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Livro inacabado
Uma daquelas noites em que você acorda de madrugada suando frio, um
choque te percorrendo o corpo enquanto você se pergunta "quando vou
morrer?".
Será que falta muito?
Como será?
Um câncer galopante, daqueles que você já ouviu dizerem no supermercado,
ela estava bem, teve uma dorzinha, foi no médico, mas já não tinha
jeito, e um balançar de cabeça penalizado, e os olhos perdidos de quem
pensa antes ela que eu. Quem sabe antes ela, depois eu. Arrepio.
Ou uma bala perdida?
Teve aquele amigo que sumiu. Fez dois meses nesse fim de semana. Aí
ligam contando, como ligaram contando que ele tinha sumido. Conheceu o
tal Luiz Paulo? ou João Paulo, sei lá. O amigo queria ajudar, disse que
pagava metade da mensalidade da faculdade, desde que esse tal Luiz
Paulo, ou João Paulo, ajudasse a manter o sítio, mas o tal não-sei-o-quê
Paulo já tinha cumprido pena por assalto, o repórter da Globo - não foi
a polícia, foi o repórter da Globo da Baixada - encontrou a fita de um
caixa automático e estava lá o cara, na Baixada, sacando grana com o
cartão do amigo, um dia depois do sumiço do amigo, e no seguinte e nos
outros dois. O cara tá foragido, e o amigo, olha, infelizmente acho que
foi assassinato. Como disse outra amiga, como é que não acham um corpo
daquele tamanho?
Será que vai ser assim? Um dia saindo de casa, ou chegando, e vão
encostar no teu carro, e sumir com você, e os amigos vão comentar,
sumiu, ninguém sabe, ninguém viu, e nem enterro vai ter.
Quem vai no seu enterro quando você morrer? Que raiva, não poder saber
quem realmente se importava.
Quem sabe tropeçar numa escada e quebrar o pescoço. Uma desatenção, uma
tonturinha besta - ai, o fígado, não devia ter comido aquele torresmo -
e todos seus projetos ficam inacabados. Tinha tanta coisa pra fazer, tão
cheia de energia, terminar assim, bestamente... Pois é... (antes ela do
que eu).
Porque sim, claro, vai chegar aquele dia em que você vai acordar cheio
de energia, apenas para morrer.
Anteontem, indo até o aeroporto, tinha um carro de polícia no canteiro
central. Mais pra frente um caminhão velho, daqueles que nunca têm
freios. Entre os dois, um corpo estendido no chão, coberto com plástico,
transparente pra não matar os transeuntes de curiosidade, acho. Vossa
vez ainda não chegou, mórbidos espectadores! Tende paciência que chega.
Lembra daquele outro amigo? Ele estava adaptando teu conto para o
teatro. Te mostrou as fichas para cada personagem, animado. Um dia te
ligaram, o Lui foi atropelado, morreu. Kombi velha na Consolação. Quer
ficar com as fichas que ele estava preparando para a peça? Mas pra que
vou querer?
Aí você acorda no meio da noite e pensa agora é. Terminou o tempo.
Daquela vez em que apareceu um carocinho estranho debaixo do braço não
era nada, era uma gordurinha crescendo no meio do músculo, sei lá se era
isso mesmo, mas aí perderam o resultado da biópsia e você ficou
histérico pensando, era maligno, e o médico está escondendo o jogo. Não
estava, ele só era um irresponsável, e também te deixou a cicatriz feia
no queixo, cirurgião plástico de araque, com aquela história de
professor fodão da USP. Mas agora é sério.
Essa dor que apareceu aí é séria. Deve ser, porque ontem você não sentia
nada. Hoje, de madrugada, a dor.
E se você vai, pelo menos já está sabendo, então, como bom virginiano,
vamos deixar as coisas arrumadinhas, não é, terminar tudo o que é
possível, para partir em ordem, e você tem sessenta e um e-mails
atrasados e os contos daqueles amigos para ler. Será que é a coisa mais
importante para fazer quando a contagem regressiva começou, pondera você
enquanto responde os e-mails de gente que de uns tempos pra cá virou um
pé no saco, ou sempre foi. Então vamos ler os contos, e você lê os
contos acumulados daquele escritor seu amigo e pensa, por que é que não
li antes, esse cara escreve bem pra caralho, ele não me escreve, não
escreve pensando em mim, mas o fato é imutável. Inveja. Que não vai
durar muito. Não agora.
Perguntas: será que ainda demora? Será que vai doer? Será que dá tempo
de acabar de escrever o livro? Ou será que tempo dá, mas a dor não vai
deixar?
O relógio mostra duas da manhã e a dor continua.
Você ainda ama aquela pessoa que não te dá a mínima bola.
Com um pouco de sorte dá pra terminar o livro.
MARTHA ARGEL tem quatro livros publicados. Seu lançamento mais
recente é a coletânea de contos O Vampiro de Cada Um. O romance Relações
de Sangue, uma história policial com vampiros, está nas principais
livrarias. Tem contos em várias revistas, zines, jornais e sites de
literatura, ficção científica e terror. Ornitóloga, doutora em Ecologia
e consultora ambiental, com artigos científicos e de divulgação
publicados no Brasil e no exterior, atualmente trabalha num livro
infantil sobre aves brasileiras.
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