Ventura no Acampamento Barulheira

Houve comoção no Acampamento Barulheira. Não poderia ter sido uma briga, em 1850 isso não era caso para juntar todos do acampamento. Não só as valas e as minas estavam desertas, mas até do "Armazém do Tuttle" tinham saído jogadores que, aliás, como todos se lembram, continuaram jogando tranqüilamente no dia em que French Pete e Kanaka Joe se mataram a tiros na sala do bar. Todo o acampamento estava reunido em frente a uma cabana rude, na periferia da concessão. Falava-se em voz baixa, e o nome de uma mulher era freqüentemente repetido. Um nome muito familiar no acampamento: "Cherokee Sal".

Quanto menos dela falarmos, tanto melhor. Era uma mulher grosseira e, como é de imaginar, muitíssimo pecadora. Mas nessa ocasião era a única mulher no Acampamento Barulheira e estava deitada naquela extrema aflição justamente quando mais necessitava de amparo feminino. Dissoluta, abandonada e incorrigível, estava, contudo, sofrendo um martírio duro demais para se suportar, mesmo quando se vê cercada de mulheres compreensivas, e tornado mais terrível pela solidão em que ela agora se encontrava. A maldição do pecado original a fulminara, nesse mesmo isolamento primitivo que devia ter tornado tão terrível o castigo da primeira transgressão. Era talvez parte da expiação de seus pecados o ver-se assim nesse momento, quando mais precisava do intuitivo carinho e cuidado femininos, rodeada só pelas caras meio desprezadoras dos seus companheiros masculinos. Contudo, alguns dos espectadores parece que estavam comovidos com o seu sofrimento. Sandy Tipton pensou que "Sal passava um mau pedaço" e, vendo a sua situação, chegou a esquecer de que tinha na manga, um ás e dois valetes.

Deve-se, porém, notar que a situação era inédita. Mortes não eram incomuns no Acampamento Barulheira, mas um nascimento era novidade. Muita gente se despedira do campo para sempre e sem possibilidades de voltar, mas era a primeira vez que alguém entrava lá ab initio. Daí toda a excitação.

"Vá lá dentro, Stumpy" - disse um cidadão preeminente, conhecido por "Kentuck", dirigindo-se a um dos ociosos, - "vá lá dentro e veja o que pode fazer. Você tem experiência dessas coisas."

Talvez uma escolha acertada. Stumpy, em outra região, fora exemplar chefe de duas famílias, pela circunstância de ter-se esquecido, nos seus casamentos, de algumas formalidades legais, e a isso é que o Acampamento Barulheira, - uma cidade refúgio -, devia a honra da sua presença. A multidão aprovou a escolha e Stumpy teve o bom senso de curvar-se diante da maioria. Fechou-se a porta sobre o improvisado parteiro-cirurgião e o Acampamento Barulheira sentou-se do lado de fora, fumando cachimbo e aguardando os acontecimentos.

A assembléia contava aproximadamente cem homens. Um ou dois eram foragidos da justiça; alguns eram criminosos e todos estavam temerários. Fisicamente eles não exibiam nenhum indício de suas vidas pregressas e de seu caráter. O mais malandro de todos tinha uma cara rafaelesca, com profusão de cabelos louros. Oakhurst, um jogador, possuía o ar melancólico e a abstração intelectual de um Hamlet; o mais frio e corajoso mal tinha cinco pés de altura, com uma voz meiga e uma maneira envergonhada, tímida. O termo "rudes", aplicado a eles, era antes uma distinção do que uma definição. Talvez se possa dizer que o acampamento era, talvez, um tanto deficiente em pormenores como dedos, artelhos, orelhas, etc., mas estas insignificantes omissões não lhes diminuía a força. O mais forte dos homens tinha apenas três dedos na mão direita; o melhor atirador tinha apenas um olho.

Tal era o aspecto físico dos homens que se reuniam à volta da cabana. O acampamento estava situado num vale triangular, entre colinas e um rio. A única saída era uma trilha íngreme pelo cimo de uma colina em frente da cabana agora iluminada pela lua nascente. Da tosca cama, a pobre mulher poderia tê-la visto serpenteando como um fio de prata, até se perder lá em cima, entre as estrelas.

Um fogo de galhos secos avivava a disposição da turma. Pouco a pouco voltou a natural frivolidade do Acampamento Barulheira.

