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O Coração de Carolina
"Lembrem que os gnósticos disseram que o único jeito de se livrar de um
pecado é cometê-lo, porque depois você se arrepende dele."
(O Credo de um Poeta - de Jorge Luís Borges)
- Você queria falar comigo. Sou padre Lúcio, é o Luís Carlos, estou
certo?
O homem olhou para o padre e tinha o ar de quem a custo se livrava de
profundos pensamentos. Luís Carlos tinha trinta anos, o padre beirava os
quarenta e usava óculos.
- Você quer confessar?
Houve um silêncio sem propósito, depois Luís disse:
- Queria falar com alguém, o senhor... o senhor tem miopia ou
astigmatismo?
Talvez o homem estivesse mesmo muito perturbado e, embora estivesse
acostumado ao trabalho na prisão, padre Lúcio sempre temia que uma
conversa dessas desembocasse numa reação mais violenta.
- Miopia - respondeu - mas Deus tem certamente os olhos melhores que os
meus, e ouvidos também, se quiser então agora confessar seus pecados e
sinceramente se arrepender deles, a bondade de Deus é infinita.
- Não sei direito quais são os meu pecados...
- Estou aqui para ajudá-lo, é o meu dever de ofício...
- Então o senhor não está por vontade, mas por um dever!
- Eu não disse isso, se estou aqui falando como você agora é porque
acredito no arrependimento por mais cruel que tenha sido sua falta. Já
vi homens brutos chorarem diante da cruz, portanto, por mais que abomine
o que você fez, sei que a redenção de sua alma é possível.
- Acho então que posso falar com o senhor das coisas que fiz.
- Você não estará falando comigo, propriamente...
- Mas o senhor estará aqui me ouvindo...
- E ajudando!
- Ótimo! Então devo começar a dizendo que não cometi tanto pecado.
- Não é o que diz o relatório que li - e com ar de irritação o padre
Lúcio continuou - você é um pedófilo, muitas fotografias de meninas em
trajes mínimos ou mesmo sem roupas em orgias encontradas no seu
apartamento foram tiradas por você, além disso, seduziu e estuprou uma
conhecida sua de catorze anos chamada Carolina e assassinou depois o pai
da menina que tentava defendê-la, assassino-o com requintes de crueldade
física e psicológica.
- Como! É isso que está escrito, crueldade?
- Foram cinco facadas, não foram? Se a mãe não entrasse no momento
quantas então seriam, vinte, quarenta e cinco, cem! Ah, ia me
esquecendo, houve também uma tentativa de assassinato: perseguiu, com a
mesma faca com que havia acabado de matar, a pobre mãe que, graças a
Deus, conseguiu escapar. Não se lembra disso?
- Lembro, mas não exatamente dessa forma, lembro de ter matado aquele
canalha, isso sim! Mas as cinco facadas foram antes devido à minha
inabilidade que a qualquer requinte de crueldade. E não me recordo de
tê-lo torturado psicologicamente.
- Ah, não! E o que me diz de mostrar uma fotografia da filha em que a
menina aparecia numa ousada posição quase nua e, beijando maliciosamente
o retrato, dizer ao pobre homem: "Você chegou atrasado para salvar sua
filha". Que reação queria que ele tivesse?
- A que teve, evidentemente, saltar para cima de mim, para que eu
pudesse matá-lo. Mas é preciso fazer uma correção na frase, ela não era
tão longa, disse apenas: "você chegou atrasado." O senhor percebe a
diferença, literariamente "você chegou atrasado" é mais forte, a outra é
exagerada, fruto da fantasia do escrivão que me tomou o depoimento e que
certamente queria garantir minha condenação. E eu não estuprei, como o
senhor diz, nenhuma menina, tudo que eu fiz foi de pleno acordo com
ela...
- Ora moço, pare com isso, pensei que você quisesse se confessar, houve
exame de corpo de delito, a menina estava toda ferida, as escoriações, o
machucado nas partes íntimas... Está querendo enganar-se a si mesmo e a
mim; você não é nenhum santo!
