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O homem da Sibéria
Sonhei com estepes geladas, de horizontes largos, o branco terrível se
estendendo ao infinito. Eu contemplava a paisagem glacial, aspirando
grandes quantidades de ar, enchendo o pulmão com o maravilhoso oxigênio
das planícies da ásia. Tudo tão limpo, honesto, simples. Até o sol
parecia branco. Aliás, não existia sol. Era só aqu ele céu de
cinza-ácido, brilhante. De repente, alguma coisa alertou-se dentro de
mim. Os ventos trouxeram-me cheiros e ruídos estranhos. Indícios de que
um animal inteligente e faminto me perseguia.
Provavelmente, um urso branco. Pus-me a correr pela neve, absorvido no
mais profundo instinto de sobrevivência. Quando cheguei ao alto de um
pequeno monte, investiguei a paisagem, tentando encontrar o motivo do
medo avassalador que me dominava. Na distância, pude divisar o vulto.
Ele me perseguia de longe, seguindo o cheiro da vítima, as fezes, a
urina, o suor. Alguns dias mais e ele me alcançaria, pois pouco dormia
ou descansava. Apenas andava, lentamente, incansavelmente. De vez em
quando, ele interrompia a marcha e eu via o vulto deitar-se na neve. Eu
não paráva, continuava a correr. Durou dias. Eu não aguentava mais.
Estava cansado. Tinha de enfrentá-lo. Como? Um desespero sufocante tomou
conta de mim. Olhei um pequeno espelho de gelo no chão. Quase desmai ei
de susto ao ver, no reflexo distorcido, o urso branco. O urso, o urso,
era eu. Era eu. Acordei gritando.
Maria e Mikail também despertaram, assustados. O que foi, meu bem?
perguntou Maria, doce e compreensiva como de costume. Eu vinha tendo
aquele pesadelo há meses. Estava ficando louco, com tanto frio, tanta
fome, tanta revolta, tantos livros. A minha única sorte naquela vila
miserável era ter um parente comerciante de bebidas que, apesar de não
me ajudar com tostão ou comida, trocava comigo doze galões de vinho e
dez garrafas de vodka por duzentos quilos de lenha cortada. Era um
negócio e tanto, moleza para um rapaz como eu, que tinha os músculos
descansados e gostava de exercícios. Eu levava três breves semanas para
juntar tanta madeira, mas podia passar bêbado por longos e felizes três
meses. Era a única maneira de sobreviver aos invernos do canadá. Walter
conseguia os livros da biblioteca da viúva de um juiz de direito, para
quem ele prestava serviços como ja rdineiro.
Eram livros franceses, em sua maioria, mas também alguns ingleses e
alemães. Livros de filosofia, economia, literatura, poesia e política.
Livros que ajudavam a quebrar a monotonia silenciosa das noites geladas
do alaska. E agora Proudhon.
Perguntei a Mikail, que havia se levantado e preparava um cigarro
sentado a um canto, se ele conhecia Proudhon. Claro, meu filho. Eu o
conheci em Paris. Eu e ele tivemos uma discussão feia uma vez, na casa
dele. Também estava lá um rapaz alemão chamado Karl, que me deu razão.
Proudhon tinha idéias românticas demais, ultrapassadas. Ele dizia que
não podíamos apressar a revolução social. Ela tinha que nascer
espontaneamente das massas, dizia ele. Eu e Karl discordamos. As massas
são feitas de homens. Os homens são indivíduos imersos em seu espírito
único e indivisível. Os homens somos nós. Não dá para ficar sempre
jogando a responsabilidade para os outros. Dizendo sempre: a massa são
os outros.
Não! A massa é apenas uma idéia abstrata, vazia, um conceito formal, um
esqueleto sem carne, sem vida. Quem dá vida à massa é o indivíduo! É o
indivíduo que sofre a dor, a fome, a derrota, o suplício. Então também
deve ser ele a empunhar a espada! Meu filho, não sou católico, nem ao
menos acredito em Deus, mas creio profundamente na força emanada do mito
cristão. Todo indivíduo é responsável diante da ordem social a que
pertence. Portanto, todo homem tem o dever moral de lutar contra a
injustiça.
Mikail Bakunin falava devagar, num francês claro, agressivo, à maneira
russa. Notei que lhe faltavam muitos dentes e senti pena daquele homem
solitário, perseguido por quase todas as monarquias européias. Rapaz,
vamos comigo para Londres. Podemos pegar carona num navio de carga.
Tenho contatos com o sndicato de marinheiros de nova iorque. Olhei para
Maria. Ela sorria, alegre de ver que seu irmão finalmente via luz no fim
daquele túnel de gelo. Ela sabia que se ele fosse livre, ela também o
seria. Seria uma honra para mim, eu disse. Honra nada, meu amigo, será
um risco, ele falou, rindo. Em algumas ocasiões, inclusive, é melhor que
finjas que nem me conheces. Arrume logo as malas. Livre-se de tudo que
for comprometedor, para não pôr em risco a vida de sua irmã. À Londres.
O porto seguro de todo revolucionário dos dias de hoje. Lá encontraremos
Karl...
MIGUEL DO ROSÁRIO,
29 anos, nasceu e vive no Rio de Janeiro. Escreve desde que se entende
por gente. Atualmente, edita a revista eletrônica e jornal Arte &
Política.
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