"Dusty answer"

Ele viveu aprendendo que a única resposta da vida é sempre um punhado de poeira. "Dusty answer".

Quando criancinha, certa manhã, êle edificou sôbre os ladrilhos lavados do terraço um castelo de cartas. E perguntou ao seu anjo-da-guarda: - "Não é mesmo lindo?". Mas um vento arenoso veio, numa lufrda, e fechou-lhe os olhos ignorantes para que não vissem o desmoronamento do seu primeiro sonho. "Dusty answer".

Um dia, moço e simples, numa sombra amorosa de árvores confidentes, sôbre a terra, entre fôlhas caídas, êle escreveu, com aquela instintiva convicção que há no fundo de tôdas as distrações, um nome de mulher. E perguntou ao seu coração: - "Será para tôda a vida, não é mesmo?". Mas um redemoinho levantou as fôlhas esqueléticas, e apagou sob a poeira o nome imperecível. "Dusty answer".

Fazia uma tarde gloriosa, quando êle, postas numa causa muito sagrada tôdas as suas complacências, partiu, marchando, anônimo, num batalhão cego. E êle perguntou ao seu sangue:

- "Então? Não vale mesmo a pena ter uma Pátria?". Mas o passo do soldado ergueu do chão uma nuvenzinha indiferente que se elevou um pouco e caiu logo. "Dusty answer".

Por um crepúsculo velho, êle resolveu abrir a gaveta secreta das cartas de tempos idos, e relê-las tôdas, para ter saudade. E perguntou à sua lembrança: - "Que sabor terão elas hoje?". Mas as cartas, roídas pelo tempo, tôdas se haviam esfarelado num pouquinho de terra pobre. "Dusty answer".

E houve uma noite de tristeza, infinitamente de tristeza, em que êle, curioso de si mesmo, quis rever no espelho antigo a sua antiga realidade. E perguntou à sua consciência: - "Que sou ou, afinal?" Mas o espelho estava tão empoeirado, que êle nem sequer conseguiu entrever a própria imagem. "Dusty answer".

GUILHERME DE ALMEIDA (Guilherme de Andrade de Almeida), advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor, nasceu em Campinas, SP, em 24 de julho de 1890, e faleceu em São Paulo, SP, em 11 de julho de 1969. Eleito para a Cadeira nº. 15 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Amadeu Amaral, em 6 de março de 1930, foi recebido, em 21 de junho de 1930, pelo acadêmico Olegário Mariano.
Em 1932 participou da Revolução Constitucionalista de São Paulo.
Distinguiu-se também como heraldista. É autor dos brasões-de-armas das seguintes cidades: São Paulo (SP), Petrópolis (RJ), Volta Redonda (RJ), Londrina (PR), Brasília (DF), Guaxupé (MG), Caconde, Iacanga e Embu (SP). Compôs também um hino a Brasília, quando a cidade foi inaugurada. Em concurso organizado pelo Correio da Manhã foi eleito, em 16 de setembro de 1959, “Príncipe dos Poetas Brasileiros”.
Era membro da Academia Paulista de Letras; do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo; do Seminário de Estudos Galegos, de Santiago de Compostela; e do Instituto de Coimbra.
Um dos promotores da Semana de Arte Moderna, em 1922, foi fundador da Klaxon, a principal revista dos modernistas.
Traduziu, entre outros, os poetas Paul Géraldy, Rabindranath Tagore, Charles Baudelaire, Paul Verlaine e, ainda, Huis clos (Entre quatro paredes) de Jean Paul Sartre.
Principais obras: Nós, poesia (1917); A dança das horas, poesia (1919); Messidor, poesia (1919); Livro de horas de Soror Dolorosa, poesia (1920); Era uma vez..., poesia (1922); A flauta que eu perdi, poesia (1924); Meu, poesia (1925); Raça, poesia (1925); Encantamento, poesia (1925); Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, ensaio (1926); Ritmo, elemento de expressão, ensaio (1926); Simplicidade, poesia (1929); Você, poesia (1931); Poemas escolhidos (1931); Acaso, poesia (1938); Poesia vária (1947); Toda a poesia (1953).
Em 1931, tornou-se co-proprietário dos jornais paulistas Folha da Noite e Folha da Manhã. Manteve a coluna "Sombra Amiga" até o jornal mudar de dono, em 1945; nesse período criou também o Folha Informações (atual Banco de Dados de São Paulo).