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O Senhor dos Sinais
Na manhã do dia 6 de agosto de l945, os portões do hangar se abriram e
um pequeno trailer rebocou um bombardeiro B-29 à pista de vôo. O
movimento dos soldados na base militar era intenso. O jipe do General
Groves rompeu a neblina e o oficial ao lado, percebendo a inquietação de
Groves, perguntou por que a segurança da base tinha sido redobrada. O
general mordeu o charuto e depois falou:
Você não vai acreditar... Tibbetts me telefonou pela madrugada
preocupado com um sonho que teve... o oficial sem tirar o olho da
estrada quis saber mais e Groves, balançando a cabeça com desdém,
retomou: Tibbetts estava agitado, acreditando que pudesse ter problemas
no momento da decolagem. Talvez fosse isso o que o sonho estivesse lhe
querendo dizer. Por isso resolvi facilitar as coisas, intensificando a
segurança.
Antes de assumir o comando da aeronave Paul Tibbetts arranjou um tempo
para uma foto. Mal cabendo em si de contentamento pela tarefa que o
governo de seu país lhe confiara, posou todo orgulhoso para a câmara. Um
pouco acima de sua cabeça, no bojo do avião, o nome de sua mãe, ENOLA
GAY, estava gravado com tinta luminosa.
O general Groves desceu do Jipe e os pilotos se perfilaram. Depois das
continências o general pôs a mão nas costas de Paul e se afastou com ele
do grupo de oficiais.
Está melhor Coronel?
Tudo bem, General...
Tibbetts caminhou meio sem jeito, olhando pros lados, e de repente
voltou-se para Groves.
General, no meu sonho aquela gente merecia...
Tentando acalmar o piloto, Groves balançou a cabeça que sim e em seguida
apertou sua mão se despedindo. Na cabina, depois das instruções pelo
rádio, Tibbetts parecia ver as imagens do sonho em meio à neblina. Sabia
que o mundo não seria mais o mesmo, depois que apertasse o gatilho da
bomba, que ele dera o nome de Little Boy. Por precaução testou os óculos
escuros; recebera ordens para usá-los depois que liberasse o flagelo
sobre a ilha. Lá embaixo, por trás do raibam, Groves lia seus
pensamentos.
A fortaleza voadora levantou vôo da base aérea norte-americana da ilha
de Tinian em direção ao Japão. Hiroshima era o alvo do primeiro
bombardeio nuclear da história...
...
Os olhos de Canaã viram quando a pomba riscou na escotilha da nave. Sem
deixar cair o ramo de oliveira que trazia no bico, o pássaro atravessou
o alçapão e caiu nas mãos do menino. Canaã correu estabanado pelos
corredores da arca e entregou o pássaro a Cão, que esperava ansioso para
fazer a leitura dos sinais nas entranhas do bicho. Sem, o irmão mais
velho de Cão, revelava em seus olhos a chama da inveja lhe consumindo a
alma. Era ele quem deveria ter levado a pomba às mãos de Noé, para que o
patriarca fizesse a leitura dos sinais e depois sacrificasse o animal a
IeHohVah, o deus de misericórdia. Da soleira do quarto de Cão, Sem fez a
cobrança mas o irmão fingia não entender, ocupado que estava com o
pássaro em suas mãos. Depois de amaciar a penugem da pomba, num repente
o homem arrancou-lhe a cabeça e, ainda não contente com o feito, ali
mesmo na bancada, sob a navalha fria do facão cortou o animal em dois.
Preciso me concentrar nas entranhas desse pássaro para ler os sinais.
disse com o sangue entre os dedos, querendo ficar sozinho em seu
laboratório.
O olhar de Sem era como um raio fulminando o irmão! Em seguida
arrebanhou sua gente e foi direto a Noé para lhe falar do sinal que o
pássaro trouxera a prova de que as águas haviam minguado sobre a Terra ,
e só depois contou do descaso de Cão, que, sem se importar com os
procedimentos, apropriara-se da ave para fazer augúrios!... Mas, Vesta,
a esposa de Noé, entrou transfigurada na tenda interrompendo a conversa.
Alegre com o que vira pela grade do quarto a mulher falava das águas da
maré baixa e dos céus de IeHohVah tão limpos como nunca! O velho Noé
esqueceu por um instante a briga dos filhos e se apressou, mandando um
recado aos capitães para que atracassem a arca na primeira laguna que
avistassem, afinal era hora de consagrar a terra renascida das águas.
