Sob o pêndulo

Percorríamos, naquela tarde, uma das muitas estradas vicinais do meu município. Eu estivera doente nas últimas semanas e ainda convalescia de uma grave crise dos rins, mas decidi aproveitar o sábado para um passeio. Chovera durante todo o dia anterior, a temperatura caíra agradavelmente e, após o almoço, entusiasmei-me com a idéia de uma volta ao ar livre.

Meu motorista, Antônio, dirigia o carro e, sentado a seu lado, com o banco confortavelmente inclinado, eu observava a paisagem.

Atendendo ao meu pedido, Antônio levava o carro em baixa velocidade, e eu desfrutava do sol intermitente que ultrapassava as copas das árvores e vinha cegar-me.

Por entre a vegetação que se erguia em ambos os lados da estrada, eu discernia as plantações estendendo-se nas pequenas propriedades, alguns poucos rebanhos, pomares quase sempre carregados de laranjas e limões, e hortas em cujo desenho simétrico os tons de verde não se repetiam.

Crianças brincavam nos terreiros das sedes humildes, e à porta das casas, sentadas nas soleiras, mulheres - mães, talvez avós - pareciam bordar.

Raros homens trabalhavam, pontos minúsculos perdidos nas plantações, alguns dirigindo seus velhos tratores, outros caminhando pelas trilhas dos parreirais, como se apenas vistoriassem o seu único patrimônio.

As tempestades da véspera não aparentavam ter afetado a vida daquela gente que, talvez erroneamente, eu sempre supusera frágil, vivendo ao sabor das variações do clima, sem qualquer subsídio dos governos, dependendo apenas do seu próprio esforço e da sua disposição para negacear com o tempo e a terra.

Mantendo os vidros do carro abertos, eu podia sorver o ar leve, mas carregado dos odores que se desprendiam da terra ainda molhada e se misturavam à variedade de perfumes que somente a zona rural nos oferece, fragrâncias rústicas ou açucaradas que ganhavam características ainda mais intensas para o homem que passara as últimas semanas fechado em um quarto de hospital e, depois, restabelecendo-se em seu apartamento.

Enquanto o carro percorria a estrada cheia de curvas e eu era assediado por essas sensações, fragmentos da minha infância brilhavam aos meus olhos, como se obedecessem ao jogo de sombra e luz que o movimento do carro, sob as copas ensolaradas, me proporcionava. O quintal da casa de minha bisavó, cercado de estreitos canteiros, nos quais ela plantava seus temperos prediletos, verdejava sob o mesmo sol. E, algumas curvas depois, brotando do centro daquele terreno da minha memória, eu via renascer o canteiro circular em que ela cultivava suas roseiras, aos pés das quais - o que, para mim, sempre representara algo intrigante - ela depositava cascas de frutas e restos de comida, formando pequenos montes de matéria em decomposição, mas que alimentavam os caules espinhosos em cujas extremidades despontavam as flores vermelhas, brancas e amarelas, abrindo-se violentas sob o sol, como a negar o lixo que lhes concedia vida.

Abraçando o topo de uma colina, a longa e ampla curva se abriu à nossa frente, quando divisamos uma pequena venda de frutas, e pedi a Antônio que estacionasse.

Desci, apoiado à bengala, cruzei o acanhado pátio forrado de pedregulhos e penetrei naquele humilde galpão, onde uma dezena de tipos de frutas amadureciam, empilhadas com esmero sobre um estreito e comprido suporte de madeira. Também havia alguns legumes e verduras, e o frescor destas últimas pareceu-me tão convidativo que desejei tocá-las. Estendi minha mão e senti as gotículas frias que se desfaziam sob os meus dedos, deixando um estranho prazer invadir-me, como se o fato de estar ali, envolvido pela penumbra, percebendo os débeis fachos de luz que penetravam através de algumas sujas telhas de plástico, tocando aquelas superfícies rugosas, mal arrancadas da terra, significasse um reencontro com a vida. Fechei os olhos, e a verdura respirava, viva sob a minha mão - oferecendo-se ao meu toque na quietude daquele abrigo -, simples, útil e plena em sua nobre e efêmera finalidade de alimentar a minha espécie.

