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Noite de São João
Resenha do conto "Noite de São
João"
ARREGUI, Mário. Cavalos do Amanhecer. Trad. Sérgio Faraco. Porto Alegre,
L&PM, 2003
A história aparentemente é muito simples. Francisco Reyes, um tropeiro,
que estava há vários dias no campo, envolvido em tropeadas, volta á
cidade num final de tarde de outono, quando os habitantes se preparam
para a festa de São João. Ao chegar no povoado vai direto à procura de
Carmen, "uma prostitua amiga". Sai de lá por volta da meia noite e se
dirige a um bar para beber canha. Bebe até o raiar do dia e quando sai
do bar passa em frente a um prostíbulo. Lá, conhece Ofélia, uma
prostituta que o convida para entrar. Sai do quarto de Ofélia já ao
amanhecer, e vai embora.
Essa simplicidade, porém, se revela falsa quando o leitor se detém em
alguns detalhes que tecem a trama da história. Pelo menos três elementos
básicos se destacam nessa tessitura: Uma decadência que abrange quase
todos os lugarres; um desejo intenso devorando as entranhas dos
personagens; e uma sensação de prisão que os impede de satisfazer esses
desejos.
A atmosfera de decadência já aparece logo no primeiro parágrafo, na
definição temporal dos acontecimentos. A estação do ano é o outono que
"semeia suas mil mortes", e o momento é o entardecer "límpido e alto
como a espada vitoriosa doe um anjo". O outono é simbolicamente a
estação da decadência, o momento em que a vitalidade da Natureza se
deixa abater pela proximidade do inverno, estação associada à morte. A
espada do anjo, característica principal do entardecer que conduz
Francisco Reyes de volta ao povoado, remete claramente à imagem da
ceifadeira, outro símbolo muito forte da Morte.
A mesma decadência se manifesta, ainda, no cenário onde Reyes se
movimenta. A parede do prostíbulo onde se dá o encontro com Ofélia está
"carcomida pelo tempo e a chuva", e a porta de entrada era formada por
um "arco em ruínas"; o corredor que conduz Reyes e Ofélia ao quartinho
dela tinha "manchas antigas de umidade", e o próprio quarto dispunha de
"uma velha cama de ferro, um roupeiro com espelho descascado..."
Mas essa vida exposta em símbolos de degradação não está imune às
angústias da alma. A fogueira de São João é um elemento muito forte no
texto. Metáfora clara do desejo ardente, queima durante toda noite em
que os personagens se movimentam pela cidade. Francisco é um homem
visivelmente insatisfeito, cuja alma é incendiada por um desejo meio
indefinido. Ao chegar à cidade, busca satisfação na casa de Carmen, a
"prostituta amiga". Mas sai de lá ainda angustiado, vítima de uma
inquietação cuja natureza ele parece desconhecer. Na saída da casa da
amiga esse desconforto persistente é traduzido pela fogueira que "estava
menor, mas, alta ainda, briosa, seguia mordendo a sombra e fazendo
cintilar os perversos vidros do muro". A fogueira queimando durante toda
a noite na entrada do povoado é a metáfora do estado de espírito de
Francisco Reyes. A chama tem um caráter ambíguo, pois ao mesmo tempo em
que ilumina e aquece, também devora. É o fogo dos desejos intensos que
atordoam as almas inquietas. Por isso a satisfação
física obtida com a amiga não é suficiente para apagar o incêndio que
devora as entranhas de Francisco Reyes. A angústia que o arrasta para o
bar, e depois para outro prostíbulo, é de natureza existencial, embora,
ao que parece, nem o próprio personagem tenha consciência disso. Se
deixa conduzir ao bar, na esperança de apagar na bebida a fogueira da
alma. Frustrada mais uma tentativa de alívio, se lança na rua, envolvido
pela noite.
Francisco Reyes é um homem atordoado, clama por algo que nem ele mesmo
sabe o que é; mais acostumado às lides práticas do campo, talvez com
poucas possibilidades de entender os conflitos de sua própria alma. No
momento focalizado no conto ele está atormentado por necessidades que
vão além da sobrevivência cotidiana. Alguma coisa de intrínseco à alma
humana, amordaçada, tenta romper a mordaça imposta pelo "seu minucioso
eu habitual, exaustivamente lúcido, estruturalmente comprometido e
organizado...". Nesse momento, após à satisfação do corpo na companhia
de Carmen, e do entorpecimento do espírito pela bebida, os "impulsos não
animais" que nele habitam se valem da lassidão da carne para se
manifestarem e exigir satisfação.
