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Gargalhada de viúvo
Quatro meses e a vida de casados imitava aqueles comerciais de margarina
onde todos na família aparecem bem vestidos, bem dispostos, sorridentes
e saudáveis - uma felicidade irritante. Pois foi justamente num destes
momentos matinais perfeitos, na hora em que a mulher apanhou o pote de
margarina para cobrir o pão quentinho do amado marido, o sol entrando
glorioso pela janela da cozinha, desenhando isóceles pelo piso impecável
e pela mesa farta e decorada pelo odor do café recém passado, neste
exato momento, ela revirou os olhos e o rosto despencou sobre a mesa,
entre a geléia caseira de morango e o bule de leite. Poft!
Saído das entranhas do destino, um derrame mandou a mulher para o
hospital. Estado gravíssimo. Gravíssimo. O senhor se prepare para o
pior. O marido apaixonado ouvia os médicos numa incrédula estupefação e
os aborrecia pedindo que, por favor, repetissem o diagnóstico sombrio.
Não entendia como ela podia estar toda sorrisos num segundo e no outro
estar com a cara pregada na mesa, babando, tremendo.
Parentes, amigos e mesmo alguns vizinhos adoradores de uma tragédia em
potencial correram para o hospital como peregrinos a Meca. Tenha fé, meu
filho. Ela é forte, vai sair dessa. Deus é pai. Estes médicos não sabem
nada. Na primeira noite de internação, na confusão de enfermeiros, tubos
e bipes luminosos, a mulher abriu os olhos. Ele correu para junto do
leito tomado pela mais genuína esperança. Ela deixou deslizar para fora
uma única palavra: Buruca.
Tinha ouvido bem? Buruca? Sim, tinha ouvido bem: Buruca. Buruca? Mas que
Buruca? Quem diabos era esse tal de Buruca? Sacudiu-a inadvertidamente.
Que foi, amor? Não ouvi direito. Repete pra mim. Vai, repete, meu anjo.
A mulher não só não repetiu, como fechou os olhos e não falou mais nada.
Pior: entrou em coma.
Comoção geral no hospital. Parentes próximos atirando-se a esperanças,
rezas e mandingas. Os vizinhos, por baixo de expressões consternadas,
deliciavam-se sordidamente com a tragédia iminente. É coma, cochichavam,
dessa ela não escapa. O marido, soterrado por demonstrações de
solidariedade jogou-se numa cadeira qualquer. Coitado, diziam, pobre
criatura, e todos já o pintavam como futuro viúvo, terno preto, chorando
à beira do caixão. O que ninguém percebia é que a imagem da miséria dele
não tinha origem nas complicações do acidente vascular cerebral da
esposa. Não. Dedos enterrados nos cabelos desgrenhados, respiração
difícil, ar abestalhado, alienado. Nada disso se conectava ao infortúnio
da esposa. Queria apenas saber quem afinal de contas era Buruca. A quem
pertencia aquele apelido? Sim, porque nome não podia ser. Que pai
desnaturado batizaria o próprio filho de Buruca? Apelido. Claro. Buruca.
Nunca ouvira falar em Buruca nenhum. Mas que diabo!
Em casa, após conseguir expulsar familiares ansiosos em se mostrarem
prestativos, atirou-se a uma fúria investigativa. Inspecionou gavetas,
agendas, livros, roupeiros, documentos, potes de mantimentos, álbuns de
fotografias, carteiras, bolsas, prateleiras. Depois atacou todas as
roupas da esposa comatosa. Especial cuidado aos bolsos onde tinha
esperança de encontrar algum papelzinho suspeito. Não deixou passar
sequer os sapatos nem as peças íntimas. Concentrou-se então na mobília.
Moveu aparelhos, ergueu tapetes, arredou mesas, sofás, fogão, geladeira,
a cama, até o colchão, onde, todas as noites, traduziam o acúmulo da
paixão cultivada ao longo de dois anos de namoro e um ano de noivado.
Nada. Dentro da cabeça a torneira pingava sem parar: Buruca, Buruca,
Buruca.