Ouvi, então, um arrastar de chinelos e, abrindo os olhos, deparei-me com uma mulher muito idosa, arqueada, vestida de preto, que, apoiando-se levemente à parede com uma das mãos, vinha da parte mais escura da venda, nos fundos, certamente para atender-me. Ao mesmo tempo, do lado de fora chegava o som do tilintar de uma campainha de bicicleta e o rascar dos pneus que freavam bruscamente sobre os pedregulhos. E antes que a mulher pudesse me dirigir a palavra, um homem e uma criança - um menino de não mais que quatro ou cinco anos - entraram, esbaforidos, enxugando com as mãos o suor dos rostos e limpando-as nas camisas e nas calças.

Olhando na direção deles, a velha pareceu sorrir e exclamou: - O menino!... O menino!... - E, afastando-se da parede, claudicou na direção da criança.

-... tarde, vó - disse o homem, engolindo a primeira parte da saudação e empurrando o menino, delicadamente, para os braços da mulher, cujas mãos, nodosas e deformadas, já tocavam os ombros do pequeno.

- Bambino... Belo... Mio piccolo... - ela repetia, envolvendo a criança com seus longos braços forrados de negro, nascendo de uma corcunda.

- Fomos no sítio do Anselmo... - o homem explicava, ainda enxugando a testa com as mãos. - Mas que calor!... A senhora tem um pouco d'água aí?

- Água... Sim... Venite, venite... - ela os convidava, caminhando para os fundos da venda.

- Mas, e o senhor?! - censurou-lhe o homem, indicando-me com as duas mãos.

Nitidamente confusa, a mulher levantou seus olhos para mim e, antes que pudesse esboçar qualquer decisão, adiantei-me: - Não, não se preocupem... Eu estava apenas olhando... Obrigado... Obrigado... - insisti, sorrindo e caminhando para a porta. E ao passar pela criança, enquanto cumprimentava aquele que me parecia ser seu pai, acariciei os cabelos lisos, escuros e molhados de suor do pequeno, sentindo picar a ponta dos meus dedos o mesmo frio das verduras.

A tarde começava a declinar e a sombra concedia um tom cobalto ao azul da bicicleta, apoiada a uma das duas folhas da porta. Ao ver-me, Antônio ligou o motor, entrei no carro e voltamos à estrada.

Seguimos lentamente pelas curvas, agora descendo a colina, tendo ao meu lado direito um horizonte verde, iluminado pelo sol que, às nossas costas, empurrava-nos de volta à cidade.

Minutos depois, o tilintar da campainha da bicicleta soou atrás de nós, pedindo passagem. Antônio afastou o carro à direita e diminuiu ainda mais a velocidade. O homem sorria para nós, quando nos ultrapassou, levando consigo, sentado sobre o quadro da bicicleta, o menino cujos cabelos agitavam-se ao vento. Estrada abaixo, cortando o ar com suavidade, eles desapareceram nas curvas.

"Pai e filho, com certeza", pensei, lembrando-me de meu pai e de certa vez em que, numa praia deserta, apostáramos corrida, e ele, além de derrotar-me, conseguira, seguidas vezes, plantar bananeira entre as ondas, quase coberto pelo mar... Mas eu mal havia vislumbrado aquela manhã de verão em que notara especialmente a diferença de tamanho das nossas pegadas na areia, o carro desviou abruptamente à direita, freando antes que caíssemos na ribanceira, e deixando passar um caminhão que descia em desabalada velocidade, buzinando, e sacolejando na boléia dezenas de caixotes vazios. - Desgraçado! - amaldiçoou Antônio, fazendo uma marcha à ré para retornar ao leito da estrada.

Refeito do susto, eu tentava alinhavar as lembranças que, pouco antes, mesclavam-se à imagem da bicicleta transbordante de azul. Mas o sorriso daquele homem - satisfeito pela tarde ensolarada, pelo suor que escorria em seu rosto e pela criança que o acompanhava -, o sorriso dele não me saía dos olhos, repetindo-se como um foco de luz que, ao ser observado demoradamente, impregna-se em nossas retinas, vibrando em nosso olhar na mesma intensidade do sangue que pulsa em nossas veias.