Fizeram-se apostas quanto ao resultado. Três contra cinco em como Sal escapava e a criança sobrevivia. Outras apostas quanto ao sexo e à aparência do estranho vindouro. No meio de um acalorado debate, ouviu-se uma exclamação dos que estavam mais próximos da porta e o acampamento parou para escutar. Entre o balouçar e ruídos dos pinheirais, da corredeira do rio e do crepitar do fogo, ecoou um grito agudo, queixoso, um grito como nunca se ouvira no acampamento. O pinheiral cessou de balouçar, o rio deixou de correr e o fogo de crepitar. Parecia que a própria Natureza também parara para escutar.

O acampamento levantou-se como um só homem! Foi proposto explodir um barril de pólvora, mas, considerando-se a situação da mãe, prevaleceu idéia melhor: o de só descarregarem alguns revólveres; pois fosse devido à cirurgia elementar do campo, ou a outra coisa qualquer, Cherokee Sal piorava rapidamente. Bastou uma hora para ela subir aquela íngreme estrada que ia ter às estrelas e sair para sempre do Campo Barulheira, do seu pecado e da sua vergonha. Não acredito que esta notícia perturbasse muito, a não ser pelas especulações sobre o destino da criança. "Viverá?", perguntaram a Stumpy. A resposta foi duvidosa. O único ser vivo do sexo e das condições maternais de Cherokee Sal que havia na concessão era uma burra. Havia alguma dúvida quanto a conveniência, mas a experiência foi testada. Era menos problemática que o antigo sistema de Rômulo e Remo, e aparentemente mais eficaz.

Quando estes detalhes estavam resolvidos, que levaram outra exaustiva hora, a porta se abriu e o ansioso grupo de homens que já se formara numa fila só, entrou, um a um. Ao lado do beliche ou estante, em que se desenhava por baixo dos lençóis, fortemente, face lívida da mãe, estava uma mesa de pinho. Em cima dela, uma caixa de velas e, dentro dela, envolto numa flanela vermelha, o recém-chegado ao Acampamento Barulheira. Junto à caixa, um chapéu. Sua utilidade foi logo explicada.

"Senhores" - disse Stumpy, com singular mistura de autoridade e de complacência ex-officio, - "por favor tenham a bondade de entrar pela porta da frente, dar a volta na mesa e sair pela porta dos fundos. Os que quiserem contribuir com alguma coisa para o orfãozinho podem deixar o que quiserem neste chapéu. O primeiro que entrou o fez com o chapéu na cabeça, mas depois, olhando em volta de si, descobriu-se, dando, assim, inconscientemente, um exemplo aos que se lhe seguiram. Em comunidades desta espécie, todas as ações, boas ou más, são imediatamente imitadas. Enquanto a procissão desfilava, ouviam-se variados comentários e críticas, dirigidos principalmente a Stumpy, na sua qualidade de apresentador: Então, é ele?", "Que coisa pequenina!", "Não tem cor nenhuma", "Não é maior que uma pistola!" As contribuições não eram menos características: uma cigarreira de prata; um dobrão espanhol; um revólver da marinha, incrustado em prata; uma amostra de ouro; um lenço feminino, lindamente bordado (do jogador Oakhurst); um alfinete para gravata, de diamante; um anel de diamante (sugerido pelo alfinete, dizendo o doador que, "vi aquele alfinete e dou dois diamantes a mais"); uma Bíblia (não se descobriu o doador); uma espora de ouro; uma colher de prata (as iniciais, lamento dizer, não eram as do doador); uma tesoura de cirurgião; uma lanceta; uma nota de cinco libras do Banco da Inglaterra; e perto de duzentos dólares em moedas de ouro e prata. Enquanto isso, Stumpy mantinha-se impassível e silencioso, como a morta à sua esquerda; grave e imperturbável como o recém-nascido à sua direita. Só aconteceu um incidente para quebrar a monotonia daquela curiosa procissão. Quando Kentuck curiosamente se curvou sobre a caixa, o pequenino, num espasmo de dor, agarrou-lhe um dos dedos e segurou-o. Kentuck ficou nervoso, enleado. Veio-lhe ao rosto crestado e curtido um ligeiro rubor. "Maldito demoninho!" - exclamou ele, tirando o dedo com mais meiguice e cuidado do que se podia esperar dele. Ao sair, ia com o dedo separado dos outros, examinando-o curiosamente. O exame provocara a mesma observação original a respeito da criança. De fato, ele parecia alegre ao repeti-lo. "Brincou com o meu dedo" disse ele a Tipton, de dedo em riste; "Maldito demoninho!".

