|
 |
Um crime
Não sei como vim parar nesta pensão. Creio que na tarde em que me mudei
estava fora de mim. Não é possível que me acontecesse uma coisa dessas
no meu estado normal. Teria bebido? Não acredito. Faz seis anos que não
ponho uma gota de álcool na boca. A última vez que bebi dei um escândalo
tão grande em casa de um industrial que até hoje sinto calafrios quando
me lembro do sucedido.
Quando me embriagava gostava de visitar os conhecidos. Invadia-me uma
onda de ternura tão poderosa que não podia me dominar. Tinha que
procurar alguém para desabafar. Nesses momentos via tudo envolto em
cores róseos. Mas voltemos à casa do industrial. Quando entrei no salão,
havia tanta gente e tantas luzes que o meu primeiro ímpeto foi
retroceder. Mas já era tarde. O industrial me acenava, com a face
risonha, do meio do salão. Estava demasiado feliz para reparar no meu
estado.
Quando caminhei em direção do meu amigo, um vulto estranho, com a roupa
em desalinho, o cabelo em desordem, estacou diante de mim, com um rictus
amargo no canto da boca. Ergui os braços e o vulto também ergueu os
braços. Recuei e o vulto imitou o meu gesto. Desconcertado, avancei e
dei um soco violento no rosto do meu antagonista e ouviu-se o ruído de
cristal que se parte. Ainda com a mão gotejante, retrocedi e ganhei a
rua, perdendo-me na escuridão que era profunda.
#
Que faço nesta pensão sórdida? Ainda há pouco minha vizinha gritou tanto
que parecia estar sendo estrangulada. As vitrolas não me deixam
repousar. Preciso dormir, preciso afogar no sono esta lembrança
terrível. Por toda a parte o barulho, sempre o barulho. Por que será que
os homens procuram se atordoar? Ninguém suporta um minuto de solidão.
Parece que todos têm medo de alguma coisa que vai acontecer.
Só neste quarto, escuto o rumor confuso que o vento faz nas árvores. E o
rumor do vento me leva novamente para um passado monstruoso. Eu queria
esquecer a tragédia e o vento desperta tudo aquilo que eu supunha
sepultado no fundo do coração. Por que matei Lídia? Minhas mãos foram
apertando, apertando num crescendo doido e quando afrouxei os dedos, um
pescoço muito roxo ficou inerte sobre a alvura do lençol. Não porque
ainda me lembro da cor do lençol. Talvez o contraste. E foram estas
mãos, que um dia se uniram no fervor de uma prece, que estrangularam
aquela inocente criança. A sensação de ter matado uma criança aumenta
ainda mais a minha desventura. Lídia era uma criança. Tinha o jeito
ingênuo de uma criança, E eu que me revoltei contra Otelo, que chorei a
morte de Desdêmona como um louco! Ah! como a gente nunca se conhece! Um
futuro santo pode estar sorrindo diante do martírio de um Estevão e um
futuro criminoso pode estar ajoelhado diante do cadáver de uma criança!
Há quantos dias penso em Lídia! Sua voz era um canto de andorinha. Era
uma andorinha que havia perdido a memória de outras regiões e que estava
resolvida a esperar o inverno no aconchego de nosso lar. Pobre Lídia!
Teria sido Iago o culpado? Creio que nem no inferno há lugar para Iago.
A sombra de Iago tapou a luz do sol. Não há mais sol, não há mais luz no
mundo. Tudo vai morrer. Minhas mãos estão apertando, apertando,
apertando...
#
Vesti hoje a última camisa limpa. Há duas semanas que estou dentro deste
quarto e ainda não tive coragem de faze a barba. O espelho já não
reflete o rosto escanhoado do jovem que gostava de se contemplar por
alguns momentos todas as manhãs. Quantas vezes, ainda deitada, Lídia não
me disse, com doce ironia, que seus olhos eram um espelho mais fiel que
todos os espelhos. Ah! os olhos de Lídia! Mil anos que eu viva não
conseguirei esquecer o seu terror quando minhas mãos se crisparam no seu
pescoço fino. Parece que suas palavras saíam crivadas de punhais. Cada
palavra era um pássaro em revoada alucinante pelo quarto. Só hoje
compreendo o sentido do seu grito. Ela gritava por mim. Não era o medo
da morte, era o seu amor chorando por mim. Um amor imenso que talvez
ainda peça por mim aos pés de Cristo. Se eu pudesse acreditar de novo!
Por que não pude perseverar? Como agora compreendo esta passagem: Muitos
serão os chamados e poucos os escolhidos.