E assim foi feito. Tão logo encontraram um porto seguro liberaram o
navio: Noé e Vesta foram os primeiros, depois a vez de Sem, Jafet o
irmão do meio e Cão o mais novo, seguidos de mulheres e filhos. Quando
todos os animais se encontravam fora da nave, Noé pediu para que os
filhos construíssem um altar para o holocausto, somente dessa maneira
voltariam ao coração de IeHohVah, o deus de misericórdia. E os filhos
dançaram e festejaram o minguar das águas do dilúvio, e foram dias e
noites no sacrifício das criaturas.
Tempos depois, em algum lugar de sua morada, IeHohVah, sensibilizado com
as oferendas, resolveu que chegara a hora de uma visitinha à Terra, como
fizera outras vezes. Sua presença não faria mal a ninguém, e além do
mais, depois do castigo merecido, bem que gostaria de saber das
intenções dos filhos. Na verdade chegara a hora de passear outra vez com
o velho Noé pela vinha e saborear de sua preciosa bebida... Mas os
preparativos de suas viagens eram sempre demorados, e antes que os
filhos se desvirtuassem de novo resolveu mandar um representante seu, à
Terra, para adiantar ao patriarca as razões de sua visita. Assim, ciente
das coisas, quando se avistassem outra vez a conversa ficaria sem
rodeios e sem comiserações. E foi o que aconteceu. No momento em que o
fogo do altar ameaçava extinguir-se, um representante de Deus, de nome
Ormasio, foi ter com Noé pela vinha.
Depois de uma e outra, de falarem coisas das terras e outras dos céus,
lá pelas tantas, quando a bebida esquentava as mesuras e já se tocavam,
o emissário de IeHohVah finalmente lhe contou os planos do deus. O velho
Noé quase caiu para trás!... Não por descontentamento com as promessas
de IeHohVah, não, mas de alegria, o que Ormasio até se surpreendeu! Não
é que o velho patriarca pensara em fazer a mesma proposta a IeHohVah? Na
verdade ele e sua gente estariam dispostos à redenção de seus pecados,
aceitando de bom grado a proposta de Deus, em deitar suas filhas com os
anjos do Senhor, com o objetivo de povoar a Terra com criaturas
perfeitas aos olhos e à semelhança do criador dos céus e de todas as
terras...
A salamandra Ormasio deu mais um trago no vinho. Em tremenda algazarra
pelo bosque os dois não viram os olhos de Canaã lhes seguindo pelas
sombras. Afrouxando passos sobre a terra úmida, também já não percebiam
a luz da lua velando a noite. Para Noé o momento era propício. E o
patriarca sem perder mais tempo resolveu convidar Ormasio para tomar
pousada em sua tenda. O anjo, que já esquentara a carne fria no vinho,
tomou mais um cálice e agradeceu o convite.
Em meio à bruma densa já se entrevia o clarão da candeia à procura do
estrangeiro. Largando-se à frente, Noé entornava a moringa derramando
sobejos no camisão. Ao chegar à tenda, depois que abateu a seda fina
disfarçando a porta, o velho cambaleou e acolheu com um abraço a
salamandra de Deus, pedindo-lhe que entrasse. Lá dentro uma surpresa o
aguardava; a prova de que Noé não brincara ao aceitar o acordo com
IeHohVah!... O velho tomou mais um gole e escorregou as costas numa
barrica. Sentado na lama, Noé bebeu com a lua.
Sem que o avô desse conta Canaã rodeou o flanco da empanada e se dispôs
a espiar pelos fundos. Quanto ao estrangeiro, ao romper o véu espesso da
primeira câmara foi dar com Vesta nua e ansiosa, implorando-lhe o
enlace:
Venha Ormasio, esquente seu membro gelado em minhas entranhas!
A salamandra ficou sem fôlego! Vesta, apesar da idade tinha viço e
encantava!... Como o anjo não se decidia, ela logo lhe tirou a túnica e
depôs suas asas numa pequena arca, ao lado do estrado. E para lidar com
a natureza fria da criatura, sobre a chama tortuosa da vela, a velha
esquentou o óleo na pátena e depois se ajoelhou a seus pés.
Dali de onde estava, vendo a cena pela costura da seda, Canaã viu os
olhos negros de Ormasio embaçados. E viu também, como em meio à fumaça
do incenso as mãos ansiosas de sua avó acariciavam o corpo do
estrangeiro.