Só às quatro horas é que o acampamento foi descansar. Ficou acesa uma luz na cabana, onde estavam os veladores, pois Stumpy não foi para a cama nesta noite. Nem Kentuck. Este bebeu a valer e contava, muito satisfeito, a sua experiência, terminando invariavelmente com a condenação característica. Parecia que isso o aliviava grandemente de qualquer injusta suspeita sentimental, porque Kentuck tinha as fraquezas do sexo forte. Quando todos foram dormir, ele caminhou até o rio, assobiando pensativo. Depois caminhou pelo vale, passou pela cabana, sempre assobiando, parecendo despreocupado. Estacou diante de uma árvore e tornou a passar pela cabana. Parou mais além, a meio caminho do rio, voltou resoluto e bateu à porta. Foi aberta por Stumpy. "Como vai indo aí?" - perguntou Kentuck, olhando em direção à caixa de velas. "Tudo sereno" - respondeu Stumpy. "Nada de novo?". "Nada". Seguiu-se uma pausa - embaraçosa - Stumpy continuava segurando a porta. Então Kentuck recorreu ao dedo; mostrou-o a Stumpy: "Brincou com ele, maldito demoninho!" - disse, e retirou-se.

No outro dia, Cherokee Sal teve a rude sepultura que podia encontrar no Acampamento Barulheira. Logo depois do corpo ter sido depositado na encosta da colina, houve uma reunião formal do Acampamento para discutir o que deveria ser feito com a criança. A resolução de adotá-lo foi absoluta, unânime e entusiasta. Mas levantou-se uma discussão animada sobre a maneira e possibilidade de satisfazer às suas necessidades, e o que tornou principalmente notável essa discussão foi não ter havido nela as injúrias habituais nos debates do Acampamento Barulheira. Tipton propôs que o pequeno fosse levado para Red Dog, a quarenta milhas dali, - onde poderia ser procurada uma ama. Mas essa infeliz proposta teve por parte de todos feroz oposição. Era claro que não se discutiria plano algum que incluísse separarem-se do pequeno. "Além do mais" - observou Tom Rider - "eles são capazes de ficar com o pequeno e nos impingir outro". Uma descrença na honestidade dos outros acampamentos prevalecia no Acampamento Barulheira como em qualquer outro.

A contratação de uma ama também encontrou objeções. Alegou-se que nenhuma mulher decente viria ao Acampamento Barulheira, e era inabalável a resolução de "não consentir ali outras daquela espécie". Esta alusão um tanto desagradável à falecida mãe, por rude que parecesse, era o primeiro sintoma de regeneração do Acampamento. Stumpy não dizia nada. Tinha um certo melindre em intervir na escolha de um sucessor. Mas, quando o interrogaram, não hesitou um segundo em afirmar que ele e Jinny, o mamífero antes lembrado, podiam criar o menino. Havia algo de original, de independente e de heróico nesse plano, que agradou a todos. Stumpy foi nomeado. Mandou-se buscar alguns artigos em Sacramento. "Traga o melhor, ouviu?" - recomendou o tesoureiro, pondo na mão do mensageiro um saco de ouro em pó. "Rendas, ouviu? Sedas, filigranas, rufos!... Custe o que custar! Ao diabo a despesa!" Coisa estranha: o menino viveu. Talvez o clima puro do acampamento montanhês lhe compensasse as deficiências materiais. A natureza aconchegou o menino ao seu amplo seio. Naquela rara atmosfera das colinas da Sierra, naquele ar impregnado de aromas balsâmicos e de cordiais etéreos, pode ser que encontrasse o verdadeiro alimento, ou uma química sutil, que dava ao leite da burra o fósforo e o cálcio necessários. Stumpy inclinava-se a atribuir que era por causa disso e dos seus cuidados: "Eu e aquela burra" - dizia, "temos sido o pai e a mãe dele! e você", acrescentava afrontando o embrulhinho de flanela - "nunca se volte contra nós".