No seu desespero irrefreável aprofundou a pesquisa em locais
insuspeitados. Armado de faca esquartejou a caixa de sabão em pó, o
pacote do café, do arroz, do feijão. Despejou na pia da cozinha o sal, o
açúcar, os temperos. Desembrulhou todo o rolo de toalha de papel.
Esvaziou a geladeira e raspou o gelo do freezer. Mergulhou a mão no suco
putrefato da caixa de gordura. Verificou o interior do rádio que ela
costumava ouvir. Examinou todo o dinheiro da esposa atrás de uma
possível inscrição em alguma cédula. Arrancou as plantas dos vasos.
Desatarrachou todos os interruptores, àquela altura já transformados
pela sua imaginação transtornada, em cofres de parede repletos de
segredos inconfessáveis de sua esposa amada. Quadros foram arrancados
das molduras, travesseiros e almofadas foram estrebuchados. Apalpou o
interior do vaso sanitário. Espremeu inteiro o tubo da pasta de dente e,
contrariado, não obteve nada além de pasta de dente. Perfumes, batons e
cremes, tudo foi molestado no armário do banheiro e só descansou uns
breves segundos quando viu-se no espelho com o mesmo espanto do
Lobisomen ao deparar-se pela primeira vez com seu rosto transfigurado.
Mas que Buruca? Queria uma pista, um telefone, um código, qualquer coisa
que pudesse indicar a identidade verdadeira deste maldito Buruca. Gastou
a madrugada inteira naquela busca frenética e tudo que obteve foi um
torvelinho de roupas, coisas e móveis. Alguns vizinhos insones
deliciaram-se por trás das cortinas com o que concluíam ser o desatino
do marido diante da viúvez.
Não foram poucos os que o aconselharam a se acalmar, a rezar, a não
ficar sozinho. Temiam por um suicídio inopinado. Faxineiras foram
contratadas para dar um jeito na casa revirada. Durante três dias, ele
foi da casa para o hospital de onde só saía após longa batalha verbal
com parentes, médicos e enfermeiras. Todos condoídos com o espetáculo
diário: o homem sentado por horas em frente a cama olhando fixamente
para a mulher mergulhada no coma. Não levantava para ir ao banheiro. Não
levantava para fumar - e fumava um maço por dia. Ele não levantava para
comer e quando lhe traziam um cafezinho ou um saduíche pedia apenas para
que o deixassem a sós com a esposa. Ficava naquela sua vigília de
autista até finalmente ser arrancado quase à força de lá. Tudo o que
fazia era observar o rosto sem maquiagem da mulher, ali, aparentemente
num sono profundo e inocente. Imaginava o momento em que ela abriria os
olhos e esclareceria o mau entendido. Ou que confessasse logo de uma
vez. Precisava descobrir quem era Buruca, o que significava para ela.
Quatro meses de casados pelo amor de Deus, o que é isso? Repelia a idéia
de perguntar. A vergonha o impedia. Como poderia encostar-se no cunhado,
por exemplo, e questioná-lo, escuta, meu chapa, conheces algum Buruca? É
da família? Antigo namoradinho da tua irmã? Buruca é algum camarada do
bairro onde vocês moravam? Não. Impossível. Jamais. De jeito nenhum. Ela
tinha de sair do coma e contar só para ele, o único interessado, além do
próprio Buruca, é claro.
Quando retornava à residência oficial da felicidade, após o calvário
hospitalar, revolvia tudo de novo com a mesma ou ainda mais obstinada
intensidade. Entre os novos locais de busca que elegia estavam as
lâmpadas, que quebrava sem compaixão; a pintura das paredes, que ia
raspando com espátula à procura de um compartimento secreto ou de algum
vestígio incriminador; o piso e o assoalho, que ia arrancando à formão
peça por peça, longe de ter piedade; o quintal onde abria covas e mais
covas à cata de algum despojo que pudesse ser reveladoramente exumado.
Foi assim até que no terceiro dia após o inesperado golpe do destino a
esposa saiu do coma. Chegou esbaforido no hospital. Falou alguma coisa?
Falou alguma coisa? Foi logo perguntando na sua ânsia atropelada.
Disseram que não, ainda estava inconsciente, mas o quadro era animador.