O anjo farejava delícias! A velha untou o membro da salamandra e depois
o deslizou devagar entre as covas dos olhos à extremidade do nariz.
Vesta contornou os lábios com a glande e depois sugou o açúcar até que
se derramasse na boca. A estranha criatura estremeceu quando a velha
lambeu silenciosa o mel, e coroou com a saliva quente os escrotos...
Depois foi a vez dos seios intumescidos, do roçar a cabeça do membro no
umbigo fundo, do deslizar entre os lábios carnudos da vulva ao leito
quente e úmido da entranha... A salamandra Ormasio estava em seu lugar,
e quando Deus firmasse o contrato com Noé, ele mesmo teria muito que
fazer na Terra, pois as filhas dos homens eram formosas!...
Mas os olhos de Canaã não viram quando a lua projetou sua sombra na
empanada!
O anjo batia os pés pela encosta sem perder de vista a cabeleira clara
de Canaã, à luz da noite. Mesmo conhecendo o terreno o rapaz não
conseguiu escapar ao demônio que pulou em suas costas atirando-o ao
chão. Depois de rolarem na lama, por fim a criatura segurou-o pelos
punhos e montou em seu ventre. O estrangeiro bafejava fedido e aos
poucos se transformava num lagarto branco e transparente à luz da lua!
Canaã vomitou com o membro macilento do bicho em seu peito. Mas, como se
estivesse caído em si, ou observado algo no rapaz que o encantasse, a
salamandra, sem tirar os olhos da presa, aos poucos foi afrouxando as
garras, afrouxando, deixando que o menino deslizasse devagar entre as
pernas, até escapar de vez na escuridão.
No outro dia Noé mandou chamar os filhos à sua tenda e pediu ao
estrangeiro para que expusesse os planos de IeHohVah. Enquanto falava,
Ormasio não perdia de vista os olhos de Canaã se esgueirando por trás de
uma palmeira. Depois da fala o velho chamou-o de lado e pediu para
deixá-lo a sós, com os filhos. Queria persuadi-los a aceitar o destino
que Deus lhes reservara, pois somente dessa maneira asseguraria o futuro
de sua gente, vivendo sem medos e sem castigos, em paz com IeHohVah...
Enquanto o velho convencia os filhos, Ormasio, silencioso como uma
serpente, deslizava pela sombra à procura da presa. Desta vez não se
debateria com o rapaz pelo bosque, desta vez seria mais sutil. Para
atingir seu objetivo, primeiro deixaria que sua força vital lhe
alcançasse, e somente quando isso acontecesse é que entraria em sintonia
com os desejos de Canaã, imobilizando-o onde quer que estivesse.
Ao mesmo tempo em que se perdia pela mata, o demônio manhoso construía
sua mágica. O rapaz deveria estar ali por perto e logo a salamandra
poderia ouvir as batidas do seu coração, pulsando em meio à respiração
curta e ofegante pelo éter. Ao harmonizar as oscilações da energia do
menino, o anjo logo captou seu ritmo, transmitindo em seguida seu desejo
à aura da presa. Canaã não escaparia mais! Encostado numa árvore o
menino sentiu quando a mão da criatura acariciou o ventre e depois lhe
apalpou a virilha. Os olhos embaçados do demônio sonhavam extasiados
quando Cão lhe desceu um porrete na cabeça!
...
O ancião quase não resistiu à visita do deus misericordioso! Quis
ajoelhar-se, mas IeHohVah não deixou. De cima do outeiro, os filhos de
Noé que avistavam Deus pela primeira vez seguiam a conversa dos dois
pela praia. IeHohVah era como uma sombra de aura luminosa, e toda vez
que falava, sua voz era como um trovão, raios caiam do céu...
Cão, meu filho mais novo se opõe a nossos planos, Senhor! disse o velho
quase suplicando. E o pior é que não posso mais controlá-lo,
desgarrou-se de vez do nosso rebanho...
Um raio caiu perto deles e IeHohVah falou com tristeza:
Tenho o mesmo problema com um filho meu... Satanás, o anjo da luz mais
cintilante, ele também me abandonou...
Como se esgotasse o tempo da visita o deus resolveu dar prova de suas
boas intenções. De antemão deixou claro que o patriarca deveria trazer o
filho de volta ao rebanho. Depois o Velho chamou o escriba que sempre o
acompanhava nessas ocasiões, para selar o pacto com Noé.