Dentro de poucos minutos estaríamos de volta à cidade e eu retornaria à solidão do meu apartamento, sob os cuidados de minha empregada e de Antônio, mas acreditava ser impossível continuar a viver apartado daquele sol que nos abraçava pelas costas, semelhante a alguém que, para nos surpreender, aproxima-se silenciosamente por trás, enquanto estamos distraídos, e cobre nossos olhos com suas mãos, exclamando "advinha quem é!". Eu pensava em vender meu apartamento e comprar uma pequena propriedade naquela região, no alto de uma colina, quando Antônio me interrompeu: - Patrão... - sua voz grave acordava-me dos meus sonhos e sua mão direita apontava algo mais à frente, na beira da estrada.

Um homem, de pé entre uma dezena de eucaliptos enfileirados ao fundo do acostamento, olhava para o chão, observando algo que eu ainda não conseguira distinguir. Por que Antônio estacionara? E por que sussurrava "meu Deus, meu Deus", mexendo a cabeça como se expressasse uma discordância? Saímos do carro, eu ainda sem nada entender, até que vi a forma retorcida sobre o chão coberto de folhas murchas: um corpo de homem estirado, pouco antes da fileira de árvores, o rosto enfiado na terra e nas folhas escuras, a perna direita flexionada na direção do tórax, em uma posição impossível, a não ser que estivesse quebrada; inerte, desgrenhado, o lado esquerdo do rosto ferido, o braço esquerdo lançado para trás, com a palma da mão virada para cima, e o direito estendido à frente da cabeça, tenso, esticado, prestes a agarrar algo. Era o homem da bicicleta. Procurei, desesperado, pela criança. E avançando alguns passos depois dos eucaliptos, à margem da ribanceira, encontrei o corpinho, tão pequeno e tão belo, extático s
bre a terra úmida, deitado de costas, os bracinhos erguidos acima da cabeça e os delicados olhos muito abertos, com dois filetes de sangue a escorrer das narinas. Mais ao fundo, no declive que terminava em um riacho, as ferragens azuis retorciam-se entre duas árvores.

De repente, Antônio estava ao meu lado, amparando-me. Eu tremia.

- Foi o caminhão! - exclamou o homem, mas sua voz guardava certa perturbadora indiferença ou o cansaço dos que vêem o mesmo acidente repetir-se todos os dias. Olhei-o por alguns segundos. O poente iluminava seu rosto de um avermelhado intenso e ele observava o corpo a seus pés, mantendo as mãos à cintura. Não havia qualquer ruga de preocupação em suas feições, e com a ponta de uma das botas ele esmagava algumas folhas.

- Você anotou a placa?! - eu caminhava em sua direção, trêmulo, apoiado por Antônio.

- Placa? - sua voz trazia o mesmo tom de enfado, e, sem responder-me, voltou a olhar para baixo e a amassar as folhas ressequidas.

- Tem um telefone por aqui? - insisti, aproximando-me dele.

- Nada... - ele resmungou, sem olhar para mim.

- E alguém que a gente possa pedir ajuda?

- Tem umas famílias pra lá... - seu braço apontava vagamente o outro lado da estrada. Dando-me as costas, caminhou na direção do menino, a mão direita coçando a orelha.

- Você vai até a cidade e chama a polícia, Antônio.

- Mas, patrão, não vou deixar o senhor sozinho aqui...

Atrás de nós, ouvi um barulho estranho e percebi que o homem arrastava o menino para junto do pai. - Não mexa no corpo! - gritei, mas em vão, pois ele continuou trazendo a criança, puxando-a pelas pernas.

- Alguém precisa pedir ajuda! O caminhão não deve estar longe! - mas minha insistência era inútil contra a apatia que também contaminara Antônio. Os dois, de cócoras, examinavam os corpos com uma atenção exagerada, que me pareceu mórbida.

- Você os conhece? - perguntei.

- Passam sempre por aqui... Moram mais lá embaixo... Ainda tem a mulher e outra criança... - e a voz surgia prostrada, como se o convalescente fosse ele e não eu.

- Alguém precisa avisar a família... - falei, mudando intencionalmente o meu tom de voz, tornando-o paternal.

- Eles não estão aí... Estão lá pra cima, no Anselmo...

Nada poderia alterar a frieza daquele homem, e apesar de minha revolta, eu mesmo começava a sentir os efeitos da tarde passada fora de casa e daquele excesso de emoção.

O homem indiferente trazia a barba por fazer, as mãos grosseiras com as unhas escuras e sujas, e a camisa, manchada de pequenas nódoas, estava rasgada sob as mangas curtas. Ele arrumava os corpos com cuidado e Antônio o ajudava. E enquanto ele fechava os olhos do menino, meu motorista tentava tirar, com o lenço, os filetes de sangue coagulado que escorreram do nariz.

