A Aliança



Queria que você tivesse conhecido minha avó, a mãe de minha mãe. Tanto quanto me lembro, era viúva e dona de uma fazenda não longe, em Kickham, no condado de Tipperary. Suas terras ficavam na encosta sul de uma colina e lá se embebiam do sol que, para mim, parecia sempre equilibrado entre os picos das montanhas Galtees. Todos os anos, lá eu passava grande parte das férias de verão. Era uma grande mudança para mim deixar nossa casa numa amarga cidadezinha à beira mar, em Kerry, e visitar a fazenda de minha avó. Cara, o capim desperdiçado, por umas cem jardas de terra, à beira da estrada em Tipperary, era tanto quanto o que você encontraria em uma dúzia de nossos campos envenenados pelo mar. Sempre pensei ser uma pena ver toda aquele bom capim perdido à margem da estrada. Ainda penso assim.

Embora meu tio Con fosse casado, minha avó era quem segurava as rédeas na fazenda. Nesse tempo exato de que estou tentando me lembrar, a primeira filha dela era ainda de berço. (Ah, como o tempo voa! Aquele bebê é agora uma freira num convento nas Ilhas Seychelles.) A mulher de meu tio Com, tia Annie, era uma moça gentil e delicada, muito grata por haver alguém que assumisse a responsabilidade pelo lugar. O que vinha a calhar, considerando-se o tipo de mulher que minha avó era. Desde o dia em que o cavalo do marido dela entrou pelo pátio da fazenda sem rédeas, com o corpo de meu avô, Martin Dermody, morto na boléia da carroça, seu coração virou pedra. Nada do que se maravilhar com a transformação, já que ela ficou com seis crianças para criar - cinco meninas e um menino, tio Com. Ela encarou o mundo com bravura e os criou muito bem. Mas era dura, muito dura.

Uma vez, nas corridas de cavalo, peguei num chicote de jóquei. Quando o balancei na mão, lembrei-me de minha avó. Uma vez tive um salmão de dez quilos debatendo-se por até cinco metros de altura no coração verde de Castlecornell; a vara de pescar lembrou-me minha avó. É verdade: como o pequeno chicote e a vara, ela tinha um elemento de flexibilidade, mas, como eles, nenhum traço de fragilidade. Agora, depois de todos esses anos, não posso me lembrar dela claramente; para mim ela era uma coisa alta, escura e austera. Mais recentemente, vejo-lhe o caráter com mais clareza. Agora entendo as coisas que me intrigavam, quando era criança. Ela dedicava uma espécie de afeição sombria por mim. Oh, eu a fiz rir calorosamente, uma vez. Foi quando eu lhe contei sobre o homem que me havia parado na estrada, para lá do forno de cal, e perguntado se eu era o neto de Martin Dermody. Cheio de um orgulho tímido, disse-lhe que era. Então ele me deu uma moeda e perguntou, "Talvez você se chame Martin, por causa de seu avô?" "Nã
", respondi, "eu me chamo Con, por causa de meu tio Con." Foi então que minha avó sorriu, um pouco calorosamente. Meu tio Con pegou-me por debaixo dos braços, desgrenhou meus cabelos e disse que eu era um esperto velhaco de Kerry.

A única ocasião, em que me lembro de tê-la visto mostrar emoção, foi extraordinária. Talvez extraordinária não seja a palavra apropriada; obscena ficaria mais próxima da verdade. Teria pensado em obscena na época, se eu conhecesse o sentido da palavra. Hoje, acho simplesmente patético.

Como foi que tudo começou? Bem, lá estava eu, com minhas pernas balançando do alto de uma carroça colhedeira, abarrotada de feno. Estava olhando as paralelas largas e prateadas de feno, que estávamos deixando para trás, no capim recém cortada. Meu tio Com estava sentado na parte da frente da carroça, guiando a égua. Estávamos carregando feno para o celeiro. Já tínhamos feno até a altura de um pilar e meio. Minha avó estava de pé no feno, aforquilhando os fardos mais leves. O rapaz ajudante estava fazendo o mesmo com os mais pesados feixes. Um vizinho arremessava-os para eles.