Houve um silêncio e Luís Carlos fez um gesto como se sentisse uma dor
que provinha da alma.
- Machucada! Carolina estava muita machucada!... Não, padre, não tenho a
pretensão de ser santo.
- O que não entendo... bem, é você... não, vamos ao que você tem a
dizer.
- Espere... o senhor ia dizendo e mudou de rumo. O que o senhor não
entende é como uma pessoa como eu, um escritor de estórias infantis já a
meio caminho da fama, pode ser um pedófilo, pode cometer um pecado
desses, não é? Já leu...
- O Coração de Carolina? É uma fábula maravilhosa. Como pode, como pode
alguém escrever uma coisa dessas e abusar de crianças. O livro é tão
bonito que o recomendei a uma sobrinha, e ela igualmente o adorou.
- Mesmo! Este é o primeiro elogio que recebo nessas duas semanas. Então
eu estava certo, esta sua miopia é de leitor. Sua sobrinha gostou do meu
livro! Me diga, padre Lúcio, como é essa menina, é bonita? Que idade
teria?
O padre ficou perplexo.
- Você é mesmo um canalha!
- Hum, reação típica de um sujeito ciumento, agora estou realmente certo
de que você é de verdade e não apenas um telefone para se falar com
Deus.
O padre teve um sobressalto, um ímpeto de se ir embora; chegou a fazer
um movimento, mas havia alguma coisa que o prendia àquela cela: Ele
queria compreender. Para não ir embora, teve que falar:
- Notando agora, percebo que havia no Coração de Carolina algumas coisas
que já deviam mostrar seu caráter. Você colocou a personagem logo
trepada numa árvore, a cavalo num galho, olhando o horizonte carregado
de nuvens escuras.
- Acha então que a maneira de minha personagem estar trepada na árvore
traduz alguma licenciosidade de minha parte? Ora, ora, meu caro
sacerdote leitor, parece que sua fantasia para catar coisas nas
entrelinhas é mais licenciosa que a minha. Mas acho que não tem mesmo
jeito, depois do que fiz, sempre se poderá achar alguma coisa. Se
colocasse Carolina sob a árvore olhando para o horizonte comendo uma
maçã, você fatalmente também veria no horizonte escuro e na maçã o
símbolo do meu desejo de pecar, não é! Talvez tivesse razão.
- Talvez você seja nesse momento sua personagem Carolina que, como conta
no seu livro, se desequilibra e cai da árvore. Toda a estória se passa
entre a queda e o chão. No momento de vertigem, a personagem tem uma
alucinação que são todas as aventuras que serão narradas no livro;
cronologicamente a queda não tem mais que um segundo, mas tudo se passa
nesse segundo. Ao atingir o chão, Carolina volta de seu mundo mágico,
sua cabeça batera numa pedra e ela terá então que cortar os cabelos para
fazer os curativos. Essa estória é simbólica demais, Luis Carlos, por
isso não estou vendo além da conta, quando você coloca um galho entre as
pernas da personagem...
- Bravo! Meu ilustre leitor, mas pode ser que nós dois estejamos
errados.
- Agora o que não posso entender é como pode alguém que faz coisas assim
ser o mesmo que abusa de crianças!
- Já disse que não abusei de nenhuma criança.
- Três meninas da escola onde você trabalhava alegam exatamente o
contrário em seus depoimentos, as fotografias encontradas em seu
apartamento em que elas aparecem nuas com você comprovam o que dizem.
- Pobres meninas, que pressão não devem ter sofrido!
- O que me impressiona é que você parece não ter a mínima consciência da
gravidade de tudo isso, da monstruosidade que fez.
- Eu não fiz nenhum mal para estas meninas.
- Não, então vamos lá, me conte...
- Antes de tudo, o senhor precisa compreender a beleza que meus olhos
vêem, talvez então entenda por que seja eu incapaz de fazer mal a
qualquer outro ser, a não por extrema necessidade, e porque estou desde
o início condenado e não conto com a absolvição dos homens. O senhor
gosta de mulheres, padre?
