O canto das pequenas coisas

Memei puxou o lençol sobre o corpo, apesar do calor, ela nunca conseguia dormir sem se cobrir. Hábitos são hábitos, uns bichinhos dominadores. O lençol sobre o corpo vira uma segunda pele capaz de nos proteger contra os fantasmas escondidos debaixo da cama. Contra as almas do além tem uma lógica se cobrir. Alma penada não deve gostar de lençóis e de roupas, prefere andar pelada. Memei gosta de traçar estas e outras filosofias, embora ninguém lhe dê muita atenção. Ela tem suas próprias idéias. Principalmente enquanto tenta dormir, os pensamentos vêem a tona e ganham formas. Vacas pastando horas a fio sem destino certo. Tanto poderia pensar na receita da torta de morango que inventaria para o almoço de domingo, na vida dos veadinhos famintos que morrem na África ou como que as pessoas conseguem viver sem nunca aprenderem a dirigir automóvel.

Numa destas noites insones Memei decidiu. Sim, tiraria carteira de motorista. Já pensou, uma vida inteira sem guiar um carro? Foi há pouco menos de um ano. Tanto Jorge como Ana Lúcia e Marcelo apostaram que ela não conseguiria, e para espanto do marido e dos filhos lá estava ela, Memei, dirigindo seu fusquinha. No começo teve medo de se arriscar a ir ao centro. Avenidas movimentadas, nem pensar. Eram só algumas voltas no quarteirão, no máximo chegar até a casa da amiga Gracinha. Com o tempo tomou gosto e acabou se transformando na motorista da família. Levar os filhos para faculdade, deixar Jorge no trabalho, fazer as compras do mês, ir com Gracinha tomar água de coco na paria. Todo mundo saiu lucrando e, Memei não se importava com os engarrafamentos.
Memei vivia dizendo, hábitos são hábitos, bichinhos estranhos. Eram três horas da madrugada e Memei pastava com suas vacas. Jorge ao lado, vez ou outra, mudava de posição, mas continuava com aquele ronco de urso. Ela pensou em cutucá-lo, mas ele poderia não gostar de ser acordado. Problema seu se não consegue dormir, resmungaria Jorge. A bem da verdade, Memei já estava acostumada com os problemas serem todos seus.
As três e quarenta Memei se levantou da cama. Não agüentava mais olhar os minutos no rádio relógio. Os números passavam lentamente, não eram inocentes carneirinhos, mas centelhas vermelhas que faziam arder os olhos. Atravessou o corredor escuro. Não queria incomodar os filhos acendendo a luz. Na cozinha abriu a geladeira e um clarão gelado iluminou-lhe o rosto. Por hábito poderia tomar seu copinho de leite. Quando criança a mãe costumava lhe dizer que leite trazia sono, era bom para tudo, curava males e cansaços. Memei acabou pegando uma garrafa de água e deixou aberta a porta da geladeira. Fazia tanto calor, mas aquele arzinho era refrescante.
A cozinha era seu canto da casa preferido. Se pudesse ela mandava fazer uma casa onde todos os cômodos fossem cozinha. Bem arejadas e espaçosas, as cozinhas teriam mil e uma utilidades. Em noites de calor a família dormiria no ladrilho fresco do chão. E ali fariam inúmeras festas onde os convidados dançariam alegremente em volta do fogão. Todos lavariam pratos, enxugariam a louça engrenando uma conversa fiada. Ah, os problemas deixariam de ser todos seus, Memei.

Ana Lúcia acendeu a luz da cozinha e levou um susto ao encontrar a mãe sentada no chão iluminada pela pequena fresta de luz vazando da porta aberta da geladeira.
Ainda acordada mãe?
Ainda. Mas e você? não estava em casa?
Sai com o Paulo.
Seu pai não vai gostar.
Ele não precisa saber.
Memei olhou a filha. Ana Lúcia estava com os cabelos molhados e olheiras. Não, certamente Ana Lúcia não se parecia com ela. Os traços firmes do rosto, aqueles olhos amendoados, o nariz arrebitado, nada disso era dela. A filha era a cópia de Jorge.
Ana Lúcia pegou na geladeira uma maçã e deu uma grande dentada. Memei bebeu um gole d'água. Estava sem fome, sem sono. Poderia ficar ali, uma eternidade, observando a filha devorar a maçã. Mas num minuto Ana Lúcia segurava apenas o cabinho da fruta e dizia boa noite. Memei continuou sentada no chão. Agora com a luz da cozinha acesa parecia que o calor aumentara. Sentiu seu rosto enrubescendo, uma onda de fogo subindo pela barriga. O que estava acontecendo com ela? Memei, o que há com você?