Quando fez um mês, viu-se que era preciso dar-lhe um nome. Até ali lhe chamavam "O Menino", o "rapaz do Stuxnpy", "O Coiote" (uma alusão aos seus dotes vocais) e até mesmo, como dizia Kentucky, "o diabo do pequeno". Mas logo sentiram que isso era muito vago e pouco satisfatório, e o abandonaram sob outra influência. Os jogadores geralmente são supersticiosos e Oakhurst um dia declarou que o menino trouxera ventura ao Acampamento. O certo é que estavam mesmo sendo felizes. Adaptou-se, pois, sem mais aquelas, o nome de "Ventura", precedendo-o de Tom, para maior decoro. Nenhuma alusão foi feita à mãe, e o pai era desconhecido.
- É melhor - disse o filosófico Oakhurst - começar tudo de novo. Vamos chamá-lo de Ventura: é um bom começo. Marcou-se um dia para o batizado. O que se entendia por essa cerimônia, o leitor, que conhece os costumes irreverentes do Acampamento, bem pode imaginar.

O mestre de cerimônias, um tal Boston, notável trocista, levou dois dias para preparar uma paródia do serviço da Igreja com finas alusões locais, e a ocasião prometia ser engraçada. O coro foi devidamente ensaiado e Tipton devia ser o padrinho. Mas, depois de a procissão ter caminhado para o bosque, com música e bandeira diante de um burlesco altar, Stumpy saiu da multidão:
- Não sou homem, rapazes - disse ele asperamente, que desmanche brincadeiras, mas estou achando que isto não é direito. Não acho absolutamente graça alguma em se estar troçando assim com um pequeno que não entende a troça. E quanto ao padrinho, acho que ninguém tem mais direito de sê-lo do que eu.
Devemos dizer, para crédito de todos os humoristas, que Boston foi o primeiro a reconhecer a verdade destas palavras.
- Mas - continuou Stumpy aproveitando sua vantagem - estamos aqui para um batizado e havemos de tê-lo. Eu te proclamo Tom Ventura, segundo as leis dos Estados Unidos e da Califórnia, e assim Deus me ajude.
Fórmula um tanto absurda, mas em que o nome de Deus, pela primeira vez, foi proferido no Acampamento Barulheira sem ser blasfêmia. A forma do batizado foi ainda mais absurda do que Boston imaginara, mas a verdade é que ninguém riu. Tom foi batizado tão seriamente como não o seria melhor sob teto cristão, e chorou e foi consolado da maneira mais ortodoxa.

E foi assim que teve início a obra de regeneração do Acampamento Barulheira.

Imperceptivelmente, introduziram-se mudanças no acampamento. Começou-se a sentir isso na cabana destinada a "Tom Ventura" ou a "Ventura" como era freqüentemente chamado. Conservava-se sempre muito bem limpa e pintada. Foi reformada, equipada e lixada. Mandaram buscar, numa mula, a oitenta milhas, um berço de pau-rosa que, no dizer de Stumpy, "matou o resto da mobília", de modo que se tornou indispensável a reforma da cabana. Os homens que costumavam ir visitar Tom na cabana de Stumpy começaram a gostar e a se interessar pela mudança, de tal forma que, em seu próprio interesse, o rival do Mercado de Tuttle, estimulado, arriscou colocar a venda um tapete e espelhos. A influência desses objetos na aparência do Acampamento Barulheira foi impressionante. Gerou hábitos mais rígidos de higiene pessoal. Mesmo porque o zeloso Stumpy impunha uma espécie de quarentena àqueles que aspiravam à honra e ao privilégio de segurar o menino.

Era uma mortificação cruel para o coitado do Kentucky - que, na liberdade da natureza e dos hábitos de vida da fronteira, sempre considerara a roupa como uma segunda epiderme, que, como a da cobra, só caía quando podre - ver-se impedido do seu privilégio por razões de prudência. A sutil influência da inovação, porém, foi de tal ordem que ele começou a aparecer todas as tardes com uma camisa lavada e o rosto ainda luzidio e avermelhado de seus demorados banhos. Nem foram negligenciadas leis sanitárias morais e sociais. Era preciso não haver barulho para que o Tom pudesse dormir e, suposto que o menino havia de passar a vida numa tentativa permanente de repouso, a barulheira, que dera ao Acampamento o seu infeliz nome, não era permitida nos arredores da cabana de Stumpy.