O deus começou trovejando que não amaldiçoaria mais a Terra por causa do
homem, prometendo não mais ferir os filhos outra vez, como a pouco
fizera pelo dilúvio. Enquanto o escriba anotava os trovões uma ventania
de areia fez o velho Noé cair de joelhos. Nuvens se agitaram sobre o mar
revolto e raios cortaram o breu do céu.
...a sementeira relampeava o Senhor o frio, o calor e o dia e a noite
não cessarão outra vez!
E para que não duvidassem dele, que tinha a memória fraca, coisa e tal,
ali mesmo aos olhos das gentes pôs um arco-íris nas nuvens. Era o sinal
do concerto com o povo de Noé, o acordo firmado entre os Céus e a Terra!
Depois do selo gravado a comitiva de Deus se aproximou. O auriga riscou
o chão de areia e IeHohVah subiu em sua nave, não sem antes reservar um
banquinho para Ormasio, a seu lado. A viagem era longa e os dois teriam
tempo de sobra para uma conversa. Ao subir no carro, o anjo, bem
acorrentado pelos punhos ao pescoço, ainda ousou os olhos de Canaã entre
as gentes no outeiro.
O carro levantou vôo, os filhos desceram à praia, mas Noé quis ficar só.
Precisava de um trago para escutar os sentimentos.
...
A esquadrilha voava em posição de combate protegendo o B-29 do coronel
Paul Tibbetts. O tenente Lewis, pelo rádio, dizia que o Enola Gay tinha
o brilho do sol à luz clara da manhã!
...
Através das videiras Canaã viu quando o avô, zonzo de vinho, se desnudou
e caiu! Alcançando as veredas estreitas do vinhedo o rapaz desceu os
degraus da encosta e deu a notícia a Cão. O menino guiou o pai até o
avô, que ao chegar diante do velho, gritou por Sem e Jafet. Como não
tinha intimidade com Noé, Cão esperou que os irmãos cobrissem sua nudez.
Depois do vexame o alquimista aproveitou para convidar os irmãos à lua
da maré morta, onde de sua tenda na praia, ele lhes interpretaria as
entranhas da pomba e também lhes mostraria o resultado da Obra
trabalhada no forno. Porém, precisava do velho sóbrio para que pudesse
fazer as revelações.
E assim foi feito. Mal a lua nascera os povos foram chegando aos magotes
pelos degraus da vinha. Os filhos desceram o velho na areia e lhe deram
um tamborete para se sentar próximo à bancada improvisada de Cão, em
meio a fogueiras iluminando a cena.
Sobre a laje estavam alguns recipientes de barro e um pequeno forno de
pedra. Atendendo ao sinal de Cão, Canaã deu início aos trabalhos,
queimando mirra na cumbuca. Em seguida tirou o cadáver da pomba de uma
vasilha e colocou-o no abano de palha sobre a pedra. O filho serviu a
bandeja ao pai e, conforme havia prometido aos irmãos, Cão tomou o
pássaro em suas mãos e começou a leitura. No inicio falou de maneira
estranha, como se estivesse possuído por uma força maligna, o que fez
com que os irmãos ficassem confusos e medrosos. Mas, aos poucos os
sinais foram clareando, clareando, até que todos começaram a entender o
que ele dizia. Cão falava do hálito quente da Besta, que, varrendo
terras, matava tudo e o que ainda vivia.
Canaã amparou o pai e Noé não conteve as lágrimas. Ao ver o homem
ensandecido comer do que restara do animal e ainda beber o sangue
misturado com mirra na cumbuca, os irmãos ficaram pálidos com a cena e
choraram. Os olhos de Cão haviam desaparecido. Desses olhos mortos não
escaparam os sinais da atormentada visão: as coisas vivas, petrificadas,
e a grama verde, queimada como palha seca...
Depois de comer o cadáver da pomba o homem levou as mãos ao ventre e
rugiu igual fera. Com os olhos mansos de bicho ruminou a carne mole do
pássaro, vomitando-a na areia. Noé roçou a barba entre os dedos e viu a
sombra perversa de um deus sobre o filho...
Sob o olhar amedrontado das gentes, Canaã refrescou a fronte do pai.
