O velho e o mar

Manhã de inverno, vento frio, sol tíbio, algumas núvens, luz pousando na praia como se ela fosse tela de pintor impressionista. O velho de longas barbas brancas chega caminhando sozinho, trazendo nas mãos uma vara de bambu.A velha boina preta cobre sua cabeça. Ele simplesmente caminha. Sem se agitar ou animar demais, ouve o canto das mil sereias que vem das ondas. Os sons do mar tocam seus ouvidos como se fossem um mantra feito só para ele, naquele exato momento. Respira lento, sereno, medita. Pensa que ainda não desacreditou de todo na existência de sereias e outros seres misteriosos do oceano e da terra , acredita que ainda tem algum tempo, que a vida ainda lhe deu tudo. Tem a sensação de que os calendários deram uma parada, reflete que é melhor nem pensar sobre o tempo, um mero ponto de vista dos relógios, como disse o Mario Quintana. Aí o velho resolve recolher latas, garrafas, pedaços de madeira, restos de brinquedos e outros sobras do último veraneio, espalhadas na areia. Sabe que não vai limpar tudo, mas fica feliz, sente-se melhor fazendo sua pequena parte. Depois da aposentadori resolveu viver à beira-mar, numa casa simples, mas aconchegante. Enquanto caminha lembra do dinheiro que ganhou como representante comercial, das coisas que comprou e vendeu,das vezes em que levou a melhor ou a pior nos negócios e pensa que tudo aquilo agora quer dizer quase nada. São apenas lembranças , sombras longínguas. No final do jogo, o rei, a rainha, os peões, os bispos e o resto vão para a mesma caixa, ele sabe. Enquanto observa as garças e as gaivotas, pensa com carinho na mulher, nos filhos, nos netos e nos bisnetos que estão na Capital. Um brilho diferente brota nos olhos fundos. Lembra que eles ficaram de aparecer no fim-de-semana. Abaixa-se para apanhar uma concha grande, rara, que vai sortear entre os netos. Sente que não caminha sozinho. Corpo aquecido, acelera um pouco os passos e curte os gostosos efeitos que a caminhada vai produzindo nos neurônios e nos músculos do coração. Pensa mais uma vez que não ficou rico, não se tornou célebre , não produziu grandes obras científicas, artísticas ou filosóficas . Não se tornou personagem mundial de romance de Hemingway. Mas está em paz, considera que fez o melhor que podia, que ainda tem o que fazer. Contempla o brilho do sol na areia e uma intuição boa lhe diz que algum contista municipal vai lhe dedicar quatro ou cinco dúzias de linhas. Ou não. Mas não se preocupa com isso. O que tiver que ser , será. Está escrito.


JAIME CIMENTI, jornalista, Procurador Regional do Trabalho e escritor, é autor do livro de contos Lâminas Paralelas e co-autor em mais de 20 antologias. Colabora com jornais e revistas desde l977 e desde 1994 é colunista do Jornal do Comércio. Já publicou contos em crônicas em Playboy, Zero Hora, Correio do Povo e é colunista do jornal Usina do Porto.