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O Gato
"Talvez sejas tu mesmo o único responsável por tal vida assim vazia. Não
é possível?"
No princípio, foi o miado.
Encontrei-o à porta de casa, num dia feio de chuva. Molhado, lambendo as
patas, não se assustou quando abri o portão. Olhinhos fixos em mim,
quando da minha passagem. Nada fiz; não o espantei, não fiz o "psi, psi"
que se faz aos gatos, não o acariciei, nada. Apenas o notei ali.
No outro dia, lá estava novamente. Dessa vez, deitado no jardim.
Levantou a cabeça de forma brusca assim que me ouviu passar, mas lá
continuou. Entrei e isso foi tudo.
Foi na quinta ou sexta vez que o vi que acabei estabelecendo contato.
Coloquei uma tigela velha com restos do jantar da noite anterior sobre o
gramado da frente. Este o contato.
Dia depois, o recipiente vazio. O bichano havia gostado do prato. Assim,
sempre que havia sobras de comida na casa - homens sozinhos sempre
acabam comprando comida a mais ou deixam-na estragar -, eu despachava
para o tal. Com o tempo, não só o animal sempre me esperava voltar do
trabalho ou de minhas saídas, como também começou a demonstrar certa
afeição por mim.
A primeira vez que entrou. Foi numa noite de segunda-feira. Eu cheguei
apressado, esperando um telefonema, e corri para a cozinha. Dali fiz a
ligação. Ao terminar, me pus a preparar a janta, um qualquer resto de
fim-de-semana. Notei a presença dele, tímido, à porta. Continuei, sem
dar atenção. Lá ficou, em quietude abismal. Só um leve ronronar algo
distante. Sentei-me, abri meu jornal e garfei uns pedaços da carne. Por
entre cada virada de página, lançava olhar em sua direção. Comecei a
notar melhor sua feição.
Era esguio, aparentemente elegante, com alguma altivez. Grande parte do
corpo tinha manchas preto-cinzentas, esparsas, sobre um fundo branco,
como uma vaca leiteira. Os bigodes apresentavam rigidez espartana, de
tão retos. Pêlo curto e uniforme. E os olhos, pequenos, pareciam querer
comunicar, tinham expressividade que nem sempre eu encontrava em
seres-humanos. Era belo, enfim.
Desse ritual de alimentações noturnas, o gato tornou-se parte da casa.
Sempre deixava um vão da janela de trás da casa aberta para que pudesse
entrar, mesmo antes do jantar. Logo, ele morava comigo. Não era ruim;
fazia as necessidades no jardim, não requeria qualquer trabalho, era
silencioso e sóbrio. Parecia sempre estar à parte, o que, ao meu ver,
agora, é uma virtude. Desde de minha separação, habituei-me à quietude.
É bom falar consigo mesmo, sem o perigo de réplicas e argumentações
desnecessárias, sem ter o esforço e o desprazer de pensar o 'outro' ou,
pior, ouvir o que o 'outro' pensa de você. Muito em virtude disso minha
relação com Estela não resistiu. Estaria mentindo, claro, se dissesse
que não sinto sua falta. Ela, Estela. Mas o insustentável é a maior das
forças, sempre. Quando partiu, ela, Estela, me abraçou com a frieza do
minuano.
No princípio, foi o miado. Na única vez em que tentei acariciá-lo, miou.
Era estranho seu som, seco e grave. Como se eu o tivesse agredido ou
enxotado. Soltou um segundo mio, nada melódico também. Um belo gato com
uma miadela tão feia. De tão desagradável, nunca mais o toquei.
Mas, se principia, tem fim. Após chegar em casa, ontem, sentei-me à mesa
de canto, diante do telefone. Exausto, tenho estado exausto desde
sempre, acho. Ali fiquei, imóvel. Uma cena de fotografia, retrato do
nada, em preto e branco. Até. Até que. Ele disse: "Talvez sejas tu mesmo
o único responsável por tal vida assim vazia. Não é possível?
Não podia fazer nada além de ignorá-lo, como da primeira vez. Ficamos,
os dois, ainda um tempo impassíveis. Ele insistiu. "Não é possível?".
Tremi. De raiva, de ódio, ira. Como poderia um desgraçado daquele se
achar no direito de me inquirir sobre o que fiz, faço, farei, o que
diabos faria, o que quer que venha a fazer com minha própria vida?!