Ela vai ficar boa e sem seqüelas. É, é, tá bom, respondeu, mas escuta,
ela falou alguma coisa? Colocou a cadeira junto da cama. Ficou alisando
o braço da mulher e repetindo a intervalos: fala comigo, meu anjo. O
quadro comovia quem se detinha. Fala, meu anjo, fala comigo.
De um modo ou de outro sua persistência foi compensada e ela falou.
Falou não, balbuciou. Buruca, disse ela. E repetiu: Buruca. Naquela voz
sedada, moribunda. Buruca...
Deus, ele pensou, como fica minha cara agora? Ouvira dizer que pessoas
anestesiadas ou em estado de semi-consciência costumavam revelar coisas
que nunca diriam em perfeito domínio das faculdades mentais. Buruca.
Teve certeza de que a mulher continuaria pronunciando a confissão até
que todos a ouvissem e começassem a se questionar sobre o tal Buruca.
Tomado pelo pânico, pousou a mão sobre a boca da esposa e com o polegar
e o indicador obstruiu também as narinas dela. Cuidou para não ser
flagrado no epílogo de sua paranóia e em poucos minutos a silenciou para
sempre.
No enterro chorou como esperavam que chorasse. Todos a volta condoídos
com a dor do homem, principalmente depois de terem testemunhado o
processo de devoção e de desatino pelo qual o homem passou. Mal sabiam
que ele chorava de raiva e humilhação. Como ela pôde? Como pôde me trair
com este tal de Buruca? E durante o funeral vigiou os presentes
imaginando se o Buruca não estaria no meio deles. Desatou a chorar ainda
mais quando se deu conta de que todos tinham cara de Buruca. Os primos,
o cunhado, o padre, os coveiros. Mesmo as mulheres. E via a esposa em
atitudes lânguidas e em posições incompreensíveis acompanhada de outra
fêmea.
Arrastado para a casa dos sogros ficou lá encalhado num sofá. Ao lado
dele, a velha dedicava à filha todos os superlativos conhecidos. Ele,
por sua vez, remoía a traição e o mau-caratismo da esposa que fora
incapaz de um último gesto de decência, o de balbuciar no leito de morte
o nome do marido ao invés do nome do amante. Buruca, Buruca, Buruca.
Depois de algum tempo, a velha arrancou, sabe-se lá de onde, uma caixa
de sapato toda desbotada, com os cantos remendados por fitas adesivas de
outras encarnações. Dali começou a sacar fotos e mais fotos da filha
inesquecível. Quilos de fotografias, de todas as idades da falecida. E
para cada retrato uma explicação, uma história, um lamento. Ia passando
foto por foto para o viúvo que as observava sem interesse algum. A cada
sorriso congelado no tempo ele pronunciava um impropério em pensamento.
Cadela. Desgraçada. Sem-vergonha. Vaca. Ordinária. Porca. Vadia. A
tortura não tinha fim, a velha era incansável.
Já estava pensando numa boa desculpa para afastar-se daquele manicômio
quando a velha mostrou-lhe uma foto onde a esposa, numa juventude
arrebatadora, tinha o rosto lambido por um cachorro branco e preto. A
sogra chorosa verbalizou a legenda: olha aqui, meu filho, este é o
vira-lata que ela ganhou quando fez quinze anos, o Buruca.
LUIS DILL é escritor e jornalista. Trabalha nas rádios Guaíba AM
e FM Cultura. Tem 4 novelas policiais infanto-juvenis publicadas:A
caverna dos diamantes (WS Editor, 2004 – 2ª ed.)
Olhos de Rubi (WS Editor, 2004 – 2ª ed., finalista do Prêmio Açorianos),
A noite das esmeraldas (WS Editor, 2004 – 3ª ed.), Sombras no asfalto (
WS Editor, 2003), Tem, também, uma novela policial adulta: Lâmina cega
(WS Editor, 1999, finalista do Prêmio Açorianos), Possui, ainda, um
livro infantil: Arca de haicais (WS Editor, 2003), Participa das
coletâneas de contos: Porto Alegre: curvas e prazeres (WS Editor, 2002),
Livro dos homens (Artes e Ofícios, 2000)
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