Os homens conversavam, em voz baixa, ou fumavam com uma gravidade índia. E, como tacitamente naqueles sagrados recintos se abandonaram as blasfêmias, a forma popular "Desaventurado!", foi completamente esquecida por serem alusão pessoal. A cantoria não era proibida, visto que lhe atribuíam poderosas propriedades tranqüilizantes; e a canção do "Fuzileiro Jack", marinheiro inglês que servira na Armada da colônia australiana de Sua Majestade, acabou como popular cantiga de ninar. Era uma narrativa lúgubre das façanhas do "Arethusa 74", num tom abafado, que terminava sempre no fim de cada verso com um estribilho "a b-o-r-d-o do Arethusa", esticada agonia de cadência. Era bonito ver Jack a embalar Tom, imitando o balanço do navio e sussurrando a sua naval cantilena. Ou por causa do embalo, ou do comprimento da cantiga, que tinha noventa estrofes e era cantada com firme consciência até a dolorossíssima conclusão, e conseguia geralmente o efeito desejado. Nessas ocasiões, os homens se estendiam debaixo das árvores, nos doces crepúsculos do estio, fumando os seus cachimbos e saboreando essa melodia. Uma vaga idéia de que aquela era bem a felicidade pastoril invadia o acampamento.

- Isto é celestial - dizia um tal Simmons, inclinando-se pensativamente sobre o cotovelo. E se recordava de Greenwich.

Nos longos dias de verão, Tom era levado pelos mineiros para a ravina de onde tiravam o ouro do Acampamento Barulheira. Acomodado à sombra, sobre uma cama de ramos de pinheiros, Tom ali ficava, enquanto os homens escavavam a terra. Houve depois a idéia de lhe adornarem a cama improvisada com flores silvestres e ramos cheirosos, e, ora um, ora outro, deixava ocasionalmente o trabalho para trazer-lhe um ramo de madressilvas selvagens, azaléias, ou as flores pintadas de Las Mariposas para ele. Só então esses homens viram que havia beleza e utilidade nessa ninharia, que -até ali eles tinham pisado com tanta indiferença. Um pedaço de mica reluzente, um fragmento bonito de quartzo, um seixo brilhante do rio, tornavam-se belos e úteis para esses olhos agora esclarecidos e abertos, e eram, invariavelmente, postos de lado para o menino. Era incrível o que havia de precioso por aqueles bosques e outeiros que servisse para Tom. Cercado de brinquedos, como nunca os teve criança nenhuma, a não ser no reino das fadas, Tom devia estar satisfeito. Assim parecia, realmente, apesar de ter uma gravidade infantil e, às vezes, uns relâmpagos contemplativos nos olhos pardos, que impressionavam Stumpy.

Estava sempre quietinho, não podia ser mais meigo, e conta-se que, tendo uma vez trepado num monte de ramos de pinheiro, que limitava a área de ele caminhar, caiu e ficou de cabeça para baixo, na terra fofa, de perninhas para o ar, conservando-se assim sem dar um grito, quase uns cinco minutos, até que o foram levantar. Hesito em contar muitos outros exemplos da sua sagacidade, porque infelizmente se baseiam apenas em declarações de amigos parciais. Alguns não deixavam de ter um colorido vivo de superstição.

- Eu acabo agorinha mesmo de subir a margem do rio - disse Kentucky, certa vez, num estado de ofegante hesitação - e arranquem-me a pele se o diabo do pequeno não estava conversando com um passarinho que lhe pousara no colo. Eles estavam tão amigos e tão à vontade que pareciam dois passarinhos mesmo.

Subindo nos montes de pinhas, ou ficando de barriga para cima, deitado, a olhar para as folhas tremulantes das árvores, era para ele, o pequenino Tom, que os pássaros cantavam, que os esquilos pulavam e que as flores do campo recendiam. A natureza era a sua ama e a sua doce companheira de brincadeiras. Era para ele que deixava os raios de sol se insinuarem através da ramaria espessa; enviava brisas errantes a visitá-lo com o bálsamo dulcificante do loureiro e das gomas resinosas; para ele, inclinavam-se as altas sequóias, zumbiam as abelhas, e as gralhas embalavam-no com suas vozes dormentes.