Quando a carroça de feno parou no celeiro, notei que alguma coisa estava errada. Por alguma razão, o rapaz em cima do feno estava inativo, da mesma forma que o homem no chão. Minha avó estava no chão, olhando para o feno com frios olhos astutos. Ela virou-se para meu tio Con.

"Não transporte mais feno, Con," disse ela. "Perdi minha aliança de casamento."

"Onde? No feno?" ele inquiriu.

"Sim, no feno."

"Mas eu pensei que você tivesse uma aliança de guarda!"

"Perdi a aliança de guarda também. Minhas mãos estão ficando magras."

"A história podia ser pior," ele comentou.

Minha avó não respondeu, por algum tempo. Estava olhando para o feno com inimizade.

"Tá naquele meio pilar," ela disse por fim. "Devo procurá-la."

"Você tem um trabalhão pela frente, mãe," disse tio Con.

Ela virou-se para o ajudante e para o vizinho. "Vão lá embaixo e revirem aquele pares de forcados no fim do brejo Meadow," ordenou. "Eles estão se aquecendo no centro."

"Não podemos transportar para o pilar vazio, mãe?" meu tio Con perguntou gentilmente.

"Não, Con," ela respondeu. "Vou colocar lá o feno do pilar do meio."

O transporte de feno chegou ao fim por aquele dia. Foi perto de quatro horas da tarde. Antes de atacar o meio pilar, minha avó ficou de quatro no chão e começou a vasculhar no feno solto no pilar vazio. Ela procurou punhado por punhado, até palha por palha. Tio Con acenou-me para ir embora. De qualquer jeito, sabíamos que ela pararia às seis horas. "Das seis às seis" era seu lema para as horas de trabalho. E ela nunca quebrou essa regra.

Era segunda-feira de tarde. Na terça-feira, oferecemo-nos para ajudar, meu tio Con e eu. Ela estava de joelhos quando ele perguntou. "Não, não," respondeu abruptamente. Então, a modo de uma explicação, quando viu que ficáramos tristes: "Entendam: se não encontrarmos, pensarei que vocês não procuraram direito como deviam, e eu não teria paz enquanto não procurasse tudo de novo." Assim, trabalhou duro o dia todo, fazendo pausa só para as refeições e parando às seis horas da tarde em ponto.

Lá pelo entardecer da quarta-feira, ela já tinha feito um grande buraco no meio do feno, mas não tinha achado a aliança. De quando em quando, durante o dia, íamos até lá em baixo, para ver se ela tivera algum sucesso. Estava pálida de rosto, quando parou à noite.

Na manhã de quinta-feira, seu rosto estava ainda mais tenso e cansado. Parecia relutante em deixar o amontoado de feno até para as refeições. O pouco que ela comia parecia muita areia em sua boca. Nós levávamos chá para ela, várias vezes ao durante o dia.

Na sexta-feira, a casa estava agitada. Tio Con falou cautelosamente a ela no jantar. "Isso nos manterá atrasados, mãe," disse. "Eu sei, filho; eu sei, filho; eu sei," foi tudo o que ela respondeu.

Sábado veio e o esforço era insuportável. Perto das três da tarde, ela achou a aliança de guarda. Tínhamos ficado de vigília, alternadamente, da janela da cozinha. Lembro-me do rosto de meu tio se iluminando e ele dizendo "Graças, ela encontrou!" Mas ele puxou uma larga respiração quando, outra vez, ela começou a cavoucar freneticamente no feno. Foi então que soubemos que fora apenas a aliança de guarda. Nós nem corremos para fora. Esperamos até que ela voltasse, às seis horas. Algumas vezes, entre as três e as seis horas, nossas três cabeças ficavam na pequena janela da cozinha, vigiando-a. Eu pensava que ela era como um rato, mordiscando um pão gigante.

Às seis horas ela entrou em casa e disse, "Encontrei a aliança de guarda." Após o chá, não podia ficar parada. Impacientou-se pela cozinha por uma hora ou mais. Então, "Regras foram feitas para serem mudadas," disse minha avó, com uma frágil coragem, e marchou para o celeiro. De novo, ficamos olhando para ela.

