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Lins
Naquele tempo, a frente da igreja servia de estádio para nossas mais
memoráveis pelejas - aquelas que não podiam acontecer nos campinhos de
um ou outro time, sem a presença de uma viatura de polícia e uma
ambulância. A escadaria do templo virava arquibancada para as (raras)
meninas que se atreviam a assistir a nossa costumeira troca de pontapés.
Vez ou outra, o padre aparecia no alto da escada e ficava assistindo,
braços cruzados. Um dia, para pasmo geral nosso e da platéia, desceu os
degraus de batina e com um apito na mão.
- Já que vocês não me deixam mesmo repousar à tarde, a partir de hoje
vou arbitrar essa palhaçada que chamam de futebol. Só que vai ser do meu
jeito, se não, chamo o Juizado!
Mandou-nos catar uns bambus e fazer traves de verdade, arrumou cal para
as marcações da área, parava o jogo para ensinar jogadas diferentes,
dava bronca em todo mundo, expulsava e dava penitência a quem falasse
palavrão ou entrasse mais pesado e, depois de cada racha, chamava-nos
pra conversar, falava de livros, que tínhamos de ler jornais, “para não
crescerem burros e serem enganados pelos mandões”, que confiássemos
cegamente em nossos pais.
Até o dia em que apareceram uns sujeitos mal-encarados numa perua,
botaram ele dentro e sumiram para Lins - cidade perto, de gente decente
e muito legal, mas, no vulgo de quem sabia das coisas, se referia a um
misterioso (e, pelo visto, bastante perigoso) Lugar Incerto e Não
Sabido.
DIORINDO LOPES JÚNIOR é
jornalista e autor de O Sol em Capricórnio, editorasaraiva.
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