Normal ou soop?

...cardíaco, doutor. É, taquicardia constante.
(Pela porta mal fechada, trechos do diálogo entre médico e paciente escoavam para a sala de espera.). O senhor... normal ou soop?
Normal ou soop - repetiu a garota de seis, sete anos, espremida no banco entre a mãe e uma considerável pilha de revistas eletrônicas com astros da TV na capa. Miúda, os pés com sapatinhos vermelhos e meias listradas balançavam no ar. - Eu sou normal ou soop, mãe?
A mãe desviou a atenção da reportagem que brilhava colorida, na qual a musa Liana Becker revelava seu segredo: como manter aquele corpo desejável e jovem, aos 68 anos admitidos. Suspirou, aborrecida com a interrupção da filha.
O quê? O que é agora?!!
...normais ou soop nós somos, mãe?

Pssiuuu! Que falta de educação, ouvindo a conversa dos outros!
Mas eu só quero saber...
Normais! Cala a boca, fala baixo! Normais! Nós somos normais!
O ruído dos passos do médico ficou próximo e a mãe viu a mão pálida e de unhas lixadas e um pedaço do braço, com o jaleco profissionalmente branco, fechando a porta do consultório e certificando-se que estava bem fechada: o controle automático devia ter fundido os circuitos mais uma vez.
Os olhos da mãe! A menina assustou-se. Ela quase podia ver pequenos raios vermelhos saindo em alta velocidade dos olhos bem maquiados da mãe e atingindo-a, como nos desenhos digitalizados africanos de que o irmão gostava.
(Encolheu-se, só captando alguns restos mal pronunciados de frases atemorizantes, pela boca contraída da mãe, vergonha, me fazendo passar vergonha... você me paga em casa...)
A chuva de ameaças e perdigotos interrompeu-se com a despedida do paciente, que apertava a mão do médico, a cabeça baixa, e deixava-se levar pela esteira para fora, para bem longe, como se de algum modo estivesse envergonhado ou um pouco deprimido ou as duas coisas juntas apesar do sorriso confiante do doutor e dos tapinhas que recebia nas costas e da frase não se preocupe.