Quando todos pensavam que os prodígios haviam acabado, Cão levantou o
braço e apontou-o para Noé:
... Meu pai que conhece melhor os procedimentos do Senhor, bem que
poderia apaziguar nossas dúvidas... Porque nenhum de nós tem passeado
com Deus pelo Céu e pela Terra, como ele! Nenhum de nós! Mas, ao
contrário de Noé, que sela os lábios com o silêncio para manter a chave
do poder, eu mesmo resolvi em lhes matar a curiosidade meus irmãos,
sendo ainda mais claro... É preciso dizer que, não fosse a tarefa dessa
pomba, em ter deixado gravar os sinais em seu corpo e trazido a mim para
que os lesse, não saberíamos hoje que não somos os únicos filhos de Deus
sobre a face da Terra!
À fala de Cão, seguiu-se um rumorejo ensurdecedor. Noé, temendo perder o
controle de seu povo, gritou:
Cão blasfema contra o deus de misericórdia, indo longe demais no seu
propósito de confundir nossa gente!... Cão está louco!
Canaã compreendendo a urgência do momento apressou-se e descobriu o
forno sobre a bancada. O fogo ainda tomava conta do crisol, quando Cão,
mais intencionado ainda, gritou:
Irmãos! Quero que vejam com seus próprios olhos a razão de minha
loucura!
Canaã pediu às gentes que se enfileirassem diante do vaso cristalino,
para que pudessem ver os prodígios da Obra. No início, os irmãos se
intimidaram com a presença de Noé. Mas logo se deixaram guiar pelo
menino que lhes pedia para primeiro olharem o prodígio das estrelas
dentro do vaso. Os tios olharam e ficaram assombrados ao verem o mesmo
desenho, sobre suas cabeças, no céu!
Ao apontar o sul do crisol, o alquimista revelou:
Depois das estrelas salpicando o vaso, vocês podem ver bem aqui,
embaixo, bem ao sul, a vaga revolta açoitando águas, tragando em suas
profundezas tudo o que existe na Terra! E foi bem isso o que nos
aconteceu...
Os irmãos olharam e se assustaram com o que viram, ao se lembrarem do
dilúvio pelo qual haviam passado!
Em seguida, apontando o norte na abóbada superior do vaso:
Vejam! Como o sal que se deita no fogo, uma crepitação de raios lança a
morte e a desolação sobre os viventes! Como vêem, enquanto sofríamos o
açoite das águas que pensávamos ser o castigo de IeHohVah, em outro
lugar da Terra, meus irmãos, uma gente igual a nossa morria calcinada
pelo fogo! dito isso, o homem afagou a barba enquanto os olhos corriam
em torno de uma nova sentença: Ou quem sabe a pomba trouxera a visão do
futuro?! Talvez Noé pudesse explicar às gentes a loucura pela qual o
Senhor mata seus filhos pelo fogo, e depois os afoga em outra parte da
terra...
Noé, vendo os filhos ruminarem medos, emudeceu...
Cão mais uma vez apontou a cena no espelho do crisol, e bradou aos
irmãos que eles estavam guardados para o fogo, no futuro. Essa era a
verdade! E quanto às gentes do mundo que o pássaro visitara, se
sobrevivessem, estariam destinadas ao dilúvio do Senhor!
Canaã abriu os braços e pediu silêncio. Cão aproveitou o momento:
Não devemos ter medo meus irmãos. As maravilhas que vocês viram hoje
mostram que os flagelos que assolam o mundo são obra da natureza e nada
têm a ver com IeHohVah ou com Noé. Por isso não devemos entregar nossas
filhas e nossas mulheres às criaturas de Deus... E nosso pai sabe disso.
Tão viva quanto nós, a natureza se reveza em sua agonia! Ao trespassar
de frio as entranhas, ou abrasar o ventre com o calor de seus raios, a
natureza morre e renasce de suas cinzas a cada ciclo, a cada idade!
Ao demonstrar que o dilúvio não fora castigo do deus que adoravam, o
alquimista conclamou os irmãos à liberdade. No seu pensamento as gentes
poderiam ser livres, não precisando mais do pacto com IeHohVah, bastando
para isso um pouco de coragem...
Aproximou bem os irmãos do crisol e traçou com o indicador uma área
neutra, dividindo o vaso em duas partes iguais:
Vejam..., aqui, nesta linha imaginária está o cinturão do Paraíso! Nesta
região estaríamos a salvo dos flagelos... Nessa zona temperada nada
acontece. Aqui, nossas gerações poderiam viver em paz para sempre.
