Tempo

Existe um tempo em que não há tempo. Quando esse surgiu? Não lembro bem, pois há alguns anos, quando ainda menino, o tempo era colado em mim por pensamentos, eu era aquilo que meus pensamentos faziam e durava o tempo de eles modificarem. Mas existe ainda um tempo que nos envelhece e agora sinto ele nas minhas carnes. Como foi que nunca o havia percebido? Minhas mãos já não tem mais a agilidade para fazer nós fortes. Minha voz ficou ainda mais grave, depois de tantos cigarros. O tempo destrói o meu corpo, mas é interessante como ainda ontem me sentia no tempo de brincar de esconde-esconde. Acordei descolado desses dois tempos. Do tempo do meu coração e do tempo que me mata.

Acordei descolado de mim mesmo e nem sei quem é essa mulher que dorme ao meu lado. Ainda à noite passada minha cama estava vazia. Ainda ontem eu estava vestindo camisa branca e suspensório. Ainda ontem o tempo deixava vestígios. E hoje acordo solto, do tempo da vida, mas ainda aquela mulher está lá. Nua. Não sei exatamente como as coisas aconteceram. O único vestígio do tempo se dá em algumas cicatrizes no corpo, algo que enrugou a pele. Lembro de muitas pessoas gritando. Era uma luta de idéias e ideais. Era um sonho. Sonho... Acho que era isso, havia um sonho, um sonho de libertação. Será que eu acreditava em Deus? Como eu acreditava em histórias que se publicam em folhetins! Eu era um menino e não há nem como julgar tal coisa. Eu acreditava simplesmente em algo que meu coração gritava e eu era um com aqueles que o tempo matou. Agora tudo me parece tão claro, meu Deus! Agora lembro de tudo e então entendo essa mulher que dorme.

Eu era jovem e lutava pelo o que meu coração gritava. Não era que eu percebesse a dor do outro, mas havia uma necessidade aqui dentro de esvaziar essa angústia de tempo. Era tarde. Havia outros que necessitavam se esvaziar e era com esses que minha voz se uniria para gritar contra toda a opressão. Naquela época eu pensava que liberdade era poder expressar o que se sentia. Eu não podia fazer. Ninguém podia. Cada palavra não dita poderia ser discurso já feito. Todos se reuniram, no centro de um lugar desconhecido, na multidão de rostos sem nomes. Caos. Todos gritavam "Liberdade! Liberdade!" Liberdade... O que era isso? Sim, na verdade o tempo me fazia pensar que era possível. A verdade é que o próprio tempo nos aprisiona pouco a pouco. Somos vítimas de cada segundo que nos mata. E naquele dia gritava "Liberdade! Liberdade!" A polícia não tardou a aparecer. Era tempo de repressão. Ouviu-se tiros. Todos fugiram, gritavam por suas vidas, por um novo momento de pensar em liberdade, mas agora eram apenas porcos fugindo do matadouro. Mas eu queria ser livre. E havia alguns poucos que acompanhavam minha luta. Não contive o grito dentro de todo o caos, foi então que o tempo parou, os segundos ficaram congelados, eu estava livre do tempo e então estava livre de todos. "Vamo explodir essa porra!", foi o que minha voz ecoou. Não tive muito tempo mais do que aquele que se congelou, eu queria explodir uma bomba, mas era no coração de quem ousava fechar minha boca. Não vi mais nada. Tentei correr para todos os lados. O tempo prendeu meus braços e eu me encontrei preso em uma sala escura.

