanto deficiente em pormenores como dedos, artelhos,
orelhas, etc., mas estas insignificantes omissões não lhes diminuía a
força. O mais forte dos homens tinha apenas três dedos na mão direita; o
melhor atirador tinha apenas um olho.
Tal era o aspecto físico dos homens que se reuniam à volta da cabana. O
acampamento estava situado num vale triangular, entre colinas e um rio.
A única saída era uma trilha íngreme pelo cimo de uma colina em frente
da cabana agora iluminada pela lua nascente. Da tosca cama, a pobre
mulher poderia tê-la visto serpenteando como um fio de prata, até se
perder lá em cima, entre as estrelas.
Um fogo de galhos secos avivava a disposição da turma. Pouco a pouco
voltou a natural frivolidade do Acampamento Barulheira.
Fizeram-se apostas quanto ao resultado. Três contra cinco em como Sal
escapava e a criança sobrevivia. Outras apostas quanto ao sexo e à
aparência do estranho vindouro. No meio de um acalorado debate, ouviu-se
uma exclamação dos que estavam mais próximos da porta e o acampamento
parou para escutar. Entre o balouçar e ruídos dos pinheirais, da
corredeira do rio e do crepitar do fogo, ecoou um grito agudo, queixoso,
um grito como nunca se ouvira no acampamento. O pinheiral cessou de
balouçar, o rio deixou de correr e o fogo de crepitar. Parecia que a
própria Natureza também parara para escutar.
O acampamento levantou-se como um só homem! Foi proposto explodir um
barril de pólvora, mas, considerando-se a situação da mãe, prevaleceu
idéia melhor: o de só descarregarem alguns revólveres; pois fosse devido
à cirurgia elementar do campo, ou a outra coisa qualquer, Cherokee Sal
piorava rapidamente. Bastou uma hora para ela subir aquela íngreme
estrada que ia ter às estrelas e sair para sempre do Campo Barulheira,
do seu pecado e da sua vergonha. Não acredito que esta notícia
perturbasse muito, a não ser pelas especulações sobre o destino da
criança. "Viverá?", perguntaram a Stumpy. A resposta foi duvidosa. O
único ser vivo do sexo e das condições maternais de Cherokee Sal que
havia na concessão era uma burra. Havia alguma dúvida quanto a
conveniência, mas a experiência foi testada. Era menos problemática
que o antigo sistema de Rômulo e Remo, e aparentemente mais eficaz.
Quando estes detalhes estavam resolvidos, que levaram outra exaustiva
hora, a porta se abriu e o ansioso grupo de homens que já se formara
numa fila só, entrou, um a um. Ao lado do beliche ou estante, em que se
desenhava por baixo dos lençóis, fortemente, face lívida da mãe, estava
uma mesa de pinho. Em cima dela, uma caixa de velas e, dentro dela,
envolto numa flanela vermelha, o recém-chegado ao Acampamento
Barulheira. Junto à caixa, um chapéu. Sua utilidade foi logo explicada.
"Senhores" - disse Stumpy, com singular mistura de autoridade e de
complacência ex-officio, - "por favor tenham a bondade de entrar pela
porta da frente, dar a volta na mesa e sair pela porta dos fundos. Os que
quiserem contribuir com alguma coisa para o orfãozinho podem deixar o
que quiserem neste chapéu. O primeiro que entrou o fez com o chapéu na
cabeça, mas depois, olhando em volta de si, descobriu-se, dando, assim,
inconscientemente, um exemplo aos que se lhe seguiram. Em comunidades
desta espécie, todas as ações, boas ou más, são imediatamente imitadas.
Enquanto a procissão desfilava, ouviam-se variados comentários e
críticas, dirigidos principalmente a Stumpy, na sua qualidade de
apresentador: Então, é ele?", "Que coisa pequenina!", "Não tem cor
nenhuma", "Não é maior que uma pistola!" As contribuições não eram menos
características: uma cigarreira de prata; um dobrão espanhol; um
revólver da marinha, incrustado em prata; uma amostra de ouro; um lenço
feminino, lindamente bordado (do jogador Oakhurst); um alfinete para
gravata, de diamante; um anel de diamante (sugerido pelo alfinete,
dizendo o doador que, "vi aquele alfinete e dou dois diamantes a mais");
uma Bíblia (não se descobriu o doador); uma espora de ouro; uma colher
de prata (as iniciais, lamento dizer, não eram as do doador); uma
tesoura de cirurgião; uma lanceta; uma nota de cinco libras do Banco da
Inglaterra; e perto de duzentos dólares em moedas de ouro e prata.