Assim se passava o dourado verão no Acampamento Barulheira. Eram tempos de abundância e a sorte estava com eles. As concessões produziam copiosamente. O Acampamento tinha ciúmes de seus privilégios e olhava os forasteiros com suspeição. A imigração não era encorajada e para tornar mais perfeita a reclusão do Acampamento, as terras laterais da montanha que o circundavam foram declaradas de sua propriedade. Isso, e mais a fama da rapidez de seus revólveres, tornavam o Acampamento inviolável. O correio - seu único meio de comunicação com o mundo exterior - contava dele histórias maravilhosas.

- Há uma rua no Acampamento Barulheira - dizia - que põe no chão a melhor de Red Dog. Há vinhedos e flores em volta das casas e os homens, podem crer, tomam banho duas vezes por dia!!!... São rudes para com os estrangeiros e adoram uma criança.

Com a prosperidade do Campo, vieram desejos de melhoramentos. Combinou-se construir um hotel na próxima primavera e convidar duas ou três famílias decentes para irem morar lá por causa do pequeno, que poderia lucrar com a companhia de mulheres. O sacrifício que esta concessão ao sexo frágil custou àqueles homens, que eram completamente céticos a respeito da sua virtude e utilidade, pode dar uma pálida idéia de sua afeição a Tom. Houve alguns poucos que resistiram. Mas tal resolução não podia ser levada a efeito senão dentro de três meses, e a minoria cedeu, com a esperança de que alguns obstáculos surgissem. Assim foi.

O inverno de 1851 será lembrado por muito e muito tempo naqueles vales. A neve caia abundantemente nas Sierras; cada riacho era um rio, cada rio um vasto lago. Cada desfiladeiro se transformou numa torrente tumultuosa que descia pelas encostas, derrubando árvores gigantescas, arrastando-as na impetuosidade das águas e espalhando sua correnteza e escombros ao longo da planície. Red Dog estivera duas vezes submersa e o Acampamento Barulheira fora prevenido.

- A água trouxe ouro a estes vales. Ela já esteve aqui uma vez, e há de voltar - dizia Stumpy. E nessa noite, o Rio do Norte saiu subitamente do seu leito e inundou todo o vale triangular do Acampamento Barulheira.

Na confusão da água que se despenhava, das árvores que rangiam e da escuridão sem fim que parecia correr com a água, pouco ou nada se podia fazer para salvar o Acampamento. Quando rompeu a manhã, a cabana de Stumpy, que estava mais próxima do rio, desaparecera. Pouco acima encontraram o corpo do seu infeliz dono; -mas o orgulho, a esperança, a alegria, a ventura do Acampamento Barulheira, tinha desaparecido. Voltaram todos com o coração mais negro do que a trágica noite. Um grito que vinha do rio os acordou.

Era uma canoa de socorro que subia a corrente. Tinham apanhado, diziam eles, um homem e uma criança, quase sem forças, mais ou menos duas milhas abaixo. Alguém, por acaso conhecia-os? São daqui?

Bastou um relancear de olhos para verem que era Kentucky, estendido, cruelmente esmagado e mutilado, mas segurando ainda nos braços a Ventura do Acampamento Barulheira. Quando se abaixaram para aquele par tão extremadamente abraçado, viram que o pequeno estava frio e sem pulso.

- Está morto! - gemeu um.

Kentucky abriu os olhos molemente.

- Morto? - repetiu fracamente.

- Sim, meu velho, e tu estás morrendo também.

Um doce sorriso iluminou os olhos do agonizante Kentucky.

- Morrendo, eu! - repetiu. - É que Tom me leva com ele; digam aos rapazes que não tenham medo; Tom vai bem comigo.

E aquele homem rústico e forte agarrou-se àquela criança como um homem que se afoga se agarra a uma palha, e lá se foi boiando na corrente sombria que se dirige sempre, sempre, para o grande mar desconhecido.

Francis BRET HARTE nasceu em Albany, New York em 1839. Em 1854 transferiu-se para a California, onde trabalho como mineiro professor e jornalista. O conto "Ventura no Acampamento Barulheira" publicado no Overland Monthly trouxe-lhe fama imediata. Em 1878 foi nomeado consil para uma cidade alemã e mais tarde para Glasgow, Escócia. Faleceu em Camberely, Inglaterra, em 1902.