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A Patrocina morreu, né?
- A Patrocina morreu,
né?
- Também já tava muito velha.
- Num é preciso tá velha pra morrer, não. Dia desses morreu a Isaura; só
tinha quarenta e cinco anos.
- Num sei. Só sei que se tu for primeiro do que eu vou começar a viver
minha vida. Até hoje nunca vivi.
- Se tu for primeiro eu caso logo.
- Dá-te a respeito. Quem vai querer um velho como tu?
- Elas podem não querer se eu tiver de mão abanando, mas num tem o teu
seguro?
- Mas o que a gente vê é muito mais viúva do que viúvo.
- É, mas ninguém sabe com certeza quem vai primeiro...
- Geralmente é quem tá mais doente. Eu não sinto nada. Por falar nisso,
tu já tomou o remédio do coração hoje?
- Claro, que eu tomei. Sei que tu andaste escondendo ele, mas eu comprei
outra caixa.
- Eu não escondi, eu guardei. Se tu morrer num vai dizer que a culpa foi
minha...
- Como é queu posso dizer que a culpa foi tua se eu já tô morto...? Quer
dizer, se eu já tivesse morrido?
- Sei lá, tu podia fazer alguma coisa só pra me fazer o mal. Deixar
escrito que eu queria te matar; dizer pras tuas irmãs que eu tô te dando
veneno. Tu é capaz de fazer isso só pra mim num receber o seguro.
- Se eu morrer primeiro, né?
- Faz medo mesmo; gente ruim num morre, não.
- Eu só num vou me morrer antes do tempo só pra tu ficar numa boa.
- Eu sei disso. Tu nunca gostou de mim. Tu não tem coragem nem de me dar
este prazer de te morrer logo.
- Então tu quer que eu me mate?
- Se matar, num digo, mas bem que tu podia deixar de tomar este remédio
caro. Aliás, ele tá subindo todo dia. Daqui a pouco tu num vai mesmo
mais poder comprar...
- Quando eu num puder mais comprar meu remédio eu vendo aquele cordão de
ouro e aqueles brincos de pérola queu te dei quando fizemos cinqüenta
anos de casados.
- O quê? Aquele cordão e aqueles brincos eu num vendo nem morta. Tu só
me deu aquilo porque teus filhos te imprensaram na parede. Tu num queria
me dar... Tu nunca me deu nada que não fosse à força.
- Quando eu morrer tu vai ficar com a minha aposentadoria e esta casa
fica quitada. O que é que tu quer mais?
- Sei lá quando é que tu vai morrer... Gente ruim num morre nunca, meu
pai já dizia isto.
- E ele ainda tá vivo?
- Tu tá chamando meu pai de ruim. Ruim é tu qui nem pra morrer serve.
- Se gente ruim num morre nunca tu vai ficar pra semente.
- Acho bom a gente parar por aqui se não vamos começar a brigar e tu
sabe que eu num posso ter raiva.
- E eu é que posso?
- Devia poder. Nunca vi homem viúvo viver bem; já viúva...
- ...
- ...
- ...
RAYMUNDO SILVEIRA
é médico e escritor. Nasceu no Ceará em 1944 e publicou "Viver É Para Os
Cínicos" - Contos, "Antologia de Poetas Românticos Ingleses" -
Compilação e Tradução, "Sete Pecados Capitais" - Contos, "Contos
Incontidos" - Contos e "O Meu Atheneu" - Contos e Crônicas.
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