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O amor estranho
Conto adaptado para o
cinema pelo cineasta Melquíades de Almeida Lima.
O RELÓGIO marcou onze horas. Ela já estava ficando preocupada. Ele nunca
havia demorado tanto desde o dia em que se casaram. O telefone do
escritório estava mudo. Ela ligou, mas ninguém atendeu. Andava de um
lado para o outro do quarto, fumando o último cigarro do maço quando
ouviu o barulho da chave na porta da sala.
Ele trancou a porta, passou pela sala e entrou no banheiro social. Ela
ficou parada, olhando pela porta, preparada para indagar, interrogar,
xingar talvez. Ouviu o som da urina caindo no vaso. Vai ver ele bebeu
muita cerveja, pensou. Ele deu a descarga, apagou a luz e veio para o
quarto. Os dois ficaram estáticos, olhando um para o outro, ambos
surpresos. Ela pensou em gritar, pedir socorro, mas temeu que ele
cometesse algum ato de violência.
Permaneceram em silêncio por um instante, até que ele arriscou:
- Quem é você?
- Eu? - disse ela.
- Você... O que está fazendo aqui?
- Estou na minha casa.
- Sua casa? Quem mora aqui sou eu. Eu e minha mulher. Aliás, onde é que
ela está?
- Eu é que vou saber? Deve estar na sua casa, onde mais?
- Mas este é o meu apartamento. O meu lar. Este é o meu quarto e aquela
é a minha cama.
- Sua cama?
A conversa continuou sem nenhum sentido. As palavras pareciam vazias
para ambos, sem significado algum. É um absurdo - pensava ela. Mas ele
se comportava com total naturalidade, como se fosse realmente o dono da
casa.
- Vê? Este é o meu guarda-roupa. E aqui estão meus ternos, minhas
camisas... Daquele lado ficam as roupas da minha mulher.
- Minhas roupas...
Ele ficou embaraçado, pois ela parecia mesmo ser a dona da casa e
demonstrava total intimidade com o ambiente, principalmente dentro
daquela camisola de seda preta, que parecia ter sua medida exata.
- Aqui estão as minhas saias, meus vestidos e blusas - disse ela,
abrindo o outro lado do guarda-roupa.
Ele se sentou na cama e passou as mãos pelo rosto até os cabelos.
Tentava buscar uma explicação satisfatória para o que estava
acontecendo, mas por mais que se esforçasse não conseguia. Havia bebido
um pouco, é verdade, mas não o bastante para delirar.
Ela então percebeu que ele estava tão confuso quanto ela mesma e
resolveu aliviar toda aquela tensão provocada pelo inusitado encontro.
- Você tem um cigarro?
- Eu não fumo.
- Meu marido fuma.
- Mas eu não sou seu marido.
- E quem é você, afinal?
Voltaram à questão anterior e ela ficou ainda mais preocupada, pois se o
marido chegasse de repente em casa e a encontrasse com um estranho
sentado em sua cama, o casamento certamente iria por água abaixo. No
mínimo ele aprontaria um escândalo.
- Vamos por etapas - o estranho sugeriu. - Você descreve o seu marido e
eu descrevo a minha mulher. Vai ver um de nós dois confundiu o
apartamento e o outro possa ajudá-lo a encontrar o endereço certo? Esses
conjuntos residenciais são tão parecidos, não acha?
- Bloco B - ela disparou.
- Bloco B?
- É. Bloco B, apartamento 203. É onde eu moro.
- Mas é exatamente o meu apartamento.
Aí a coisa ficou mais confusa ainda. Pior foi quando ela tentou falar
sobre o marido e descobriu que não conseguia se lembrar exatamente como
ele era.
- Não se lembra da cara do seu próprio marido?
- Acho que não.
- Quem sabe eu posso ajudar? Ele é louro ou moreno?
- Não sei. Não me lembro.
- E o nome dele?
- O nome?
Piorou de vez. Ela também não sabia o nome do marido. Não se lembrava de
nada que lhe dissesse respeito.
