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O velho que esperava por D.
Sebastião
Um velho que contava
histórias de encantamentos e avisava as pessoas do regresso de D.
Sebastião numa manhã de nevoeiro tinha-me ensinado a fórmula para sonhar
com a mulher que haveria de casar comigo. Dois ou três anos antes.
Bastava contar nove estrelas durante nove noites seguidas e dormir, à
espera do primeiro sonho. O velho, sempre que o tempo estava de feição,
ia logo bem cedo para um miradouro de onde se conseguia avistar o mar
nos dias de Sol, lá longe, a mais de vinte quilómetros. D. Sebastião
haveria de surgir de repente do manto cinzento de nevoeiro, talvez
montado num cavalo, ou numa serpente gigante, ou então numa máquina
desconhecida. E eu ia muitas vezes junto, não tanto para ver se assistia
à chegada do rei, que para mim tinha sido um sujeito um bocado para o
parvo, mas na ânsia de ouvir as coisas dos encantamentos. Foi numa
dessas esperas de loucura que o velho me contou acerca do poder das
estrelas.
Para mim, acabou por ser muito difícil repetir a contagem durante nove
noites seguidas. Umas vezes, quando estava quase a acabar, vinha uma
noite de céu nublado. Noutras, esquecia-me à Sexta ou sétima noite e era
preciso começar tudo de novo. Dessa maneira, só ao fim de seis meses é
que consegui cumprir com todas as regulamentações do ritual. O velho
estava triste por esses tempos, muito desiludido com D. Sebastião, que
teimava em não aparecer. Já eu não, nem pensava nisso, esperava apenas
pelo meu sonho. Na noite marcada deitei-me mais cedo do que o costume e
tive de usar algumas artimanhas para dormir. O velho dizia que imaginar
lutas de gafanhotos, por exemplo, fazia dormir. E a verdade é que eu
adormeci a meio de uma dessas lutas. Mas depois, durante o único sonho
que se me chegou, nada, nem um sinal do que eu esperava. Apenas um
estranho mundo de pedras que passavam a vida a representar peças de
teatro.
*
Eu ficava o tempo todo a olhar para ela, perdido na última fila, à
espera de lhe descobrir qualquer parecença com a pedra mais bonita do
meu sonho já com dois ou três anos. Tanto que cheguei a ser tomado pelo
aluno mais atento da turma. Pelo menos naquela disciplina intragável do
programa do unificado que parecia não interessar a mais ninguém, apesar
de ter uma professora tão jovem. E em Junho terminei com uma nota
bastante alta, superior à de qualquer outra disciplina. Porque naquela,
desse lá por onde desse, eu não podia falhar. Mas depois, pelo recomeço
das aulas em Outubro, o mundo pareceu querer desabar-me em cima. Logo no
primeiro dia, soube que ela tinha mudado de escola e que eu já não a
iria apanhar como professora numa das disciplinas desse ano.
Acabou por ser, no entanto, um tempo de alguma esperança para mim,
porque me convenci, ou pelo menos tentei convencer-me, de que a
esqueceria facilmente se não a visse. Só que um dia dei comigo a caminho
da secretaria, sem saber bem o que estava a fazer, completamente perdido
em três ou quatro pensamentos por onde ela saltitava sozinha. A
funcionária disse-me que só me poderia mostrar a ficha da minha
matrícula, apenas isso, mas depois de muita insistência e das desculpas
mais lógicas que naquele momento consegui inventar tornou-se mais
maleável. Deu-me o número de telefone que eu tanto queria e mandou
avançar o próximo aluno.
*
Às vezes, o velho que esperava por D. Sebastião fazia os pássaros irem
pousar-lhe nos ombros, ou nas mãos. Durante os anos todos que o conheci,
tentei imitar-lhe os ruídos que fazia com a boca e os gestos até ao
mínimo pormenor. Mas sempre em vão, porque nunca um pássaro se aproximou
de mim. Nem iam ter com o velho se eu não estivesse um pouco afastado.
– Os pássaros são muito desconfiados – dizia-me ele. – Só eu demorei
quase trinta anos a convencê-los de que sou amigo deles.
