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Tilburi de Praça
Não encontraram por aí minha mulher?... É original. Desde que me
casei... Eu por uma porta, ela por outra. Só nos encontramos uma vez
frente a frente com vontade. Eu entrava por um lado, ela entrava por
outro...
A nossa vida de casados é uma verdadeira questão aberta. Entrar e sair é
tudo a mesma cousa. Acontece, porém, que ela está sempre fora e eu nunca
estou dentro.
Já me disseram: Cuidado, João, tua mulher tem amantes... Eu estou de
olho... Não há perigo. Olhem, aqui em casa eles não me passam a perna...
Na rua eu a espio... Onde ela entra entro eu atrás.
Casei, todos sabem, não foi por dinheiro: tenho os meus prédios. Casei
por paixão, ou antes, por compaixão. Vi-a no seu véu tristezinho de
viúva, com uns olhos pretos por baixo, que não tinham nada de luto,
valha a verdade. Olhou para mim docemente. Eu tenho os meus prédios...
Lembrei-me deles com orgulho, diante daquela formosíssima soledade.
Comecei a gostar dela. Um homem depois de cinqüenta não namora; os dedos
estão perros para o bandolim das serenatas, o luar dos balcões tem
reumatismos. Desde que há meia dúzia de prédios, é logo casamento...
Foi o diabo... Logo na igreja, dei com a viuvinha olhando um
convidado... Eu, viúvo de uma mulher como eu tive, boa, gorda, pacata,
amiga do rapé e dos seus cômodos, casar com aquela figurinha saltitante,
de olhos pretos, que logo ali, começava a pular-me fora do matrimônio...
Estive quase a desmanchar tudo, na hora do recebo a vás... Não faz mal,
pensei porém, gosto dela... que diabo! se casar com outra, não poderá
suceder a mesma cousa? Vá! é um gosto ao menos. E atirei-me de cabeça no
abismo... Matrimônio é assim. A primeira cousa que um marido deve
comprometer é a cabeça... Para ficar logo atordoado. Senão, não casa...
Eu cravei um olhar na minha noiva.
Ia divina, num simples vestido roxo, que a vestia como se a despisse.
Sorriu-me. Pareceu-me sentir, ao redor de mim, um turbilhão de abelhas
douradas, brilhando e zumbindo. Casei-me...
Pois bem, daí para cá, é isto... eu por uma porta, ela por outra, em
cabra-cega.
Às vezes, passamos um pelo outro. Ela a caminhar na sua vida, eu, na
minha, espiando.
Ela sorri-me; eu disfarço, coro e vou seguindo para adiante.
Ora, meus senhores, não me dirão como hei de pegar minha mulher? ~ isto:
Tempo-será-de-min-c-o-có!... Toda a vida.
Quanto a amantes, ela não tem. Isto eu lhes juro...
Vem cá em casa o tipo da igreja, o tal convidado do olhar... Mas eu
estou de olho... Ele é bonitote, correto, conversa, graceja, tem uma
maneirazinha faceira de não fazer caso de cousa nenhuma, como um
filósofo.
Fuma um charuto de primeira qualidade, de linda fumaça azul, que faz
letras no ar... Às vezes mesmo, em minha casa, ele recosta-se no terraço
e fica a ler com uma expressão faceira, meio adormecido, as letras de
fumo na atmosfera calma da tarde.
Até eu fico seduzido e aceito um charuto dos dele, e fico a fumar,
ouvindo os bambus, as cigarras... Minha mulher, calada, ao nosso lado,
ouve, como eu, as cigarras, e os bambus, conjugalmente. Mas eu conheço
que ela gosta mais, extraconjugalmente, de ver as letras azuis do meu
amigo. Assim ficamos, os três, recostados nas chaises-longues, bebendo
crepúsculo.
Ela é a primeira que se levanta.
- Que insipidez! exclama. Ora a gente aqui calada, a ver fumaça de
charuto!
E, então, agita-se como uma pata que sai da água, como um belo cisne,
devia eu dizer, que acabasse de sair daquele imenso lago de morbidez em
que nos perdíamos.
- Vamos passear! Vamos passear!
E, então, com uma graça que não sei com que comparar, põe-se a desfazer
com o leque as letras azuis dos charutos.