- Você deve sofrer de amnésia. Não se lembra de coisa alguma e entrou no
apartamento errado. Pode ser só uma crise de estresse. Pior é se a minha
mulher encontra você aqui a esta hora e de camisola.
- Sua mulher!
- O que tem ela?
- Como é que ela é? Como se chama?
Ele se esforçou e então percebeu que também não sabia nada sobre a
própria esposa.
- Ela é loura ou morena? Magra ou gorda?
Ele realmente não se lembrava. Nem do nome, nem do rosto, nem mesmo da
cor dos cabelos. Pensou em consultar a aliança onde certamente o nome
estaria gravado, mas se lembrou de que a deixara trancada numa gaveta da
mesa de trabalho.
- Sua aliança.
- O que tem a minha aliança? - ela quis saber.
- Deve ter o nome do seu marido.
- Ah, sim, a aliança. Bem, eu não uso aliança.
- Não usa aliança?
- Eu a perdi há uns dois ou três meses. E a sua, onde está?
- Eu a deixei na gaveta da minha mesa, lá no escritório. É meio apertada
e com esse calor me incomoda muito - disse ele, afrouxando a gravata.
- Você precisa ir buscá-la. Temos que resolver esse assunto o quanto
antes.
- Mas o prédio onde eu trabalho já deve estar trancado. Só vai abrir
amanhã, às sete e meia.
Os dois se angustiaram ainda mais. Ele então saiu do quarto e se dirigiu
à cozinha. Ela foi atrás, exigindo que ele fosse embora.
- Ir embora, eu? Mas este é o meu lar... Comprei estes móveis, pago o
aluguel. Você é que é a intrusa.
- Intrusa, eu?
Ele colocou um copo de vidro sobre a pia e pegou a garrafa de café.
Percebeu que estava vazia.
- Não tem café?
- Claro que não. Eu não fiz.
- Não fez café? Mas que tipo de esposa é você, afinal? Seu marido chega
cansado do serviço e não encontra um café quentinho?
- Só faço café pela manhã e bebo tudo sozinha. Meu marido detesta café.
- Ah, disso você se lembra, não é?
- É, você tem razão. Disso eu me lembro.
- Não faz mal, pois eu adoro café.
- E acha que eu sou sua empregada para fazer café a uma hora dessa?
Olha, cara, por que é que você não vai dormir num hotel? Amanhá você
volta e a gente esclarece tudo isso.
- Eu, dormir num hotel? Nunca, minha filha.
Foi então que ele teve uma idéia que considerou interessante. Sugeriu
que ela buscasse o álbum de retratos. Assim, ela se lembraria do marido.
- Não está aqui - disse ela.
- Não está? Mas como não?
- Emprestei pra minha mãe e ela ainda não devolveu.
- E a certidão de casamento?
- A certidão? Nossa, a certidão... Ela foi junto, é que eu guardo ela
dentro do álbum.
Ele se lembrou de onde ficava o seu álbum de fotografias e correu para o
quarto, sendo seguido por ela.
- O que você tá procurando?
- Vou provar que este é o meu apartamento e que foi você quem errou de
endereço.
Revirou as gavetas da cômoda.
- Não adianta procurar - ela disse. - Eu emprestei pra minha mãe.
- Não estou procurando o seu álbum de retratos e sim o meu. Meu e de
minha mulher.
Não encontrou nada e começou a pensar na possibilidade de estar vivendo
um pesadelo. Beliscou o próprio rosto diante do espelho e confirmou que
não estava sonhando.
- Não pode ser - suspirou. - Uma coisa dessas não acontece nem no
cinema. Alguma coisa está errada ou um de nós enlouqueceu.
- Claro que tem algo de errado, mas se alguém enlouqueceu esse alguém é
você.
- Você ainda não me disse o seu nome.
- Sônia. E o seu?
- Eu me chamo Walter.
- Muito prazer.
Apertaram as mãos e ficaram sentados na cama, em silêncio, completamente
amuados.
- Minha mulher não se chama Sônia, disso eu tenho certeza. Eu acho...
- Eu também não conheço nenhum Walter.
- Tem certeza de que não se lembra do nome do seu marido?
- Absoluta.