– Então e eu, ainda tenho de esperar esse tempo todo?!
– Pode ser que sim, mas também pode ser que não. Pode até ser que nunca
venham a gostar de ti.
*
Nas primeiras chamadas, sempre que a voz dela surgia do outro lado da
linha, eu ficava uns momentos a ouvi-la perguntar quem era, e depois
desligava. Ou desligava ela. Era então que as recordações me assaltavam
mais insistentemente, sem me darem um só momento de paz. Invadiam-me os
pensamentos e os sonhos, e até me apareciam nos pesadelos, onde eu a via
sempre a fugir de mim, ou a atirar-me pedras. O desejo de voltar a
ligar-lhe não me deixava, parecia que só isso me iria sossegar, como se
eu não soubesse que se tratava de um ciclo sem fim, onde tudo acabava
por se repetir.
Uma vez veio um miúdo atender e eu atrevi-me a falar, com uma voz
bastante grossa.
– Eu sou o filho dela. E o senhor?
Parecia ter à volta de sete anos. Algum tempo mais tarde, acabaria por
dizer-me que tinha oito.
– Sim, quem é o senhor?!
Fiquei um pouco a pensar, com o miúdo impaciente à espera de uma
resposta. E depois disse-lhe que me chamava D. Sebastião e que fazia
colecção de pernilongos e de lenços de assoar, mas que não tinha para a
troca. Para lhe explicar o que era um pernilongo, demorei quase um
quarto de hora. E só ao fim desse tempo todo é que percebi que nem eu
próprio sabia. Acabei por lhe dizer que era um bicho com umas pernas
muito compridas, sete pernas, tão compridas que em minha casa os
pernilongos tinham de estar sempre à janela com as pernas de fora.
– E passam rasteiras às pessoas?
– Às vezes passam.
– Sim?!
– Sim, mas só quando eu não os estou a vigiar.
*
Por essa altura, o velho que esperava por D. Sebastião foi para o asilo.
Eu passei a ir visitá-lo de vez em quando, e sempre que conseguia poupar
algum dinheiro levava-lhe uma onça de tabaco para o cachimbo, para ele
fumar às escondidas das empregadas. Numa das vezes, encontrei-o no
jardim com uma garrafa sem fundo nas mãos. Estava a observar o céu.
– D. Sebastião, aquele amaldiçoado, agora anda menos esquisito –
disse-me ele.
Respondi-lhe que se calhar andava, que era bem capaz disso.
– Sim, ele já não liga muito a como está o tempo. Pode chegar em
qualquer altura, numa manhã de Sol, ou numa tarde de tempestade, pode
até chegar numa noite de poucas estrelas.
Voltei a dizer-lhe que sim e ele continuou a observar um a um todos os
bocadinhos do céu que cabiam na garrafa.
Quando nos despedimos, já com a noite a cair, ele pôs-me um braço à
volta do pescoço e pediu-me que o escutasse com atenção. E a seguir
disse-me que um dia mais tarde, quando eu casasse e tivesse filhos, era
melhor não lhes contar nada acerca das nove estrelas que traziam num
sonho a mulher da nossa vida. Assim não lhes estragaria a surpresa do
amor, não seria como com ele, que muitos anos antes de casar já sabia
com que mulher isso iria acontecer. Nem como comigo, que ainda não a
havia encontrado e já a tinha visto num sonho. Prometi-lhe que nunca
haveria de contar.
*
Aos poucos, ela começou a dizer mais qualquer coisa, a ir além de
perguntar quem era e se aquilo se tratava de uma brincadeira de mau
gosto. Dizia que escutava a minha respiração, que lhe parecia ser de
alguém verdadeiramente atrapalhado. Essas observações assustavam-me,
porque eu pensava que ela me estava a reconhecer, a lembrar-se do aluno
que alguns meses antes prestava tanta atenção ao que ela dizia, o mesmo
aluno que ficava acanhado quando ia ao quadro e que se engasgava de
cinco em cinco palavras ao responder-lhe a uma pergunta.
