A incessante procura do amor

Descobri, por ocaso, no jornal Últimas Notícias de Caracas, na seção "Correo Del Corazón" uma desesperada e sofrida procura do amor. Um tal de JJ Gómez, dizendo-se sentimentalmente só, honesto, solvente moral e economicamente, amante das diversões saudáveis, nobres sentimentos e, principalmente, com um grande coração, procurava, ansiosamente, o que se chamava antigamente a sua cara-metade.

Da moça, o citado Gómez cuidadoso exigia que ela tivesse um bom corpo, além de outras qualidades de alma e caráter. Deveria ser decidida, carinhosa, abnegada, caseira, de sólida formação moral e familiar, de agradável presença, alegre, jovial e que gostasse do inesperado. E foi justamente esta última exigência que me levou a pensar na possibilidade de sucesso ou não da sincera procura daquele coração solitário.

Seria possível que a moça do bom corpo e amante das diversões saudáveis fosse receptiva ao inesperado? A dúvida surgiu e, a bem da verdade, persiste até hoje.

Dias desses, mexendo numas gavetas me deparei com o recorte do jornal que publicou o pedido e me lembrei do meu pai, pois ele andara, tempos atrás, lidando com essas complicações da vida.

Tempos de vacas magras, fomos morar na parte de trás de uma casa. Na parte da frente, morava nossa senhoria, Dona Carmosina, mulher velha e gorda que se movimentava arrastando uns chinelos de feltro verde.

Notamos, já nos primeiros dias, que nossa vizinha era visitada diariamente por mulheres de todas as idades, chegadas ansiosas, lábios trêmulos e profundas olheiras,--- como convém àquelas que sofrem --- , despertando a curiosidade do meu pai.

Intrigado, promoveu uma série de investigações, facilitadas pela vulnerabilidade das paredes que separavam nossas casas, descobrindo, finalmente, a razão daquelas freqüentes visitas: Dona Carmosina se dedicava à complicada missão de arranjar e desfazer namoros e relações assemelhadas, uma especialista em conflitos do amor ou condutora de almas, que deveria incluir, pela natureza dos serviços prestados, a cura de dores-de-corno em geral.

Independente da graça solicitada ou da desgraça encomendada, Dona Carmosina tinha um método rigoroso de trabalho, aplicado a todos os casos, simples ou complicados submetidos por sua vasta clientela: pedia da moça um lencinho - naquela época as mulheres usavam lencinhos--- e, nos casos mais graves, um par de meias do sujeito que queriam se livrar ou daqueles corações teimosos que resistiam aos apelos do amor.

Mas as exigências não ficavam por aí, pois para dar andamento ao que chamava de "trabalhos" Dona Carmosina impunha uma indiscutível condição : uma a caixa de bombons "Beijos de Moça" e uma galinha , que além de gorda deveria ser preta ou de cor aproximada, o que meu pai interpretou como um requisito que dava mistério e substância a tão nobre missão.

Os lenços e as meias iam se acumulando na gaveta de uma cristaleira manuelina que cheirava a passado e as galinhas eram transformadas em gordurosas sopas e, não raro, em gulas doradas que dona Carmosina preparava num fogão a lenha por ela manejado com jovial habilidade.

Numa luminosa manhã - e o luminosa fica por minha conta - não ouvimos o habitual arrastar dos chinelos de feltro verde de nossa vizinha.

Indaga daqui, indaga de lá, terminamos descobrindo o inesperado. Dona Carmosina tinha morrido, ou "tinha nos deixado" como meu pai passou a informar às pretendentes daqueles sábios conselhos.

Logo, parentes únicos e distantes foram acionados, e rápidos e com escasso pranto deram à morta o seu inevitável destino, sem não antes examinar as gavetas da cristaleira manuelina e saindo tão silenciosos como chegaram.

Com nome feito na praça, como era de se esperar, os serviços de Dona Carmosina continuaram a ser procurados por desavisadas que surpresas ou apavoradas recebiam a notícia do infausto acontecimento, transmitida por meu pai com proposital solenidade.

Deve ter sido numa noite daquelas, bebendo seu vinho Conde de alguma coisa, que de nobreza a cepa só tinha o nome, que meu pai pensou seu plano que prontamente levou adiante.

Além de transmitir a notícia da morte de Dona Carmosina às mulheres incrédulas que continuavam à procura dos seus serviços, o pai agregava um comentário falsamente desinteressado, informando que a morta o tinha indicado como uma espécie de sucessor ou depositário daquela sabedoria.

Não demorou muito e o pai começou a receber lencinhos, atividade que cessou contrariado após veemente protesto da minha mãe.

Duvido que J.J. Gómez tenha encontrado o seu amor, a mulher de bom corpo e que gostasse do inesperado. Mas tenho certeza, porque vi, que muitas mulheres que deixavam seus lencinhos com meu pai , ao saírem de nossa casa, carregavam uma luz mansa em seus olhares, um brilho estranho e misterioso que anunciava a possibilidade do amor.