Enquanto isso, Stumpy mantinha-se impassível e silencioso, como a morta
à sua esquerda; grave e imperturbável como o recém-nascido à sua
direita. Só aconteceu um incidente para quebrar a monotonia daquela
curiosa procissão. Quando Kentuck curiosamente se curvou sobre a caixa,
o pequenino, num espasmo de dor, agarrou-lhe um dos dedos e segurou-o.
Kentuck ficou nervoso, enleado. Veio-lhe ao rosto crestado e curtido um
ligeiro rubor. "Maldito demoninho!" - exclamou ele, tirando o dedo com
mais meiguice e cuidado do que se podia esperar dele. Ao sair, ia com o
dedo separado dos outros, examinando-o curiosamente. O exame provocara a
mesma observação original a respeito da criança. De fato, ele parecia
alegre ao repeti-lo. "Brincou com o meu dedo" disse ele a Tipton, de
dedo em riste; "Maldito demoninho!".
Só às quatro horas é que o acampamento foi descansar. Ficou acesa uma
luz na cabana, onde estavam os veladores, pois Stumpy não foi para a
cama nesta noite. Nem Kentuck. Este bebeu a valer e contava, muito
satisfeito, a sua experiência, terminando invariavelmente com a
condenação característica. Parecia que isso o aliviava grandemente de
qualquer injusta suspeita sentimental, porque Kentuck tinha as fraquezas
do sexo forte. Quando todos foram dormir, ele caminhou até o rio,
assobiando pensativo. Depois caminhou pelo vale, passou pela cabana,
sempre assobiando, parecendo despreocupado. Estacou diante de uma árvore
e tornou a passar pela cabana. Parou mais além, a meio caminho do rio,
voltou resoluto e bateu à porta. Foi aberta por Stumpy. "Como vai indo
aí?" - perguntou Kentuck, olhando em direção à caixa de velas. "Tudo
sereno" - respondeu Stumpy. "Nada de novo?". "Nada". Seguiu-se uma pausa
- embaraçosa - Stumpy continuava segurando a porta. Então Kentuck
recorreu ao dedo; mostrou-o a Stumpy: "Brincou com ele, maldito demoninho!" - disse, e retirou-se.
No outro dia, Cherokee Sal teve a rude sepultura que podia encontrar no
Acampamento Barulheira. Logo depois do corpo ter sido depositado na
encosta da colina, houve uma reunião formal do Acampamento para discutir
o que deveria ser feito com a criança. A resolução de adotá-lo foi
absoluta, unânime e entusiasta. Mas levantou-se uma discussão animada
sobre a maneira e possibilidade de satisfazer às suas necessidades, e o
que tornou principalmente notável essa discussão foi não ter havido nela
as injúrias habituais nos debates do Acampamento Barulheira. Tipton
propôs que o pequeno fosse levado para Red Dog, a quarenta milhas dali,
- onde poderia ser procurada uma ama. Mas essa infeliz proposta teve por
parte de todos feroz oposição. Era claro que não se discutiria plano
algum que incluísse separarem-se do pequeno. "Além do mais" - observou
Tom Rider - "eles são capazes de ficar com o pequeno e nos impingir
outro". Uma descrença na honestidade dos outros acampamentos prevalecia
no Acampamento Barulheira como em qualquer outro.
A contratação de uma ama também encontrou objeções. Alegou-se que
nenhuma mulher decente viria ao Acampamento Barulheira, e era inabalável
a resolução de "não consentir ali outras daquela espécie". Esta alusão
um tanto desagradável à falecida mãe, por rude que parecesse, era o
primeiro sintoma de regeneração do Acampamento. Stumpy não dizia nada.
Tinha um certo melindre em intervir na escolha de um sucessor. Mas,
quando o interrogaram, não hesitou um segundo em afirmar que ele e
Jinny, o mamífero antes lembrado, podiam criar o menino. Havia algo de
original, de independente e de heróico nesse plano, que agradou a todos.
Stumpy foi nomeado. Mandou-se buscar alguns artigos em Sacramento.
"Traga o melhor, ouviu?" - recomendou o tesoureiro, pondo na mão do
mensageiro um saco de ouro em pó. "Rendas, ouviu? Sedas, filigranas,
rufos!... Custe o que custar! Ao diabo a despesa!" Coisa estranha: o
menino viveu. Talvez o clima puro do acampamento montanhês lhe
compensasse as deficiências materiais. A natureza aconchegou o menino ao
seu amplo seio. Naquela rara atmosfera das colinas da Sierra, naquele ar
impregnado de aromas balsâmicos e de cordiais etéreos, pode ser que
encontrasse o verdadeiro alimento, ou uma química sutil, que dava ao
leite da burra o fósforo e o cálcio necessários. Stumpy inclinava-se a
atribuir que era por causa disso e dos seus cuidados: "Eu e aquela
burra" - dizia, "temos sido o pai e a mãe dele! e você", acrescentava
afrontando o embrulhinho de flanela - "nunca se volte contra nós".
