
Ilustração: Eric Fischl |
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O Mega Escroto
Ele tinha aquela mania nauseabunda de coçar o saco e depois cheirar as
pontas dos dedos; mais precisamente as unhas grandes, usadas
meticulosamente para tocar violão nas rodas de baladas. Um dia ela
reclamou dessa mania nojenta, mas ele sempre tornava a fazê-lo quando
achava que ela não estava olhando.
Porém, ela sempre via com o rabo dos olhos e ficava com vergonha de
repetir a dose de reclamação.
Ela não sabia que saco fedia, mas ele esclareceu: ele tinha micose na
região escrotal.
E, assim, foram se somando outras tantas pequenas misérias.
Ela não sabia como agüentara cinco meses aquela criatura e os seus
acessos de grandeza, estes com certeza para compensar a escassez peniana
(o que nem de longe seria um defeito, quando bem usado), mas nem quanto
ao seu uso ele possuía algum dom que pudesse compensar.
Sua limitação peniana era tão proeminente que se tornava difícil manter
o pênis no lugar adequado; ele escorregava e o seu excesso de pele
ajudava a dificultar mais ainda a penetração. Por várias vezes, ela
tivera a leve sensação de estar ao lado de uma mulher na cama, ainda
mais com aquele cabelo comprido e o indefectível rabo-de-cavalo.
A configuração escrotal também não deixava de ser chocante! Ela descreve
magistralmente que ambos pareciam ser uma mini-pizza e do meio da banha
surgia aquele botão incipiente chamado pênis!Ela, uma morena linda,
alta, com uma encaracolada cabeleira negra, deveria ser um contraste
gritante com aquela figurinha esquálida "em todos os sentidos".
Fê gosta de relembrar dos dentes da figurinha - onde não havia um
espaço, havia um podre! Bem, o bafo nem precisa descrever!
E foi só depois de algumas semanas que ela descobriu que o impecável
apartamento da criatura, na verdade, era de sua irmã. Que dele não havia
nem um radinho de pilha daqueles de camelô mesmo!
Hilária mesmo foi a história da "Divina Comédia"! Ele comentava tudo
como se tivesse lido todas as obras de Dante, Dostoievski, Ibsen, até
que um dia ela descobriu que o único livro que ele lera fora uma obra
umbandista emprestada de um parente!!!
Aí, eu acho que finalmente ela caiu do cavalo! E resolveu apear!
Ah, ia esquecendo o lado "místico" da criatura! Era seu costume tecer
comentários aleatórios, instigantes que faziam o pessoal da "roda de
baladas" imaginar que estavam à frente de um novo guru do segundo
milênio. O que ele dizia fazia a gente matutar nas profundezas do
inconsciente...
Bem, uma coisa devemos considerar - ele tinha classe pra enganar tanta
gente. Ou memória! Juro que eu não tenho uma memória tão privilegiada a
ponto de ouvir uma frase de efeito de algum perito e depois repeti-la
enfaticamente, deixando todos boquiabertos!
Logo de início, o Mega contou de suas viagens a Portugal e das cinco
vezes que fora a Cuba.
Como ela adorava viajar, ela inquiriu detalhadamente sobre Portugal, e é
claro, ele se perdeu, e ela sacou, e ele desviou remendando: conhecera
Portugal em "outras vidas"!
Como ele tava sempre "duro" ( de grana , é óbvio!), ele inventava
assaltos. Os impiedosos ladrões levavam tudo – cartões, cheques...e a
grana!" Um dia, ela perguntou: "Mas e o violão? Por que não o levaram???
- É imantado! Respondeu ele com aquele olhar misterioso conhecedor dos
truques mágicos...
Fora marcado um show pra ele. O Mega programou uma megaprodução - 400
incensos seriam distribuídos na porta do teatro e 400 velas iluminariam
a noite. Celestial, não?
Compareceram nove pessoas, sendo que oito eram da família!
Mas a parte mais hilariante eram as visões que ele tinha na madrugada!
Costumava contar que via espíritos guerreiros à volta da cama e o embate
ocorria inevitavelmente com estes personagens. E ele descrevia fielmente
estas lutas: quando ele estava perdendo a batalha para estes seres
fantasmagóricos,surgia uma outra figura benemérita para salvá-lo - o
Cacique Beira-Mar!
Quando o conheci num churrasco na cobertura do apê da Fê (até que
rimou!),achei uma coisinha estranha nele - ele não olhava nos olhos da
gente!
A segunda vez que eu o vi foi lá na Lancheria do Parque; eu estava com
meu amigo Stefan pra curtir uma ceva geladinha. Fiquei na dúvida se o
cumprimentava ou não.
Optei pelo não. Preferi o silêncio inteligente do meu amigo.
Acertei.
PS: Se você encontrar um escroto ambulante nas ruas da Cidade-Baixa,
caia fora! Ele é envolvente, boníssimo e toca violão.
Mas, mas amiga, caia fora!
MARIZA LÓPEZ
nascida em Cacequi, RS. é professora de Literatura e Português. Graduada
pela FAPA em Letras e Pós-Graduada em História da Arte - POA. Obras
publicadas: "Claustro" e "Aldeia".
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