O sol declinara. Escurecia. E, envoltos pela sombra, eu observava seus gestos impassíveis, até notar, assustado, o quanto eles eram semelhantes. Pareciam ter o mesmo perfil, a mesma curvatura dos ombros, a mesma gesticulação fria e impessoal. Com as pontas dos dedos, passaram a tirar, um a um, os flocos de terra que grudaram no rosto do homem, agora deitado de costas. Sequer ouvia-se a respiração dos dois, debruçados sobre os cadáveres como se fossem médicos legistas.

A noite crescia e vi surgirem, do outro lado da estrada, dois vultos que cruzaram o asfalto e se aproximaram. Eram mulheres. Nenhuma delas olhou para mim ou para Antônio. Na verdade, mal nos víamos, éramos apenas sombras sob um céu de poucas, raras estrelas. O homem cansado as recebeu, conversaram entre si, murmurando frases curtas que não consegui entender. Uma se pôs a rezar, as mãos unidas, os lábios balbuciando as orações decoradas, deixando a outra partir.

- Vamos embora, patrão... - Antônio sussurrou ao meu ouvido. - A gente não pode fazer nada... - Mas eu me recusava a sair dali. Mal conseguindo manter-me equilibrado, apesar de apoiar-me à bengala, negava-me a acreditar no que presenciava, nas mortes que ninguém se interessava em esclarecer, na violência inesperada e abrupta. Nem mesmo aceitava que a noite houvesse chegado com aqueles dois corpos ali, endurecendo minuto a minuto, enquanto uma mulher e outra criança, em algum ponto daquela região, permaneciam vivas e certas de que os dois estavam bem.

Antônio me puxava pelo braço, mas, em silêncio, eu teimava em ficar. O homem, agora de pé, parecia ter as mãos nos bolsos e era impossível saber em que direção ele olhava. A mulher rezava, proferindo as palavras rapidamente, às vezes mais alto, às vezes num murmúrio hipnotizante.

Quando dei por mim, havia outras quatro mulheres ao nosso lado, todas vestidas de preto. Estenderam sobre os corpos vários sacos de aniagem, colocando nas pontas uns vidros de bocal largo, e dentro de cada um acenderam duas ou três velas. Uma, a que me pareceu mais velha, ajoelhou-se e, puxando um rosário, começou a rezar em voz alta, enquanto as outras repetiam, em coro, o final das orações.

- A gente precisa ir, patrão... - Antônio me levava delicadamente; conduzia-me, segurando meu cotovelo e empurrando-me com leveza, mantendo uma das mãos às minhas costas.

Eu caminhava na direção do carro, aniquilado, como se parte de mim houvesse morrido. Em certo momento, desejando ainda fazer algo por aqueles dois que, poucas horas antes, encontrara tão felizes, voltei-me para a cena daquele velório ao ar livre. Então, vi. Vi, por cima dos eucaliptos banhados pelo remanso da noite, uma lua minguante, um estreito facho de luz curvilínea brotando do céu escuro, e acima dessa lua triste, uma única estrela, como um ponto ao qual a lua estivesse presa por um eixo imaginário. E as duas, lua e estrela, assim próximas e assim eqüidistantes, lembraram-me a figura de um pêndulo, não o de um relógio, não o do carrilhão que enchia de música, hora após hora, o sobrado de minha avó, mas o pêndulo daqueles instrumentos de tortura medievais, que descia vagarosamente sobre a carne das vítimas, cortando-as, a cada lento balançar, com sua lâmina curva e afiada, um pouco a cada oscilação, sempre mais fundo, vincando a carne dos torturados com sádica lentidão, e dando à morte o compasso da espera e da angústia que o ritmo do tempo também concede à vida.

Baixei os olhos. As chamas das velas crepitavam na distância, desenhando um confuso jogo de sombras. Entrei, resignado, no automóvel, e partimos, tendo à nossa frente, ainda minúsculas e inocentes, as luzes da cidade.


RODRIGO GURGEL, 44 anos, escreve ensaios, contos, crônicas, artigos e resenhas. Presta serviços de consultoria editorial e prepara originais para editoras e particulares. Escreve, regularmente, para os sites Novae e La Insignia.