Quando fez um mês, viu-se que era preciso dar-lhe um nome. Até ali lhe
chamavam "O Menino", o "rapaz do Stuxnpy", "O Coiote" (uma alusão aos
seus dotes vocais) e até mesmo, como dizia Kentucky, "o diabo do
pequeno". Mas logo sentiram que isso era muito vago e pouco
satisfatório, e o abandonaram sob outra influência. Os jogadores
geralmente são supersticiosos e Oakhurst um dia declarou que o menino
trouxera ventura ao Acampamento. O certo é que estavam mesmo sendo
felizes. Adaptou-se, pois, sem mais aquelas, o nome de "Ventura",
precedendo-o de Tom, para maior decoro. Nenhuma alusão foi feita à mãe,
e o pai era desconhecido.
- É melhor - disse o filosófico Oakhurst - começar tudo de novo. Vamos
chamá-lo de Ventura: é um bom começo. Marcou-se um dia para o batizado.
O que se entendia por essa cerimônia, o leitor, que conhece os costumes
irreverentes do Acampamento, bem pode imaginar.
O mestre de cerimônias, um tal Boston, notável trocista, levou dois dias
para preparar uma paródia do serviço da Igreja com finas alusões locais,
e a ocasião prometia ser engraçada. O coro foi devidamente ensaiado e
Tipton devia ser o padrinho. Mas, depois de a procissão ter caminhado
para o bosque, com música e bandeira diante de um burlesco altar, Stumpy
saiu da multidão:
- Não sou homem, rapazes - disse ele asperamente, que desmanche
brincadeiras, mas estou achando que isto não é direito. Não acho
absolutamente graça alguma em se estar troçando assim com um pequeno que
não entende a troça. E quanto ao padrinho, acho que ninguém tem mais
direito de sê-lo do que eu.
Devemos dizer, para crédito de todos os humoristas, que Boston foi o
primeiro a reconhecer a verdade destas palavras.
- Mas - continuou Stumpy aproveitando sua vantagem - estamos aqui para
um batizado e havemos de tê-lo. Eu te proclamo Tom Ventura, segundo as
leis dos Estados Unidos e da Califórnia, e assim Deus me ajude.
Fórmula um tanto absurda, mas em que o nome de Deus, pela primeira vez,
foi proferido no Acampamento Barulheira sem ser blasfêmia. A forma do
batizado foi ainda mais absurda do que Boston imaginara, mas a verdade é
que ninguém riu. Tom foi batizado tão seriamente como não o seria melhor
sob teto cristão, e chorou e foi consolado da maneira mais ortodoxa.
E foi assim que teve início a obra de regeneração do Acampamento
Barulheira.
Imperceptivelmente, introduziram-se mudanças no acampamento. Começou-se
a sentir isso na cabana destinada a "Tom Ventura" ou a "Ventura" como
era freqüentemente chamado. Conservava-se sempre muito bem limpa e
pintada. Foi reformada, equipada e lixada. Mandaram buscar, numa mula, a
oitenta milhas, um berço de pau-rosa que, no dizer de Stumpy, "matou o
resto da mobília", de modo que se tornou indispensável a reforma da
cabana. Os homens que costumavam ir visitar Tom na cabana de Stumpy
começaram a gostar e a se interessar pela mudança, de tal forma que, em
seu próprio interesse, o rival do Mercado de Tuttle, estimulado,
arriscou colocar a venda um tapete e espelhos. A influência desses
objetos na aparência do Acampamento Barulheira foi impressionante. Gerou
hábitos mais rígidos de higiene pessoal. Mesmo porque o zeloso Stumpy
impunha uma espécie de quarentena àqueles que aspiravam à honra e ao
privilégio de segurar o menino.
Era uma mortificação cruel para o coitado do Kentucky - que, na
liberdade da natureza e dos hábitos de vida da fronteira, sempre
considerara a roupa como uma segunda epiderme, que, como a da cobra, só
caía quando podre - ver-se impedido do seu privilégio por razões de
prudência. A sutil influência da inovação, porém, foi de tal ordem que
ele começou a aparecer todas as tardes com uma camisa lavada e o rosto
ainda luzidio e avermelhado de seus demorados banhos. Nem foram
negligenciadas leis sanitárias morais e sociais. Era preciso não haver
barulho para que o Tom pudesse dormir e, suposto que o menino havia de
passar a vida numa tentativa permanente de repouso, a barulheira, que
dera ao Acampamento o seu infeliz nome, não era permitida nos arredores
da cabana de Stumpy.
