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Episódio
Metal impuro, medalhão da sorte sem poderes ocultos, moeda cunhada nos
tempos do sofrimento. Estas foram as primeiras hipóteses para descrever
o objeto que estava cravado entre os dedos daquele incógnito ser na
angustiada mesa de necropsia.
Ele fora encontrado no cume da montanha [ironicamente denominada
Paraíso]. Ainda não atingira a idade do lobo.
Concluídos os primeiros exames, tentava eu montar o quebra-cabeça do
devorador de minha tranqüilidade. Não saí da primeira peça. Nenhum
indício de sua morte, os órgãos internos estavam perfeitos, o que era
incomum para alguém de sua idade. Uma luz artificial refletiu-se em meu
rosto e o Senhor das Dúvidas percorreu-me o corpo. A moeda abandonou seu
hospedeiro, furtando-me a concentração nas análises.
A ampulheta é invertida. As runas traçam diferente destino. O vento
noturno conduz a uma estranha sensação; estou na montanha Paraíso.
Solitário. Vestígios de sanidade. Abruptamente o cenário é invadido por
outra criatura, mas ela não sente minha presença. Senta-se em posição de
lótus, parece admirada com o horizonte. Num movimento angelical, ela
retira um objeto circular de suas entranhas. Olha-o e seu semblante
transforma-se. Grita e atira furiosamente o objeto montanha abaixo.
Vira-se para mim: olhar vago, um quê de decepção. Chove. A chuva cobre
seu corpo num lamento. Uma gota rubra remete-me à cena inicial: [Metal
impuro - Forja mestra de almas, invento impondo sua cadência,
arquitetando o cotidiano, monarca das ilusões. Sou servo banhando-me em
espelhos de lágrimas]. Permitiram-me o sol, mas há dias que não sinto
sua luz.
JOSÉ GERALDO NERES -
Produtor Cultural, poeta/escritor, roteirista, co-fundador do Grupo
Palavreiros, estudante de dramaturgia, publicou "Pássaros de Papel em
Nuvens de Algodão" com a poeta Clevane Pessoa de Araújo Lopes e
participa de diversas antologias. Tem poemas editados na Revista "CULT"
edição nº 78, ano VI, março de 2004
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