Ela sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e começou a chorar. Ele
acabou abraçando-a, ternamente.
- Ora, ora, mas o que é isso? Também não precisa ficar assim.
- Alguma coisa está errada com a gente e não conseguimos saber o que é -
ela soluçou.
Ele acariciou os cabelos negros e longos.
- Talvez um simples telefonema possa resolver o caso - sugeriu.
- Telefonema?
- É. Liga pra sua mãe e pergunta o nome do seu marido, como é que ele
é...
- Mamãe não tem telefone e se tivesse eu não ligaria. Ela ia pensar que
eu fiquei maluca.
Ela chorou novamente.
- Calma, isso não adianta.
- E você, por que não liga para alguém?
- Pelo mesmo motivo. Vão pensar que eu endoidei de vez.
- E se chamássemos os vizinhos?
- A uma hora dessa? Tá maluca? E o que iríamos dizer a eles?
- Meu Deus, o que vamos fazer?
- Eu acho que você tem razão. Melhor eu ir para um hotel.
- E eu vou ficar sozinha?
- Até seu marido chegar, ora bolas.
- E se ele não chegar mais? E se você for mesmo o meu marido e nunca
mais voltar pra casa?
- Eu? Eu não sei mais o que fazer...
Ficaram calados novamente até que ele começou a tirar a roupa.
- O que você tá fazendo? - ela perguntou.
- Estou com sono.
- Sono?
- Tive um dia duro e amanhã vou ter que levantar cedo.
Ele tirou a roupa e enfiou-se sob os lençois.
- Tenha uma boa noite - virou-se para o canto.
Ela ficou ainda mais confusa e angustiada. Olhou o relógio sobre a
cômoda e viu que já passava da meia noite. Foi até a cozinha, tomou um
copo d'água e voltou para o quarto. Notou que havia algo agradavelmente
familiar naquele homem que ressonava deitado em seu leito. Fez um novo
esforço de memória, mas não conseguiu se lembrar de nada sobre o marido.
Seja o que Deus quiser, pensou. Apagou a luz, enfiou-se sob os lençóis e
ficou mirando o escuro do quarto.
Walter se moveu e suas pernas a tocaram levemente. Ela pôde sentir os
pelos, o calor de suas coxas, a ponta do joelho entre as pernas. Por um
momento pensou em resistir, sair correndo ou gritando. Mas sossegou.
Roçou a perna nas coxas dele e logo foi correspondida. A mão dele
escorregou sob as cobertas e tocou-lhe os seios pontudos. Ela se rendeu
calmamente. Ele manobrou a cabeça e lhe deu um beijo na fronte. Aos
poucos, foi lhe beijando o rosto. Beijou-lhe a boca demoradamente.
Amaram-se sofregamente, e nenhum dos dois se lembrou de ter tido tanto
prazer como naquela noite. Dormiram profundamente um sono sem sonhos e
amaram-se novamente de madrugada, sempre em silêncio, em diferentes
posições.
Quando o dia amanheceu, ela acordou, foi até o banheiro e tomou uma
ducha. Depois se deitou novamente e ficou olhando aquele estranho que
dormia a seu lado. Às seis e meia, ela o acordou com um beijo.
- Você disse que tinha que sair cedo.
Ele tomou um banho, vestiu a roupa e saiu depressa, sem nem mesmo provar
o café que ela coou tentando agradá-lo.
Ao chegar no escritório, a primeira coisa que fez foi tirar a aliança da
gaveta. Pensou em ler o nome, mas resistiu. Entrou no banheiro, jogou a
aliança no vaso e deu descarga.
JORGE FERNANDO DOS SANTOS é mineiro, tem 23 livros publicados e
várias músicas gravadas. Publicou no ano passado o romance "Sumidouro
das Almas", a coletânea de crônicas "Todo mundo é filho da mãe" e o
manual "Como Escrever", todos pela Editora Ciência Moderna. Relançou
pela Atual Editora as novelas "Palmeira Seca" e "O Rei da Rua", ambas
adaptadas para minissérie de TV. É também jornalista e dramaturgo
premiado.
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