- Isto não vem ao caso.
- Sua resposta me diz que senhor também gosta de esconder os seus
desejos, ou ao menos o fato de os ter ou não.
Padre Lúcio ficou impassível talvez porque nada devesse, talvez porque
soubesse bem disfarçar.
- Não há coisa mais linda nem mais preciosa que as meninas entre dez e
quinze anos, algumas conseguem superar esta marca conservando o bom e
selvagem aroma dessa gloriosa fase, mas é raro. Particularmente não acho
a mínima graça nas mulheres que transpõe os dezessete. As mulheres
feitas enfeiam, alguma coisa horrível acontece com elas e se tornam mais
inconvenientes, cada vez mais perversas, verdadeiramente insuportáveis.
Tão breve a rosa! Como posso eu ter cometido o crime que me imputaram!
Eu que amei Paula, Cíntia, Carol e Carolina. Amei-as todas enquanto e
tempo devorador me permitiu. O senhor não viu o olhar agreste de
Carolina, não contemplou as formas douradas de seu corpo, os pelinhos
encaracolados em touceira divina valem mais que a imagem da virgem, é um
prelúdio do paraíso.
- Pare com blasfêmia, Luís!
- Isto não é blasfêmia, padre, o senhor bem sabe: é um cântico! Como
podem me acusar de profanar este templo da beleza, diante do qual não me
resta outra coisa senão humildemente me prostrar e fazer da minha vida
uma eterna oração diante da visão desse corpo indeciso que tem o tempo
precário da rosa. E se os mistérios gozosos guardam no paraíso, como
acredito, os mais infinitos prazeres, eu quero estar com Deus no além
desta vida, pois, se neste meu pecado de amar as meninas provei uma
parte mínima do que me espera lá, eu já me pelo de prazer esperando o
que me espera.
- Pois então se arrependa, Luís Carlos.
- Como me arrepender! Não posso, o senhor não entende. Entrego-me nas
mãos de Deus, mas como pecador me entrego, como naquela poesia de
Gregório de Matos:
"Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado
De Vossa alta clemência me despido"
Quando meus pais estiveram aqui, eles me olharam perplexos, um misto de
repugnância e culpa, como podia eu ter saído deles, esta monstruosidade!
Era isso o que diziam seus olhos. Compreendi então que só Deus
compreendia a criatura que Ele havia feito, uma criatura tão propícia ao
pecado da amar e à salvação.
- Para estar com Deus, você precisa se arrepender de todo o pecado que
fez, Luís.
- O senhor, quando diz isso, não parece ser uma pessoa muito religiosa.
Já imaginou, padre Lúcio, que no céu ao lado de Deus, os maiores
prazeres que podemos ter aqui na terra são projeções mínimas das
verdadeiras delícias, já pensou também, padre, que Deus resolveu colocar
uma amostra do Paraíso nos pecados e em nós a condição de pecadores. Não
pecar, portanto, é desobedecer a Deus, é não ter nenhuma idéia do que é
gozar com Deus. Não há um homem santo, padre, que não o seja por não
ambicionar um prazer supremo, Buda, Maomé, Cristo, Santo Agostinho são a
prova do que digo.
- Você não percebe o Mal, mas Ele se impregna nas suas palavras,
transforma o pecado em virtude e vira Deus de ponta cabeça. Não percebe
o mal que fez àquelas moças, Luís? Não percebe que a sua pedofilia o
levou ao assassinato?
- Vamos então por partes, padre. Juro pela Divindade que nos assiste que
o que disse até agora foi a verdade e com a verdade ficarei. Por onde
quer começar?
- Como você seduziu estas meninas, mais propriamente Carolina?