Eu ainda usava suspensórios quando isso aconteceu. Foi o último dia em que sonhei. Foi o último dia em que o tempo pareceu sorrir pra mim. Desde então nada mais parece real. Roubaram minha vida, meu sonho. O Sonho era a liberdade. Eu queria não precisar trair meus princípios. E realmente nunca traí, mas deixei de viver ( e isso é uma forma de trair tudo) pois aquele dia em que o grito foi mais alto que o silêncio minha alma foi assassinada. Me faziam perguntas que eu não sabia responder. Tiraram minha roupa. Invadiram meu corpo. O ser humano tem algo de sádico que ainda não compreendo muito bem. Ele precisa ver a ruína do outro, até o fim, isso o faz sentir prazer. Nunca fui um aluno ruim, minhas notas sempre foram as melhores. Nunca havia sido repreendido. Meus pais nunca bateram em mim porque nunca foi necessário. Fui o que esperavam que eu fosse e ainda mais. Mas minha alma era livre. Nasci sabendo voar. Quebraram minhas asas. Na realidade, amputaram-nas.

Vivi um ano preso em lugar que ainda hoje desconheço. Na verdade, não posso dizer que vivi porque minha vida tinha acabado no momento em que enxerguei a escuridão. As perguntas cessaram, pois nada mais havia para ser perguntado. Outros já haviam sido presos e eram a atração principal, tal como eu fora naquele dia. Mas não é o que fazem com o corpo que dói mais. Eu já havia até me acostumado a sentir a dor. Me deixavam nu, me comiam, em batiam, me matavam. Como acordava a cada dia? Não sei, o tempo me fazia despertar e lembrar que eu estava morto. Que não havia mais sonhos. Então esperava as carnes apodrecerem.

Quando saí de lá não me reconhecia. Tinha pavor de multidões e não podia escutar sirene de carros de polícia. O tempo havia feito algo. Não lembrava que um dia havia usado suspensórios. Nem lembro bem que roupas vestia. A verdade é que não reconhecia as pessoas. Por muito tempo senti que meus passos eram vigiados. Por tanto tempo que nem sei dizer quanto, pois minha alma envelhecera. Minha voz nunca mais se ouviu. Nada mais acalentou meu coração. Quando se nasce com a alma livre descobre-se que o tempo a destrói com rapidez. Todos estranharam a maneira como comecei a pentear meus cabelos. Não me importava. Todos estranharam o meu silêncio. Não me importava. Apenas esperava o tempo. Ele havia levado tudo de mim, havia destruído meu sonho. Na verdade, minha liberdade se desfez como um legume apodrecendo na feira, jogado em um canto qualquer onde mendigos mijam e trepam. Eu era o troféu do tempo. Aceitei o castigo que ele me dava e me adaptei.

Para adaptar-se ao tempo você precisa trabalhar aos vinte e cinco anos, casar aos trinta, ter filhos aos trinta e cinco e depois esperar a morte comendo bolinhos nas tardes de segunda-feira. Como mingau nas segundas, pra não ser exatamente o que esperam. Casei. Tive filhos. Todos morreram ou resolveram buscar o que o tempo pareceu oportunizar. Me acostumei com o tempo. Havia cigarros para minha vida toda e neles depositei meus silêncios. Hoje acordei com uma mulher ao meu lado. Parece tão morta quanto eu. A verdade é que a sinto gélida e meu coração só invejaria a morte de seu corpo. Logo ela se levantará e irá em busca de vida, de sonho ou do próprio tempo. Hoje acordei descolado dele. Hoje percebi que pela última vez ele parou em algum lugar, é possível que tenha desistido de me lembrar do dia, é possível que tenha desistido de me lembrar da morte. É possível que me deixe hoje sentir o sol aquecendo minhas carnes podres. É possível que alguém venha chorar meu silêncio. Mas nada acontecerá antes que eu fume um cigarro, beba vinho e descanse. Nada acontecerá até que o sol aqueça o suficiente, até que o grito seja apagado. Sempre haverá alguém para apagar o grito, assassinar uma alma e esquecer o silêncio. O tempo só faz aquilo que pensa fazer. O tempo que congela e que respira. O tempo que espalha. O tempo que mata. O tempo que enterra a vida ainda viva. O tempo que hoje esqueceu. Há um tempo em que sou eu mesmo e um tempo que me fazem ser. Me descolei dos dois. E sinto o cheiro podre de mim mesmo.