Ser o outro

Então o discípulo, angustiado por não obter a dita iluminação que tanto procurara, caminhou até o bosque e sentou na frente do carvalho. Seu coração latejava furioso. Uma nuvem de pensamentos desencontrados atormentava sua mente.
Para se acalmar, endireitou as costas, inspirou profundamente, fechou os olhos. Depois exalou o ar contido, aliviando o seu peito. Repetiu o exercício várias vezes. A nuvem de pensamentos foi se dissipando, e lentamente começou escutar os sons que o rodeavam. O murmúrio das folhas, os gorjeios de pássaros cujos nomes desconhecia, a queixa de uma cigarra. Quando sentiu que recuperara a quietude, abriu os olhos vagarosamente.

O tronco do carvalho estava bem à sua frente. Lembrou das palavras do mestre: "quando olhardes uma coisa, não façais nenhuma análise, apenas observai; se o conseguirdes, perceberéis que a divisão entre observador e coisa observada desaparece, e existirá apenas o verbo: observar, existir, ser." Então, com paciência, se dispôs a olhar. Começou pelas raízes que estavam acima do chão. Subindo lentamente, percorreu, sem ambições, a superfície do tronco; descobriu aqui e ali um acidente que não percebera antes. Chegou ao primeiro galho: entortava o rumo várias vezes antes de multiplicar-se em inúmeras ramificações. Algumas folhas já manifestavam o outono, e lá encima, no topo, luzes e sombras celebravam a beleza com uma dança constante.

Desceu até voltar ao tronco na sua frente. Suas pálpebras ficaram pesadas e fechou novamente os olhos. Aos poucos, sentiu seu sangue virando savia, a rude textura da casca na sua pele, seus ossos fortes, firmes, de madeira. Olhou para dentro de si: os quarenta círculos concêntricos do seu tronco falavam de outros tantos anos de vida. Pensou que talvez atingira a iluminação, e quis contar esta incrível experiência para o seu mestre. Tentou abrir os olhos, esticar os braços, sair andando: foi em vão. As suas raízes estavam fincadas no chão; seus galhos não mexiam mais conforme a sua vontade; olhos, nenhuma árvore tem. O medo tremeu nas suas folhas; mas depois percebeu que, para um carvalho nobre e majestoso como ele, não havia necessidade de ir a lugar nenhum.

Quando inspirou, o carvalho sentiu uma estranha flexibilidade. Sem perceber o que estava fazendo, abriu os olhos. Ficou apavorado com a luz que penetrava dentro de si, mas logo gostou da nova capacidade de enxergar. Esticou preguiçosamente esses membros desconhecidos chamados braços, pernas. Levantou-se. Depois de uma breve hesitação, deu o primeiro passo e, ao comprovar que estava se locomovendo, soltou uma sonora gargalhada.

Ninguém, nem sequer o mestre, percebeu a troca.

NEI ZUZEK é argentino. Nasceu em Lincoln, Argentina, em 1967. Estudou design, trabalha de publicitário e, quando consegue, escreve. Publicou uma coluna semanal no jornal El Día de Asunción, do Paraguai, onde morou, entre 1994 e 1996. Em 1998 publicou El Embudo, livro com textos próprios e fotografias de Jorge Sáenz, sobre as condições de vida no presídio de menores de Assunção. No mesmo ano, a Editora VMH de Salta, Argentina, publicou o seu livro de contos Personajes Secundarios, ganhador do segundo prêmio no Concurso Nacional de Cuentos Juana Manuela Gorriti.
Desde 1996 mora em Curitiba. Hoje publica crônicas e contos esporádicamente na internet, nos sites patio.com.br e poesia.com.ar.
O presente conto faz parte do ainda inédito Livro de Leitura.