- Já vi que vamos começar pela parte picante! O senhor tem bom gosto e
só espero que não tenha más intenções. Oh, por favor, não se altere, é
só uma brincadeira, um pouquinho de humor que um condenado tem direito
como meia hora de banho de sol. Sou escritor de livros infantis, sou
professor de educação artística e, até duas semanas atrás, tinha um
emprego que não era mal: os alunos gostavam de mim e as alunas ainda
mais. Esse grupo em particular de moças, ao que o senhor se refere,
acompanhei desde a quinta série, elas já estavam para se formar na
oitava. Havia uma intimidade grande entre mim e a sala, fizemos vários
passeios culturais e excursões. As meninas em questão se aproximaram de
mim e ...
- E você traiu a confiança delas.
- Elas eram minhas amigas, eu não traio os amigos, como sei que elas
nunca me traíram, se me denunciaram é porque não podiam fazer outra
coisa. Conheceram a perversidade que a natureza só aos poucos lhe daria.
Tornaram-se adultas forçadas pelos adultos, não por minha culpa. Mas
vamos com calma. Elas se interessaram pelo meu gosto por fotografias,
ensinei-lhes os fundamentos desta arte e nossa intimidade aumentou
sempre mais. Eu as fotografei durante todos esses anos, eram as minhas
modelos. Lembro que a primeira que fotografei nua foi Paula, depois veio
Cíntia, depois Carol e, finalmente, minha deliciosa Carolina.
- E o senhor diz que não as seduziu?
- Ou foram elas. Quem é que sabe? Vivíamos uma alegria sem licença. Eu
sabia que isso iria acabar, éramos felizes demais para este mundo, se
perguntasse a cada uma delas e se a elas fossem dado o direito à
sinceridade, elas diriam o quanto fomos felizes, mas eles estragaram
tudo; eles as transformaram rapidamente em adultas pecaminosas. Elas
serão sempre meninas na minha alma e nas fotografias que fiz delas e que
tiraram de mim.
- E quanto à orgia que você promoveu na última excursão para Poços de
Caldas e que atestam as fotografias que estão agora no inquérito?
- Ah, maravilhosa orgia! já que gosta da palavra. Maravilhosa e de certa
forma triste. Seria a nossa última viagem, as meninas já iriam se formar
no final do ano e, no outro, já estariam dispersas no curso médio de
outras escolas. Mas voltemos a Poços. Acho que Guimarães Rosa disse
certa vez que Poços de Caldas era a mais afrodisíaca das cidades, se
disse tinha toda a razão. Nós não cansávamos de tirar fotografias nos
banhando com a paisagem restauradora e sulforosa daquele biju de cidade,
encravada no olho de um vulcão extinto, rodeada de montanhas com um
clima do tipo europeu nos trópicos, com suas praças e termas, com seu
glamour de um tempo um tanto apagado, resistindo ainda na presença de
certa arquitetura, como a do antigo Cassino e do Palace Hotel, onde nos
hospedamos por um preço razoável. Nossa petit Belle Époque trazia
delicadezas encravadas que podiam ser garimpadas em toda parte, como a
mesinha posta com toalha rendada e louça inglesa que, atrás de uma
vidraça, oferecia ao passante da calçada um café colonial, aromas e
fumos cismavam em abolir o tempo da nossa realidade presente. Na segunda
noite em que lá estávamos, Carolina, e eu tremi ao vê-la se insinuar com
a graça de quem queria aprender algo mais com esse seu mestre.
- Isto é o que você diz, resta saber se pensar assim não é apenas uma
maneira de acomodar a consciência, de aplacá-la de qualquer culpa.
