Samanta e não Cíntia ou Vivi ou Renata

Rosas. Pensando bem, violáceas. Assim eram as gigantescas lentes dos óculos de Samanta, repousando incólumes na carne firme de suas bochechas. Samanta: falha da minha lógica. Diante do rasgo que sua figura provocava na multidão amorfa, não pude deixar de exigir o critério com o qual a Perfeição arbitrara ao escolhê-la e não Cíntia ou Vivi ou Renata. Olhei para as outras mulheres no passeio, para minha camisa de botões ordenados, quase cartesianos em seus espaçamentos, tristes e convencionais e brancos como minha cueca. Tudo estava certo e assim eu queria que permanecesse! Samanta: minha ruína, minha salvação. O torpor insípido e vulgar que eu tinha ao caminhar pelo centro da cidade: perdido; a anestesia para qualquer surpresa: corrompida.

Samanta.

Colorida, riponga, quase se estragando, desafiando o bom gosto com seus penduricalhos e tamancos de couro mal curtido; zombando das promoções, da coleção de outono, das vitrines caras, das óticas com seus novos lançamentos. Não sei por que razão brotou em meu peito o desejo de cantar a plenos pulmões uma ária da Traviata, "Parigi, o cara", o momento em que o tenor pede à sua amada tuberculosa uma fuga impossível. Em vez de Paris, Porto Alegre; na Rua da Praia, eu o tenor. "Porto Alegre/ minha cara/ nós deixaremos/ a vida unida/ percorreremos". Involuntariamente, já seguia na direção dela, lambuzando meus beiços de uma baba que brotava da língua como que dum geyser: borbulhante e quente e pronta para hospedar-se nas panturrilhas expostas de Samanta, pronta para aderir à leve e translúcida penugem de suas pernas, macular a barra do vestido rodado que falecia macio na altura dos joelhos. Em minha cabeça, com meus passos inequívocos, certeiro de encontrá-la, era como se eu já estivesse no "suspiro e luz/ tu me serás/ e o futuro/ nos sorrirá".

Estávamos próximos agora.

Abraçá-la.

Canibalismo.

Levá-la ao chão.

A certeza.

Ou quase.

Como o vacilo se instalou em minha ação segue mistério. De um instante para outro, porém, tive medo de arruinar aquela demonstração viva da natureza, o único lampejo de espontaneidade que eu percebia em anos. Havia tanto entusiasmo nas moléculas que ela deslocava ao passar, tantas convulsões atômicas, tantos choques de partículas de nomes impronunciáveis, que pude sentir as descargas eletromagnéticas beijarem o tutano de meus ossos.

Colocando em ação a teoria dos vetores de Newton, tentei um desvio em cima da hora, muito lento e mal calculado. Meu ombro de zagueiro de futebol americano trombou contra o seio pequeno, dando-me não a sensação da carne, mas a da fragilidade de suas costelas; os cabelos de um dourado escuro golpearam amplamente meu rosto. Ouvi o estilhaçar dos óculos no chão.

De volta à claridade, ainda empapado com o cheiro de capim fresco das fibras trigueiras, pude vê-la abaixar-se em direção ao prejuízo. Parei de imediato e, com meia-volta, me agachei também. Trocamos olhares neutros e quis ter os olhos só um pouquinho mais expressivos. Toquei nos cacos rosados e acabei me cortando, boçal que sou. Ela segurou minha mão e gentilmente levou meus dedos à boca, donde sorveu gota por gota o sangue que escorria. Tinha um sorriso nos olhos, um jardim de sutis sardas logo abaixo, uma tranqüilidade que anulava o erotismo imediato de seu gesto. Era uma promessa - promessa com um eco de tristeza - feita a um estranho no meio da rua. Nos erguemos juntos, eu precisava dizer alguma coisa, pelo menos uma vez na vida dizer alguma coisa no momento certo. Me saí com: "Oi, como você se chama"? Uma criança da quarta série faria melhor... "Samanta", ela disse. "Samanta", fiz eco. Passou a mão de leve por meu rosto, deu-me as costas e seguiu enfeitando, arrasaquarteirando e pervertendo a esquina da
Vigário José Inácio, deixando-me apenas a água da sua boca amalgamada a meu sangue, secando no vento, antecipando a secura que eu sentiria ao terminar esse encontro portando apenas o nome dela. Devagar, caminhei para baixo de uma marquise onde o sorvete italiano jorrava a cinqüenta centavos. Se eu corresse agora poderia alcançá-la, se gritasse... Olhei para meus botões perfeitos, dei uma lambidela no gelado, lembrei do cheiro tão cru de seus cabelos. Aflorou-me uma ereção tardia e deslocada. Vi ao longe uma cabeça que talvez fosse... Talvez... Naquele instante tive a certeza de que nunca mais a veria e de que também, apesar do torvelinho ainda ativo entre minhas pernas, jamais faríamos amor.

Sabe, amigo Giuseppe, desde a erradicação da tuberculose não restou mais espaço para a emoção verdadeira, para a escrita sentimental, para a agonia de um final dramático. Não há mais necessidade de compensar ninguém pelos sofrimentos causados. Percebe, Giuseppe, percebe agora a inutilidade de la tua salute rifiorirà? Nada mais brotará. Nada se multiplicará por cem. Nada. Nem semente, nem Samanta, nem a tua Violetta desvairada...


PEDRO GONZAGA nasceu em Porto Alegre, tem 28 anos, formado em publicidade e propaganda UFRGS. Músico, tradutor e escritor. Tem textos publicados no site Argumento.net e participação em duas antologias de contos: Restaurante chinês e outras histórias- Nova prova, 2002. e Papai noel morreu?- coletânea de contos natalinos, 2000.