Fronteiras que constroem vozes,
olhares e névoas


sobre: "Pérolas Absolutas" de Heloísa Seixas

Certos livros não trazem em suas páginas respostas mastigadas, mas nos propõem deciframentos, enigmas. Este é o caso de "Pérolas Absolutas", sétimo livro da escritora carioca Heloisa Seixas. Uma narrativa que crava dúvidas poderá afugentar os leitores desavisados ou aqueles que buscam diversão fugaz. Para quem alimenta o prazer de se enveredar pelos labirintos da ficção, eis uma obra para despertar a inquietação.

Tratando de temas de arestas cruéis como solidão, morte, loucura, mágoas, Heloisa consegue, através de palavras delicadas e sentimentos contidos, expor a história de duas mulheres que amam o mesmo homem. Sofia e Lídice partilham tormentas. Vivências que ora se assemelham, ora são fraturas escancaradas. Água-marinha e ônix, barro e dunas, o confronto declarado. A dor não se camufla, ela transpassa o olhar dos personagens e vaza pelos poros no primeiro encontro destas mulheres. O olho é a brecha para compreender as pistas que autora intencionalmente fragmenta. Pouco a pouco o suspense alinhavado constrói o denso tecido narrativo. Em certos momentos é como uma câmara que guiasse o nosso olhar, convidando-nos a entrar na cena para esquadrinhar os detalhes e cenários, fundindo-nos no imenso silêncio que ronda a vida destas mulheres. O ato de narrar é descontruído através das múltiplas vozes que trafegam pelo texto. Quem fala? Quem conta esta história?

A tênue fronteira que separa Sofia e Lídice se confunde com a fala da própria autora que delata a simbiose "Todas nós falamos com a mesma voz". Este esfacelamento da narrativa traz a tona outras formas de limites do real. Frágeis linhas separam a sanidade e a loucura, o afeto e o ódio, a vida e a morte. O leitor precisa estar atento para decifrar o enigma, a mutiplicidade. Lídice e sua irmã gêmea Lídia, qual delas naufragou na esquizofrenia? Lídia ou Lídice? Quem ouve vozes? Quem quer matar a mãe, ela que também beira o portal da insensatez? Uma irmã toca violino, a outra violoncelo. Uma guarda uma caixa de recortes com histórias dos derrotados, os perdedores que nunca serão os primeiros. Uma tornou-se a amante, eternamente "a outra". Uma deixou os ressentimentos e mágoas se sedimentarem tal como pérolas "no seio da concha".

Outra voz. Sofia, a mulher que partiu e se arriscou. Coragem ou fuga? Experimentou na carne a possibilidade da lama, do flagelo, feriu os pés em garras de caranguejos, entregou-se ao sexo e ao sêmen da mulher-peixe. Sofia, aquela que se escondeu do convívio humano e fez do abandono um ato de amor. Tanto Lídice como Sofia sabem que às vezes o amor se torna fardo, grilhão. Estas mulheres em frente do espelho embaçado da ficção se encontraram para construírem uma história esfacelada. "Uma história de amor" revela a última frase do livro. O texto de Heloisa Seixas é um convite: "Você quer vir comigo?", ela indaga. Quem?, perguntará você, leitor, quem indaga. As respostas nem sempre são absolutas.