- Pode ser que quem tivesse as rédeas fosse eu, mas nesta estória
ninguém tem o poder absoluto. De qualquer modo, a última coisa que
pretendia seria acelerar os anos à idade, coisa totalmente contrária a
meu desejo. Seria incapaz de qualquer gesto mais brusco que magoasse ou
maculasse a frágil beleza, que sei, pode ser destruída até mesmo com
algumas precisas e vis palavras. Nós, professores que acompanhávamos a
excursão, dividimos a turma em três grupos, e cada um ficou responsável
por um tanto de alunos. Fiquei com a turma da fotografia. Lembro-me que
na tarde do segundo dia ficamos para explorar e fotografar os recantos
do hotel, alguns preferiram entrar no grupo de outro professor que iria
passear, as meninas ficaram. Inventamos fotografias nos corredores de
longos tapetes vermelhos, no hall de entrada, com suas pastilhas e
vitrais, havia ali uma bela Diana em bronze que tinha os traços de
Carolina; por fim, colocamos maiôs e fomos à piscina. Esta era aquecida
naturalmente, possuía a sua volta colunas romanas e seu desenho visto de
cima era semelhante a uma bandeja. As meninas tiravam fotos, em cada
nicho formavam um improvisado estúdio, consultavam-me sobre as luz,
queriam que eu as arrumasse quando se punham como modelos, que opinasse
ou corrigisse quando o trabalho era feito por outra.
- Você as tocava?
- Claro, padre, com o prazer de quem faz um trabalho muito agradável,
talvez com a mesma satisfação com que senhor deve tocar o cristão quando
o unge com os óleos santos.
- Pare de me provocar. Você está querendo, habilidoso que é com as
palavras, me envolver. Não somos iguais.
Luís Carlos sorriu e continuou.
- Depois deixamos as máquinas sossegadas e fomos brincar na água. Eram
pequenas ninfas nadando à minha volta, e brincamos muito e trocamos
confidências. Carolina disse, num momento, que era capaz de guardar uma
imagem de alguém só passando seus dedos pelo rosto da pessoa. Fez assim
com Cíntia, depois com Paula, com Carol e, por fim, comigo. Ela ficava
com os olhos fechados enquanto suas mãos percorriam lentas e curiosas os
relevos do meu rosto. Também eu fechei os olhos para sentir o mel do
melhor de suas carícias, que me levaram... Quando de súbito ouvi os
risinhos. Carolina à minha frente rindo, como as outras, porque já havia
acabado e eu demorava em voltar de lá para onde suas mãos me haviam
levado. Às vezes, fico pensando se Carolina guardou mesmo a geografia do
meu rosto no calor de suas digitais.
- Que vamos fazer depois do jantar? - Paula perguntou.
- Podemos fazer outras fotos legais no quarto. Daquelas, lembra? - Disse
Carol pondo em mim um olhar insinuante.
- Carolina olhou-me com o mesmo desejo. Elas sabiam uma das outras e
estavam ali me dizendo que o segredo era agora de todas.
- Isto pode ser apenas interpretação sua, Luís Carlos!
- Bem, padre, há coisas que são feitas exatamente para serem
interpretadas de uma única maneira. Aquele olhar era uma dessas. O certo
é que jantei pouco, organizei com os colegas as atividades do dia
seguinte. Assim que pude, tratei de sair. Disse que iria fazer umas
fotos noturnas e que não se preocupassem porque iria chegar tarde. Dali
fui ao quarto de Paula Cíntia e Carol. Carolina chegou logo depois. O
senhor quer saber todos os detalhes?
- Em outra circunstância bastariam os fatos, mas no seu caso...
- Sim, tem razão, Deus mora nos detalhes. Não se aborreça, não faço mais
comentários blasfemos. Voltemos ao quarto das meninas. Elas improvisaram
uma mesa com bolos e biscoitos que haviam trazido do restaurante. Cíntia
tinha uma garrafa térmica com água quente; Paula fez o chá. A sensação é
que nós brincávamos de casinha. Tirei uma foto da mesa, depois cada uma
quis tirar a sua. Depois Carol perguntou para Cíntia:
- Quer ser a primeira ser fotografada?
- Não foi você que sugeriu, Luís Carlos?
- Não, padre Lúcio, mas incentivei. Paula então disse:
- Olha, Cíntia, é simples, quer ver?
