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A mulher do João
Vejo que tá com pena do João, não é?! A situação dele é de causar dó
mesmo. Mas o que se passou e o que acontece aqui pouca gente sabe. Quer
que eu conte a verdade?!
Fui tudo pra ele, menos mulher. Não que me negasse, faltou foi chance.
Era um marido faz-de-conta, estava sempre fora. Podia-se contar nos
dedos as noites inteiras em casa. Quando eu reclamava da sua ausência,
ele dizia:
– Casei pra ter casa, não pra ser escravo. – e ia saindo e batendo a
porta.
Que escravo coisa nenhuma! Nem morador foi até a maldita doença o
atacar. E o mal começou justo naquilo que era orgulho dele:
– Macho! Sou macho!
Se ele tinha saúde? Oh! E como tinha! Era por isso que zombava dos
outros:
– Tá doente? Ah, ah! É mentira! Arranjou desculpa pra fugir do trabalho.
Uma única vez chegou em casa ruim, numa diarréia braba, resultado das
noitadas com as putas, deve ter comido alguma coisa estragada. Aí sim,
passou dois dias com a família, e eu fazendo chazinho. Um baita cagão,
parecia que ia morrer, urrava:
– Ai, minha barriga! Ai, minha barriga!
Borrou as calças, lavei.
Quando eu adoecia, tomava sumiço. Minha irmã era quem cuidava de mim e
da casa. No enterro dela, mais tarde, ele não apareceu, disse que era
uma vadia e que vivia fuxicando a vida alheia.
Ultimamente, fala no filho e se enche de lágrimas.Vai ver que esqueceu.
Faz trinta anos. Era noite, chovia, o menino ardia em febre. Ele na rua,
há dias, e eu sem condições de procurar um médico. A hora em que o pai
chegou, tarde demais. E ainda me botou a culpa:
– Uma irresponsável! Não cuidou direito do meu filho, deixou ele ficar
doente.
Aliás, nem sei o porquê da lamentação. Não se importava por ele em vida.
Fruto de outro alívio dele, a menina nasceu. Foi nos ver no hospital,
como um pai interessado. Entrou no quarto contente, sorrindo. Depois,
olhou o neném, soube que era mulher e fechou a cara. Tinha que ser
homem, substituir o morto. Decerto queria um herdeiro pro seu jeito de
ser. Mas Deus sabe o que faz...
Um ingrato, o miserável! Só se achegou quando adoeceu pra valer.
Precisava da mulher e da filha pra servir de cozinheira, lavadeira,
arrumadeira, faxineira e, principalmente, enfermeira..
Agora taí, ó! Sofre, e nós também sofremos. Faz mais de ano, cuidamos
dele dia e noite. Nem levo mais pro hospital, é apenas o trabalho de
levar e trazer, não querem ele lá. Não sabe que está desenganado, pensa
que é reumatismo, que vai ficar bom. Se soubesse...
É um sanguessuga, continua se preocupando com ele mesmo. Chora e reclama
o tempo todo. E a gente se pergunta, quanto tem de dor e quanto tem de
rabugice em seus lamentos? É difícil avaliar. Esgotamos as forças, a
paciência. O irmão é quem releva ele nestes últimos dias. Pudera! Viveu
nesta casa mais do que o dono, comeu, bebeu. Era parceiro das farras,
depositário dos segredos.
Se eu perdoei ele? Claro que sim! Tanto que aturo o traste desde que
veio pra casa. A filha? Essa, não sei. Nunca teve pai, além do
sobrenome. Acho que a revolta é grande, desde pequena percebeu a
rejeição.
A vida virou um inferno. Não saio de casa e, no pátio, só vou pra
estender e recolher as roupas. Os passarinhos passam por cima da minha
cabeça, vejo as bostas no chão e nem escuto a voz deles. Meus ouvidos se
transformaram em ecos de ais e gemedeira. Dia desses, um sabiá sujou o
pijama do João e, depois, ficou empoleirado na laranjeira, me olhando,
assustado, como se eu fosse uma ameaça. Logo eu, que antes dava pra eles
água e comida.
Envelheço num mês o que levaria um ano. Quase nem me alimento, engulo
qualquer coisa pra matar a fome, o paladar é o que menos conta. Meu
nariz se acostumou com o fedor de suor, vômito, mijo e merda, nem sente
o cheiro das poucas flores e do ar da manhã, que eu tanto apreciava.
E o João vai chegando ao fim. A cabeça já não funciona direito. Deu pra
falar sozinho, faz continências pras paredes. Briga até com os bichos. O
cachorro late, é barulho; a corruíra canta, incomoda.
Mandei tingir de preto um vestido. Vou me cobrir de luto, seguir o
costume antigo das viúvas. Vendo a casa, me mudo em seguida, as
lembranças ruins ficam aqui.
Reconheço que falei bastante, talvez demais. Precisava. E ainda tenho
muita coisa entalada no peito, me apertando. Hoje, chega. Agradeço por
ter me escutado.
Viu que o inverno está se espichando? Acho que mudou de época. O sol,
envergonhado, aparece tarde, amarelinho, tremendo de frio. Mas, olhe, o
que eu quero é que pare essa chuva fina e gelada, calando na terra e na
alma. Muda o clima, tudo melhora.
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