Comendo do pão e bebendo do vinho, nossas gerações não mais temeriam a
deus nenhum...
Temendo pela vida Noé aproveitou a ocasião e articulou novos capitães
para a luta. Sem e Jafet, sabiam do preço a pagar se aceitassem a
proposta de Cão. Os irmãos mais velhos abraçaram o irmão mais novo e
choraram em seu ombro. Cão sabia que o coração de Noé não se dobraria. O
melhor que tinham a fazer, pelo menos ele e sua gente, era voltar à arca
o quanto antes e navegar ao lugar chamado Paraíso, que os sinais no vaso
lhes mostrara. Sem pediu ao pai que deixasse o povo de Cão partir em
paz. O velho grunhiu sua raiva e amaldiçoou a geração de Canaã, como
serva das gerações dos filhos mais velhos! Os irmãos se despediram e
subiram calados as encostas da vinha. De lá de cima, Noé profetizou:
Cão, seu miserável! Você esqueceu que um querubim de Deus faz a ronda do
Paraíso com sua espada de fogo?... Juro que você e sua gente maldita não
comerão da árvore da vida!
...
E quando veio a lua da maré cheia a nau de Canaã balançou outra vez na
laguna. No alto do outeiro o vinhago se encheu das gentes de Sem e de
Jafet. De lá de cima se despediram. Na cumeeira da nave Cão fechou o
alçapão. Um dia viria buscá-los pensou , e quando isso acontecesse Noé
não seria forte o bastante para detê-lo.
Logo as vagas da maré alta, cortadas pelos ventos, fariam a barca sumir
no horizonte. Naquela noite os olhos de Canaã não dormiram! Pelas
frestas da janela viu o mar abrasado por clarões repentinos. Os raios,
sequiosos da presa tragavam tudo. Os irmãos se assustaram com o mar
furioso cuspindo ondas contra o navio e se recolheram. Quanto ao pai,
perdido em velhos traçados, sob a luz fraca da candeia procurava a rota
do jardim no outro lado do Éden!...
...
Quatro aviões B-29 apareceram no céu sem nuvens de Hiroshima. O tenente
Lewis pegou o fone e chamou a atenção de Tibbetts, para uma estranha
embarcação que se aproximava da costa da ilha:
... Parece a Arca de Noé! Brincou...
As sirenes começaram a soar e o coronel Tibbetts puxou o gatilho. Pouco
tempo depois elas silenciaram! O pequeno Little Boy desceu de
pára-quedas e explodiu acima do alvo sem deixar nenhuma cratera...
Às 8h e l5 minutos, o apocalipse começava!...
PETRUCCIO ARAUJO (56) é
Videomaker, Roteirista, Jornalista, com vivência na mídia impressa e
televisiva, atuando como diretor de arte na TV Escola, Globo Ciência,
dirigindo e roteirizando vídeos institucionais para empresas em São
Paulo. Na mídia impressa, colaborou em jornais como a Folha de São Paulo
(Folhetim) e cadernos especiais do O Globo e Jornal do Brasil.
Em Recife, participou do Movimento de Cultura Popular, experiência que
reuniu artistas e educadores num trabalho cultural com comunidades. Em
São Paulo, atuou no teatro profissional, escreveu e dirigiu peças para
teatro de rua, com moradores da periferia, na zona norte. No cinema,
trabalhou com Nelson Pereira dos Santos, no filme, "O Amuleto de Ogum".
Atualmente, dirige e roteiriza vídeos institucionais. Como autor e
diretor de teatro, trabalha com jovens, encenando peças para o circuito
cultural da Prefeitura Municipal de Guarulhos.
Como escritor, Petruccio Araujo tem direcionado seu trabalho ao público
juvenil, por acreditar na importância da literatura como forma de
conhecimento do valor ético, num mundo cada vez mais excludente e sem
Utopias.
Ao celebrar valores como a amizade, a união, a força de vontade e de
caráter em suas histórias, o autor tem como objetivo a reflexão do tema
pelo leitor. E para fugir à banalização, que faz do jogo narrativo um
"game" o autor constrói personagens descentrados, mas de carne e osso; é
com a ação desses personagens, que procura levar ao leitor jovem o
posicionamento crítico e a construção da tolerância no mundo.
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