- E num instante puxou a blusa que vestia. Paula tinha os seios
avantajados de mocinha mais velha, durante o último ano pude acompanhar
como eles se projetaram centímetro a centímetro para frente. Paula
colocou as mãos sobre seios, menos para os cobrir que para fazer algum
charme. Então Carol, seguindo o mesmo caminho, desabotoou a camisa e o
sutiam que trazia, dizendo:
- O meu é menor, mas também é bonito, não é?
- E assim as coisas foram acontecendo. Carolina usava um vestido e, ao
tirá-lo, ficou apenas com uma minúscula calcinha rosa. Ajudei Cíntia a
tirar o short, e ela aceitou com gosto; ao final deste maravilhoso
trabalho, houve palmas e risos. Tudo era festa! Então Carolina
dirigiu-se a mim e disse:
- Assim não é justo, você também tem que tirar sua roupa.
- Só tiro se vocês me ajudarem.
- Derrubaram-me na cama. Tiraram-me os tênis e as meias. Paula trepou em
cima de mim e, a cavalo sob a minha barriga, foi desabotoando minha
camisa. Num segundo estavam e fazendo cócegas. Deixaram-me de cuecas, e
elas ficaram de calcinha.
- As fotos! - disse Carol - pode me arrumar, professor Luís?
- E assim iniciou-se a sessão. Que prazer não foi aquilo, tocar todos
aqueles anjos, ajeitá-los com a expressão mais encantadora. Pentear os
cabelos, colocar um ornamento, a luz certa. Quiseram também me
fotografar. Carolina quis antes, no entanto, tirar uma fotografia do meu
corpo com as suas mãos, tal qual havia feito antes com meu rosto. Devo
confessar que eu nunca tive tanto prazer em ser fotografado. O que está
achando, padre Lúcio?
- Estou perturbado, mas diga-me uma coisa, houve penetração.
- Oh, sua curiosidade é tão grande quanto a das meninas! Não houve
porque ninguém chegou a cogitar isso, e só por isso; mas se quer saber,
elas me fizeram gozar. Quando viram que eu estava excitado com a
fotografia de Carolina, quiseram ver minha intimidade, saber como era,
tocar. Então pedi, e elas começaram a me alisar e a beijar meu corpo,
todo o corpo! Se isso não é nem a sombra do que terei no paraíso, padre,
era preciso que todo homem experimentasse o que experimentei para se
converter no mais fiel amante de Deus. O senhor não imagina, padre
Lúcio, a surpresa e a alegria que as moças tiveram quando viram o jorro
de gozo saindo de mim. Quiseram sentir o calor que tinha, a
consistência, o gosto...
- Chega!
- Como quiser, mas não precisa gritar, estes são os fatos, se quiser
posso contar com mais calma os detalhes e poderá gozá-los por tabela,...
não!...
- Estou tendo a maior boa vontade em ouvi-lo e você teima em
gratuitamente me provocar.
- Não é a intenção, garanto, só quero tratá-lo como um igual.
- Nós não somos iguais, já disse. A sua fraqueza acabou tornando-o um
assassino.
- Ao meu ver, isso conta mais ao meu favor do que contra.
- Como! Então me diga, você não matou exatamente o pai de sua vítima? Ou
isto é mentira?
- Sim, é mentira, eu matei um criminoso, eu tentei proteger uma pessoa
inocente.
- A menina ficou em estado de choque porque havia um assassino na casa,
você tentou matar a mãe de Carolina também. O que você tem a dizer.
- Se vou contar o que aconteceu uma semana depois daquele nossa viagem
não é porque busco livrar-me da prisão, nem ao menos aliviar minha pena,
conto para mostrar que apesar de todas as minhas boas intenções serei
inapelavelmente condenado. Começo dizendo que uma semana depois
encontrei Carolina e não me lembro de ter tido uma visão tão triste na
minha vida. Ela havia faltado à aula, esperava-me na saída da escola.
Havia hematoma no seu rosto, assim que se aproximou de mim, começou a
chorar. Pedi que entrasse no meu carro e nos afastamos da escola, fomos
ao meu apartamento. Ela trazia uma camisa de mangas compridas que
escondia outros hematomas. Quando conseguiu falar, disse:
- Meu pai me pegou na marra.