Os homens conversavam, em voz baixa, ou fumavam com uma gravidade índia.
E, como tacitamente naqueles sagrados recintos se abandonaram as
blasfêmias, a forma popular "Desaventurado!", foi completamente
esquecida por serem alusão pessoal. A cantoria não era proibida, visto
que lhe atribuíam poderosas propriedades tranqüilizantes; e a canção do
"Fuzileiro Jack", marinheiro inglês que servira na Armada da colônia
australiana de Sua Majestade, acabou como popular cantiga de ninar. Era
uma narrativa lúgubre das façanhas do "Arethusa 74", num tom abafado,
que terminava sempre no fim de cada verso com um estribilho "a b-o-r-d-o
do Arethusa", esticada agonia de cadência. Era bonito ver Jack a embalar
Tom, imitando o balanço do navio e sussurrando a sua naval cantilena. Ou
por causa do embalo, ou do comprimento da cantiga, que tinha noventa
estrofes e era cantada com firme consciência até a dolorossíssima
conclusão, e conseguia geralmente o efeito desejado. Nessas ocasiões, os
homens se estendiam debaixo das árvores, nos doces crepúsculos do estio,
fumando os seus cachimbos e saboreando essa melodia. Uma vaga idéia de
que aquela era bem a felicidade pastoril invadia o acampamento.
- Isto é celestial - dizia um tal Simmons, inclinando-se pensativamente
sobre o cotovelo. E se recordava de Greenwich.
Nos longos dias de verão, Tom era levado pelos mineiros para a ravina de
onde tiravam o ouro do Acampamento Barulheira. Acomodado à sombra, sobre
uma cama de ramos de pinheiros, Tom ali ficava, enquanto os homens
escavavam a terra. Houve depois a idéia de lhe adornarem a cama
improvisada com flores silvestres e ramos cheirosos, e, ora um, ora
outro, deixava ocasionalmente o trabalho para trazer-lhe um ramo de
madressilvas selvagens, azaléias, ou as flores pintadas de Las Mariposas
para ele. Só então esses homens viram que havia beleza e utilidade nessa
ninharia, que -até ali eles tinham pisado com tanta indiferença. Um
pedaço de mica reluzente, um fragmento bonito de quartzo, um seixo
brilhante do rio, tornavam-se belos e úteis para esses olhos agora
esclarecidos e abertos, e eram, invariavelmente, postos de lado para o
menino. Era incrível o que havia de precioso por aqueles bosques e
outeiros que servisse para Tom. Cercado de brinquedos, como nunca os
teve criança nenhuma, a não ser no reino das fadas, Tom devia estar
satisfeito. Assim parecia, realmente, apesar de ter uma gravidade
infantil e, às vezes, uns relâmpagos contemplativos nos olhos pardos,
que impressionavam Stumpy.
Estava sempre quietinho, não podia ser mais meigo, e conta-se que, tendo
uma vez trepado num monte de ramos de pinheiro, que limitava a área de
ele caminhar, caiu e ficou de cabeça para baixo, na terra fofa, de
perninhas para o ar, conservando-se assim sem dar um grito, quase uns
cinco minutos, até que o foram levantar. Hesito em contar muitos outros
exemplos da sua sagacidade, porque infelizmente se baseiam apenas em
declarações de amigos parciais. Alguns não deixavam de ter um colorido
vivo de superstição.
- Eu acabo agorinha mesmo de subir a margem do rio - disse Kentucky,
certa vez, num estado de ofegante hesitação - e arranquem-me a pele se o
diabo do pequeno não estava conversando com um passarinho que lhe
pousara no colo. Eles estavam tão amigos e tão à vontade que pareciam
dois passarinhos mesmo.
Subindo nos montes de pinhas, ou ficando de barriga para cima, deitado,
a olhar para as folhas tremulantes das árvores, era para ele, o
pequenino Tom, que os pássaros cantavam, que os esquilos pulavam e que
as flores do campo recendiam. A natureza era a sua ama e a sua doce
companheira de brincadeiras. Era para ele que deixava os raios de sol se
insinuarem através da ramaria espessa; enviava brisas errantes a
visitá-lo com o bálsamo dulcificante do loureiro e das gomas resinosas;
para ele, inclinavam-se as altas sequóias, zumbiam as abelhas, e as
gralhas embalavam-no com suas vozes dormentes.