Tendo vindo à casa no crepúsculo, ela retornou e acendeu um lampião do estábulo e foi de volta para recomeçar sua busca. Ninguém se opôs. Não falávamos sim, é ou não, para ela. Depois de um certo tempo, meu tio Con tirou o pesado casaco dela do cabide e foi lá embaixo e colocou-o em seus ombros. "Haverá um pouco de geada esta noite, mãe," disse meu tio Con.

Demoramo-nos por um tempo na escuridão, fora do círculo da luz de seu lampião. Mas ela ressentia-se de nossos olhares compassivos, então voltamos para casa. Sentamo-nos à beira do grande fogo, esperando - tio Con, tia Annie e eu. Foi uma espera solitária - sem conversa - como se estivéssemos esperando que uma pessoa velha morresse ou que uma criança viesse ao mundo. Por volta da meia-noite, ouvimos os passos nas pedras do pavimento. Era típico de minha avó que ela colocasse o lampião na beirada da cômoda e apagasse sua chama, antes de falar conosco.

"Encontrei-a," disse. As palavras pingaram de seu rosto cansado.

"Arrume leite quente para minha mãe, Annie," disse tio Con alegremente.

Minha avó sentou-se perto do fogo, um pouco de lado. Seu rosto estava tão frio quanto a morte. Fiquei olhando para ela como um falcão, mas os olhos dela nem piscaram. A aliança de casamento estava para dentro da aliança de guarda e minha avó continuou rodando-a e rodando-a com os dedos da mão direita.

De repente, como se envergonhada da traição de seus dedos, escondeu as mãos sob o avental. Depois, inesperadamente, os punhos sob o avental subiram para encontrar sua face e sua face curvou-se para encontrar os punhos sob o avental. "Oh, Martin, Martin," soluçou, e então chorou como a chuva.


Tradução de Heleno Godoy, professor titular de literatura inglesa (com doutorado em literatura irlandesa pela USP) na Universidade Federal de Goiás e de literarturas de língua portuguesa na Universidade católica de Goiás.

BRYAN MacMAHON nasceu em Listowel, condado de Kerry, na Irlanda, em 29 de setembro de 1909. Autor de poemas, contos, romances, peças de teatro e roteiros de televisão, ele ocupa lugar proeminente na literatura irlandesa do século XX. Entre suas peças podem ser citadas: The Bugle in the Blood, The Song of the Anvil, The Honey Spike, The Gap of Life. Entre seus livros de contos, The Lion-tamer and Other Stories, Red Petticoat e The Sound of Hooves. Dos romances, Children of the Rainbow. Bryan MacMahon foi um professor de escola elementar durante toda a sua vida e um grande estudioso do folclore irlandês, assim como um dos maiores conhecedores, estudiosos da história e pesquisador da língua irlandesa (o Gaélico moderno) em seu país, tendo traduzido para o inglês Peig, a famosa autobiografia em irlandês da escritora Peig Sayers, da Great Blasket Island, uma das obras primas da literatura em irlandês. Também foi um estudioso do folclore e da língua (Shelta) dos "tinkers - itinerantes" (erroneamente conhecidos também como 'os ciganos' da Irlanda). Escreveu, além de livros para crianças, três volumes autobiográficos: The Master (de 1992, sobre sua vida de professor, que recebeu o prêmio "American Ireland Literary Award" de 1993), Storyman (de 1994, sobre sua vida de escritor) e A Final Fling (de 1998, reminiscências do que chamou de 'conversas entre homens e mulheres'). Era membro da Academia de Letras da Irlanda. Bryan Michael MacMahon casou-se, em 1936, com Kitty (Catherine) Ryan, com quem teve cinco filhos; um deles, Gerry, jogava futebol gaélico (esporte do qual o escritor era admirador) para o time do condado de Kerry. Morreu em 13 de fevereiro de 1998. O conto "A Aliança" foi retirado do livro The Oxford Book of Irish Short Stories, editado por William Trevor (Oxford: Oxford University Press, 1991, pp.388-391).