- O senhor pode imaginar, padre, a dor e o ódio que senti naquele
instante. Carolina disse-me que ele já havia tentado umas investidas
outras vezes. Aquele homem violentara a filha, violentara a beleza que
eu tanto amava. Eu já estava conformado em perdê-la para o tempo, este
eterno rival, mas não para a brutalidade arrasadora daquele pai que ao
atingir o corpo magoou sem remédio o coração de Carolina. Lembra-se de
que no meu livro minha heroína também perdeu o coração ao dar de cara
com o Monstro Alguém, eu só não sabia se na vida a minha Carolina iria
encontrar uma fada que lhe desse um coração de cristal como no livro.
Era preciso fazer alguma coisa e perguntei:
- E sua mãe, você falou para sua mãe? Sim, ela havia falado. Mas a
mulher, eu soube então, era uma esposa subserviente demais. Não quis
acreditar que o marido pudesse fazer aquilo, ia falar com ele e... bem,
era uma mulher fraca, apavorada , como pude ver depois.
- Vou falar com ela.
- Não, professor Luís, não vá. Prometi que não contaria nada a ninguém.
Só a custo a convenci de que eu devia falar com sua mãe. Carolina só
consentiu porque temeu que o pai pudesse voltar a fazer de novo aquilo
com ela. No caminho eu tentava acalmá-la e ela ainda a dissuadir-me. A
mãe nos recebeu com desconfiança e notei que suas mãos tremiam. Fomos ao
escritório que havia na casa para falarmos com mais privacidade longe
dos empregados. Era uma casa ampla e bonita. Disse à mulher o que ela já
tinha ouvido da filha e propus que devíamos denunciar seu marido à
polícia.
- À polícia! Oh, não senhor, deve haver algum engano. Se meu marido
cometeu algum excesso, deve ter sido devido a uma perturbação qualquer.
Polícia! Ora veja!
- Eu imagino que deva ser difícil para a senhora, mas tente entender a
violência que sua filha sofreu.
A mulher começou a chorar.
- Eu não posso - dizia - ele deve já estar para chegar. Se o senhor
quiser pode falar com ele, mas eu lhe digo que eu não vou denunciar meu
marido.
- A mãe teve esse comportamento, Luís?
- Teve, padre. Depois eu soube ainda que a mulher para não ouvir nada,
tomou remédios para dormir. A filha sendo estuprada e a mãe, com alma de
avestruz, tomando remédios para dormir. Veja que situação eu me
encontrava, não tinha idéia ainda do que fazer, e minha impotência
aumentava meu ódio. Ao ouvir a chegada do marido, a mãe pediu que a
filha subisse para o seu quarto. Ao me apresentar ao esposo, disse:
- Querido, este é o professor da Carolina, ele veio conversar com você.
Eu preciso ir até a vizinha, Glorinha tem uma coisa para me entregar.
Fiquem à vontade que volto logo.
Ao ver aquele homem, de terno, bem apessoado, corpo atlético, muito mais
forte do que eu, senti um impulso de me atirar ao seu pescoço. Procurei
manter a calma, mas fui direto:
- Soube o que aconteceu ontem entre o senhor e sua filha.
- Como é?
- Soube da violência, o senhor estuprou a menina.
- O senhor vem à minha casa me falar isso? O senhor tem idéia,
professorzinho, com quem está falando?
- Estou falando com um covarde, o maior canalha que conheci, e que
abusou de uma menina indefesa.
O homem olhou-me fixo, afrouxou o nó da gravata e disse com calma:
- Uma menina! Você não tem nada a ver com isso, mas vou lhe dizer,
professor, ela não é mais menina, fiz dela uma mulher ontem à noite, e
fiz como se deve fazer, com força. Antes que outro homem fizesse, fiz
eu.
- Diga-me uma coisa, padre, o senhor ouviria isso com tranqüilidade.