Outro elemento forte na construção da trama narrativa é a sensação de
prisão em que vivem os personagens. Já na entrada do povoado, quando
Reyes avista a fogueira, percebe que ela está ao lado de um muro coberto
com cacos de vidro. Esse elemento dá a idéia de aprisionamento, um muro
intransponível. Mais adiante, ao sair do prostíbulo, Reyes fica
"enclausurado pelo cone luminoso do lampião".. Quando encontra a segunda
prostituta, ela permanece com parte do corpo encoberto pela sombra da
noite, e seu cabelo que "parecia negro, profuso e desordenado" é
"prisioneiro da noite". Nesse caso, a sensação de aprisionamento se
refere à moça. O cabelo é um símbolo da sexualidade feminina, e quando
solto dá a idéia de uma vivência sexual mais intensa. No entanto, a
moça, uma prostituta jovem e bonita, estava presa na escuridão da noite,
com o corpo mal tratado pelo frio. Mesmo assim, ela também é invadida
por um desejo meio vago, simbolizado pela brasa do cigarro, que cria uma
claridade ao seu redor quando ela fuma. Aqui
aparece mais um símbolo de morte, pois o cigarro queimando é uma
metáfora da matéria (corpo) sendo consumida pela chama (desejo, vida)
enquanto que a fumaça ( alma ) sobe em direção ao céu. Quando Francisco
olha a prostituta deitada, com o corpo à espera dele, seu rosto estava
"enjaulado numa contração exasperada".
No caso de Reyes a fuga dessa prisão era conseguida normalmente com a
bebida, quando ele se livrava de seu "eu" habitual "exaustivamente
lúcido, comprometido e organizado". Nessas condições deixava aflorar um
outro "eu" amortecido "mais leve e purificado, neblinoso, igual ao dos
sonhos". Porem desta vez isso não aconteceu. Mesmo depois de bêbado ele
estava triste e "amassado pela angústia".
A jornada noturna de Francisco Reyes acaba no quarto de Ofélia, a
segunda prostituta do conto. É lá que o fogo que devora sua alma é
finalmente aplacado, embora ele não tenha tido com a mulher uma relação
sexual. A descrição do rosto de Ofélia é a de uma gata, que tinha os
dentes "pequenos, parelhos e aguçados". "O cabelo que parecia negro,
profuso e desordenado" dá a idéia de um animal selvagem. Mas é na união
com esse ser selvagem, meio primitivo, que a ansiedade de Reyes se dilui
e se dissipa, até que ele assume o controle de si mesmo. Nesse ponto
pode-se interpretar as características felinas do rosto de Ofélia como
uma referência a uma mitologia antiga, que viam o gato como um animal
divino, ligado ao sol, que ajuda o Homem a triunfar sobre os inimigos
ocultos. Ao sair do quarto, no raiar do dia, ele encontra a fogueira já
em cinzas, pisoteia as brasas com indisfarçado rancor e segue seu
caminho, agora tranqüilo e dono de si. O fogo, antes terrestre,
devorador, cede lugar à luz do novo dia. Nesse momento, cem galos,
símbolo solar por excelência, anunciam o nascimento do sol, a luz
celestial, que traz os poderes contra as influências maléficas da noite.
Numa interpretação sem maiores preocupações acadêmicas pode-se dizer que
Francisco Reyes é uma vítima do conflito entre corpo e alma. Um homem
que confunde as ansiedades espirituais com as necessidades da carne, e
se debate no frio e na escuridão da noite por não saber com o
aplaca-las. É interessante notar que a prostituta Carmen, nome
tradicional na literatura Ocidental da mulher fatal, hipérbole do
instinto sexual, não é mostrada ao leitor. Apenas sua voz é ouvida no
lado de fora. È nos braços de Ofélia, também prostituta mas com quem
Francisco estabeleceu uma ligação de outra natureza, não sexual, que sua
angústia vai se dissipar. Só depois disso é que ele segue seu caminho,
agora guiado pelo calor e pela claridade segura da luz do Sol.
ADEMIR FURTADO
nasceu em Canguçu, RS e é formado em Letras pela UFRGS em Porto Alegre,
onde reside.
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