Ah! a diabinha adorável! e não haver meio de eu encontrá-la!... Ora,
será porque eu não lhe agrado? Mas há agrado que eu, mesmo de longe, não
lhe faço... Será porque eu não sou bastante?... Mas, que diabo! ela
daquele tamaninho...
Mas, reatando, o tal amigo, das letras azuis, namora-a, namora-a, não há
dúvida: mas é só namoro garanto-lhes... Depois, depois...
Depois eu estou de olho...
Não tenho repartição que me prenda... não tenho obrigação de hora
certa... tenho os meus prédios... Posso espiá-la dia e noite... Não!
amante ela não tem, posso afirmar... Pois se nem a mim mesmo ela
quer!... É o seu mal... Quanto ao mais, é só passear, passear. O que a
perde é o passeio.
Mas por que não nos encontramos nós no matrimônio? Por que diabo ela
quebra esquina, quando me vê em frente e deixa-me com cara de burro em
plena rua-da-amargura, em plena rua-do-sacramento, devera eu dizer?!...
Já visitei uma sonâmbula:
Por que não há meio de encontrar minha mulher?
- Espie, disse-me ela.
- Tenho espiado... Ainda, outro dia, entrou ali numa modista, onde vai
muito... Perguntei por ela. Acabava de sair pelo outro lado. A casa tem
duas frentes. Examinei... O lugar mais sério deste mundo!... Daí a
pouco, um amigo, (o mesmo das fumaças, por sinal) disse-me que tinha
estado ali com ela, que a vira ensaiando um chapéu...
Contei à cartomante a nossa vida, mais ou menos, a minha vigilância...
A tal pitonisa era uma esperta gorducha, de bochechas vermelhas e grande
pasta de cosmético na testa como uma aba de boné... Sorriu-se.
Retirou-se a deitar cartas, num gabinete obscuro. De volta, falou-me
simbolicamente, com alguma pimenta de malícia na voz.
- Meu senhor, o coração da mulher é uma cousa complicada. Não se pode
estudar e definir de uma só maneira, mas no ponto da sua consulta, eu
creio que não erro, com esta exposição da minha experiência: Há corações
fechados que são como portas de que se perde a chave. Ninguém lhes
entra, sem que um milagre da sorte ensine como. Então, é a imensa
ventura. Há corações de uma só porta, como as casas seguras, onde a
gente entra, sem custo instala-se, faz família dentro, e aí chega a
netos tranqüilamente. Há corações de duas portas, que dão entrada a um
afeto pela frente, diante da sociedade; a outro afeto pelos fundos,
diante da indiscrição da Candinha e seus filhos. O segredo destes amores
de acordo é possível; mas, às vezes, mesmo sem segredo eles são felizes.
Há corações hotéis, onde todo o mundo entra, escandalosamente, quase
simultaneamente, pagando à parte o seu cômodo, sem grande intriga, nem
ciúmes. Há corações bodegas, que é um horror...
Mas, há uma espécie curiosa de corações, um produto das sociedades
desenvolvidas, para a qual chamo a sua atenção: é o coração volante, e o
coração rodante, que aceita amor, mas que não fixa, daqui para ali, a
tanto por hora, a tanto por mês, o coração tílburi de praça, que aceita
o passageiro em qualquer canto, que dobra a esquina, que corre, que
pára, que vem, que desaparece, que passa pela gente às vezes, juntinho,
sem que se possa ver quem vai dentro...
Eu compreendi vagamente. A cartomante queria chamar minha mulher de
tílburi. Ora minha mulher um tílburi!...
Pedi que esclarecesse.
- Nada mais lhe digo. Saiba entender...
Ora bolas!... E, fiquei na mesma, com a metáfora da consulta e com a
minha querida mulher que eu não tenho, que é entrar eu por uma porta ela
sair por outra, como um fim de história de meninos.
RAUL POMPÉIA (R.
de Ávila P.), jornalista, contista, cronista, novelista e romancista,
nasceu em Jacuecanga, Angra dos Reis, RJ, em 12 de abril de 1863, e
faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 25 de dezembro de 1895. É o patrono da
Cadeira n. 33, por escolha do fundador Domício da Gama.