Pois o homem ficou ali na minha frente a dizer como ele a havia
machucado. Sobre a mesa havia uma faca de abrir cartas, era um punhal
fora da bainha, reluzindo. E o homem continuou a falar assim:
- Sabe, professor, essa nossa conversinha me deu vontade de ter hoje
outra noite com Carolina. E você não tem nada a ver com isso.
- As palavras, o homem... veio-me a idéia. Trazia no bolso uma foto de
Carolina tirada em Poços em que ela aparecia de bruços só vestida com
aquela calcinha rosa. Beijei a foto e entreguei a ele dizendo: "Você
chegou atrasado!" O homem olhou a fotografia por alguns segundos até
entender, foi o tempo de eu pegar a faca de sobre a mesa. Ele se atirou
sobre mim, agarrou-me pelo pescoço, fechei os olhos e era como se o
visse fazendo as coisas da véspera, tapando a boca de Carolina,
rasgando-lhe as roupas, machucando, e ele agarrado ao meu pescoço e a
lâmina foi penetrando até o cabo. Quando o homem percebeu o que havia
acontecido, dei-lhe a segunda punhalada e a outra, e a outra e a quinta.
Desabou sobre o tapete. Fiquei ali olhando o Monstro Alguém. Tempo
depois, não sei quanto, a mulher entrou e, vendo a cena, deu um grito
absoluto e saiu correndo. Fui atrás dela tentando acalmá-la. Inútil.
Carolina também veio e tudo foi uma grande vertigem. Quando a polícia
chegou, a mulher somente dizia: meu marido foi ass
ssinado, minha filha foi violentada. Eu estava perdido. Levaram-me. Os
colegas da escola, os alunos, ninguém podia acreditar, mas acharam as
fotografias no meu apartamento. A mãe de Carolina não queria macular a
honra do marido morto, queria um peso mais leve de simples infeliz viúva
e nada desmentiu. A menina, em estado de choque, ficou sem falar três
dias, as outras meninas, reveladas pelas fotografias, foram logo depor,
acompanhadas por mães e pais chocados e coléricos. Depois Carolina teve
também que depor para denunciar quem havia feito aquilo com ela, o
Monstro Alguém. O resto o senhor sabe. Lembrando depois, percebi com
mais força que havia algo de tristeza naquela orgia em Poços de Caldas.
Nós não estávamos apenas dizendo adeus uns aos outros, era uma festa em
que as moças estavam se despedindo das meninas que elas estavam deixando
de ser, deixavam para trás uma idade em que elas foram para mim a mais
pura beleza. O senhor entende, padre, por que não há salvação para meu
ato, a única coisa que poderia atenuar meu crime era o amor, meu
delicioso amor por aquelas meninas, mas pedofilia não atenua crime
algum. Sou homem condenado pelos homens, mas não precisa mais me ouvir
padre, Deus me aceitará, quero ter do céu o supremo gozo prometido, pois
dele só provei uma mínima parte e que mesmo esta os homens me tiraram.
Sou dos mais religiosos entre os homens, pertenço aquela raça mínima dos
que desejam tanto que crêem.
Luís Carlos parou de falar e olhou para cima, um ponto no teto da cela.
Padre Lúcio ficou em silêncio como que esquecido de sua fala. Por um
instante foi levado pelo olhar daquele que lhe presenteava com uma
confissão, depois disse:
- Não sei se você é um louco ou... Deus saberá... nos vemos no
julgamento.
- Se não no paraíso.
Padre Lúcio voltou ao silêncio, ergueu a mão e lentamente desenhou no ar
o sinal da cruz. Os olhares se detinham compassivos um no do outro, a
este silêncio, a este olhar, era o máximo a que podiam chegar dois
iguais.
( Para o amigo Chico Lopes)
DAVID OSCAR VAZ mora em São Paulo. É autor de Resíduos (1997) e A
urna (2001). O conto aqui publicado pertence ao livro Amantes, a ser
lançado em breve.
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