A polpa, a casca, as pequenas sementes, não existiam mais. Memei pensava na maçã que a filha acabará de comer. Esquisito tudo desaparecer assim, tão rápido. Uma ex-maçã que agora passava a ser uma massa disforme rodando no estômago de Ana Lúcia. Às vezes uma idéia lhe encasquetava como uma minhoca revolvendo a terra. A maçã era uma fruta não de todo redonda, as vezes meio ovalada, meio encurvada. Tinha uma ligeira imperfeição, mas era o que era: uma maçã. Deve ser muito bom poder ser o que se é. Não precisar dar satisfação a uma melancia pelo fato de ter nascido maçã.

O dia já ia clareando, um pouco de luz solar começava a penetrar pelo basculante da cozinha. Memei estava com preguiça, mas no meio de tantos pensamentos o sono fugira de todo. Levantou do seu canto e, fechou devagar a porta da geladeira. Queria aproveitar aquele último fresquinho até o fim. O ar se misturava como o cheiro de comida, as sobras de frango do jantar, o mexido de ovos que Marcelo tinha feito para o lanche. Pensou em coar um café. Desistiu, era muito cedo e todo mundo dormia. Nos domingos ninguém precisava levantar na correria. Lá para as onze horas Marcelo e Jorge deveriam acordar. Jorge ia ler o jornal. Claro, ninguém poderia ler antes dele. Mexer na ordem das coisas o deixava irritado. Marcelo pegaria uma praia com a namorada e, no final da tarde voltaria faminto gritando cadê a comida, mãe? Ana Lúcia, ah, ela emendaria um sonho no outro tarde adentro. Memei conhecia de cor a rotina da família, nunca havia imprevistos.

Para não fazer barulho voltou na ponta dos pés pelo corredor da casa. O corredor era tão comprido. Ela poderia fazer cooper ali? Sim, bastava dar umas cem idas e vindas, por dia seriam quase dois quilômetros. Por que não pensara nisto? Abriu a porta do quarto de Marcelo, ele dormia com a luz acessa. Estava só de cuecas, o lençol na beira da cama. O filho era mesmo um homenzarrão, tinha um ronco semelhante ao de Jorge. As coisas se repetiam. A porta do quarto de Ana Lúcia estava trancada, desde pequena ela fazia assim. Não adiantava pedir para deixar aberta. Se você passar mal e precisar de socorro no meio da noite, terei que chamar o corpo de bombeiros para arrombar. A filha ria das palavras da mãe. Você é dramática, hem, mamãe.

Hábitos são hábitos, bichinhos que grudam na gente e não largam. Memei entrou no banheiro e, a primeira coisa que fez foi abrir a torneira da pia por um longo tempo. Viu a água escorrer. Aonde ia parar aquele fio sem fim? Jorge odiava o desperdício, brigava todas as vezes que ouvia o barulho da água demorando a parar de jorrar, mas ela gostava daquilo. Memei escovou os dentes olhando para o espelho. Seria ela mesma, fazendo o mesmo bocejo há quantos milhões de anos? Disse para si mesma, Memei, você é pré-histórica.

Quando abriu a porta da casa ainda estava de camisola, os cabelos um pouco desgrenhados. A chave do fusquinha rodava na sua mão. Quantos litros cabem num tanque de carro? As ruas estavam desertas, era cedo. Um domingo ensolarado, bom para ir à praia. Abriu os vidros do carro e deixou entrar a brisa matinal. Passou pela orla, havia alguns ambulantes montando as barracas, poucas pessoas. No centro vazio da cidade guiou-se por ruas conhecidas e entrou em vielas onde nunca estivera antes. Os pensamentos iam e vinham. Vaquinhas procurando um bom pasto. Vez ou outra enquanto dirigia olhava-se no retrovisor. Estava precisando tratar o cabelo no salão, quem sabe faria uma massagem com creme de abacate. Gostaria de comprar uma camisola, a sua andava velhinha. Fora presente de Jorge há uns dois, três anos. Ah, se tivesse que escolher uma profissão. Seria motorista de táxi. Poderia andar pela cidade sendo comandada pela vontade dos passageiros. Passaria o dia no volante e, ainda por cima ganhando dinheiro. Uma maravilha, Memei! Passou pelo centro, pelo labirinto de prédios antigos, pelo aterro, pelo bairro dos jardins. Nossa mãe, que ladeirona. Seria bom, muito bom, ser taxista.

A rodovia tinha as pistas largas e duplas, o trânsito estava intenso. Muitas jamantas e carretas na estrada. Os caminhoneiros gostam de trabalhar nos domingos. Quando tinha enchido o tanque do carro? Tentou se lembrar sem conseguir. Teria sido na quinta-feira? Um litro de gasolina faz quantos quilômetros? Se o combustível acabasse? Poderia tentar a banguela, ir tentando levar. Se o carro parasse de vez, não faria mal. Deixaria no acostamento e andaria. Andaria até perder de vista o que ficara para trás e não lhe fazia falta.