Ainda tentei manter a postura exterior, não devia considerações àquela
intromissão. Ainda mais de um insignificante como aquele. Tentei, mas
era impossível não demonstrar que aquilo havia me incomodado. Quando o
escutei dizer "acalma-te, teu nervosismo diz mais que tua boca o faria",
percebi que lidava com um inimigo. Um inconseqüente, insensível e
covarde. Alguém a quem confiei abrigo e proteção, respeito e
amabilidade. Como ousava, após tudo, dirigir-me palavras assim tão
ríspidas? Eu, que nunca pedira opinião sobre nada, sobre qualquer
aspecto de minha existência.
Levantei-me da poltrona, atordoado, e o fitei. Os olhinhos de um pobre
bichano na face de um monstro. Estava me sentindo frágil diante daquele
ataque repentino. "O que fiz pra merecer isso?", deixei escapar. "Talvez
tenha colocado uma redoma ao teu redor, homem, afastando todos de ti".
"Desgraçado! Petulante!", eu. "Agrides cego, sem antes tentar ver. Temes
o espelho, não?", ele. Que insanidade era aquela, eu a escutar as
impressões de um ser enfadonho. "Você não sabe nada, bicho infame. Sua
opinião sobre meus atos nada me diz. Eu sei o que sou, como devo agir,
como me comportar. Você, irracional, reserve-se ao silêncio!", eu, mais.
"Tu me bates pois me considera inferior, um gato. Sim, eu sou. Só que
consideras inferior a todos, incluindo, aí, os teus semelhantes, e
deles, como de mim, crias distância, por meio de agressões insensatas,
temerosas e, antes de tudo, impensadas", ele, ainda mais.
Meus olhos agora tristes. "Te deixei entrar, estar próximo, te
alimentei, como pode ser tão ingrato?". Altivo, senhor de si, ele: "Nada
pedi, apenas considerei sinceras tuas predisposições. Estar ali, eu,
animal, era senão uma forma de aplacar no que possível tua imensa
solidão, eu logo soube; fazer findar um mínimo que fosse tua solidão e
dor, imensas".
"Bicho desgraçado!", eu. Num ímpeto, o telefone voando contra a parede.
Ira. "Bicho diabólico!". O gato recua diante dos estilhaços, se
colocando outra vez elegante, próximo do abajur. Um olhar de reprovação.
"Assim destrói-te um pouco também, homem. Tomas assento aí, dias e dias,
na esperança de ouvir a voz de alguém, qualquer, nesse objeto que agora
jaz espatifado neste chão. Sabes disso, sim?".
Um monstro, em minha sala. O que houve de errado? Por que isso? Uma
provação? Nunca acreditei em provações ou coisas semelhantes, tributos
que temos que pagar em vida, idiotias afins. Que inferno é esse, então?
"Ponha-se daqui pra fora, bicho pulguento! Estou louco de dar ouvidos a
um gato!", eu, assim. "Posso ir, mas de nada valerá. Tu não podes
escapar de teu próprio espelho, homem. Não vês? Teu semelhante te
mostrou, nada valeu. Eu mostro agora, você finge não entender. O que
virá depois? Uma árvore, talvez?", ele, terrível.
Ela, Estela. Quando discutíamos, ao menos havia um interlocutor da minha
espécie à minha frente. Com os diabos se os argumentos continham
semelhanças; eram errôneos, isso é o que me importa. Mas... um gato? E
desbocado dessa maneira?
"Tu preferes te cegar a seguir um rastro, ínfimo que seja, de luz", o
mórbido. Nada mais a fazer. Temperança e quietude. De soslaio, a ele: "É
o que você acha? Não tem pena de mim?". Meia-luz sobre o focinho, os
pêlos como pinturas primitivas, um quadro rupestre. Então: "Te feres e
feres a todos para não sofrer só. Sim. Sinto pena de ti".
Qualquer ponderação é desnecessária, sei. Ações incitam reações. Não sou
tolo, ainda poderá nascer o que me desmentirá. Quando. Há ao meu redor o
que construo; vida é assim. Somos os carpinteiros de nós. Nunca perdi
uma noite de sonho.
No princípio, foi o miado. Hoje, a janta é para um só.
(2004)
VINICIUS HOLANDA, 32 anos, nasceu e reside em Santos/SP.
Ficcionista e poeta, além de jornalista, teve trabalhos publicados em
suplementos literários e sites de literatura. Participou do grupo
literário 'Estorvo', em 1998, com o qual publicou revista do mesmo nome.
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