Soop, disse o médico, interrompendo a fala um instante para olhar, cúmplice, para a mãe da menina, soop é uma sigla. Sabe o que é uma sigla?
Sei, disse a menina, que não tinha muita certeza mas desconfiava o que era uma sigla, mas não queria perder a oportunidade de finalmente saber o que ela era mesmo e o que era soop, afinal de contas, que todo mundo falava, quando falava do assunto, em tom baixo e querendo logo mudar de prosa.
Então, como você sabe, soop é uma sigla que significa - preste atenção - Sistema de Obsolescência Orgânica Programada. A primeira letra de cada uma dessas palavras, forma a sigla soop. Entendeu?
Entendi. Olhou para a mãe, vendo se ela continuava furiosa e se teria castigo ou até tapas em casa, ou puxão de orelha. Achou que a onda de raiva já tinha passado, ao menos o pior dela, e a cor vermelha nas bochechas estava quase sumida.
Entendi, mas não compreendi - avançou. O médico sorriu, a mãe começou a dizer alguma coisa para a pequena, mas o doutor pediu calma, eu explico.
Sistema a menina já sabia bem o que era; obsolescência você vê aí em seu dicio-palm (e com apenas um leve toque ela leu alguma coisa como antigo, fora de uso, velho - que nem a vovó, como a mãe às vezes dizia, mesmo que a vovó e quase mais ninguém que a gente sabia que era velho parecesse velho - só o cachorro dela, que dormia quase todo o dia, agora, e enxergava mal e...).
Orgânica, continuava o doutor, é alguma coisa que tem a ver com o corpo, com o organismo humano ou de outra forma de vida, como um animal ou vegetal; e programado a menina disse que ele nem precisava explicar porque ela tinha tarefas programadas na escola e um programa de brincadeiras e enfim.
Sim, mas o que tem a ver isso com a gente ser soop ou ser normal?
Sorriu de novo, o médico. Essas crianças têm cada uma! Normais somos nós, que temos nossos órgãos internos e pontos mais sensíveis ou vitais (explicou mais ou menos o que queria dizer esta palavra) naturalmente substituídos ao nascer, ou mesmo pela microinclusão fetal ainda antes.
Soops são as pessoas que por serem muito pobres - ah, aqueles que a mãe às vezes aponta na rua e diz pra não olharmos muito pra eles, nem conversar, exemplificou a garota, com um brilho de compreensão -; é, ou antigas, ou que por algum motivo de saúde, não tiveram acesso ao sistema normal.
Quase todo mundo é normal, hoje? Hoje, o médico pigarreou, a maior parte das pessoas que contam, digamos assim, é normal. Antes - é preciso que você entenda isso -, o normal era ser soop. Entendeu bem?
Tá, mas qual a diferença? Ela mesma respondeu/perguntou, e ao mesmo tempo mentalmente e em voz alta: Isso tem alguma coisa a ver com aquela coisa - como é mesmo a palavra, mãe? - "vida"?
Esse é um conceito ultrapassado (não incomoda o médico, filha!, ele precisa fazer a consulta...); não, deixa: mas tem a ver sim. No tempo dos meus avós, ou dos teus bisavós, até aquela época, mais ou menos, a pessoa ia envelhecendo com o passar do tempo e os órgãos do corpo iam começando a falhar, assim como a mente (mas isso é muito difícil para ela entender, doutor, até eu fico meio confusa); mas, continuou o médico, com pressa de terminar logo com aquela conversa, e também, confessou a si mesmo, para desabafar um pouco sobre o tema, que nunca era discutido mais, nos dias atuais; então ia chegando um ponto em que as pessoas começavam a ficar com menos energia vital, com menos "vida", como você citou... Até que morriam.

Pôde-se ouvir o silêncio no consultório, quebrado apenas pelo zumbido dos circuitos defeituosos da fechadura da porta e dos suspiros constrangidos da mãe, agora vermelha por causa da palavra - na verdade, uma espécie de palavrão - que o médico pronunciara. Nunca teria pensado que um doutor prestigiado como aquele iria dizer uma coisa dessas. E ainda na presença de uma criança.
A menina sorria: Ah, é??! (estava faceira; finalmente conseguia entender um pouco mais como o mundo funcionava, antigamente).
O médico prosseguiu, com um sorriso esquisito, quase perverso. As pessoas envelheciam e morriam - perdiam suas vidas - porque os homens, as mulheres, os transexuais e todos os entes orgânicos, eram submetidos a um sistema de obsolescência orgânica programada, que a partir de um certo número de anos começava a funcionar de forma mais ou menos acelerada.
Suspirou ruidosamente, como se estivesse confessando - confessando publicamente!!, embora fossem só uma mãe e uma filha criança -, um segredo, um tabu. Primeira capa no alto da pilha de revistas, a sempre linda Liana Becker virou o rosto brilhante, de modo ostensivo, ao perceber o olhar constrangido da mãe da menina, de passagem.

Soop é a mesma coisa que vida, né mãe? Soop na verdade quer dizer vida, né mãe? Fala, mãe! - questionava a menina, em altos brados, excitada. A mulher fitava o chão, para fugir dos rostos espantados - indignados? - dos passantes, em suas próprias esteiras de deslocamento. Em casa - jurava a si mesma - essa guria iria lhe pagar! Ah, me paga!! Vai me pagar caro!!
E morte, mãe, gritava a menina, o que que é morte?? Hein, mãe? O que é morte?


JOSÉ ANTONIO SILVA é escritor e jornalista, tendo lançado no final do ano passado o livro "O nome do Fuinha e outras histórias de crime, mistério e algum amor", pela AGE Editora. Também sou autor de "Diabo Velho" (1998, Ed. Mercado Aberto), premiado pela Associação Brasileira de Escritores na categoria conto.