Por que não rezei dia e noite para perseverar? Quando falta a oração
tudo está perdido.
Fio num domingo de ramos que conheci Lídia. Saía da igreja do Rosário
com um sorriso de luz nos olhos. Era toda uma promessa de amor. Como
estava linda com aquela rosa muito vermelha na lapela! Quem comparou
pela primeira vez a mulher a uma rosa por certo teve a intuição de Lídia
naquela manhã.
Domingo de Ramos. Palmas bentas. O Senhor vai entrando em Jerusalém. Por
que não clamei as glórias do Senhor? Porque deixei que as pedras
falassem por mim?
Lídia, as minhas mãos é que foram mortas. Tu continuas viva, "os meus
olhos são mais fiéis que todos os espelhos" parece que estou ouvindo de
tua boca, de teus olhos.
Não sei o que pensam de mim nesta pensão. Um maníaco, um misantropo, sei
lá. Ontem surpreendi uma nota de ironia na voz da camareira
#
De onde vens envolta neste raio de lua? Vens do inferno ou do céu? Não
podes ser uma ilusão dos meus sentidos. Vejo no teu pescoço a marca dos
meus dedos. Espera. Não te vás. Espera ao menos um minuto. Num minuto a
gente pode construir ou destruir um mundo. Eu já tive a tua mocidade nos
meus braços. Os teus olhos já foram meus. Como tudo era belo visto
através dos teus olhos! Como a vida cantava em teu olhar! Agora que te
perdi para sempre, tenho necessidade de tua presença. Ouve. Nem sei como
nasceu o meu amor por ti. Quando percebi tinhas tomado de assalto minha
vida. Os teus passo não fizeram rumor. Subiste a escada silenciosa como
um fantasma. Abriste a porta de minha alma e entraste. Quando despertei
estava nos teus braços. Foi assim que tomaste conta de mim. Espera um
minuto ao menos. Não te dissipes, visão de amor. Ainda não te disse
tudo. Quero confessar tudo. Meus pensamentos se atropelam como recrutas.
Estou como alguém que subisse e descesse eternamente a mesma escada.
Será que a loucura começa assim? Espera. Não te vás. Há de chegar o
momento em que compreenderás. A porta há de se abrir. Espera, por
piedade! Que é isso? Uma coisa me dói aqui dentro, aqui bem no coração.
Não te vás, Lídia, espera... espera...
#
"Tu podes, senhor, só não podes impedir que eu Te ame". Por que este
verso de Claudel despertou dentro de mim? Então é tão imperiosa assim a
necessidade de amor em Deus? Recordo-me: no dia em que tive que ficar
face a face com Cristo, recuei. Não tive coragem de suavizar as suas
chagas com a minha renúncia total das coisas do mundo. Cristo quer de
nós um amor absoluto. Quem puser a mão no arado, não deve olhar para
trás. Deve olhar para as cinco chagas de Cristo. Em cada chaga cabe toda
a nossa miséria, toda a nossa ignomínia.
Outra teria sido a minha vida, se eu não me tivesse acovardado diante
das primeiras dificuldades. Lídia muitas vezes teve que lutar comigo
para eu não perder a missa, Um amolecimento, um desencanto havia tomado
conta de mim, nos últimos tempos. Faltava-me entusiasmo. Às vezes, a
simples presença de um sacerdote acordava em mim um mal-estar horrível.
Cada padre era um testemunho vivo de que se pode viver em conformidade
com os mandamentos de Deus. Cada sacerdote era uma humilhação para meu
fracasso. Tentei lutar. Ensangüentei as minhas mãos nas rochas. Ondas
enormes, porém, arrastaram-me para o abismo.
"Tudo podes, Senhor, só não podes impedir que eu Te ame". Que é o amor?
Será que o amor também morre como morre uma coisa viva?! Se eu pudesse
reconquistar o amor perdido!
Lídia, por que não despertas e não gritas ao mundo que estás viva, que
tudo não foi um pesadelo? Minhas mãos queimam e eu não sei se terei
forças para reparar o mal que fiz. Sinto que é preciso reparar.
Arrastarei pelo mundo minha miséria, beijarei a chaga dos morféticos,
comerei o resto dos mendigos.
"Tudo pode, Senhor, só não podes impedir que eu Te ame". Conceda-me,
Senhor, amor para Te amar, amor para morrer!
PAULO CORRÊA LOPES nasceu em Itaqui, RS em 1898. Publicou cinco
livros de poesias e três livros de contos, entre ele Um caso estranho,
ed. do autor de 1942 onde foi publicado o conto acima. Morreu em 1957.
|