Assim se passava o dourado verão no Acampamento Barulheira. Eram tempos
de abundância e a sorte estava com eles. As concessões produziam
copiosamente. O Acampamento tinha ciúmes de seus privilégios e olhava os
forasteiros com suspeição. A imigração não era encorajada e para tornar
mais perfeita a reclusão do Acampamento, as terras laterais da montanha
que o circundavam foram declaradas de sua propriedade. Isso, e mais a
fama da rapidez de seus revólveres, tornavam o Acampamento
inviolável. O correio - seu único meio de comunicação com o mundo
exterior - contava dele histórias maravilhosas.
- Há uma rua no Acampamento Barulheira - dizia - que põe no chão a
melhor de Red Dog. Há vinhedos e flores em volta das casas e os homens,
podem crer, tomam banho duas vezes por dia!!!... São rudes para com os
estrangeiros e adoram uma criança.
Com a prosperidade do Campo, vieram desejos de melhoramentos.
Combinou-se construir um hotel na próxima primavera e convidar duas ou
três famílias decentes para irem morar lá por causa do pequeno, que
poderia lucrar com a companhia de mulheres. O sacrifício que esta
concessão ao sexo frágil custou àqueles homens, que eram completamente
céticos a respeito da sua virtude e utilidade, pode dar uma pálida
idéia de sua afeição a Tom. Houve alguns poucos que resistiram. Mas tal
resolução não podia ser levada a efeito senão dentro de três meses, e a
minoria cedeu, com a esperança de que alguns obstáculos surgissem. Assim
foi.
O inverno de 1851 será lembrado por muito e muito tempo naqueles vales.
A neve caia abundantemente nas Sierras; cada riacho era um rio, cada rio
um vasto lago. Cada desfiladeiro se transformou numa torrente tumultuosa
que descia pelas encostas, derrubando árvores gigantescas, arrastando-as
na impetuosidade das águas e espalhando sua correnteza e escombros ao
longo da planície. Red Dog estivera duas vezes submersa e o Acampamento
Barulheira fora prevenido.
- A água trouxe ouro a estes vales. Ela já esteve
aqui uma vez, e há de
voltar - dizia Stumpy. E nessa noite, o Rio do Norte saiu subitamente do
seu leito e inundou todo o vale triangular do Acampamento Barulheira.
Na confusão da água que se despenhava, das árvores que rangiam e da
escuridão sem fim que parecia correr com a água, pouco ou nada se podia
fazer para salvar o Acampamento. Quando rompeu a manhã, a cabana de
Stumpy, que estava mais próxima do rio, desaparecera. Pouco acima
encontraram o corpo do seu infeliz dono; -mas o orgulho, a esperança, a
alegria, a ventura do Acampamento Barulheira, tinha desaparecido.
Voltaram todos com o coração mais negro do que a trágica noite. Um grito
que vinha do rio os acordou.
Era uma canoa de socorro que subia a corrente. Tinham apanhado, diziam
eles, um homem e uma criança, quase sem forças, mais ou menos duas
milhas abaixo. Alguém, por acaso conhecia-os? São daqui?
Bastou um relancear de olhos para verem que era Kentucky, estendido,
cruelmente esmagado e mutilado, mas segurando ainda nos braços a Ventura
do Acampamento Barulheira. Quando se abaixaram para aquele par tão
extremadamente abraçado, viram que o pequeno estava frio e sem pulso.
- Está morto! - gemeu um.
Kentucky abriu os olhos molemente.
- Morto? - repetiu fracamente.
- Sim, meu velho, e tu estás morrendo também.
Um doce sorriso iluminou os olhos do agonizante Kentucky.
- Morrendo, eu! - repetiu. - É que Tom me leva com ele; digam aos
rapazes que não tenham medo; Tom vai bem comigo.
E aquele homem rústico e forte agarrou-se àquela criança como um homem
que se afoga se agarra a uma palha, e lá se foi boiando na corrente
sombria que se dirige sempre, sempre, para o grande mar desconhecido.
Francis BRET HARTE
nasceu em Albany, New York em 1839. Em 1854 transferiu-se para a
California, onde trabalho como mineiro professor e jornalista. O conto
"Ventura no Acampamento Barulheira" publicado no Overland Monthly
trouxe-lhe fama imediata. Em 1878 foi nomeado consil para uma cidade
alemã e mais tarde para Glasgow, Escócia. Faleceu em Camberely,
Inglaterra, em 1902.
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