Um dia liguei-lhe muito cedo e ela, assim que percebeu que era o sujeito
silencioso do costume, gritou que não precisava de despertador. E depois
desligou. Eu estranhei-lhe o comportamento, porque ela nessa altura
ficava sempre um bocado a falar para alguém que, apostava, ainda haveria
de dizer alguma coisa. Para alguém a quem chegara a pedir desculpa pelos
insultos de algumas das primeiras vezes. Para alguém que aos poucos ia
ficando a saber que ela vivia com o filho pequeno, que a sua cor
preferida era o verde e que não gostava nada do seu novo liceu. Fiquei
sem coragem para voltar a ligar-lhe.
*
O velho tinha sonhado muitos anos antes com uma mulher que dançava, de
costas e com um vestido azul. Era loura, e pelos movimentos que fazia a
música devia ser muito suave.
– Vossemecê, nessa altura, já estava assim surdo como agora?
– Não. Nessa altura eu tinha bom ouvido. Podia até ouvir a erva a
crescer e os grilos a respirarem, se estivesse sozinho deitado num
prado.
– Mas não ouvia a música que ela dançava!
– Pois não. Nos sonhos nunca se ouve nada. Alguma vez ouviste um
gafanhoto guinchar no meio de uma luta?!
Dois anos mais tarde, o velho acabara por encontrar a mulher.
– Foi num baile da sociedade recreativa e eu ainda era bem novo por
esses tempos. De repente, descobri-a a dançar sozinha no meio dos pares,
loura como no sonho e de vestido azul. E a música era mesmo suave. Via-a
a dançar devagar, sempre de costas para onde eu estava.
– E não teve medo de ela ser feia?
– Tive, mas só até à altura em que se virou para mim.
*
Eu continuava a falar com o filho dela. À Quarta-Feira. O miúdo tinha-me
dito que esse era o dia em que a mãe dava aulas até tarde, e que por
isso ele vinha para casa no autocarro do colégio.
– Nos outros dias a minha mãe vai-me sempre buscar.
Ele contava tudo ao seu amigo coleccionador, e lamentava que só lhe
ligasse uma vez por semana e que lhe pedisse para não falar nele à mãe.
– E o motorista do colégio fica a ver até eu entrar em casa e fechar a
porta.
Quanto aos pernilongos, o miúdo queria saber sempre mais. E assim o
assunto atingiu um ponto tal que uma vez eu acabei por sugerir que
falássemos antes de lenços de assoar. Mas ele não queria saber disso, de
maneira nenhuma, o que lhe interessava era os pernilongos. E um dia,
completamente envolvido nas minhas invenções sobre os desgraçados dos
bichos de sete patas compridas, eu acabei por me esquecer das horas. Foi
por isso que a certa altura notei o bater de uma porta e ouvi de novo a
voz dela. O filho, meio atrapalhado, não conseguiu mentir-lhe e disse
que estava a falar com D. Sebastião, o coleccionador. Reparei que ele
lhe passava o telefone, mas não pude desligar. Fiquei a olhar as pessoas
na rua, do outro lado do vidro da janela, e quase no mesmo instante
ouvi-a perguntar quem era. Uma, duas, tantas vezes, até que reconheceu o
meu silêncio e disse que chegara a pensar que me tinha acontecido alguma
coisa.
(conto incluído no livro O Velho que Esperava por D. Sebastião - Editora
Pergaminho, 1999)
ANTÓNIO MANUEL VENDA (http://amvenda.no.sapo.pt/) nasceu em Monchique, no Sul de Portugal. Publicou seis livros de ficção (Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade, contos; Os Abençoados Fiéis do Senhor S. Romão, novela; Até Acabar com o Diabo, romance; O Velho que Esperava por D. Sebastião, contos; Os Sonhos e Outras Perigosas Embirrações, romance; O Medo Longe de Ti, romance). Destes, alguns receberam prémios literários em Portugal, de instituições como a Secretaria de Estado da Cultura, a Sociedade Portuguesa de Autores, a Câmara Municipal de Almada, o Instituto Abel Salazar e o Centro Nacional de Cultura.
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