Era filho de Antônio de Ávila Pompéia, homem de recursos e advogado, e
de Rosa Teixeira Pompéia. Transferiu-se cedo, com a família, para a
Corte e foi internado no Colégio Abílio, dirigido pelo educador Abílio
César Borges, o barão de Macaúbas, estabelecimento de ensino que
adquirira grande nomeada. Passando do ambiente familiar austero e
fechado para a vida no internato, recebeu Raul Pompéia um choque
profundo no contato com estranhos. Logo se distingue como aluno
aplicado, com o gosto dos estudos e leituras, bom desenhista e
caricaturista, que redigia e ilustrava do próprio punho o jornalzinho O
Archote. Em 1879, transferiu-se para o Colégio Pedro II, para fazer os
preparatórios, e onde se projetou como orador e publicou o seu primeiro
livro, Uma tragédia no Amazonas (1880).
Em 1881 começou o curso de Direito em São Paulo, entrando em contato com
o ambiente literário e as idéias reformistas da época. Engajou-se nas
campanhas abolicionista e republicana, tanto nas atividades acadêmicas
como na imprensa. Tornou-se amigo de Luís Gama, o famoso abolicionista.
Escreveu em jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro, freqüentemente sob
o pseudônimo "Rapp", um dentre os muitos que depois adotaria: Pompeu
Stell, Um moço do povo, Y, Niomey e Hygdard, R., ?, Lauro, Fabricius,
Raul D., Raulino Palma. Ainda em São Paulo publicou, no Jornal do
Commercio, as "Canções sem metro", poemas em prosa, parte das quais foi
reunida em volume, de edição póstuma. Também, em folhetins da Gazeta de
Notícias, publicou a novela As jóias da Coroa.
Reprovado no 3o ano (1883), seguiu com 93 acadêmicos para o Recife e ali
concluiu o curso de Direito, mas não exerceu a advocacia. De volta ao
Rio de Janeiro, em 1885, dedicou-se ao jornalismo, escrevendo crônicas,
folhetins, artigos, contos e participando da vida boêmia das rodas
intelectuais. Nos momentos de folga, escreveu O Ateneu, "crônica de
saudades", romance de cunho autobiográfico, narrado em primeira pessoa,
contando o drama de um menino que, arrancado ao lar, é colocado num
internato da época. Publicou-o em 1888, primeiro em folhetins, na Gazeta
de Notícias, e, logo a seguir, em livro, que o consagra definitivamente
como escritor.
Decretada a abolição, em que se empenhara, passou a dedicar-se à
campanha favorável à implantação da República. Em 1889, colaborou em A
Rua, de Pardal Mallet, e no Jornal do Commercio. Proclamada a República,
foi nomeado professor de mitologia da Escola de Belas Artes e, logo a
seguir, diretor da Biblioteca Nacional. No jornalismo, revelou-se um
florianista exaltado, em oposição a intelectuais do seu grupo, como
Pardal Mallet e Olavo Bilac. Numa das discussões, surgiu um duelo entre
Bilac e Pompéia. Combatia o cosmopolitismo, achando que o militarismo,
encarnado por Floriano Peixoto, constituía a defesa da pátria em perigo.
Referindo-se à luta entre portugueses e ingleses, desenhou uma de suas
melhores charges: "O Brasil crucificado entre dois ladrões". Com a morte
de Floriano, em 1895, foi demitido da direção da Biblioteca Nacional,
acusado de desacatar a pessoa do Presidente no explosivo discurso
pronunciado em seu enterro. Rompido com amigos, caluniado em artigo de
Luís Murat, sentindo-se desdenhado por toda parte, inclusive dentro do
jornal A Notícia, que não publicara o segundo artigo de sua colaboração,
pôs fim à vida no dia de Natal de 1895.
A posição de Raul Pompéia na literatura brasileira é controvertida. A
princípio a crítica o julgou pertencente ao Naturalismo, mas as
qualidades artísticas presentes em sua obra fazem-no aproximar-se do
Simbolismo, ficando a sua arte como a expressão típica, na literatura
brasileira, do estilo impressionista.
Obras: Uma tragédia no Amazonas, novela (1880); As jóias da coroa,
novela (1882); Canções sem metro, poemas em prosa (1883); O Ateneu,
romance (1888). A obra completa de Raul Pompéia está reunida em Obras,
org. de Afrânio Coutinho, 10 vols. (1981-1984).
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